Mário Hélio 11-I(Formas) vou deixar de fazer poema para as estrelas. hei de cantar as formas duras e abscônditas, as formas brutas, a fome e o desespero tão irmãos, as pequeninas mortes, o imodelável, as normas brancas. o poema deve falar à alma e aos sentidos. nós somos deuses: deuses não destroem. o mistério da imensidade não me ofusca, talvez o mundo nem saiba, e é isto o que me espanta e me exulta -- a fonte que há dentro de mim. nós somos deuses, mas ainda não fizemos a descoberta. diferente de todos semelhante a todos sou mais poderoso todas as coisas me servem eu sou as coisas a dor não me espanta eu sou a dor. o homem só é grande quando constrói. não fiz mais poema para as estéreis estrelas. desde a última vez que te vi em vaivém com a vida não sabias da essência forte que habitava o teu corpo nessas noites naquelas noites em que te fiz tão minha que era difícil conjugar quem eu era quem tu eras já não éramos. teu sorriso já não encherá as salas. a palavra resiste a alturas ainda maiores. mas que eram os ais mulher por quem te calas, tu sabes que eram sinfonias de amores. ah sagrada mulher, dorme em meu peito, talvez o mundo te desperte amanhã. o que é a vida sem o aroma do teu leito, sem os hinos de afagos que me entoas no afã? cantarei simplesmente o momento esgotado como tributo. neste mundo jamais conceberemos as formas puras. são as impurezas que fazem as formas belas, e as formas são sempre figuras real ilusão talvez não haja a negação da negação. não é a dignidade moral que nos faz deuses, é o ato de criar, nos lambusar nas formas. o mundo é maravilhoso, a vida, a criação, tudo é uma grande massa de modelar na aparente harmonia que rege cada coisa. a areia da praia é a parede celular, o zumbidoecatombe é um sussurrotrovão e todos são irmãos nas divisas entrevalux intervalus. fico pensando na alma das formigas, nas mais diversas formas do criador. deus é um grande artista plástico, poeta músico seresteiro de noites não pensadas. não farei mais versos às estrelas. elas têm o seu vate. cantarei as nossas formas e mais a mais existem gritos grifando a multidão, é preciso perseguir as coisas e alcansá-las mudá-las moldá-las mandálas acabálas. nenhum halo se acendera em tua cabeça. repito que a aparente sensação de vislumbre é só visão. através do atrazo destes anos atrozes são como cem deuses sem ritos sem infinitos sem eleuses abaixo todos os mitos. * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * Mário Hélio 12 - II(Farol) antes hera um pedaço de sombra num traço de sol que se movia nas estepes silhueta de tal curupira que o tempo esqueceu escutava cantigas solenes poemas do céu um golpe de risalegria tem pena de mim. que tudo era um retrato de sombras não ousei dizer que o meu amor era maior do que deus não ousei dizer. e o vento bate bátega calçada lá fora ainda haja passarada saiba cantar. erantes o mormaço do que eu via um fragmento dar uma flor menor do que a flor da flor no pomar curupiraraponga risonho cão coisas que o tempo ignorou e o esquecimento esqueceu lição da morte que morreu imprevisto histórias de mefisto em versiprosa pausa pousa num galho retalho darvoredo devastado resta esta réstia e a dor herantes umolhar sobracidade porcimademim tenta se libertar liberdade fugir como se ocultasse o culto no obsclaro como se a visão visse a si mesma e as janelas namorassem outras janelas mas o elemento não ousa em seu turbilhão de coisas. meu amor é maior do que o amor habanera se achará impossível o possível visivelin coleção de rastros o infinito é maior que o infinito o perdão se compadece do perdão mas não se perdoa ouvirá o som o sumo o sim o belo mais belo que a beleza correnteza aventureza o bem melhor do que o bem narcisista a feiúra não tem remédio pro seu tédio a cura grande prisma imagens fantasiosas liames figurações a justiça é imparcial injustiça certo erro berro trissura tristura terá medo a coragem o cansaço da mesa descansa. neste ponto do espaço haves conversam o irracional é racional no espaço deste ponto a relação é relativa tudo é falso o princípio em si mesmo é um fim séculos de procura facha de treva na relvaga alaquem uma forma amorfa um acontecimento inesperado está sendo aguardado por todos as cadeiras do escritório têm sua própria dança o neutro se anula o banal se fortalece o mistério é mais misterioso do que o mistério não existe mal mais maléfico do que o bem ermotem toteminca antesera um pio sagrado o passado passou para o passado a gravidade repousa na antigravidade. os cemitério são ermitérios e cassinos os hinos sacros são canções profanas deus é maior do que deus neste pântano do espaço contemplo o alcoice convento conventilho a tarde rosna um diversion é igual a uma lousa e tudo enfim é tudo a mesma coisa. * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * Mário Hélio 13-III(Quid Novi) a velhice das plantas acostumadas a serem o que são sem perguntarem o que são? quid novi? o ovni que sobrevvvvou rapidamente a mente da cidade sumiu depois com o vazio? quid novi? o velho sempre argumentar-se que há de novo? a velha olhada no espelho depois estilhaçado e volvido ao que era antes de ser? quid novi? a morte aditiva? a vida minutiva? quid novi? a velocidade? a passivilidade? as idades todas? e depois de tantotempo perdido em procurar ven- cer o tempo constatar que não há tempo nunca houve quid novi? a morte? morremos todo dia e não percebemos eu não sei porque nos preocupamos tu não existes insistes ecoas coas asas ásperas do nada entretanto sentimorste presente irreconhecível irrepreensível. não falas com ninguém, te ouvimos. quem dera fôssemos eli- eli- minando tudo e não restasse morte pra manchar ávida a vida. quid novi? nada há, e passa a existir ao se negar. * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * Mário Hélio 14-IV(No túmulo de deus) emissão palavra boca neros nihil nação império emissão palavra rouca eu deus meu me abandonaste templo dhelios me deixaste emissão palavridéia vênus déia felação ação falsa palavra logoritmo de palavra emissão palavra louca * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * Mário Hélio 15-V(Evangelho) quantos poetas prováveis inventam rimas prováveis neste instante provável! muitos disseram milhares de fórmulas, mas quantos provaram o simples sem teorias? é isto escrever poesia? tecer um camafeu absurdo, relativabsoluto? morrer de medo no escuro, escrever cartas de amor, depois querer que a humanidade beba esse cauim azedo? quantos neste minuto improfíquo gastam três minutos de alegria num poema gasto que depois de feito produz que efeito? quantos tantos morrem de febre de pranto e querem que a razão dos outros acate esse momento tão pessoal. quantos outros abarrotam as gavetas de papéis manusados plenos de arabescos a que chamam poesia. felizmente são poucos os loucos que cultivam esta arte mal dita poesia. * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * Mário Hélio 16-VI(Niilismo) a inutilidade da existência a existência da inutilidade viver sofrer gozar ter bons e maus momentos depois morrer e encontrar com deus com deus encontrar depois morrer que importância têm viver sofrer gozar ter bons e maus... enfim a perfeição a mais vaga das paixões a felicidade eterna que nos leva ao suicídio nos faz joguetes dos deuses deuses dos joguetes faz-nos a religião confunde tudo tudo confunde a religião a inutilidade da assistência a assistência da inutilidade o homem como corre como morre descobre a ciência que a ciência descobre arquiteta universos, fica deus, ah angústia suprema de ser tudo de ser tudo angústia suprema prana inútil inutilidade da insistência insistência da inutilidade. * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * Mário Hélio 17-VII(Mentes doentes) essas inquietudes que escapam do meu ser por tudo o que eu sou sem perceber. o que eu fui foi alguma vez o hipotétrico, o que senti sente o que me transformou. tinhas razão, poeta, sempre tristíssimas essas cantigas sempre gritando coisas que bem não compreendemos. tanta coisa! e o que é real- mente esse poema? uma parcela... um canto in- completo... verdadeiros lampejos... só lampejos... sempre tristíssimos... breve ilusão semiacon- tecida que encanta e arrefece. um som um sopro e tudo se transporta pelo trauma que há por trás da porta; depois a inquietação novamente o cálice da indecisão... como uma árvore no regato esperando que chegue o outono que as estações se transformem levando os sonhos dispersos e no silêncio ensinem que é necessário matar as lembranças. * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * Mário Hélio 18-VIII(Totmutações) aceita o erebom prefere o erebom escolhe o mundumano por mais turvo que seja prefere a treva deixem-me abandonem-me não me-ditem merdades pu- rezas e que- rubins eu prefrio a lama. chega de felicidade poética eu prefiro a cética a herética a diabólica. as coisas sagradas jamais foram ditas. palavras divinas jamais proferidas. eu sinto que o universo se limita por ser infinito. pudico é cada dia santo cada santa oferenda cada riso contenda cada gesto feroz. o sagrado é vulgar ar e éter éter e ar que se perdem na incompleta letal diabrura alfomegamentescrita como uma crítica cítrica * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * Mário Hélio 19/IX(Impulso) o algo hediondo que as mulheres abominavam era a pureza oculta e incolor. tudo cede um certo impulso ao nada, todas as palavrasestãosoltas por isso seguindo um autoimpulso peço-te que não anoiteças mais -- a última vez não me senti feliz em ver-te estrelada e enluarada te negavas o fio da razão. o chão que pisas talvez um dia sejardim. tu não choras choves, teus olhos são sóis enfurnados, tua bocaverna úmida, teu sexo cratera mágica. sigo a um certo impulso de amar-te, não te amo por amor sigo a um impulso, se te amodeio a medo e por mais que fantasies este ódioamor contínuo continuo dizendo que trovejas trevas retrocedendo torrentes constantes espaços que se movem és uma miniatura do exterior que absorvo, átomos seguindo determinadas pulsações, sóis e não olhos, cratera arguta não sexo e o resto em ti são espasmos convulsos meros impulsos * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * Mário Hélio 20-X/(Arrife) não vinhas tu com pontes e cais, logradouros e vilas, bairros perdidos na metrópole ensimesmada por estradas e viadutos como multidões em arcos não vinhas tu do continente vasto chorando pelos negrinhos dos morros que morrem de fome nas caladas calados que anseiam farfalhas nas grandes vilas favelas abismadas não vinhas tu severa de amores muda e negra cidade dos portos e dos cais oco rr eco rre... os meninos correndo com os comparsas com passos magros e velhos em toda multidão semesplendores é o teu destino acender velas aos mistérios e crendices do teu povo inquieto que plasma no rasto e nas arestas no atol atlântico de aspecto altivo é o teu dever projetar as novas luzes proteger as velhas sombras pedras ruas e alamedas petrificando os ambíguos heróis. * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *