Augusto Rentes Florêncio Bilhetes do Reino [4] Maio de 1995 Parabólica e bichos Caríssimo(a)s, Era uma sexta-feira, dia de mesquita e noite de couscous. Rachid, o cunhado mais novito, é avesso a rezas e ginásticas, é gorducho e brincalhão, e adora o prato do Reino. Cá por mim, prefiro a complicadíssima "bastella", tortura prolongada para quem cozinha, carícia fugaz para quem come. Flor de injustiças antigas, concedo, mas flor magnifica. O couscous da Família, nessa noite, era demasiado opulento - sete legumes diferentes, quatro carnes diversas. Aquela orgia de gorduras frementes sobre lençóis vegetais, abundantemente regados de leite como no Atlas Central, lembrou-me - horror dos horrores - um vulgaríssimo cozido à portuguesa. Para cúmulo, alguém se lembrara de pegar num carro para ir buscar uma avozinha da Família. Claro que, com a velha à perna, não me ia arriscar a encher o copo com a "Coca-Cola do Augusto". A senhora tem um faro apuradíssimo - e álcool à mesa é Diabo à mesa. Pois, sem carrascão não suporto couscous. Declarei que não me sentia bem do estômago. "Claro, eu bem te digo que comas à Romana, estendido num sofá... E depois essa historia de faca e garfo dá cabo dos músculos abdominais! Não há como os três dedinhos da mão direita para desfazer uma pata de carneiro" - sentenciava divertido o meu cunhado. Acedi a comer na horizontal - saladas verdes e brochettes da melhor parte do quarto carneiro sacrificado nessa semana. "Auguste, Maa ....? Khobz?" - se queria mais agua (do santo não-sei- que), se mais pão (acabadinho de cozer), inquiria Fatma, uma criadita de 15 anos mal feitos. "Laa, Fatma, choukran" - que não, obrigado. "Não vale a pena dizeres choukran, que a rapariga envergonha-se. Queres ver televisão? TV5? Também capto Portugal, se quiseres..." "Ah, sim? Então deixa lá ver o que os Portugueses contam..." Era uma reportagem curiosa, algures no país profundo. O Rachid ia dizendo: "Ó Augusto, afinal não é assim muito diferente do Reino!" "Pois não, só que lá há mais porcos e menos carneiros..." O Rachid, sacudido de riso, correu ao salão grande traduzir "a piada" em Árabe e Berbere. Só a avó é que não riu. A RTPi mostrava agora uma espécie de Imam colorido, armado de hissope, à porta duma casinha branca encimada por cruz. Os campónios aproximavam-se, puxando os bois, e o Imam paramentado ia aspergindo as parelhas. "Aquilo é uma igreja?" "É uma capela ou ermida dum santo qualquer..." "O «sidi» está lá mesmo enterrado, como nos nossos marabouts?" "Creio que não, há lá um boneco no altar, isso sim" Entretanto, os campónios da Republica, muito compenetrados, iam puxando os bois e dando voltinhas intermináveis em torno da ermida. "!???", fez o Rachid. "Ora, pá, cada um tem a sua Meca e a sua Kaaba. A deles é pequenina, à medida do país. E levam os bois, que é para parecerem muitos..." O Rachid ia morrendo de apoplexia e o resto da família, em catadupa . Só a avó é que ficou sem saber o que se passava naquela casa de doidos. Um abraço, Augusto [5] El Jadida, Maio de 1995 Ódio e amor Mazagão era o nome. As muralhas e os torrões da "cité portugaise" são ainda hoje impressionantes e constituem - logo a seguir à cisterna, que mais parece catedral submersa - razão bastante para ficar dois dias em El Jadida. Em 1769, os habitantes da praça - assediados por vagas de Berberes - embarcaram à pressa. De Mazagão levaram só o nome para a nova vila que em terras do Brasil fundaram. Queimaram as mobílias, degolaram os cavalos, destruíram o que puderam. Vivo, na praça, deixaram só um guardião do ódio português: um suicida disposto a acender a mecha que iria fazer explodir a cidade, logo que bem cheinha de Mouros. Centenas deles ali ficaram - pastas de sangue, homem e cavalo confundidos. Mazagão - lugar maldito - ficou abandonado, até que os Judeus de Azamor lá se foram instalar, em princípios do século XIX. Também estes se foram, deixando só os muros da sinagoga e alguns maus canhões de ferro com a estrela de David.. O acesso ao que resta da sinagoga não é fácil. Urina e fezes. Degraus que ruíram. A minha mulher - filha do Reino e mais desembaraçada do que eu - descobriu a porta e assomou-se lá para dentro. "Vamos embora daqui, que está lá um tipo de cu pró ar!!!", atirou- me ela em holandês. "Ora, deve estar a rezar..." "Com as calças na mão?!" Rimos que nem perdidos, olhando o mar inquieto para lá das pedras. Entretanto, esgueirava-se de lá de dentro um puto reguila, filhote do Reino, cabisbaixo e mãos nos bolsos. Saiu depois um latagão lourinho, queixo quadrado ao sol, na mão um guia do Reino e um popularíssimo jornal alemão debaixo do braço. Um abraço, Augusto [6] A sede e as luas Ente Fez e Marrakech, 16 de Maio de 1995 Caríssimo(a)s, Os autocarros da CTM são confortáveis e sólidos, importados da Holanda. +nico inconveniente é o televisor sempre ligado - visto como um acréscimo de conforto, que não de poluição audiovisual. "É mesmo indispensável não perder aquele programa infantil, ó condutor?!" - perguntou, em francês de Alemão, o tipo ao nosso lado. "Ouve lá, não te agradam os bonecos ou não gostas de árabe? Então fecha os olhos e mete algodão nas orelhas!" - vociferou-lhe o uniforme azul, para gáudio da maior parte dos viajantes. "Cambada de campónios mal-educados. Que vergonha!" - desabafou a minha mulher, em holandês. O companheiro de viagem reconheceu no desabafo uma variante do "Baixo-Alemão", sorriu-nos e encolheu os ombros. A indiferença lia-se-lhe nos olhos cor de aço, cravados para lá de tudo o que era boneco ou gente. O coração verde do Reino, alimentado pelas nascentes e fontes do Atlas central, desfilava lá fora: El Hajeb, terra de bom vinho palhete, arruamentos com as mais belas prostitutas do Reino - púbis aparada como buxo, estonteamento de almíscar e açafrão; Ifrane, um delírio de fontes e cascatas, domínios reais imensos, prados para os cavalos d'El Rei; Kenitra, lagos e bosques de cedros sem fim. "Olha, é daquele lado onde íamos esquiar, quando eu era pequenina. Nos últimos anos é que tem caído pouca neve, diz a minha irmã". "Vê lá se dizes isso em holandês, que as pessoas não te ouçam. Tu a falar de neve para divertimento, e cidades inteiras que agora nem uma gota de agua têm para beber. Imagina que vai aqui alguém de Tanger ou Tetouan..." "Tens razão, era o mesmo que falar aos Alentejanos no aborrecimento que é ter de aturar dias e dias de chuva na Holanda... Olha a lua cheia, que lindo!" Era de facto uma linda lua cheia, a surgir a medo da paisagem diferente, cada vez mais despida de arvores e desamparada de animais. "É a lua da terra com sede", respondi, mas ela já não ouvia - adormecera-me no ombro, com luar nos cabelos acobreados pelo hena e outras ervas de mistério. Fiquei a cismar que, nos anos 40, quando o Reino ainda o não era, o povo adivinhava em cada quarto crescente a face austera do Rei Mahomed V que iria um dia regressar do exílio etéreo para, terrível e justo, escorraçar franceses e espanhóis desta terra de Allah. "Era a lua da terra com esperança", murmurei - agora em português, para que só o espectro de D. Sebastião me entendesse. Às 23.30, S.M. Hassan II, Príncipe dos Crentes, dirigiu-se pela televisão a seu povo. Reconheceu Sua Majestade a grandeza dos problemas que assolam o Reino, devido à seca. Para a abertura de poços, canais e levadas ofereceu Hassan II seis meses de seu real salário. Exemplo grande de solidariedade, que ministros e demais funcionários do Reino se apressaram logo a seguir. Na Republica lusa, estende-se a mão à caridade internacional, quando o Alentejo tem sede. Um abraço, Augusto [7] Rabat, Maio de 1995 Receitas do amor muçulmano Ao contrário do enfadonho Cristianismo, que exaltava a abstinência, a castração mental e a união mística, o Islão é tradição doutrinal que não se opõe aos prazeres da carne. Muito pelo contrário. O médico Arib Ibn Said al-Qortoubi (918-980) recomendava, por exemplo, uma receita para contrair os músculos vaginais. Um escritor anónimo da mesma época legou-nos obra de dez mil versos, cantando os afrodisíacos e seus benefícios. O sábio Al-Ghazali (1058-1111) ensinava que o Profeta, em dialogo intimo com o arcanjo Gabriel, um dia se queixara de uma certa "frouxidão do coito" com suas muitas mulheres. Então o arcanjo aconselhou-lhe apimentar a comida com uma pasta à base de guindas e coentros. É o conhecidíssimo "harissa" da Tunísia, que em qualidade e sabor deixa o piri-piri luso-africano a milhas de distancia. Eu nunca deixo acabar as reservas desta delicia. Segundo a minha mulher é pasta indispensável para barrar codornizes, túbaros de carneiro e outros mimos. Só parei de folhear a intrigante "Encyclopedie de l'Amour en Islam" de Malek Chebel, acabadinha de sair do prelo em Paris e já à venda em Rabat, quando a cunhada entrou no salão com um livro grande como um atlas, capa ilustrada como se conto de fadas fora. "A minha irmã já está a preparar o chá? Eu trouxe bolinhos, cornos-de-gazela, de que tanto gostas..." "Ai que bom, obrigado!" "Olha e tenho aqui uma prenda para vocês, um bom livro de cozinha cá do Reino. E desculpa lá não estar embrulhado, que estes tipos aqui só têm desse papel pardo horroroso..." A longa lista de especiarias com que o livro de cozinha abre inclui, entre açafrão e cominhos, "mouche cantharide". Fiquei estarrecido. "Então vocês aqui usam asas da mosca espanhola como condimento? Em que pratos?", perguntei, já inquieto, à minha mulher. "Há quem o faça, lá isso ha, mas nos não utilizamos. É perigoso", esclareceram-me as irmãs. "Ah sim? Porquê?" "Parece que causa inflamações na uretra. Isso era bom para velhos ignorantes com várias mulheres, já não é deste tempo..." Fiquei mais descansado, ao ouvir o esclarecimento. Entre chistes e risotas, devoramos os cornos-de-gazela. Não sei o que as mulheres do Reino juntam aquele recheio à base de amêndoa pilada, mas é bolinho que alegra o coração, lá isso é. Um abraço, Augusto