CHOCIAY, Rogério - "Teoria, Crítica e Gregório" in Os Metros do Boca. Teoria do verso em Gregório de Matos. São Paulo, Edunesp, 1993. (acompanham Sumário e Bibliografia) SUMÁRIO PREFÁCIO 7 TEORIA, CRÍTICA E GREGÓRIO....................13 PROFUSÃO E CONFUSÃO TEXTUAL: O LABIRINTO DOS APÓGRAFOS.............................23 O POETA EM SEU OFÍCIO.................................31 Curso dos Versos e regularidade métrica...............31 Procedimentos funcionais.....................................36 Sinafia e compensação..........................45 A técnica de Gregório..........................47 OS METROS DA BOCA: A OPÇÃO PELAS RAÍZES..49 Entre o velho e o novo........................................49 Os versos e suas freqüências.......................52 Metros, fórmulas, exemplos.............................53 Gregório e seu verso 66 NO ARMAZÉM DOS SISTEMAS ESTRÓFICOS...67 A força da tradição.......................67 O acervo penisular.............................................68 O acervo italianizante.........................................74 Outros agrupamentos............................................77 O BOCA E SUAS FERRAMENTAS: AS FORMAS POEMÁTICAS....................................81 O poeta e suas formas..........................................82 As letrilhas..................................................108 Da métrica à poética.....................118 AS FORMAS SOB AS FORMAS: RITMOS, SONS, FIGURAS..........................................121 "Sal, cal e alho"..............................................121 O Gregório gráfico...............................123 O ritmo........................................................129 Procedimentos rítmico-estilísticos...............133 O jogo das sonoridades.........................................136 A técnica do encavalgamento.............................139 TAREFAS QUE NOS DÁ O BOCA...............................143 Os textos e suas sombras.......................................143 O saldo e a busca..............................................149 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS........................155 TEORIA, CRÍTICA E GREGÓRIO Nos trabalhos que até o momento se publicaram a respeito de Gregório de Matos, os autores dificilmente deixaram de assumir uma destas atitudes: ver o poeta com um plagiário, um autor de segunda ordem que viveu do que tirou do alheio; ou, ao contrário, vê-lo como a maior personalidade do Brasil colonial, um gênio incompreendido pela história literária. Conforme a opção feita, os artigos ou ensaios, ou teses, ou livros se tornam verdadeiras peças de acusação ou de defesa, e Gregório, em vez de autor a ser estudado, mais parece um cidadão merecedor de todas as suspeitas, ocupante permanente do banco dos réus. Repugnamos ambas as atitudes pela perniciosa subjetividade que comportam, razão por que este livro não pretende acusar nem defender o Boca do Inferno, mas, simplesmente, apresentar resultados de estudo da sua obra poética. Em outras palavras: vemos a poesia de Gregório como a de qualquer outro poeta de qualquer época, como um objeto de pesquisa sobre o qual nos debruçamos, por quase dois anos, com a intenção de verificar pormenores da técnica versificatória. Tal estudo, na verdade, nem se destinava a culminar em livro, mas em um ou dois presumidos artigos no âmbito de um amplo projeto que tem por objetivo escrever uma História da Versificação no Brasil. Ao chegar à obra de Gregório, todavia, depois de passar pela de Anchieta, Bento Teixeira e Manuel Botelho de Oliveira, a profusão e a confusão dos dados nos fizeram perceber que um ou dois artigos seriam insuficientes para dar conta dos resultados. O livro, deste modo, impôs-se. Depois de analisarmos, durante muitos meses, verso por verso, estrofe por estrofe da obra gregoriana, percebemos que tínhamos um conjunto razoavelmente significativo de informações bastante objetivas, que ora estamos transmitindo para integrar o acervo dos conhecimentos sobre a obra do Boca do inferno e contribuir, ainda que de modo pequeno, para a elucidação de um dos mais importantes problemas da Literatura Brasileira. Sem paixão, no entanto, senão a própria paixão pela Literatura Brasileira e pela Teoria do Verso, essência de nossa ocupação universitária. Embora muito pouco acionadas na atualidade pela crítica e história literária de nosso país, a Métrica e a Rítmica, disciplinas que constituem a Teoria do Verso, têm muito a dizer e resolver no estudo dos principais problemas da poesia brasileira de todos os tempos. O formalismo destas duas disciplinas, que muitos vêem como defeito de superfície (e, na verdade, se deve a rigor de método), torna-se em muitos casos ferramenta necessária à abordagem de problemas há muito pendentes, que somente um interdisciplinaridade bem conduzida tem condições de esclarecer. Escandir sílabas, anotar unidades rítmicas, interpretar arranjos de sonoridades não são, deste modo, atividades que se fecham em si mesmas, mas antes e essencialmente tarefas que se destinam a instrumentalizar análises mais amplas, que visem à explicação e à valorização de poemas e de obras poéticas como um todo. Um dos mais danosos mitos da modernidade literária brasileira nasceu de uma interpretação errônea do advento do verso livre. Erigido como espécie de emblema da modernidade, como veículo preferencial de poesia, a prática do verso livre parece ter levado os críticos a menosprezar o estudo não apenas do verso tradicional, que os modernistas na fase heróica do movimento questionaram, mas do próprio versilibrismo. Com isso, não surgiu até hoje uma teoria que possa explicar as calidoscópicas formas que este veio a assumir ao longo do presente século. curiosa diferença entre a prática dos poetas modernistas e a da crítica que acompanhou o movimento: os poetas puseram-se desde logo em pesquisas das mil e uma portas abertas pela proposta inicial do versilibrismo; os críticos e historiadores, salvo uma ou duas honrosas exceções, contentaram-se com acompanhar, de longe, as experiências dos poetas, sem tentar, de forma realmente sistemática, abordagens que pudessem pôr a limpo todas as formas e fórmulas experimentadas desde 22. A modernidade, numa espécie de crítica que se pode chamar "conteudística", se comporta como se os principais modernistas, concomitantemente à prática do verso livre, não tivessem praticado o verso tradicional, inclusive com o requinte de reensaiar modelos bastante antigos de versos, estrofes e poemas, incorporando formas da mais genuína tradição clássica. Talvez em razão desse mal-entendido, um livro sobre versificação ou "metrificação" exerça hoje pouco atrativo. A modernidade faz de conta que, com a liberdade de criação instaurada pelo Modernismo, todo esse estudo sobre o ritmo dos versos, livres ou não, é notícia que se deve dar marginalmente na análise literária, como espécie de nota erudita de pé de página. Ironia da História! Não era esse o entendimento dos próprios modernistas, pesquisadores obstinados que foram das mais variadas formas de praticar o versilibrismo. Não era esse o entendimento de Mário de Andrade e Manuel Bandeira, que ao longo de suas vidas não cessaram de tentar explicar a essência e a natureza do verso, quer livre quer metrificado. Os trabalhos de crítica e teoria que publicaram, a correspondência que travaram, bem como suas próprias obras poéticas atestam a grande importância que davam à questão. Um dos maiores erros da crítica moderna, por isso, inclusive da que estuda Gregório de Matos, é passar de plano e por alto sobre a métrica e a rítmica dos poemas tradicionais, bem como fazer de conta que os modernos poemas em versos livres não pressupõem uma "métrica", ou mesmo uma "antimétrica", como referência. O verso, neste estado de coisas, é tratado como mera roupagem do poema, música de fundo, nunca como componente essencial ou princípio gerador e organizador. É grave erro de perspectiva teórica e histórica esquecer que um soneto, por exemplo, não é um conteúdo que adere a um sistema de duas quadras e dois tercetos, mas um objeto final, um poema que se gerou, que se criou, que se produziu enquanto sistema, uno, completo, de que a melodia, o ritmo e o que se costuma denominar "conteúdo" são elementos integrantes e inseparáveis, uns atuando sobre os outros, uns se desenvolvendo com, em função dos e nos outros, de tal modo que, ao fim e ao cabo, no poema, tudo seja simultânea e indissociavelmente forma e conteúdo. Alguns estudiosos de literatura, infelizmente, parecem não pensar deste modo. Por isso, escrever um livro que se propõe a ser, humildemente, uma descrição objetiva da métrica de Gregório de Matos para instrumentalizar abordagens mais amplas, não é atitude que se assuma sem um pouco de receio: É mesmo necessário estudar esse assunto, perguntaria um professor? O que é que vou fazer com um livro assim em minhas aulas de Literatura Brasileira? Não seria mais útil um livro sobre a temática, sobre a religiosidade contida, sobre as imitações, plágios e contradições do Boca do Inferno? Esse desprezo aos aspectos construtivos da poesia, motivado pelo predomínio de uma visão utilitarista, que "usa" o texto para finalidades muitas vezes apenas tangencialmente relacionadas com ele, talvez explique as dificuldades que encontra hoje o ensino de literatura e, na mesma linha, o gosto pela leitura. Como ler, entender e gostar de um soneto, se não sei o que é um soneto e como o praticaram e praticam antigos e modernos? Como ler e entender um poema em versos livres se não me ensinaram que não se trata de alinhamentos distribuídos aleatoriamente ao longo da página? E quem me pode explicar tudo isso? O professor? E quem pode explicar tudo isso ao professor? O presente livro, nascido dessas indagações, tenta demonstrar a técnica versificatória inerente aos poemas de Gregório de Matos. E o faz com a intenção de servir a todo aquele que, professor, estudante, leitor, pesquisador, pretende, na renovação da leitura, fruir um pouco mais dos poemas do satírico baiano. Nasce, pois, necessariamente didático, sem deixar, no entanto, de ser objetivo e rigoroso em sua abordagem. Tem como uma de suas causas primeiras a constatação de que os aspectos métricos e rítmicos são apenas superficialmente abordados, quando o são, nos livros que se publicam sobre Gregório de Matos. E tem, como maior motivação, a certeza de que o estudo de tais aspectos pode trazer uma contribuição, humilde, ao trabalho que gerações e gerações ainda terão de fazer sobre o poeta e sua obra. A consciência de que num livro dessa natureza devem estar envolvidos e harmonizados o conhecimento propriamente dito e a forma de sua transmissão levou-nos a um policiamento permanente do discurso: buscamos evitar o exibicionismo terminológico, o linguajar pedante e pretencioso, quase jactancioso com que de vez em quando nos deparamos no terreno da crítica literária. O conhecimento, por maior e mais original que seja, não é motivo para exibicionismo, mas sim para uma grande vontade de comunicação. Talvez a virtude maior do estudo de literatura seja, de fato, entender que, por mais brilhante, por mais inteligente, por mais "genial" que possa julgar seu trabalho a respeito deste ou daquele poeta, o poeta é sempre maior do que qualquer trabalho que se faça sobre ele, e a transmissão do conhecimento um valor maior que o orgulho de tê-lo obtido. A atividade da teoria, da crítica e da história literária está sempre a serviço e nunca acima da Literatura. Nem por isso, por esse caráter serviçal, deixa de ser atividade científica. Tem de ser. E o será, sempre que não tentar ultrapassar o objeto estudado e inverter os papéis; sempre que for, como toda ciência, objetiva, e deixar para a obra o ser criativa. Falar em "criatividade crítica" neste sentido, como às vezes se fala, é algo tão absurdo como esperar "objetividade" da poesia lírica. O estudioso de literatura deve possuir, isto sim, bastante sensibilidade; e muito discernimento para fazer desta um instrumento de descoberta, de direcionamento e de aprofundamento de sua pesquisa. Foi com essa clareza de propósitos que nos dispusemos a penetrar no universo da poesia de Gregório de Matos para avaliar-lhe a técnica versificatória. A inexistência de tentativas semelhantes, como afirmamos acima, assim como as referências apenas parciais, quando não bastante vagas, que as histórias literárias e os estudos de crítica fazem sobre o assunto, justificam a tarefa. A obra de Gregório vem sendo estudada em tentativas mais ou menos isoladas, solitárias, e este é um grande perigo quando se trata de uma obra e de um autor com uma quantidade tão grande de problemas pendentes, que vão da questão da própria autoria-autenticidade dos textos à da identidade histórica e literária do autor. Tentativas solitárias enveredam por métodos solitários, e este é outro grande perigo. Vale também esclarecer que este livro não é algo isolado em nossa atividade de pesquisa. Desde que publicamos a Teoria do Verso (São Paulo:McGraw-Hill, 1974), resultante de uma leitura crítica de tratados de versificação de todas as épocas e do cotejo entre essa teoria e as obras dos principais poetas das literaturas brasileira e portuguesa, dispusemo-nos a fazer um estudo de conjunto sobre a versificação no Brasil. Os resultados desse trabalho encorpam os numerosos artigos que escrevemos a respeito (um deles sobre o verso de Gregório de Matos), e que serviram de fundamento para o projeto de longo prazo acima mencionado, que estamos desenvolvendo com a cobertura de bolsa-pesquisa do CNPq. neste caminho, depois de abordar a poesia poliglótica de Anchieta e Manuel Botelho de Oliveira, bem como surpreendente Prosopopéia de Bento Teixeira,[1] deparamo-nos com um desafio: identificar, analisar e interpretar o fundamento métrico, a filigrana rítmica e os pormenores da técnica versificatória do Boca do Inferno, que nos legou uma das mais numerosas obras em verso da Literatura Brasileira em todos os tempos. Desafio enorme, não apenas em função do gigantismo da obra, mas também dos problemas, incluídos os questionamentos de autoria, que a cercam. É ainda, neste momento, praticamente impossível ordenar o caos textual das edições, como também obter certeza do que nelas pertença a um Gregório individual ou coletivo, a uma tradição criada a partir e em nome dele. Atitude cômoda, mas cientificamente discutível, seria colocar entre parênteses todas estas questões e afirmar que o que importa são os textos e que os textos devam ser estudados em si mesmos, como um estilo de época, à margem de qualquer questionamento acerca de autor e autoria: incidir-se-ia, com tal atitude, no mesmo erro que acusamos em estudiosos mais antigos: produzir um Gregório de papel, gestado a partir dos poemas que são atribuídos a esse nome e das interpretações mais ou menos arbritárias do analista. Gregório não é um papel, nem apenas um nome. Sua existência e muitíssimos fatos, inclusive literários, de sua vida estão historicamente comprovados e atestados. Os pontos nebulosos, tanto com relação à sua vida como à sua obra vêm sendo objeto de indagações de filólogos, historiadores e de historiadores de literatura que, ao lado dos teóricos e dos críticos que abordam sua poesia, realizam um amplo trabalho, cujos resultados surgem aos poucos e cujo término ainda demandará muitas décadas. É tratado neste livro, portanto, sem discriminação nem deferência, como um escritor, um poeta cuja obra desde há muito tempo temos lido e estudado, e na qual encontramos uma grande unidade formal, devida, segundo cremos, à unidade de autoria. Não um poeta "genial", como querem alguns patrícios anteriormente a qualquer análise, mas um muito bom poeta, que produziu textos excelentes em mais de um gênero, mas que também produziu alguns textos apenas razoáveis e outros simplesmente ruins, como qualquer outro bom poeta. Entendidos estes pressupostos, podemos tentar explicar a organização da matéria no livro e apresentar alguns conceitos operatórios. O livro se desmembra em oito partes que representam a própria seqüência do estudo. Nesta primeira parte colocamos as questões fundamentais, fazemos algumas reflexões, fixamos objeto e objetivos e adiantamos alguns posicionamentos que serão assumidos ao longo da obra. A partir da segunda parte começa o trabalho propriamente dito com o enfrentamento da questão do textos ou dos textos de Gregório, e daí em diante tentamos fornecer ao leitor, não apenas ao leitor entendido e especializado, os resultados de nossas indagações e análises de dados. Na última parte, fazemos um balanço dos resultados obtidos e levantamos as perspectivas para a continuidade da pesquisa. Não somente no estudo de Gregório, mas no da grande maioria dos poetas brasileiros, é inevitável começar qualquer pesquisa pela questão das edições. A experiência do estudo dos poetas românticos nos tem ensinado que poucas são as edições confiáveis de que dispomos. Parece haver entre nós uma tradição de menosprezo pela exatidão e fidelidade dos textos que se publicam, particularmente dos poetas mais antigos. Muitas edições se intitulam "críticas", mas pouquíssimas merecem o nome, em função dos defeitos primários que carregam: cochilos, empastelamentos, gralhas de toda ordem, quando não intromissões abusivas dos editores sob a forma de "correções" nos textos dos poetas. No caso de Gregório, parece que todos estes problemas se encontram e conjuram para inviabilizar o trabalho do pesquisador, pois mesmo as edições mais recentes, nascidas de dificultoso trabalho de interpretação das duas dezenas de apógrafos até aqui encontrados, não primam pela perfeição formal. O remédio, que já tínhamos usado ao estudar os poetas românticos, foi cotejar as edições de Gregório de Matos consideradas "melhores", tarefa que, apesar de penosa, trouxe algumas revelações importantes comentadas em "Profusão e confusão textual". Somente depois de ultrapassar a barreira das edições foi possível iniciar o trabalho propriamente dito na terceira parte, intitulada "O poeta em seu ofício", cujo objeto é a prática versificatório de Gregório e cujo objetivo a análise e a descrição de seu código formal, dos seus procedimentos, das formas poemáticas, estróficas e vérsicas que adota. Nesta parte, procuramos dar conta dos fundamentos de sua técnica de versejar. A este respeito, um ponto que merece reparos preliminares é o da descrição dos procedimentos técnicos do poeta na elaboração de seus versos. Os manuais de versificação antigos emprestaram dos estudos de Fonética Histórica toda a terminologia dos metaplasmos para descrever as manobras dos poetas na elaboração de seus versos: prótese, epêntese, paragoge, aférese, síncope, apócope, hiperbibasmo... Com isso, elaboraram uma suspeitíssima teoria das "licenças" ou "liberdades" poéticas, segundo a qual é permitido aos poetas, e só aos poetas, eliminar ou acrescentar sílabas às palavras, mudar-lhes a posição das tônicas, transformar ditongos em hiatos ou hiatos em ditongos, etc. No estudo sobre os procedimentos formais de Gregório desprezamos tais idéias, por superadas, e limitamos a terminologia ao mínimo necessário, partindo do pressuposto de que o poeta não interfere na língua, mas simplesmente trabalha com variantes de pronúncia que a língua lhe fornece. A habilidade, no caso, não consiste em acrescer ou cortar, mas em saber servir-se das inúmeras variantes que a língua de cada época, bem como a própria tradição da linguagem poética apresentam. Gregório, a esse respeito, revela domínio pleno, freqüentemente superando a dimensão eminentemente técnica dos procedimentos, tornando-os parte de manobras expressivas exemplares. Vale lembrar, para acompanhar melhor a quarta parte ("Os metros do Boca"), que a contagem dos versos vigentes no tempo de Gregório era a de padrão grave, até hoje usual nas versificações italiana e espanhola: o que chamamos hoje "verso decassílabo" era no tempo do poeta denominado "hendecassílabo", porque a contagem levava em consideração sistematicamente uma sílaba além da última forte de cada verso. Por uma questão de atualidade, no entanto, descrevemos os versos do poeta segundo o padrão agudo de contagem, também chamado "contagem francesa", que denomina os versos com base no cômputo até a última sílaba acentuada, desprezando as excedentes. Instaurada nas versificações portuguesa e brasileira a partir da publicação do Tratado de Metrificação Portuguesa de Antonio Feliciano de Castilho,[2] publicado em 1850, a contagem de padrão agudo logo atraiu todos os estudiosos e, com o tempo, fez com que a de padrão grave fosse completamente esquecida. Apesar de tentativas esporádicas como a de Said Ali pelo retorno ao padrão grave,[3] a contagem de padrão agudo constitui o quadro de referência de quase todos os estudos de versificação que se realizam no Brasil e em Portugal. A descrição dos versos de Gregório e dos demais poetas da fase colonial de nossa literatura esbarra, porém, em detalhes que a simples denominação dos versos segundo o sistema de contagem não consegue dar conta. Isto é particularmente verdadeiro no que diz respeito aos versos "quebrados" (versos menores que se combinam em muitas estrofes com versos maiores, porque considerados metade ou fração destes). O quebrado de redondilho maior, heptassilábico, por exemplo, na época e na poesia de Gregório, pode ser indiferentemente um trissílabo ou um tetrassílabo: a diferença de uma sílaba é compensada pelo relacionamento entre o quebrado e o verso maior. O menor, deste modo, não pode ser descrito segundo o sistema de contagem. O mesmo ocorre com outos versos quebrados, que, por essa razão, serão mencionados no livro segundo o tipo estrófico de que participam, e não pelo sistema de mensuração. "No armazém dos sistemas estróficos", quinta parte, é dedicada à verificação das estrofes e sistemas estróficos adotados pelo poeta em sua obra. É preciso ter em mente que, na época, além do acervo de formas que podemos chamar ibéricas ou peninsulares, as literaturas portuguesa e espanhola experimentavam forte influxo, iniciado no classicismo renascentista, da poética italiana, cujas formas típicas, como o verso decassílabo, o soneto, a oitava-rima, entre outras, eram abundantemente cultivadas. Gregório, deste modo, ao longo de sua obra, teve esse vasto painel para escolher suas formas estróficas e poemáticas. Estas últimas são estudadas em "As formas poemáticas: O Boca e suas ferramentas", parte em que acreditamos haver feito algumas observações interessantes sobre as preferências e o próprio estilo do Boca do Inferno, dados que, ao lado de outros, poderão ser bastante reveladores para a identificação futura de textos cuja autoria hoje é discutível. Em "As formas sob as formas: ritmos, sons, figuras" fazemos uma primeira e cautelosa abordagem dos aspectos rítmicos, melódicos e fônicos da poesia gregoriana. Primeira, porque seira um tanto ingênuo acreditar que a matéria gregoriana, nesse plano, se esgote de um só golpe. Cautelosa, porque é realmente difícil discernir, no atual estágio de conhecimentos sobre o poeta, o que é rigorosamente de seu estilo individual do que pertence ao estilo de época. Há ainda necessidade de muitos estudos comparativos da obra de Gregório com a de outros poetas brasileiros, portugueses e espanhóis, da mesma época ou de épocas precedentes para poder atingir um nível razoável de segurança na valoração dos procedimentos estilísticos do Boca do Inferno. É neste exato sentido que, no início, nos referimos à absoluta objetividade e neutralidade que se deve ter na abordagem da poesia de Gregório: atacá-lo ou defendê-lo, sem base em profundo conhecimento de obras de outros autores da época e contrastes minuciosos com sua obra, são atitudes igualmente ingênuas e inconseqüentes, que não fazem avançar a pesquisa a respeito do problema "Gregório de Matos". A bibliografia sobre Gregório incorpora alguns artigos e livros cujos autores se perderam no próprio ponto de vista fechado e particularíssimo. Nosso objetivo, neste livro, por isso, foi o de escapar desse perigo de isolamento, produzindo um trabalho que em cada linha esteja em diálogo permanente com estudos que se fizeram ou venham a fazer, de Métrica ou de qualquer outro aspecto, sobre Gregório. Devido a este imperativo foi que abrimos na última parte uma "janela" para tais estudos e estudiosos: saindo do domínio estrito da Teoria do Verso, procuramos criar uma interface, ingressando no problema da intertextualidade, a partir das observações feitas ao longo das análises métricas e rítmicas dos poemas do Boca do Inferno. Essa interface, diga-se de passagem, não tentou ser um edifício original nem completo, mas, como afirmamos, uma simples "janela para". Ao abri-la, embora tenhamos levado em consideração estudos importantes sobre o mesmo tema, com toda a probabilidade deixamos de comentar artigos, livros e teses que não pudemos ter acesso e que talvez tenham trazido já razoável contributo à pesquisa sobre o Boca do Inferno. O objetivo principal foi, de fato, iniciar um diálogo que poderá servir de estímulo para o início de uma nova fase no estudo da poesia de Gregório de Matos: talvez a constituição de um grande grupo de pesquisa dos inúmeros problemas que o Boca do Inferno nos legou. Isto porque o estudo de Gregório, segundo acreditamos, não pode mais continuar dependendo de iniciativas individuais, por mais competentes que sejam, mas deve tornar-se, por necessidade, tarefa coletiva. A velha imagem dos cupins que cavam túneis solitários num tronco é bastante ilustrativa da pesquisa que até aqui se fez sobre Gregório: talvez tenha chegado o momento de uma chamada geral. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALVES, C. Laurindo Rabelo. In: LAURINDO JOSÉ DA SILVA RABELO. Obras completas. São Paulo: Cia. Ed. Nacional, 1946, p.197-9. AMADO, J. Notas à margem da editoração do texto.In: GREGÓRIO DE MATOS. Obras completas. 7 v. Bahia:Janaína, 1969, p.XII-XXVII. _______. In: GREGÓRIO DE MATOS. Obra poética. 2 v. Rio de Janeiro: Record, 1990. v. 2, p. 1279-82. ARARIPE JR. Obra crítica (188-1894). Rio de Janeiro: MEC - Casa de Rui Barbosa, 1960, p. 383-490. AZEVEDO FILHO, L. A. de. Anchieta, A Idade Média e o Barroco. Rio de Janeiro, Gernasa, 1966. BAHER, R. Manual de Verfisicación espanola. [Spanische verslehre auf historischer grundlage]. Tradução e adaptação de K. Wagner e F. López Estrada. Madrid: Gredos, 1970. BLUTEAU, R. Vocabulário portuguez e latino. Coimbra: Collegio das Artes da Companhia de Jesus, 1713. v. 2 (B-C) _______. v. 7 (Q-S) Lisboa: Oficina de Pascoal da Sylva, 1720. CAMPOS, A de. Da América que existe: Gregório de Matos. In: GREGÓRIO DE MATOS. Obra poética. 2. ed. Rio de Janeiro: Record, 1990. v. 2, p. 1 292-305. CASTELLO, J. A. O movimento academicista no Brasil. v. I, t. 1. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 1969. v. I, t. 3, 1970; v. I, t. 4, 1971; v. III, t. 2, 1975; v. I, t. 6, 1978. CASTILHO, A. F. de. Tratado de metrificação portuguesa. 2. v. 5. ed. Lisboa: Empresa da História de Portugal, 1905. CHOCIAY, R. Teoria do verso. São Paulo:McGraw-Hill, 1974. _______. Gregório e Emiliano: variações sobre uma fórmula métrica. Construtura, Curitiba, n. 2, p. 33-44, 1975. _______. O verso colonial: métrica de Anchieta. Rhythmus. São José do Rio Preto, UNESP, n. 15, p. 1-36, 1991. _______. Três vertentes métricas na poesia de Manuel Botelho de Oliveira. Revista de letras, São Paulo, n. 32, p. 207-21, 1992. COHEN, J. Estructura del lenguaje poético. Structure du langage poétique]. Versão espanhola de Martín Blanco Álvares. Madrid: Gredos, 1970. ECHARRI, E. D. Teorías métricas del Siglo de Oro. Madrid, Revista de Filología Española, 1970. ELWERT, W. Th. Versificazione italiana dalle origini al giorni nostri. Firenze: Felice le Mounier, 1983. FALCOSKI, M. de L. G. Gregório de Matos e a poesia sacro-moral de Quevedo. São José do Rio Preto, 1983. Dissertação (Mestrado) - Departamento de Letras Modernas - Universidade Estadual Paulista. FREI CANECA, Joaquim do Amor Divino. Gramática portuguesa - Tratado de eloqüência. Nova edição. Prefácio de Pedro Calmon. Rio de Janeiro: Oficinas Gráficas do Colégio Pedro II, 1972. GOMES, J. C. T. Gregório de Matos, o Boca de Brasa: um estudo de plágio e criação intertextual. Petrópolis: Vozes, 1985. GÔNGORA, L. de. Obras completas. Madrid: Aguilar, 1951. GREGÓRIO DE MATOS. Obras de Gregório de Matos. 6 v. Texto estabelecido por Afrânio Peixoto. Rio de Janeiro, Academia Brasileira de Letras, 1922-33 [v. 1, Sacra, 1922; v. 2, Lírica, 1923; v. 3, Graciosa, 1930; v. 4, t. 1, Satírica, 1930; v. 4, t. 1, Satírica, 1930; v. 6, Última, 1933]. _______. Obras completas. 2. ed. 2 v. São Paulo: Edições Cultura, 1945. _______. Obras completas. 7 v. Texto estabelecido por James Amado; texto final e mapeamento dos apógrafos por James Amado e Maria da Conceição Paranhos; atualização ortográfica por Miécio Táti. Salvador: Janaína, 1969. _______. Obra poética. 2 v. 2. ed. Texto estabelecido por James Amado; preparação e notas de Emanuel Araújo; atualização ortográfica de Miécio Táti. Rio de Janeiro: Record, 1990. _______. Poemas escolhidos. 5. ed. Seleção, introdução e notas de José Miguel Wisnik. São Paulo: Cultrix, 1992. GUÉRIOS, R. F. M. Dicionário etimológico de nomes e sobrenomes. 2. ed. São Paulo: Ed. Ave-Maria, 1973. HANSEN, J. A. A sátira e o engenho: Gregório de Matos e a Bahia no século XVII. São Paulo: Companhia das Letras, 1989. HELENA, L. Gregório de Matos: muito riso, pouco siso. Linguagem. Revista do Instituto de Letras, UFF, Rio de Janeiro, v. 2, n. 2, p. 43-63, jul-dez, 1979. HONORATO, M. da C. Compêndio de rhetorica e de poetica. 4. ed. Rio de Janeiro: [s.n.], 1989. HOUAISS, A. Tradição e problemática de Gregório de Matos. In: GREGÓRIO DE MATOS. Obra poética. 2 v., 2. ed. Rio de Janeiro: Record, 1990. p. 1273-8. JULIO, S. Gregório de Matos, In: Penhascos.Rio de Janeiro: Calvino Filho Editor, 1933. p. 245-9. _______. Os plágios de Gregório de Matos. In:Reações na Literatura Brasileira. Rio de Janeiro: Livraria H. Antunes, 1938. p. 98-137. LAET, C. de. sonetos futuristas. In: MAGALH[[Atilde]]ES JR., R. Antologia de humorismo e sátira. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1957. p. 114-5. LAUSBERG, H. Manual e retórica literária. 3 v. [Handbuch der literarischen rhetorik]. Versão espanhola de José Pérez Riesco. Madrid: Gredos, 1967. LE GENTIL, P. La poésie lyrique espagnole et portugaise a la fin du Moyen Âge. Paris: Plihon, 1952. v. 2. LUIS DE CAM[[Otilde]]ES, Os Lusíadas. Edição fac-similar. In: A. G. DA CUNHA. Índice analítico do vocabulário de Os Lusíadas. 3 v. Rio de Janeiro: I.N.L., 1966. v. 1. _______. Lírica. Introdução e notas de Aires da Mata Machado Filho. São Paulo: Itatiaia-Edusp, 1982. MARTINS, H. A música do Mari-Zápalos. Minas Gerais, Belo Horizonte, 7 abr. 1990. Suplemento Literário, p. 4-5. MARTINS, W. Gregório, o pitoresco. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 21 mar. 1970. Suplemento Literário, p. 4. NÓBREGA, M. Rima e poesia. Rio de Janeiro: I.N.L., 1965. OLIVEIRA, M. B. de. Lyra sacra. Leitura paleográfica de Heitor Martins. São Paulo: Comissão Estadual de Literatura, 1971. PEREIRA, K. M. de. A. Prosopopéia: poema de resistência. São José do Rio Preto, 1992. Dissertação (Mestrado) - Departamento de Letras Vernáculas, Universidade Estadual Paulista. PINHO, W. A família de Gregório de Matos. In: GREGÓRIO DE MATOS. Obra poética. 2. ed., 2 v. Rio de Janeiro: Record, 1992. v. 2, p. 1 722-4. QUEVEDO, F. de. Obras completas. Edição crítica. Madrid: Aguilar, 1952. QUÍLIS, A. Estructura del encabalgamiento en la métrica española. Madrid: Revista de Filología Española, 1964. RAMOS, P. E. da S. O verso romântico e outros ensaios. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 1959. RIBEIRO, J. O Fabordão. 2 ed. Rio de Janeiro: Livraria São José, 1964. RÓNAI, P. Um enigma de nossa história literária: Gregório de Matos. Revista do Livro, n. 3-4, p. 55-66, dez. 1956. SAID ALI, M. Versificação portuguesa. Rio de Janeiro: I.N.L., 1949. SAINZ DE ROBLES, F. C. Ensayo de um diccionario de la literatura. 2 v., 2. ed. Madrid: Aguilar, 1965. SANTA RITA DUR[[Atilde]]O, Fr. J. de. Caramuru - poema épico do descobrimento da Bahia. 4. ed. Rio de Janeiro: Garnier, 1878. SILVA, F. D. da. Grammatica portugueza. 9. ed. São Paulo: Typographia Augusto Siqueira, 1906. SIQUEIRA, S. A. O cristão-novo Bento Teixeira: criptojudaísmo no Brasil Colônia. Revista de História, São Paulo, v. XLIV, n. 90, p. 395-467, s.d. SPINA, S. Manual de versificação românica medieval. Rio de Janeiro: Gernasa, 1971. TEIXEIRA, B. Prosopopéia. 8. ed. Introdução, estabelecimento do texto e notas por Celso Cunha e Carlos Durval. São Paulo: Melhoramentos, 1977. TOMÁS, T. N. Métrica española. 3. ed. Madrid: Guadarrama, 1972. TORRES, A. de A. Moderna grammática portuguesa. 17. ed. Rio de Janeiro: Fundo de Cultura, 1965. UREÑA, P. H. La versificación irregular en la poesía castellana. 2. ed. Madrid: Revista de Filología Espanõla, 1933. VARNHAGEN, F. A. de. Florilégio da poesia brasileira. 3. v. Reedição da Academia Brasileira de Letras. Rio de Janeiro: A.B.L., 1946. WISNIK, J. M. Introdução e notas. In: GREGÓRIO DE MATOS. Poemas escolhidos. 5. ed. São Paulo: Cultrix, 1992. 1 Em trabalho recente ("Bento Teixeira & Camões: o verso no verso", Revista de Letras, São Paulo, UNESP, n. 31, p. 17-31, 1991) demonstramos que a métrica de Bento situa-se no mesmo nível de habilidade da camoniama. Um artigo de Sonia Aparecida Siqueira ("O cristão-novo Bento Teixeira: criptojudaísmo no Brasil Colônia", Revista de História, USP, São Paulo, n. 90, XLIV, p. 395-467, abr/jun, 1972) e a dissertação de Kenia Maria de Almeida Pereira (Prosopopéia: poema de resistência, São José do Rio Preto: 1992, UNESP) sugerem que a Prosopopéia não é o poema medíocre que a história tem apontando, mas uma hábil manifestação de fé judaica com que Bento Teixeira conseguiu burlar a Inquisição. 2 Na verdade, não foi Castilho o primeiro a defender a adoção da contagem de padrão agudo, mas Miguel do Couto Guerreiro, que em 1784 publicou seu Tratado de Versificação Portugueza, em que propõe e pratica tal sistema. 3 Said Ali publicou, em 1949, o livro Versificação Portuguesa, em que pratica a contagem de padrão grave, que considera mais adequada à índole de nosso idioma. Seu exemplo, todavia, teve poucas repercussões.