World Public Library

Diário de um Par de Olhos

André Santanchè

2018

Abstract

Começa escuro, mas eu não tenho medo. Lembro hoje como em todos os tempos, é uma parte de uma memória antiga, o som da chuva e dos trovões distantes. Eu ainda não tinha nascido, e aquela intimidade com o som do mundo vazio, onde chove, se fundiu comigo, ali dentro, um pouco antes de eu nascer. A chuva. Escuro e recolhido, ao som daquela coisa que eu ainda não tinha visto, a chuva, eu quis, como o faria toda a vida, que nunca acabasse e, por isso, demorei a sair. Desde aquele primeiro dia, eu nunca entenderia o lugar aonde vou parar quando me perco na chuva. A chuva é um país infinito. O que você está olhando aí, menino? A chuva. Deixo-me diluir por ela, me torno cinzento. Escondo o sol, resfrio o mundo, transformo as casas e as pessoas. Foi uma longa noite de trabalho de parto, em que todos estavam extenuados e eu conheceria as duas outras coisas da minha vida. Primeiro a luz. Eu nasci nos primeiros raios da manhã, em uma cabana. Fachos de luz entrando pelas frestas; pequenas partículas revolteando neles. Como pode não ser maravilhoso? Eu não chorei. Ele está olhando para a luz, disse a parteira em um sorriso. A luz. Ninguém me alertou sobre o mundo que eu encontraria quando começasse a prestar atenção à luz. O seu silêncio, os tons, as sombras, o seu movimento lento pelo dia, a sua chegada, a sua partida. A cabana se transformava no decorrer do dia em mil cabanas. Novas sombras, novas frestas, novos tons. Havia uma terceira coisa viva que habitava naquele lugar incomum, e mostrou-se diante de mim no meu primeiro dia no mundo. Os olhos.

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