Soares Feitosa Tentação Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso. Não sereis censurados por fazer às mulheres propostas de casamento, nem por as desejar nos segredos de vossas almas. Deus sabe que não as podeis esquecer. Mas não procureis encontrar-vos com elas às escondidas. E se o fizerdes, dirige-lhes palavras honradas. (Alcorão: Surat 2, fragmento do Ayot 235; tradução de Mansour Challita) O Cristo, Deus Único e Unigênito, o Messias: Eu, porém vos digo: todo aquele que olha para uma mulher com desejo libidinoso já cometeu adultério em seu coração. (pela sagrada boca do evangelista , Mateus; 5:28) ¿pois que digo entre coisas ? Não nos deixeis cair: mas livrai-nos do mal, sed libera nos a malo, malo-bene, bene-malo, nem sei distinguir direito; não, não poderei, o fardo, embebido em vinagre, o fardo, ou em mel, ainda mais pesado, em mel; não, nos segredos, em sollo, solista, não tenho tantas forças, nunca poderemos: caídos somos árvore e serpente. Rastreador porém, procuro e guardo: um olhar por dentre os silêncios, um som (da casa) por dentre as imagens da casa: colheres, talheres, tevê ao vazio, copos, a rua também, o latido do cachorro porteiro, o tilintar do gelo, a bicada destinada ao Santo, a relva dos jardins, a hera dos muros, nuvens, janelas, gargalos; o som o som geral do tempo, do jarro-de-flor com suas abelhas; fazem um café, sabe o ar de um café e de um coador: tud'é som, tud'é canto: Canto de Guardar, Canto de Cantar. Ela, sei, exato, restaria, dentro das paredes, emparedada, seriam ocas aquelas paredes, estaria eu deixando de olhar, de bater, de leve, sobre o reboco, de encostar o ouvido para auscultar, deixando de medir, de pesar e de contar, mane, mane, tessel, parsin; onde, onde poderia estar, dividida, escondida, encantada, onde ? Terei contado certo todas as contas, pesado íntegro todos os pesos dividido igual todos os espaços, inventariado justo todos os sítios e naquele sítio, à direita e à esquerda todos os viventes, não estaria faltando algum ? Desconfiemos, sempre desconfiemos: divididos e caídos somos e a pedra submersa. ¿ Para que servem as portas de dentro da casa ? ¿ Para saber do sol não basta simples réstia ? Era uma vez uma porta e uma réstia, a porta talvez fechada, talvez aberta, semi-aberta, com certeza, era a porta semi-aberta e pairava naquele lugar onde nascem todas as portas, portal, donde saía das dobradiças, onde, três são-lhe fixadas entre a folha levadiça e o barrote também chamado forra. É ali que se abre o axial do movimento, pois bem, ali mesmo, ao movimento gonzos, borboletas, maçanetas, ao vai-e-vem, da porta momentaneamente parada a porta, dizem naquele lugar também se quebram nozes, Natal... Era Natal; abria-se uma pequena réstia, ali, por onde não passaria ninguém de tão estreita, a réstia; poderia passar talvez uma lâmina, se fina fosse a lâmina, direto ao coração passaria, passariam também, com naturalidade, sem nenhum esforço, como de fato passaram meus olhos, meus ouvidos procuravam e não podiam ferir; receberam de volta: o som dos teus olhos, a réstia do teu hálito, amor ! Ao silêncio, pois silêncio, como um tropel e tempestade: a sandália, o cabelo ! Que digo entre vozes, que faço entre coisas, como enroscar as pernas, as mãos, os olhos, olhar para onde, onde é o mar, o tempo, onde é o relógio do tempo ? Faz calor, talvez seja o frio: é tudo igual. O tempo, sempre o tempo. O tempo faz ! O sol, onde nasce o sol ? Sol, terremoto-mulher, leve brisa e os cabelos soltos, longo vagueio de um olhar distante, réstia geral de um cântico, perfume de um dorido aboio, posto que é assim mesmo, como num velho filme, as cenas, as mesmas: em mim, de mim, a tentação, o crepúsculo. Crepuscular, eis-me o cometa, o meteoro, a estrela rápida, o borbulho da fonte límpida, a noite azul ! Noite, noite azul, dormir, como poderei ? os deuses atentam, me põem à prova, zombam, zombam implacavelmente me ameaçam, me escorraçam. Outra vez, como das outras vezes, o feroz leopardo me invade o Templo, bebe o conteúdo, amável conteúdo, do cálice sacrificial... Já era esperado, sempre surge, sempre ruge, a fera, de tanto vir, de sempre vir, pode-se concluir, faz parte do ritual: Seria, agora, outra vez, no Templo, o mesmo festim, outra vez os mesmos deuses me entornam e me encoivaram sobre a mesma pedra, me arrancam as entranhas, e a faca, onde o néctar e o espinho, outra vez... outra ? Naquela vez, fora Emília, uma avezinha, tão alvinha, tão branquinha, às alboradas, vestia em preto, luto, e o contraste - sol de meia-noite - nem voar direito sabia... Ela, Emília, a sobrinha, os periquitos, os golinhas, as rolinhas, quando os campinas trinavam vermelhos, aos céus da tarde rubra, quando Avenida do São João, Igreja do Menino-Deus, dos benjamins e uma pracinha; dona Ritinha, era uma vez uma tia, desd'onde era uma vez um hotel, Hotel dos Viajantes, onde era uma vez Sobral e todas as mulheres: cantavam, cantávamos: o canto de guardar, o canto de cantar. Guardei todos os pássaros: No azul da noite azul. salvador, noite alta, 30.12.94. * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * notas para Tentação: ================ 1. - que digo entre coisas: variante de um tema do poeta brasileiro, Ferreira Gullar, in Galo Galo. 2. - não nos deixeis cair: estrofes finais do Padre Nosso: Não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal (sed libera nos a malo). Mat. 6:13 3. - vinagre ou mel: vinagre, densidade < 1,0; mel, densidade > 1,0 4. - Canto: a) - de guardar grego, kanthós, lugar onde as linhas se encontram, o ângulo; encontro das paredes; b) - de cantar - lat. canthus, cantare: canto, (som) cantar 5. - mane, tessel, parsin - em meio de um festim de Baltasar, rei da Babilônia, uma mão invisível escreveu essas palavras que ninguém sabia o que significavam. Daniel as decifrou:: medido, pesado e dividido, e na mesma noite, o rei Baltasar foi assassinado e Dario tomou o poder.. Daniel 5:25. 6. - medidas e pesos justos: Deuteronômio, 25:13/15 7. - Leopardo: variação sobre o Aforismo 17, in Reflexões sobre a Dor, Franz Kafka. 8. - pedra sacrificial: ritual dos sacrifícios humanos, América pré-colombiana. 9. - Golinha: parecido com o bigodeiro ou bigodinho, bom de canto. Campina, galo-de-campina, o mesmo que cabeça-vermelha, cardeal. * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *