SILVA, Antonio Manoel dos Santos (1979) Poesia e Poética de Mário Faustino. Introdução (1a parte) e "O tema da poesia"( item 4, 2a. parte).(Acompanha Índice ) Tese apresentada para o Concurso de Livre-Docência na Área de Literatura Brasileira do Departamento de Letras Vernáculas e Clássicas do Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas da Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho" (UNESP), campus de São José do Rio Preto - SP ÍNDICE INTRODUÇÃO 1 1. Um poeta quase esquecido 1 2. Resumo de um esboço biográfico 5 3. A obra do poeta 7 4. Síntese da situação histórico-literária 7 5. Objetivos desse trabalho 11 6. Métodos 11 7. Símbolos utilizados 12 PRIMEIRA PARTE: DO VERSO ÀS FORMAS POMÁTICAS 15 CAPÍTULO I: O VERSO DE MÁRIO FAUSTINO 16 1. Nível métrico 23 2. Nível intensivo: ritmo no verso 27 2.1. Segmentos arrítmicos e semantização 45 2.2. O fenômeno da anti-ritmia 51 3. Extensão melódica 59 4. Ritmo sônico do verso 86 4.1. Para se compreender a descrição 87 4.2. Elenco dos versos 87 4.3. Descrição de cada verso 88 4.4. Ritmo dos versos descritos 91 CAPÍTULO II: AS ESTROFES 94 1. Conjuntos organizados por áxis rítmicos 94 1.1. Conjuntos isopolares 94 1.1.1. Alguns conjuntos destacáveis e sua funcionalidade 95 1.1.2. Conjuntos isorrítmicos com interferência 101 1.1.3. Domínio da isorritmia 105 1.1.4. O encavalgamento expressivo 116 1.2. Conjuntos homeopolares 137 1.3. Conjuntos heteropolares 143 2. Áxis rítmico disperso 144 CAPÍTULO III: POEMAS DE FORMA CONVENCIONAL 147 1. Primeiro grupo: sonetos de tradição inglesa 156 1.1. ONDE PAIRA A CANÇÃO RECOMEÇADA 158 1.2. EGO DE MONA KATEUDO 160 1.3. RESSUSCITADO PELO EMBATE DA RESSACA 162 2. Segundo grupo: sonetos de tradição hispânica 167 3. Terceiro grupo: sonetos experimentais172 CAPÍTULO IV: POEMAS DE FORMA LIVRE 188 1. Grupo de poemas isorrítmicos 191 2. Grupo de poemas homeorrítmicos 198 3. Grupo de poemas polirrítmicos 201 4. Poemas de áxis rítmico disperso 203 4.1. O experimentalismo fônico 205 4.2. O experimentalismo fono-visual 208 SEGUNDA PARTE: DOS TEMAS AOS PRINCÍPIOS DE ESTRUTURAÇÃO 221 CAPÍTULO I: O TEMA DA POESIA 222 1. Poemas sobre a poesia 223 2. A poesia como motivo subsidiário 224 3. O tema do poeta 231 3.1. O artesão 231 3.2. O inspirado 235 3.3. O fecundador 238 4. O tema da poesia 239 4.1. A construção 239 4.2. A inspiração 244 4.3. O crescimento contínuo 252 5. O tema do poema 253 5.1. A obra do intelecto 254 5.2. A obra da inspiração 261 CAPÍTULO II: MIRANDO-SE NAS CALENDAS 264 1. Passado e futuro: o TEMPO 264 1.1. "Ontem de ouro, hoje de obscura cinza" 265 1.2. "Talvez um outro outubro" 271 2. O presente: "E pungente, e raro, e breve é o tempo" 275 2.1. A aniquilação 275 2.2 O fluxo contínuo 286 2.3. Tempo e existência 294 3. O tempo co-existencial 299 CAPÍTULO III: OUTROS TEMAS 312 1. O tema do amor 313 2. O tema da morte 319 3. O tema da solidão 332 4. Um tecido temático 340 CAPÍTULO IV: OS FATORES DA ESTRUTURAÇÃO 342 1. O poema no ato comunicativo 343 2. Formas estruturantes internas 347 2.1. O princípio da similitude 348 2.2. O princípio da diferença 349 2.3. O princípio da extensão 350 2.4. O princípio da identidade 355 3. A pressão das leituras 359 3.1. Testemunhos críticos alheios 361 3.2. O testemunho crítico de Mário Faustino 369 3.3. A reação criadora às leituras 373 4. A poética explícita 378 CONCLUSÕES 404 BIBLIOGRAFIA 422 INTRODUÇÃO Quando iniciamos a pesquisa cujos resultados parciais formam o trabalho agora apresentado, animavam-nos dois propósitos bem amplos e ambiciosos: estabelecer as principais linhas de força da produção poética brasileira de 1945 e 1965 e proceder à análise e à crítica de algumas obras selecionadas que representassem a realização modelar de cada uma das coordenadas descobertas. Esse projeto falhava não somente por sua amplitude (a ambição sempre se desculpa), mas por sua inadequação às nossas possibilidades reais. Realizá-lo exigia instrumentos e materiais vastos, muito tempo e uma equipe numerosa com todas as qualidades exigíveis para trabalho de tal envergadura, principalmente, mais distância histórica. No decorrer das leituras que fazíamos tentando confirmar algumas poucas hipóteses, um poeta impressionou-nos vivamente não só pelo fato de seus poemas apresentarem características de linguagem altamente elaborada e, paradoxalmente, de uma flexibilidade rítmica poucas vezes vista (no sentido que nos leva a falar em "espontaneidade"), mas também por nos parecer que sua obra nos surgia de súbito como historicamente representativa. Nela se concentravam várias das tendências que havíamos vislumbrado em grupos, correntes e autores mais diversos. Foi essa leitura inicial da obra de Mário Faustino a responsável pela limitação de nossos propósitos e, conseqüentemente, pela reformulação das tarefas em função de objetivos mais exeqüíveis. 1. Um poeta quase esquecido A localização histórico-literária de Mário Faustino está livre, e por motivos óbvios, de qualquer dificuldade em termos de simples cronologia. Se acompanharmos a costumeira divisão do modernismo brasileiro, situaremos este poeta na terceira fase, a fase do neomodernismo ou fase esteticista, conforme o critério de Péricles Eugênio da Silva Ramos[1]. Em seu artigo historiográfico sobre o movimento, deixa de lado o poeta Mário Faustino, ausente tanto da lista dos poetas representativos da "geração de 45" (aqueles poetas que se caracterizam formalmente pelo "agudo senso de medida"), quando da lista dos "poetas merecedores de referência"[2]. Supondo que Mário Faustino, não arrolado também entre os "concretistas", esteja incluído nos "numerosos outros" da terceira fase, podemos conjeturar que se encontram, em sua obra, afora aquele traço radicalmente romântico assumido por todo o Modernismo ("liberdade de pesquisa estética"), as seguintes marcas gerais: "senso de disciplina, mas disciplina complexa, que não significa retorno a formas tradicionais (embora em muitos poetas isso também exista), e sim polícia de expressão e desenvolvimento do ângulo estético, isto é, da construção e redação do poema" e, no caso específico da utilização do verso livre, "senso de medida" ou submissão dele, "em certos casos a ritmo preciso".[1] Compensa esta omissão de A Literatura no Brasil, levemente atenuada em outra parte,[2] a História Concisa da Literatura Brasileira, em que Alfredo Bosi dá bom destaque, inclusive material, a Mário Faustino:[3] coloca-o, ao lado de Ferreira Gullar, como antecipador e promotor da experiência concreta, apresenta as usuais marcações de nascimento e morte, refere-se às edições da obra do poeta e resume à sua maneira as apreciações de Benedito Nunes.[4] É seguindo Benedito Nunes que Alfredo Bosi assinala os seguintes aspectos na obra de Mário Faustino: mestria nas formas tradicionais, invenção de "linguagens novas", rastro neo-simbolista e surrealista, influências de Blake, Rimbaud, Nietzsche, Dylan Thomas e Jorge de Lima, a que se soma, na segunda fase, "a presença do imagismo de Pound e de Cummings". Com base nisto infere: "Daí a riqueza, subjetiva e inovadora, dos seus textos constelados de mitos dionisíacos e, ao mesmo tempo, centrados na exploração dos significantes". finalmente, Bosi dedica um parágrafo ao projeto faustiniano do longo poema que a morte malogrou; para exemplificar as tentativas de levar a cabo tal projeto, Bosi transcreve por inteiro um dos fragmentos restados: "Túnel, pedra, tonel".[5] Um terceiro artigo digno de nota por seu caráter histórico-literário é "Musa morena moça - notas sobre a nova poesia brasileira" de José Guilherme Merquior.[6] Fazendo um corte drástico, Merquior distingue três faixas na produção poética brasileira de 1950 para cá: a do "estilo novo moderado" (obras de Octávio Mora, Olga Savary, Marly de Oliveira, Lélia Coelho Frota, Maria Lúcia Alvim, Fernando Mendes Vianna e Nauro Machado), a do "estilo novo mais radical" (Ferreira Gullar, Mário Faustino e Mário Chamie), e a faixa da "múltipla poesia da `geração de 60'" (Bruno Tolentino, Carlos Nejar, Mauro Gomes, Armindo Trevisan, José Carlos Capinam, Antonio Carlos de Brito, Francisco Alvim, Roberto Schwarz e Ângela Melim); sugere para caracterização melhor desta terceira faixa uma "separação (...) entre o pathos da vertente Tolentino-Nejar-Trevisan e os `efeitos de distanciamento' que prevalecem em poetas como Schwarz, Alvim e Antonio Carlos de Brito". Com isso temos Mário Faustino posto na faixa do "estilo novo mais radical", estilo que Merquior esclarece como sendo aquele que está "mais próximo às técnicas expressionais do modernismo de `ponta', brasileiro ou ocidental". Mais especificamente, Merquior, buscando as conexões entre os poetas de 50 e 60, observa, de passagem, que a obra de Mário Faustino se formou na confluência de Jorge de Lima com Ezra Pound. O crítico evita, porém, o estudo das influências e prefere caracterizar os novos poetas brasileiros segundo um instrumental teórico bastante geral e constituído das seguintes categorias dicotômicas: dicção pura/dicção mesclada (Erich Auerbach), estilo simbólico/estilo alegórico (Walter Benjamin, na interpretação de Merquior) e ânimo poético epidêitico/ânimo poético de "conhecimento e/ou denúncia (embora não necessariamente de acusação)". Contentando-se, porém, com a leitura de O Homem e Sua Hora (quase diria, com o poema homônimo desta obra), Merquior classifica Mário Faustino dentro do primeiro integrante das três dicotomias propostas: poeta de dicção pura, de estilo simbólico e de ânimo epidêitico. Essa redução prejudica sensivelmente tanto a valoração final que Merquior nos dá do poeta, quanto as observações descritivas que a acompanham e pretendem justificá-la: Mas a privação do elemento surreal e o manifesto mood celebratório permitem atenuar a atribuição da radicalidade poética ao verso desse crítico, que o diálogo com as balbuciantes vanguardas formalistas do meio da sexta década não tornou, como poeta, menos conservador no modo de figuração e na intenção líricos. Como seu mestre Jorge de Lima, Faustino foi um excelente versejador, mas demasiado gárrulo e "humanista" para o verdadeiro gosto radical. Em termos de seu decênio de estréia, sua posição termina por se apresentar menos radical do que, por exemplo, a de Nauro Machado ou a da robusta obra de Maria Ângela Alvim.[7] Dos outros artigos sobre Mário Faustino por nós conhecidos e que variam desde as notícias, as crônicas e os necrológicos até os amplos ensaios, pode-se afirmar que raramente se preocupam com situá-lo do ponto-de-vista histórico-literário. Eles tendem a privilegiar os aspectos temáticos no sentido de comentários e exemplificações, ou a sugerir, sem avançar, as influências estilísticas e as orientações estéticas. Uma outra generalização costumeira diz respeito ao domínio do verso. Grosso modo, esses artigos caracterizam-se senão pelas generalizações (e por aquelas avaliações típicas da pressa de reportagem), pelo menos por impressões, várias vezes certeiras, e aí param. A exceção está nos ensaios de Benedito Nunes, o responsável maior pela conservação e divulgação da obra de Mário Faustino. Graças a seu esforço, o poeta não é hoje um autor esquecido. A este respeito constitui um dado significativo o fato de que os artigos sobre o jovem poeta, quando não foram provocados, como reflexo imediato, por sua morte inesperada, foram motivados pelo momento das edições ou de sua obra poética ou de parte de sua obra crítica. Duas dessas edições incluem ensaios introdutórios de Benedito Nunes, ensaios a que estaremos recorrendo várias vezes neste tese.[8] 2. Resumo de um esboço biográfico O registro biográfico mais completo que temos sobre o poeta foi elaborado por Haroldo Maranhão: "O Poeta e Sua Vida";[9] dele retiramos os dados que se seguem. Mário Faustino dos Santos e Silva nasceu em Teresina, Piauí, em 22 de outubro de 1930. O pai era comerciante forte na capital piauiense; Mário Faustino foi criado pelo mais velho dos irmãos e pela cunhada, seus padrinhos de batismo. Até 1940 viveu em Teresina onde fez o curso primário em escola pública. Sua primeira experiência literária foi escrever um conto; tinha entre oito e dez anos. inicia, com nove anos de idade, seus estudos de inglês. Já na infância teve a obsessão da leitura. Em 1940 passa a residir em Belém do Pará com os pais de sua madrinha aos quais se referia como "avós maternos". Três primeiros anos do curso ginasial num colégio de orientação marista (Colégio Nazaré) e quarto ano no Colégio Moderno. Faz o Curso Clássico em colégio oficial do Estado, concluindo-o em 1948. Milita no jornalismo desde os dezesseis anos. Primeiro, trabalha no matutino A Província do Pará, "escrevendo editoriais, crônicas (literatura e cinema) além de traduzir e reescrever telegramas nacionais e internacionais. Depois passa para a Folha do Norte onde trabalha como chefe de redação procedendo à sua total remodelação gráfica. Antes já colaborara no "Suplemento Literário" deste jornal, "publicando contos, traduções de poetas franceses, espanhóis, ingleses e norte-americanos, e seus primeiros poemas"; por esse período (mais precisamente em 1948) dirige, com Benedito Nunes e Haroldo Maranhão, uma revista literária, Encontro, que teve breve duração. Até 1955 continuaria, com interrupções causadas por constantes viagens, trabalhando na Folha do Norte. Freqüenta a Faculdade de Direito do Pará, desistindo do curso antes de iniciar o quarto ano. Tendo vencido um concurso internacional, gozou, nos Estados Unidos, durante dois anos, uma bolsa de estudos em língua e literatura inglesas cumpridas no Pomona College em Covina, Califórnia. Movido então por interesse jornalístico, realiza estágio no Los Angeles Mirror e visita órgãos de imprensa das cidades de São Francisco, Chicago e Nova York. Regressando ao Pará e tendo em vista a possibilidade de uma futura viagem à Europa, aprende alemão. Em agosto de 1953 percorre vários países europeus, acompanhando uma embaixada universitária da Faculdade de Direito do Pará; nessa viagem, demora-se mais em Portugal. Até o ano de 1954 já havia visitado vários outros lugares: Cuba, México, República Dominicana, Venezuela, Chile, Argentina e Uruguai. Durante dois anos trabalha como Chefe da Secção do Divulgação do Setor de Coordenação e Divulgação na SPVEA (Superintendência do Plano de Valorização Econômica) em Belém do Pará, quando, após curso de especialização, é contratado pela Fundação Getúlio Vargas. Muda-se, em princípio de 1956, para o Rio de Janeiro. No ano anterior publicara seu livro de poesia O Homem e Sua Hora. Como empregado da Fundação Getúlio Vargas exerce diversas funções. Trabalha na Escola de Administração Pública como professor-assistente, "a princípio como assistente, intérprete e tradutor de um curso especial de Planejamento Regional e, a seguir, como assistente das cadeiras de Sociologia e Filosofia Política, além de lecionar Inglês e Francês". Tradução, interpretação e redação foram atividades que ele desempenhou também junto ao Conselho Nacional de Economia e ao Museu de Arte Moderna. Entre 1956 e 1959 dirige a página "Poesia-Experiência" do Suplemento Literário do Jornal do Brasil. Nesta página, a par de realizar uma crítica de tipo poundiano sobre poetas nacionais e estrangeiros, de divulgar, pela tradução, textos de poetas e de críticos, e de selecionar textos de poetas brasileiros novos, não deixava de publicar seus poemas. Mesmo depois de terminada a sua atividade como responsável pela página, trabalharia no Jornal do Brasil, ocupando diferentes cargos. Em 1960 retorna aos Estados Unidos, onde trabalha no Departamento de Informação Pública da ONU. Em 1961 exerce a função de Diretor-Adjunto do Centro de Informações desse organismo internacional no Brasil. Isto, até junho de 1962. No dia 27 de novembro desse ano, Mário Faustino inicia uma viagem para reportagens de política internacional. Seu roteiro jornalístico incluía México, Cuba e Estados Unidos. A viagem que fora adiada várias vezes pelo próprio poeta, não chega ao fim. Ou chega de outra maneira. Às 5:30 da manhã do mesmo dia do embarque, o avião em que o poeta viajava com outras 96 pessoas, bate no pico do Cerro de la Cruz, nas imediações do aeroporto de Lima. "Não foi identificado o corpo do poeta tendo sido sepultado, juntamente com outros despojos irreconhecíveis, num mausoléu da cidade de Lima". 3. A obra do poeta As obras literárias de Mário Faustino, no domínio da criação ou da crítica, devem ser relativamente numerosas. O "breve registro biográfico" de Haroldo Maranhão testemunha que escreveu um conto entre os oito e dez anos, e contos, crônicas, artigos de crítica e traduções, desde os 16 anos. Algumas e talvez muitas dessas peças são hoje irrecuperáveis. Em livro o poeta nos deixou O Homem e Sua Hora;[10] Benedito Nunes recolheu-o para compor a primeira parte da obra em que ainda colocou poemas esparsos e inéditos.[11] Em outro livro podemos encontrar uma coletânea de ensaios organizada por Assis Brasil: Coletânea 2 - Cinco Ensaios sobre Poesia de Mário Faustino.[12] E, ainda em livro, organizado por Benedito Nunes e que inclui os ensaios da coletânea feita por Assis Brasil, encontramos Poesia-Experiência, seleção de textos críticos e de propostas teórico-didáticas, inserindo-se naqueles várias traduções de poetas franceses, ingleses e norte-americanos.[13] O corpus principal de nosso trabalho está formado por esses textos, mas, especialmente, pelo livro de poemas. 4. Síntese da situação histórico-literária A produção literária de Mário Faustino situa-se na década de 50, avançando pelo início da de 60. Embora possamos estender para trás, e um pouco para diante, o quadro de referência de sua época, o decênio de 1950 acaba por se tornar o seu tempo central em termos de atividade artística. Sem falar na continuidade das linhas estético-literárias consolidadas entre 1930 e 1945-1950 e que na poesia se caracterizam, segundo Bosi, "pelo aprofundamento da lírica moderna no seu ritmo oscilante entre o fechamento e a abertura do eu à sociedade e à natureza", a década de 50 é muito complexa. Antes de tudo chama a atenção o fato de ser a época em que se formam diversas correntes de vanguarda, em muitos aspectos especializadoras de conquistas poéticas anteriores (estrangeiras ou nacionais), correntes que, na década seguinte, entrarão em conflito aberto ou camuflado, algumas buscando uma conciliação pelo menos aparente, outras radicalizando-se, outras se reduzindo a efemérides. Enquanto se formam tais correntes e se busca uma dicção mais adequada para um tempo de extraordinário desenvolvimento dos meios de comunicação de massa (preocupação, por exemplo, de um João Cabral do Melo Neto),[14] vige, no começo, aquela corrente de poesia em que repercutem "as principais vozes da `poesia pura' européia de entre-guerras: Lorca, Rilke, Valéry, Eliot, Ungaretti, Machado, Pessoa..."[15] Já no princípio desse complicado decênio, refletindo percucientemente a perplexidade crítica geral, Antônio Cândido, ao assinalar a constituição de um novo período literário, qualifica-o como de "relativa complexidade".[16] Para descrevê-lo, começa a parte do ensaio em que trata da questão, por algumas comparações; mostra que a construção de uma literatura de valor universal, atingível por meio do localismo, marca os decênios de 20 e 30, continuando pelo de 40. a partir de 40 desenvolve-se, segundo o crítico, um conflito cada vez mais acentuado: de um lado uma literatura que vai aprofundando o sectarismo político (por sua vez dividido em sectarismo de direita e sectarismo de esquerda), e de outro, uma preocupação cada vez mais estética com "desconhecimento, propositado ou não, da realidade social". Depois de considerar essas dissociação entre preocupação estética e preocupação político-social, como uma das marcas relevantes desse período literário novo, Antônio Cândido delineia o seguinte quadro: A queda do movimento editorial, a voga avassaladora da rádio-novela e do rádio-teatro, do cinema e dos strips; o conflito entre a inteligência participante e a inteligência contemplativa, que se vão tornando, uma e outra, cada vez mais estritas e inconciliáveis; a própria mobilização da opinião culta, sempre fascinada pela Europa e agora também pelos Estados Unidos: -- eis alguns traços que ajudam a compreender as contradições literárias de nossos dias e o afastamento em relação ao período precedente. Vivemos uma fase crítica, demasiado refinada nuns, demasiado grosseira noutros; em todo caso, pouco criadora, embora muito engenhosa.[17] O quadro não se limita a isso. Completa-se com a apresentação da característica mais reveladora: o fascínio intelectual pelas experiências técnicas com o conseqüente represamento das correntes da inspiração. Frente a tais referências, Antônio Cândido sugere uma saída: a fecundação do experimentalismo (mais de poética do que de poesia) pela inspiração alimentada da experiência individual e coletiva. Essa mesma alternativa reaparece quando, na parte final do ensaio, Antônio Cândido encara os fatos com uma angulação histórico-sociológica, tratando, entre outros, dos problemas relativos às conexões entre a transformação do público e a transformação do grupo de escritores.[18] Esse era, segundo Antônio Cândido, o quadro de relativa perplexidade; a literatura ia-se retraindo cada vez mais para seu domínio próprio, sendo isso interpretado pelo sociólogo como "uma elaboração de novos meios expressivos e um desenvolvimento de nova consciência artesanal, que produzirão novas formas de expressão literária, mais ou menos ligadas à vida social, conforme os acontecimentos o solicitem".[19] Se voltarmos para a visão desse período decenal fornecida por Bosi, teremos os pontos de referências a confirmarem as alternativas previstas por Antônio Cândido. Bosi, que antes já assinalara a presença em nossa vida cultural, a partir de 1950-1955, das ideologias do desenvolvimento e do nacionalismo, da atenção dada pelos intelectuais ao "potencial revolucionário da cultura popular", aos reflexos das condições históricas internacionais, à revisão dos equívocos da interpretação dialética da história brasileira, etc.,[20] prendendo-se à poesia, assim descreverá o decênio de 50 (e sua continuação): Os melhores poetas da segunda metade do século têm respondido de modo vário aos desafios cada vez mais prementes que a cultura e a praxis lançam ao escritor. E que se chamam, por exemplo, guerra fria, condição atômica, lutas raciais, corrida interplanetária, neocapitalismo, Terceiro Mundo, tecnocracia... E, vindos embora, em sua grande parte, do formalismo menor e estetizante que marcou o clima de 45, lograram atingir um plano mais alto e complexo de integração, de que são exemplos os poderosos poemas de Ferreira Gullar e de Mário Faustino, os elaborados experimentos da poesia concreta (Haroldo de Campos, Augusto de Campos, Décio Pignatari, José Lino Grünewald, José Paulo Paes, Pedro Xisto...) e da poesia-praxis (Mario Chamie), além de todo o itinerário do maior poeta brasileiro de nossos dias, João Cabral de Melo Neto.[21] Finalmente, é durante essa década que se forma aquela tendência pela qual Bosi acha que a poesia se define de 50 para cá; a direção da objetividade determinada pelas várias pressões históricas. De um lado, essa direção da objetividade se manifesta na "procura de mensagens (motivos, temas...) que façam do texto um testemunho crítico da realidade social, moral e política"; de outro, ela pode ser entendida como "procura de códigos que, rejeitando a tradição do verso, façam do poema um objeto de linguagem integrável, se possível, na estrutura perceptiva das comunicações de massa, medula da vida contemporânea".[22]< (...) SEGUNDA PARTE, CAPÍTULO I- 4. O tema da poesia Enquanto processo produtivo, o tema da poesia pode ser intuído, após ser ler o que acabamos de expor, como relacionado fundamentalmente às variantes do poeta-artesão, do poeta-cantor inspirado e do poeta criador. Conseqüentemente, a atividade produtiva ligar-se-ia de imediato à idéia da arte como construção, da arte como inspiração (execução, e ainda, mediação) e da arte como criação (ou então, como intuição criativa). Os matizes diferenciadores de uma e de outra concepção da poesia, bem como os limites entre seus campos de definição, não de tornam muito nítidos nos poemas de Mário Faustino, em virtude de causas fáceis de serem encontradas: primeiro, a complexidade mesma do objeto - a poesia -; segundo, porque as concepções não vêm numa linguagem científica ou pretensamente científica, mas se traduzem como linguagem poética; finalmente, porque a linguagem de Mário Faustino está carregada de superposições imagéticas em que os elementos constituintes são, às vezes, e ainda por cima, símbolos, signos de sugestão, visões e imagens visionárias. Esta tripartição que apresentamos constitui, pois, uma tentativa de compreensão resultante do explorar arriscado e lento através de uma linguagem opaca. 4.1. A Construção A visão do processo criativo como construção inteligente está pressuposta nas imagens do artesão. Além disso, chega a marcar-se com expressões sugeridoras da programação prévia ou do trabalho intelectual do acabamento. Em PREFÁCIO encontramos duas delas: Quem fez esta manhã predestinou Seus temas a paráfrases do touro, A traduções do cisne;........... ................................ ...................fê-la ter em si princípio e fim:.......... (39: 3-5 e 12-13) A primeira aponta, conotativamente, para a predeterminação semântica de obra prefaciada (manhã = O Homem e Sua Hora); a segunda situa-se diante do comínio sobre o trabalho de composição, segundo nos ensina a tópica retórica da tradição latina.[6] Em PREFÁCIO manifesta-se também a divisa teleológica prévia, cuja configuração expressiva se faz pela referência às fontes orientadoras dos temas, reafirmando um produzir caracterizado pela vontade do intelecto, mesmo que o conteúdo da finalidade nos esteja sugerindo um processo involuntário: fê-la para / Abandonar-se a mitos essenciais. Devemos, todavia, fazer uma distinção. Os símbolos da programação temática não subentendem propriamente a atividade produtiva intelectualmente conduzida. A consciência crítica, rótulo pelo qual se procura compreender a subordinação do fazer poético ao intelecto, apresenta-se assim como uma possibilidade e não como realização efetiva. Por isso é que o tema da poesia como atividade intelectual, como construção ou artesanato, se situa em dois tempos não coincidentes com o do presente do discurso: o tempo mítico, dos deuses e dos poetas elevados à categoria divina, e o tempo utópico ( mítico também enquanto contrafacção do primeiro), o do futuro projetado pela crença otimista no progresso humano. Em MENSAGEM se nota essa dupla situação. Os deuses invocados, interpretáveis como símbolos dos poetas antigos, pertencem a um idade dourada (ontem de ouro), tempo em que se qualificam como artesões, tal como os versos abaixo sublinham metonimicamente (tecer): Dize a eles que vinham tecer silentes minha eternidade (43: 7-8) Por outro lado, o sujeito que, no presente, se mostra como um cantor medieval e ligado à natureza, exprime o desejo da atividade construtora com símbolos relativos ao resgate intelectual que metamorfoseia a potência em ato criado de obras perfeitas. Tomando os versos: que desçam sobre a urna deste olvido e engendrem rosas rubras do estrume em que tornei seus dons de trigo e vinho (43: 16-17 / 44: 1) verificamos que a forma lingüística (verbo no subjetivo, de modalidade optativa e conteúdo referente à ação divina - desçam sobre e engendrem -) assinala, no sujeito emissor, o desejo da perfeição conseguível pelo trabalho intelectual. Os sentidos de pureza e perfeição criadora, em conjunção com os da potência e da consciência de regeneração, subjacentes nos símbolos rosas rubras e estrume, preparam-nos para a imagem do ideal da poesia enquanto pura construção da inteligência, o que vem expresso nos versos finais: até que a lucidez venha construir um templo justo, exato, onde cantemos. (44: 11-12) Lucidez não constitui o único símbolo do trabalho intelectual. O termo de que deriva, luz, e outros vocábulos do mesmo campo semântico costumam servir a Mário Faustino para traduzir a racionalidade. Tendo em vista a recorrência dessa associação pela obra dele, podemos interpretar o final de BRASÃO como síntese temática da superação de um tipo de atividade poética, atuante no presente, por outro, realizado pela consciência operante, posta no futuro: Até que nasça a luz e tombe o sonho, O monstro de aventura que eu amei. (45: 13-14) Em O HOMEM E SUA HORA encontramos, também localizada no futuro almejado e sobrepondo-se ao passado feliz e perdido, a figuração da poesia como atividade produtiva intelectualmente determinada. Mais atrás já destacamos as imagens do artesão; agora podemos acrescentar que, quanto ação instauradora, a poesia (aqui metaforizada em escultura) se qualifica por ser um processo artesanal. Tal visão da poesia pressupões o domínio técnico dos instrumentos e sua aplicação virtuosa dirigida para a consecução perfeita da obra objetivada. Em O HOMEM E SUA HORA, tal arte, posta no futuro do poeta como valor almejado (erguerei, talharei), nasce, enquanto projeto, de insatisfação relativa aos resultados conseguidos pelo canto órfico. Rememorando a situação textual, chegaremos com mais clareza à compreensão desse fato. Valendo-se da superposição, Mário Faustino torna o futuro (erguerei, talharei) um termo em curso, no presente. Nesse futuro presentificado (não nos esquecendo que realizamos uma simplificação, pois o poeta-herói deseja um outrora), o sujeito poemático se mostra não produzindo uma obra, mas em sonho; antes, como inspirado, invocara Hephaistos a fim de ajudá-lo. Como vimos, Hephaistos assume o papel de instaurador lúcido (esperta inspiração) que plasma a obra servindo-se da luz (Phanos), do conceito (Logos) e da musicalidade (néctar melopaico). Seguindo uma larga e longa tradição que torna o fazer poético, operacionalmente determinado pelo domínio intelectual dos instrumentos, equivalente ao fazer das artes plásticas, Mário Faustino prossegue o desenvolvimento temático, acentuando o caráter construtivo da poesia naquele aspectos em que ela transcende do poema para o contexto.[7] Ainda aí, o poeta não age; quem o faz é o deus forjador. Os versos que exprimem essa atividade, por diferentes passagens, são os que seguem: De água, de fogo - Hephaistos, sob e, ajuda-me A compor essa estátua: fácil corpo, Difícil Face, Santa Face - falta O sopro acendedor de tua esperta Inspiração... à noite, enquanto durmo, Cava-lhe, oh coxo, o gesto e o peito, pede À deusa tua esposa dê-lhe quantos Encantos pendem de seu cinto. Phanos, Phanos, imagens de beleza, chagas Na memória dos homens... pede a Hermes Idéias que asas gerem nos tendões Das palavras certeira - logos, logos Carregando de força os sons vazios - Dá-lhe tu mesmo, Fabro, o mel, a voz Densa, eficaz, dourada, melopaico Néctar de sete cordas, musical Pandora de salvar, não de parder... (92: 24-39 / 93: 1) O raio que forjamos. Prende, artista À sua ilharga a espada inscrita que hoje (93: 11-12) E funde-lhe um escudo e grava nele (93: 15) Grava os trabalhos de heróis mansos, grava A tua, a minha forja, ou a de Dédalo, Grava campos feridos e estaleiros, Grava ternos andaimes abraçando Informe edifícios; grava nele (92: 20-24) A noite rola, Hephaistos. Neste escudo Gera-lhe as armas: cisne em branco sobre Campo de verde e alternas ferramentas Áureas, entrelaçadas. Na cabeça Firma-lhe um elmo faiscante, crina Ofuscadora, horrenda. Tomba a noite, Mas pronta é nossa estátua, armada e tão (92: 29-35) Mostram-nos, essas passagens, que a poesia, como elaboração consciente do poema, permanece somente no domínio do desejo. Esta aspiração confirma-se quando nos detemos nas descrições do processo instaurador da obra perfeita; elas nos remetem à situação do presente, mas a causa eficiente da obra se distingue do sujeito poemático. Poderíamos interpretar que o processo produtivo se qualifica pela construção inteligente em estado de sonho, numa espécie de elaboração complexa e lógica dada a nível não consciente. Sem embargo dessa interpretação, achamos que a série de imagens centradas em Phanos, Logos e melopaico / Néctar conduz-nos à que oferecemos, isto é, à aceitação do tema do desejo de uma construção racional. De fato, Mário Faustino parodia aí, poeticamente e sem ironia à fonte, a fórmula poundiana que se difundiu" a tríade constituída por "melopéia", "logopéia" e "fanopéia". Como se sabe essa tríade refere-se aos traços da suma eficácia lingüística que se consegue, em poesia, pela consciência artesanal, verdadeiro saber das operações rigorosas e aplicadas.[8] 4.2. A inspiração Se a produtividade poética equivale à construção racional, configura-se nos símbolos míticos da atividade de Hephaistos, Pigmaleão e Dédalo, e liga-se aos da luz e do fogo, do ouro e do marfim, bem como às referências à lucidez e à razão, permanecendo no âmbito do desejo. Contrariamente, a atividade poética imaginada como real se confunde com o sonho. Assim, se a construção luminosa ou clara se projeta no futuro como um desejo atual, a produtividade poética, situada no presente, assume as características todas da poesia órfica, entendendo-a aqui num sentido bastante amplo e que abrange inspiração, penetração no mistério em busca de sua revelação, canto mágico e sofrimento; em todo caso, aquela atividade afetada pelo desejo de uma outra ordem criadora e, conseqüentemente, atividade sempre aquém e insatisfeita. Tentaremos rastrear suas imagens nos poemas selecionados, servindo-nos daqueles símbolos que, de uma ou de outra maneira associados a Orfeu, nos possam guiar por este labirinto de sugestões. O labirinto simboliza a construção planejada, mas, para quem o percorre sem havê-lo construído, significa um risco e uma prova; neste sentido, caminhar adentro de um labirinto significa também a busca do nele escondido; se associado à noite, o penetrá-lo metaforiza um fazer poético enquanto atividade misteriosa e obscura na conquista de um valor ou na revelação de uma forma almejada: Quem fez esta manhã quem penetrou à noite os labirintos do tesouro;" (39: 1-2) O fazer como atividade noturna e que, em PREFÁCIO, parece distantemente sugerido, encontra sua representação poética mais intensa nos poemas BRASÃO (45) e MITO (63-64). De BRASÃO já conhecemos a imagem final da luz a vencer o sonho, equivalência da razão superando a irrazão (Até que nasça a luz e tombe o sonho, / o monstro de aventura que eu amei.) Mas devemos deter-nos em outras simbolizações. A repetição de Nasce do solo sono a intervalos regulares do poema permite-nos descobrir algumas correlações semânticas entre diferentes expressões, de modo que se pode, como resultado, identificar o produto poético (sob a metonímia de verso rampante e sob as metáforas de brado e um solo de lira santa e brava) como objeto nascido de forças obscuras que são, ao mesmo tempo, um fazer agônico. As imagens apóiam-se na situação de luta entre o irracional e o racional (armadilha / Das feras do irreal x ser, unicórnio x rei, facho fulvo x rosa e as armas lúcidas). A essas expressões que nos narram a transfiguração do real pela fantasia, sucedem-se no poema as relativas à atividade onírica, sendo todas, representações de agressividade e transformação, irrupção imprevisível e conflito: Nasce do solo sono um sobressalto. Nasce o guerreiro. A torre. Os amarelos Corcéis da fuga de ouro que implorei. E nasce nu do sono um desafio. Nasce um verso rampante, um brado, um solo De lira santa e brava - minha lei (45: 7-12) MITO (63-64) também nos fala do fazer em sonho. E se verbo (64: 24) simbolizar de fato o produto desse fazer, o poema inteiro poderá ser lido como uma alegoria da poesia enquanto atividade instauradora. Neste poema, um modelo cabal de polivalência, uma vez que está carregado de símbolos, sugestões, visões e imagens visionárias, ele inteiro uma imagem da atividade artística e do valor dessa atividade como experiência vital intransferível, neste poema, temos duas frases muito esclarecedoras. Elas situam-se polarmente na ordem compositiva e em perfeita co-oposição, isto é, semanticamente contrárias, mas sintaticamente paralelísticas: Os cães do sono ladram Mas dorme a caravana de meu ser; (63: 1-2) Os cães do sono calam E cai da caravana um corpo alado (64: -22-23) Imagem visionária do sonho, os cães do sono, caracteriza seres ativos (ladram) em oposição à passividade do personagem poemático. Tal atitude do sujeito fica mais destacada ainda pela metáfora, caravana, que o qualifica. Ao personagem inativo se aplicam, pois, aquelas qualidades que sua postura nega: "em trânsito", "coletividade", "intermediariedade", "comércio", "pluralidade". Metonimicamente, o sujeito, dado por meu ser, assume aí os traços de indivíduo enquanto ente social. Todavia, na frase co-oposta, desse ser mediador vemos desprender-se um corpo alado, símbolo do poema, cujo nascimento implica o fim da atividade onírica. Entre essas duas frases sugestivas, está situada a narração poético-simbólica de uma pequena história sobre o sonho como atividade produtiva de um ser, cuja existência determina o término ou a anulação da própria atividade que o gerou, segundo a dialética análoga àquela que se tem quando se afirma que o poema, resultado da inspiração tem vida independente dela, e dela representa a morte. Esforçar-nos-emos por acompanhar essa história, tomando como base os símbolos de que se utiliza o poeta. Temos, então, inicialmente, um ser metaforizado em caravana, um símbolo-chave dentro do poema. A primeira idéia que nos vem é a de pluralidade de pessoas. No poema, essa pluralidade se presentifica nas referências e alusões a seres diversos: avião, procelária, Adão, Orfeu, Atlas, Hermes, Hércules e, talvez, Vulcano, albatroz. Caravana encerra também as idéias de "trânsito", de "viagem de um ponto a outro", de "elementos intermediários no mundo do comércio"; tais significados superpõem-se ao mito de Hermes (Assim um Fazedor empunha o cetro / Ornado de serpentes), assim como ao de Orfeu (E sonho o que foi parco / Mas meu e por que raro foi perdido), ambos meramente aludidos. Há ainda, neste qualificador metafórico, a idéia de "transporte"; e esta idéia ressoa nos signos de indício sobre o avião (ruflando asas de ferro) e na alusão a Atlas (Mas de alheio me pesa sobre os ombros / Globo de ásperos polos). Todas essas associações figurativas interligam-se e marcam uma ambigüidade, uma divisão neste ser poemático: de agir pelo sonho, num estado contrário ao de sua forma de existir na realidade.[9] Nos seis versos seguintes temos a descrição dessa forma de ser: Ser em forma de pássaro, Sonora envergadura Ruflando asas de ferro sobre o fim Dos êxtases do espaço, Cantando um canto de aço nos pomares Onde o tempo não treme, Onde frutos mecânicos Rolam sobre sepulcros sem cadáver: (63: 3-10) Vemos que a realidade circunstancial do personagem poemático está caracterizada por traços não humanos ou desumanos (sobre o fim / Dos êxtases do espaço, nos pomares / Onde o tempo não treme e sobre sepulcros sem cadáver) e por uma paisagem de artefatos industriais (Onde frutos mecânicos / Rolam). O personagem em si, por sua vez, vem predicado pelo símbolo ascencional, pássaro, com dois atributos de sua especificidade, o vôo e o canto, sintetizados, primeiro, no sintagma sonora envergadura, que se desdobra, depois, nas expressões ruflando asas e cantando um canto; estas últimas, com seu complementos, configuram imagens das atividades da imaginação e do canto poético, sugerindo, ainda, vaticínios. Há, entretanto, duas especificações importantes nesses complementos: de ferro e de aço. Elas estão no mesmo campo semântico de frutos mecânicos (bombas ?), artefatos industriais que caracterizam a paisagem desumana, ou melhor, a paisagem humana esvaziada de seus conteúdos essenciais: a fruição do espaço e a temporalidade. Seriam, essas expressões todas, símbolos da realidade histórica envolvente, ou representações do civilizado mundo contemporâneo, produto da inteligência e que impede os altos vôos da imaginação voltada para valores menos rasantes? Embora a parte final do poema nos permita aceitar esta possibilidade de interpretação, que responde afirmativamente à pergunta levantada, nossas dúvidas permanecem. O que temos de aceitar como menos duvidoso é o que os oito versos nos descrevem um ser e nos fazem pressupor, por seu caráter alegórico, a imagem da atividade produtiva desperta, em contato lúcido com a realidade concreta do mundo atual (atual no tempo do sujeito poemático). Os onze versos seguintes situam-nos no mundo do desejo, por contraposição a esse da realidade; o espaço, outro, está em relação de superioridades àqueles referidos (pomares e sepulcros), formando a circunstância à que aspira o eu poemático, agora metaforizado em ave(provavelmente, a procelária): E sonho outros planaltos Por mim sobrevoados na procela; (63: 11-12) O tempo também é outro, mítico, mais particularmente adâmico, conforme nos assinalam as alusões ao sopro divino e à plasmação no barro. Aqui se sugere um fazer, um produzir, do qual o eu se torna um mediador: E sonho outras legendas Em mim argamassadas pelo vento, Trabalhadas em mim por mãos sem tacto; (63: 13-15) Sugere-se também a atividade órfica, a do poeta insatisfeito e inspirado, compelido à busca da beleza que lhe foge: E sonho o que foi parco Mas meu e por que raro foi perdido; (63: 17-17) Logo a seguir vem a descrição da atividade titânica, do sofrimento pela angústia do infinito. O personagem poemático torna-se equivalente de Atlas: E sonho o que foi vasto Mas de alheio me pesa sobre os ombros, Globo de ásperos polos, Continentes de medo E mares onde o sangue é trilha e nódoa; (63: 17-21 / 64: 1) Correspondentemente e de um modo quase paralelo na ordem de composição do poema, a representação dessas atividades sonhadas desenvolve-se nos versos posteriores; o sujeito poemático, em estado de sonho (Deitado no vitral / Da noite intensa, exata) mostra-se identificado com um Fazedor; nesta situação, temos o sonho como realização da atividade mágica, expressada nesta alusão a Hermes, em ação arquetípica de mediador e apaziguador de conflitos.[10] Assim um fazedor empunha o cetro Ornado de serpentes; (64: 4-5) Ainda nesta situação (notar que o assim se refere sempre ao Deitado no vitral / Da noite intensa, exata), o sonho se apresenta sob a forma de atividade recriadora; possibilita esta interpretação, a alusão ao Deus do Gênesis. Mas se apresenta ainda como um dar a vida sem sabê-lo, conforme se sugere, por superposição, na imagem alusiva a Adão: Assim refaz o que foi feito à sua Augusta semelhança Contrafacção de um gesto mais difícil Sonâmbulo e remoto - contundente; (64: 6-9) Tais paralelos entre o ser em sonho e o Fazedor, entre o ser em sonho e heróis inspirados, titânicos e mediadores, conduzem-nos à idéia comum do fazer poético definido como produção inconsciente ou inspirada. A imagem, por negação, dessa idéia nos vem com os versos: Levanto-me e estrangulo O ato de nascer que me divide Em morna derrisão Disforme difidência de um presságio; (64: 12-15) Temos aí três imagens seguidas. Uma, próxima da referencialidade prosaica, remete-nos à idéia do despertar. Outra nos aponta para a violência; a terceira, para o objeto da violência, o ato de nascer. Este nascimento tem como equivalente externo, segundo nos parece pela análise do texto, a volta do ser à consciência da realidade, sendo seu equivalente interno o mito genésico da criação adâmica (Deus fazendo o homem à sua semelhança e Adão servindo de matéria para a criação da mulher), já anotado acima. O despertar do sonho, corresponde, pois, ao fim do processo criador, a um ato de nascer pelo qual o poeta se vê dividido outra vez em sua volta à realidade. O resto do poema reitera essas imagens que, dando-nos a representação simbólica de um fazer desperto, não deixa de aludir à situação anterior ao sonho, situação de busca e sofrimento, agora simbolizada no inferno; retomando os versos que interpretamos: E enquanto nuvens quedam De incenso carregadas, de semente, Levanto-me e estrangulo O ato de nascer que me divide Em morna derrisão Disforme difidência de um presságio; O Fazedor anula O inferno que o refina E alçando-se ao poente mais seguro Mergulha na verdade Acesa que o derrota e reduz ao Dormente ser de vidro e cor que sonha; (64: 10-21) O final é esclarecedor para nossa interpretação, no sentido de que ressalta a derrota do personagem, ativo no sonho, pela realidade, que o torna inativo e, além de inativo, frágil e corriqueiro. O tema da poesia enquanto processo produtivo inconsciente vincula-se, dessa forma, a símbolos noturnos, a mitos de sofrimento e penetração no mistério, aos mitos de mediação e de atividade mágica. Liames como esses se reiteram em O HOMEM E SUA HORA, com a caracterização do poeta-personagem como um vidente, como guia pelos infernos percorridos por ele com Enéias, como um ser que se retira para um passado de onde vaticinará a poesia perfeita do futuro e como ser dormente durante o trabalho de elaboração artística realizado por Hephaistos. Reiteram-se ainda quando se contrapõem, ao poema perfeito desejado e trabalhado pelo intelecto, a poesia e os poetas presentes, como notamos nas seguintes interferências: Orfeu retesa a lira e solta o pássaro. (93: 2) No mar cor de mortalha as rotas gemem... (94: 9) Na selva cor de vida atalhos vibram. (94: 18) ou nesse uso do mito de Deucalião: Vai, minha estátua, junta as pedras úmidas Que atito sobre os ombros, eu que nunca (94: 19-20) ou, finalmente, nesses versos que são um cântico sobre a poesia concebida como atividade órfica e profética: Nos ares cor de espírito aves traçam Pautas de canto, rumos de alegria. (94: 25-26) Outros símbolos que encontramos em MITO (o do sopro criador e o do despertar que mata o inspirado) vemos repetidos em VIGÍLIA (101): Fervilha em minhas fontes como ao sopro Celeste outrora ardeu teu sangue fulvo, Que agora gela à espera de outro verbo Igual ao que de mim hoje me aborta, (101: 3-6) Alguns sentidos fundamentais existentes em certas imagens de MITO se apresentam também em BALADA. O mais enfatizado é o da atividade agônica, percebida nas seqüências vontade / Augusta de ordenar a criatura, Gladiador defunto mas intacto, Bateu-se delicado e fino e Tanta violência, mas tanta ternura, nos dois versos seguintes que presentificam o mito do Hermes mediador (agora fracassado): Não conseguiu firmar o nobre pacto Entre o cosmo sangrento e a alma pura. (123: 1-2) e na alusão a Orfeu (episódio da morte pelas bacantes), com as referências à poesia como arrebatamento e vidência: Frágil porém vidente, morto ao som De vagas de verdade e de loucura, (123: 13-14) De maneira muito relevante, os símbolos da poesia como a livre atividade da fantasia estão presente ainda em VIAGEM (109) e em E SONHOU A MULHER QUE SE CUMPRIRA (113). Tanto num quanto noutro vemos retornarem não só as fontes míticas já conhecidas, mas também as expressões delas derivadas. 4.3. O crescimento contínuo Intimamente associado ao conjunto imagístico relativo à poesia concebida como inspiração ou atividade órfica, está a imagem da poesia como um processo de germinação, de um fazer-se pós-fecundatório. Expressões desse produzir congregam símbolos que às vezes se especificam num referência a um fazer posterior à ação do poeta ou do criador; por exemplo, raio a fecundá-la em PREFÁCIO (39), chuvas de sêmen sobre campos de cal e engendrem rosas rubras em MENSAGEM (43), que semente cai dos membros / do cadáver solar em ESTRELA ROXA (57), no ventre da guitarra / silente uma semente se partira em E SONHOU A MULHER QUE SE CUMPRIRA (113). Entretanto, essa idéia da poesia como germinação, energia a desenvolver-se desde o ato criador, fazendo-se independentemente de sua fonte, remete-nos a um tipo de poema que seja ao mesmo tempo um produzir-se, remete-nos àquilo que se denominou de obra aberta em movimento, refazendo-se a cada ato de leitura, de modo diferente, em cada leitor.[11] Por isso, as imagens implícitas nesta visão da poesia como um fazer-se resultante da fecundação, se confundem com as imagens de um tipo de poema correspondente a uma gestação de que não participa mais o fecundador, ou ainda, correspondente, num outro plano, à evolução da natureza ou da vida por si, que nas histórias sagradas leva à idéia do mundo como uma imensa e perfeita linguagem, um fieri determinado pela palavra divina. 1 Péricles Eugênio da Silva Ramos, "O modernismo na poesia", in Coutinho, dir., A literatura no Brasil V, pp.39-202. 2 Ibidem, pp. 183-184, 199-200. 1 Ibidem, p. 201. 2 Em "A Nova Literatura Brasileira (o romance, a poesia, o conto)", in Coutinho, dir., A literatura no Brasil VI, p. 217, Assis brasil refere-se a Mário Faustino, citando-o entre alguns poetas que, sem terem aderido à Poesia Concreta, se beneficiaram, desse movimento. 3 Alfredo Bosi, História Concisa da Literatura Brasileira. 4 Ibidem, pp.526-527. 5 Ibidem, p. 527. 6 José Guilherme Merquior, et alii, Poesia Brasileira Hoje, pp.7-19. 7 Ibidem, p.15. 8 Os ensaios de Benedito Nunes a que nos referimos são os seguintes: "O projeto de Mário Faustino", Invenção - Revista de Arte de Vanguarda, n. 3 (Ano 2, 1963), 20-30; "Introdução ao Fim:, Suplemento Literário de O Estado de São Paulo" (9/7/66); "A Poesia de Mário Faustino", in Poesia de Mário Faustino, pp. 3-35; "Introdução", in Mário Faustino, Poesia-Experiência, pp. 7-24. O terceiro é o que nos importa mais de perto 9 Suplemento literário de O Estado de São Paulo (9/7/66). 10 Mário Faustino, O Homem e Sua Hora . 11 O livro, a cujas páginas remetem as citações todas deste trabalho, é Poesia de Mário Faustino (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966). As citações dos versos ou conjunto de versos seguem esta ordem: número da página, dois pontos, posição do verso na página. Assim, a remissão 39:2 referir-se-á ao segundo verso existente na página 39; a remissão 39:3-5 referir-se-á à seqüência dos versos do terceiro, quarto e quinto da página 39. 12 Assis Brasil, ed., Cinco Ensaios sobre Poesia de Mário Faustino. 13 Mário Faustino, Poesia-Experiência. 14 João Cabral de Melo Neto, "Da função moderna da poesia" (tese), in Congresso Internacional de Escritores e Encontros Intelectuais (Anais), pp. 311-315. 15 Alfredo Bosi, op. cit., p. 433. 16 Antônio Cândido, "Literatura e Cultura de 1900 a 1945", Literatura e Sociedade, pp. 129-165. Na nota bibliográfica há o seguinte esclarecimento a respeito deste artigo: "Publicado em alemão, em duas partes, com títulos independentes, no Staden-Jahrbuch, n. 1 e 3, São Paulo, 1953 e 1955". 17 Ibidem, pp. 152-153. 18 "E a alternativa (perigo de transformação da literatura aos "desígnios políticos, morais, propagandísticos em geral" e perigo de separação total da literatura em relação aos problemas da vida, "a que sempre esteve ligada pelo seu passado, no Brasil") só se resolverá por uma redefinição das relações do escritor com o público, bem como por uma redefinição do papel específico do grupo de escritores em faces dos novos valores de vida e de arte, que devem ser extraídos da substância do tempo presente" (p. 165). 19 Ibidem, p. 164. 20 Alfredo Bosi, op. cit., pp.433-435. Aos livros indicados por Bosi a fim de completar a visão do quadro histórico, seria necessário ainda a consulta a Carlos Guilherme Mota, Ideologias da Cultura Brasileira, (1933-1974), de onde extraímos a seguinte síntese: "Nos anos 50, a institucionalização de quadros intelectuais provoca o engajamento nas linhas do nacional-desenvolvimentismo. O nacionalismo como ideologia impregna os diagnósticos desenvolvimentistas. Formulações críticas surgem no fim dos anos 50, radicalizando-se na primeira parte dos anos 60. O pano de fundo é todavia dado pelo reformismo populista". (p. 49). 21 Alfredo Rosi, op. cit., p. 489. 22 Ibidem, p. 520. 6 Ver Curtius, Literatura Européia e Idade Média latina, pp. 93-96. 7 Marcos da aproximação entre fazer poético regulado intelectualmente e fazer das artes plásticas são, na antiguidade, a Arte Poética de Horácio e, mais recentemente, as artes poéticas dos parnasianos e certos trabalhos de Valéry. 8 Em "Algumas proibições" Pound escreveu: "Para começar, considere as três proposições (exigência de tratamento direto, economia de palavras, e seqüência da frase musical) não como dogma - nunca considere coisa alguma como dogma - mas como resultado de uma longa meditação a qual, mesmo que seja de outrem, pode merecer consideração."(A Arte da Poesia, p. 11) Também lemos em A B C da Literatura: "A linguagem é um meio de comunicação. Para carregar a linguagem de significado até o máximo grau possível, dispomos - como já foi acentuado - de três meios principais: / 1.Projetar o objeto (fixo ou em movimento) na imaginação visual. / 2.Produzir correlações emocionais por intermédio do som e do ritmo da fala. / 3. Produzir ambos os efeitos estimulando as associações (intelectuais ou emocionais) que permaneceram na consciência do receptor em relação às palavras ou grupos de palavras efetivamente empregados. / (fanopéia, melopéia, logopéia)" (p. 63). Estas são idéias que se poetizaram e até se transcreveram em The Cantos (exemplos: o canto LII e o LIX). Na modernidade literária, essas idéias, com pequenos matizes diferenciais, aparecem em todos os poetas da "exatidão". Acham-se expressas, por exemplo, em dois muito conhecidos: Juan Ramón Jiménez e Jorge Guillén. 9 Na realidade, temos várias oposições fundadas na relação ser em sonho - ser desperto. Assim, em sonho, o ser realiza as atividades da caravana desperta; mas, quando acordado, o ser fica no estado de uma caravana a dormir. Nestas oposições estão os germes do poema. 10 Relacionamos aqui as qualidades de Hermes com as do seu caduceu de ouro, ganho de Apolo com os dons da magia e da arte adivinhatória. 11 A respeito desta "obra aberta em movimento, ver Umberto Eco. Obra Aberta., pp. 37-66.