------------------------------------------------------------------------ João Carlos Teixeira Gomes SILVA DULTRA - EVOCAÇÃO DEPURADA por João Carlos Teixeira Gomes Silva Dultra é um dos integrantes da Geração Mapa, congregada em torno da revista do mesmo nome, surgida em 1957, e cuja maior expressão foi Glauber Rocha, que antes de ser o cineasta consagrado internacionalmente dedicou-se com igual talento ao ensaísmo literário e à crítica cinematográfica. Em Mapa, Silva Dultra já aparecia como poeta e tradutor de poesia, mas só com o passar do tempo foi-se aguçando em sua sensibilidade o gosto pelo soneto, em cujo exercício acabaria por transformar-se num mestre. E não se tratava, no caso, daquele soneto grandiloqüente e com chave-de-ouro que fazia as delícias dos grandes mestres parnasianos e da legião infindável dos seus medíocres imitadores, mas sim do soneto simples, despojado, não mais do que o revestimento formal adequado para uma substância poética constituída pela realidade simples das ruas ou pelas manifestações do quotidiano da Bahia. Nada da história agigantada pelo falseamento das hipertrofias cívicas, mas tão somente o tempo aprisionado no arcabouço de 14 primorosos decassílabos, traduzindo, sem pompa, a visão lírica da vida que flui ou que se congela nas reminiscências. Sonetista, em regra, de um tempo morto, Silva Dultra soube, no entanto, pela eficácia dos seus recursos textuais, construir uma poesia viva, envolvente, marcada pelo poder encantatório das sugestões sutis, com o timbre melancólico de certos adágios tocados por um quarteto de cordas. "A infância vem chegando do passado", diz ele num dos. seus sonetos mais característicos, para, no "Soneto do Porto da Barra 527", evocar assim a casa onde nasceu e foi feliz: "Da casa grande onde nasci, na Barra, ali no Porto, bem defronte à praia, eu, sinto o vulto do meu pai que esbarra na mesma areia onde a maré se espraia. O pátio do sobrado é que me amarra e prende as horas sem que o tempo caia, os meninos fazendo uma algazarra, soltando gritos e empinando arraia. E vejo da janela do sobrado o domingo chegando nos saveiros que abrem o dia sob um sol doirado. A casa antiga; em seu lugar, a sombra do pai cuidando de jardins inteiros e um quarto escuro que já não assombra." Todo um ambiente familiar é assim recomposto numa evocação suave, tecida com as palavras do quotidiano. Engata-se na estrutura espontânea e sem artificialismo dos decassílabos um esquema de rimas hábeis, nem ricas nem raras, mas, sobretudo, apropriadas ao clima musical que se forma, para que o breve painel das recordações da infância no lar se enriqueça com o embalo das notas tocadas em surdina. O soneto que acima transcrevemos é do livro Vinte Cinco Sonetos da Bahia Antiga, aos quais se seguiram mais 30 Sonetos Pitorescos da Bahia num Quadro de Antigamente, novo livro que reafirmaria a densidade lírica e o adestramento formal do primeiro, numa trajetória que agora prossegue - e não ousaríamos dizer que se completa - no presente volume, Sonetos Típicos da Bahia de Outrora. Toda essa já vasta produção de Silva Dultra registra um amplo panorama lírico da sua história pessoal e do meio social em que ele vive, marcado pelas festas tradicionais, os ambientes da boemia, as procissões religiosas, os tipos populares das ruas de Salvador, as escapadas furtivas rumo ao Recôncavo, os velhos solares e sobradões com suas salas de visitas silenciadas, onde o passado imobilizou-se na quietude dos móveis e das cortinas em penumbra, as igrejas antigas, fazendas e cidades do interior, tudo, enfim, que representa para o poeta um patrimônio de emoções. Tal como se pode ler neste soneto, que nos transmite a sua força evocativa, ao lado da capacidade de construir decassílabos de extrema perfeição formal: "A família rural; e no sobrado, a conversa que a vida recomenda. O jornal do vizinho, o tempo usado, e o caderno de compras para a venda. No chão da sala, o boi que foi pastado, o boi no prato sem que o laço o prenda; a farinha chegada do roçado e os hábitos trazidos da fazenda. Moringa na janela, a trepadeira, uma rede suspensa na varanda, de onde a avó o jasmineiro cheira. A cesta de costura, a mãe na sala, o odor de resedá na tarde branda e o velho papagaio que não cala." Um verso como "o odor de resedá na tarde branda" sai do texto direto para o nariz. É um exemplo de perfeição na simplicidade. E assim é Silva Dultra na sua poesia. Um poeta, em suma, que se fez sonetista, em vez de um sonetista que se pretende poeta. Um mestre em seu mister. Competência técnica a serviço de uma emoção que - como os bons vinhos de que ele tanto gosta - mais se depura com o passar do tempo; captor, por excelência, da linguagem silenciosa (mas nem por isso menos audível) das coisas idas e vividas, restauradas pela magia do verbo iluminado.