Mário Hélio 31-I(Sol Incompleto) a manhã lilases lilases perdizes e avestruzes aprisionadas em minha mente e as marcas dorvalho descoram descrentes na minha casa o sol é incompleto o dia cresce na face e a noite nasce para- lela- mente porque não há escolha no templo há somente hastes e naves inconseqüentes as flores não nascem existem pura e simplesmente porque não há escolha a manhã recebeu a angústia dos primeiros raios que ressecam as folhas Mário Hélio 32-II(Persianas) a cor da dúvida na pele repele muitos carinhos e as linhas compostas em muitos caminhos diferem apenas do homem sozinho de estar-se solto e completo apesar de ver de perto do mundo o outro mundor que só engana ao homem só e às persianas às vezes os ziguezagues tortos apelam às diferenças e às divisões que as mentes fazem mas o que eles ignoram é que os cérebros apenas conhecem as diferenças entre as cousas e as lousas que eles ignoram o instinto de bicho do homem só e das múltiplas multidões aglomeradas em torno dele e das lânguidas e insensíveis persianas um homem fica mais só quando reflete é assim que ficam todos os homens sós e a solidão mero deserto entre a palavra e o chão estranha hora entre o clarão e a aurora o teu aéreo olhar que medes a distância entre o provável e o improvável e tudo sabes o que não sabes é o sol que esconde ou ofusca quem sabe a dor e a sede do homem só e o linho das linhas das alheias persianas * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * Mário Hélio 33-III/(Bird) a fragata espera na porta do circo lábicos tão fechados bocas entreabertas a ponto de gritar a fraca esperança espera na porta do coração lábios tão fechados bocas entreabertas a ponto de gritar mas não há gritos nem haverá * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * Mário Hélio 34-IV(Vegeptil) lâmina de carne carne de aço expássaro vidrarte rasga esse deus tira a tua parte o mundo é teu a morte é uma arte domina a dor sereia de corpo na mão centauro de nuvens azuis braços nas mãos lábios no fóssil seios de vidro musicacústica baobás barrocos vegetanimal almas de metal armas de ar puro bizâncio lustral cavaleiro eleito nas mãos o cavalo traga esse deus arte da arte a morte é uma parte o mundo é teu * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * Mário Hélio 35-V/(Esparsa) desculpa meu edgar poe mas talvez a tua dor não tenha sensibilizado os nossos corações meu caro edgar mas ensinam muito a quem tem mente e a quem não tem também é pela sede de alguma coisa a mais que buscamos refúgio no verso só por isso meu raro edgar é para regar as nossas almas para preencher velhos esparsos somos os que pintam a morte o medo de muitos a dor de muitos tamanhos confusos horários daqui à tua terra à eternidade até a eternidade espero que não haja barreiras desculpe meu claro edgar mas esqueci que se eu errasse o caminho só ouviria um longínquo pavoroso silêncio não despertem quem pensa * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * Mário Hélio 36-VI/(Litografia) que voz sopra os sons nessas horas sincopadas no silêncio dos homens? que voz assoprará o assombro o sombrio ressumbro os sobrolhos selvagens da solidão? e sobrará um silvo seda e sono solto. * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *