Mário Hélio 1-I/(Cabeçalho) ergo este tributo às nossas almas por tudo o que nós fomos no que somos, na simples humildade do que expomos - a débil e frágil luz, a lira calma - à larga vastidão do que é finito, num grito maior do que a própria voz, o grifo triunfal, o grito: nós! * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * Mário Hélio 2 - II (Avis rara) ser vontade de pássaro, as asas adejar pelo infinito crocitante e acenar aos mecenas de saturno que eu também vôo! mas é a fala que cala, resvala no último ogro que há. força mágica que assassina as estrelas, riso de fogo que incendeia a alma, no entanto feroz vejo-te calma, e me olhas, eu te olho, e nos olhamos num olhar patético e néscio até. eu poderia dizer da tua voz doce e mansa sáltria divina cavatina de delírio sei porém que inadvertida pela imagem da força da distância irá impelida pelo amargor que envolve toda vida, e tua boca que ora ri e me deleita se abrirá como em rictus selvagem sinto e pressinto que ferirá minhalma que busca a tua qual orfeu a amada o teu olhar em negra claridade ofuscando os sóis. * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * Mário Hélio 3 - III/ (Mensagem) palavra, eu te conheci em palavras, eu te aprendi em palavras eu te beijei em palavras eu te amei por fim em palavras num dia em que as palavras substituem gestos e palavras. * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * Mário Hélio 4 - IV (Marte e Vênus) doce amiga, apenas sou o aedo que ignorando que as coisas eram incertas e que a própria incerteza é mãe da vida, te procurou como procura um asceta sua verdade boiando além das mãos pendidas. te possuí como se tem a um segredo e depois de o sabermos sabemos não sabê-lo. * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * Mário Hélio 5 - V (Cais sombrio) eu te reparo nos olhos: possuem um brilho intensamente mágico e trágico eu amo tua pele, cada traço, cab:elos do mais fino fio que desfio impulsivamente tragicomicamente em toda a extensão do teu ser porque és maior do que a imaginação. * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * Mário Hélio 6 - VI (Clariluz) ontem à noite eu vi teu espírito sobrevoar a cidade e apagar silenciosamente todas as luzes. * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * Mário Hélio 7- VII (Confidência) tua sombra persegue-me a todo instante, visita-me no instante da demora. não sabe que é sombra e breve o instante e a eternidade é só uma demora. mas tua sombra não descansa e dança mansa e inquieta sobre mim, mas avança tão sutil e tanto avança que eu pressinto que voa sobre mim. o meu protesto enfim é de esperar-te por amar-te talvez? não sei se o amor não é pura paixão de esperar-te ou desespero de amar-te sem amor. não sei talvez em que profundo abismo lancei-me, enlacei-me, doido cego já sem asas, mas o sonho de tê-las já é o abismo, as tuas garras, águia, arrancaram-me as asas. * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * Mário Hélio 8 - VIII (Révora) eu pensei que não seria o único a penetrar sorrateiro em tua alcova e beber o lume e a lama de tantos corpos. nós estávamos um pouco tristes, e nus sabíamos os últimos puros. o suor saía dos teus poros, e eu já para ti algum escudo quando a luz da escuridão nos envolvia. e tu volvias, amiga. eu não sabia que vias poesia em tudo. teu lábio, contudo, emudecia, umedecia-se de orvalho, e nós estávamos mudos. foi quando o anjo singular da fantasia despiu-se mostrando-se todo. e então em um ato sublime também te deitaste em mim como um jardim em espinhos. tu não sabes que este não é o caminho? não atinavas, estavas sozinha, e eu, sozinho, brincando com a tua agonia. eu não sabia que vias poesia em tudo. mas o que esse tudo abrangia? a mim? a nós? ou ao que me iludo adaptando-me moldando-me à alegria que existia sempre? sempre até quando? e ser preciso morrer de vez em quando e ser preciso precisar-te que preciso e aguardo-te, e guardo teu riso no meu viso que sem ter mais o que espelhar vai-se espelhando narciso. eu vi um vulto sem saber que via, sem saber que vias poesia em tudo. veneno doce que bebido mata mas que embebido só numa canastra arde e maltrata só. mas que importa toda parafasia ou monomania de dois nomes se é substantivo poesia e tudo é indefinido pronome? * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * Mário Hélio 9-IX (Odores) pobres flores que fiam filhas finitas e se des pet alam olhando o po m ar e em enormes tristezas se calam e resv alam as pét alas suprindo a fome do oceano de ar. flores selvagens que se desfloram e se confragem frágeis imperfeitas vestidas, sorvidas, vertidas, em pouca vida e muita ilusão, e não repousam nunca, não descansam o cansaço de há séculos serem sempre vivas esquivas, cativas, passivas, e dançam em delírio, dançam esquecendo que são flores -- fenescem melhor do que enterarrarassementes dispersá-las à tarde despertálas é tarde já se transformaram em cardos na tarde longa e oblonga por trás dos rochedos. eu não canto a saudade, desconheço o degredo. o meu sonho é um segredo improfíquo que segrego. podres odres das flores que nascem pra definhar, pobres dos homens que vivem para sonhar. * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * Mário Hélio 10- X/ (Orfeurídice) o corpo ardente. tuas curvas tuas mãos se perderam na vertigem dos que quiseram dizer sim ao amor que já não pulsa à canção que já não vibra. teu hálito perdeu-se entre flores, calores e perfumes. nós nos perdemos no caminho onde não há volta porque não se pode olhar atrás. atrás ficaram todos os carinhos. atrás ficou a sede desmedida, atrás ficaram todos os caminhos. * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *