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O Lobo Que Virou Homem E Outras Histórias

Marcelo Hipolito

Abstract

As luzes da alvorada despontaram pálidas no horizonte, quando o lobo finalmente despertou. Suas entranhas ardiam em fogo e agonia. Se a maldição do lobo liberava a besta adormecida no interior dos homens, aos lobos concedia-lhes o fardo da humanidade. Assim, o lobo ferido deixou o tronco berrando de dor. Ele se transformava: seus pelos caíam e as feições caninas suavizavam. Um impulso incontrolável ergueu-o nas patas traseiras. Estas viraram pés; as dianteiras, mãos. Suas garras tornaram-se unhas. Sua face amalgamou-se num misto de homem e fera, careca, livre de sobrancelhas, com orelhas e nariz curtos e achatados. Apenas seus olhos retiveram o aspecto genuinamente lupino. O animal se tornara um homem-lobo, consciente e racional: o oposto do feral lobisomem. E como homem-lobo a primeira consequência de sua metamorfose atingiu-lhe com uma força estonteante: na forma implacável, inédita, desesperada, de um pensamento. E como ser pensante, o homem-lobo descobriu-se existir. E seu pensamento inicial foi: “Quem sou eu?”. E este foi seguido por “De onde eu vim?” e “O que eu farei?”, perguntas embaladas em estranheza e pavor.

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