Gregório de Matos Biografia Poeta barroco brasileiro, nasceu em Salvador/BA, em 20/12/1636 e morreu em Recife/PE em 1696. Foi contemporâneo do Pe. Antônio Vieira. Amado e odiado, é conhecido por muitos como "Boca do Inferno", em função de suas poesias satíricas, muitas vezes trabalhando o chulo em violentos ataques pessoais. Influenciado pela estética, estilo e sintaxe de Gôngora e Quevedo, é considerado o verdadeiro iniciador da literatura brasileira. De família abastada (seu pai era proprietário de engenhos), pôde estudar com os jesuítas em Salvador. Em 1650, com 14 anos, abala para Portugal, formando-se em Direito pela Universidade de Coimbra em 1661. É nomeado juiz-de-fora em Alcácer do Sal (Alentejo) em 1663. Em 1672 torna-se procurador de Salvador junto à administração lisboeta. Volta ao Brasil pouco depois de 1678. Quarentão e viúvo, tenta acomodar-se novamente na sociedade brasileira, tarefa impossível. Apesar de investido em funções religiosas, não perdoa o clero nem o governador-geral (apelidado "Braço de Prata" por causa de sua prótese) com seu sarcasmo. Mulherengo, boêmio, irreverente, iconoclasta e possuidor de um legendário entusiasmo pelas mulatas, pôs muita autoridade civil e religiosa em má situação, ridicularizando-as de forma impiedosa. Provocando a ira de um parente próximo do governador-geral do Brasil, foi embarcado à força para Angola (1694), pois corria risco de vida. Na África, curte a dor do desterro, espanta-se diante dos animais ferozes, intriga-se com a natureza, dá vazão ao seu racismo e se arrisca à perda da identidade. Sua chegada à Luanda coincide com uma crise econômica e com uma revolta da soldadesca portuguesa local. Gregório interferiu, pacificou o motim, acalmou (ou traiu?) os revoltosos e, como prêmio, voltou para o Brasil, para o Recife, onde terminaria seus dias. Sua obra poética apresenta duas vertentes: uma satírica (pela qual é mais conhecido) que, não raro, apresenta aspectos eróticos e pornográficos; outra lírica, de fundo religioso e moral. Ao contrário de Vieira, Gregório não se envolveu com questões magnas, afetas à condução da política em curso: não lhe interessavam os índios, mas as mulatas; não o aborreciam os holandeses, mas os portugueses; não cultivou a política, mas a boêmia; não "fixou a sintaxe vernácula", mas engordou o léxico; não transitou pelas cortes européias, mas vagabundeou pelo Recôncavo. É uma espécie de poeta maldito, sempre ágil na provocação, mas nem por isso indiferente à paixão humana ou religiosa, à natureza, à reflexão e, dado importante, às virtualidades poéticas duma língua européia recém-transplantada para os trópicos. Ridicularizando políticos e religiosos, zombando da empáfia dos mulatos, assediando freiras e mulatas, ou manejando um vocabulário acessível e popular, o poeta baiano abrasileirou o barroco importado: seus versos são um melting pot poético, espelho fiel de um país que se formava. Finalmente, o que muitos não devem saber é que Gregório também é considerado antecedente do nosso cancioneiro, pois fazia "versos à lira", apoiando-se em violas de arame para compor solfas e lundus. O lundu, criado nas ruas, tinha ritmo agitado e sincopado, e melodia simples com resquícios modais, sendo basicamente negro. Do lundu vieram o chorinho, o samba, o baião, as marchinhas e os gêneros de caráter ritmado e irreverente. Gregório de Matos Anjo Bento Destes que campam no mundo Sem ter engenho profundo E, entre gabos dos amigos, Os vemos em papafigos Sem tempestade, nem vento: Anjo Bento! De quem com letras secretas Tudo o que alcança é por tretas, Baculejando sem pejo, Por matar o seu desejo, Desde a manhã té à tarde: Deus me guarde! Do que passeia farfante, Muito prezado de amante, Por fora luvas, galões, Insígnias, armas, bastões, Por dentro pão bolorento: Anjo Bento! Destes beatos fingidos, Cabisbaixos, encolhidos, Por dentro fatais maganos, Sendo nas caras uns Janos: Que fazem do vício alarde: Deus me guarde! Que vejamos teso andar Quem mal sabe engatinhar, Muito inteiro e presumido, Ficando o outro abatido Com maior merecimento: Anjo Bento! Destes avaros mofinos, Que põem na mesa pepinos, De toda a iguaria isenta, Com seu limão e pimenta, Porque diz que o queima e arde: Deus me guarde! Gregório de Matos Senhora Dona Bahia "Ninguém vê, ninguém fala, nem impugna, e é que, quem o dinheiro nos arranca, nos arranca as mãos, a língua, os olhos." "Esta mãe universal, esta célebre Bahia, que a seus peitos toma, e cria, os que enjeita Portugal" "Cansado de vos pregar cultíssimas profecias, quero das culteranias hoje o hábito enforcar: de que serve arrebentar por quem de mim não tem mágoa? verdades direi como água porque todos entendais, os ladinos e os boçais, a Musa praguejadora. Entendeis-me agora?" Gregório de Matos Descrevo que era Realmente Naquele Tempo a Cidade da Bahia A cada canto um grande conselheiro, que nos quer governar cabana, e vinha, não sabem governar sua cozinha, e podem governar o mundo inteiro. Em cada porta um freqüentado olheiro, que a vida do vizinho, e da vizinha pesquisa, escuta, espreita, e esquadrinha, para a levar à Praça, e ao Terreiro. Muitos mulatos desavergonhados, trazidos pelos pés os homens nobres, posta nas palmas toda a picardia. Estupendas usuras nos mercados, todos, os que não furtam, muito pobres, e eis aqui a cidade da Bahia. Gregório de Matos Finge que Defende a Honra da Cidade e Aponto os Vícios de Seus Moradores Uma cidade tão nobre, uma gente tão honrada veja-se um dia louvada desde o mais rico ao mais pobre: cada pessoa o seu cobre, mas se o diabo me atiça, que indo a fazer-lhe justiça algum saia a justiçar, não me poderão negar que por direito, e por Lei esta é a justiça, que manda El-Rei O Fidalgo de solar se dá por envergonhado de um tostão pedir prestado para o ventre sustentar: diz que antes o quer furtar por manter a negra honra, que passar pela desonra de que lhe neguem talvez; mas se o virdes nas galés com honras de Vice-Rei, esta é a justiça, que manda El-Rei A Donzela embiocada mal trajada, e mal comida, antes quer na sua vida ter saia, que ser honrada: à pública amancebada por manter a negra honrinha, e se lho sabe a vizinha e lho ouve a clerezia, dão com ela na enxovia e paga a pena da lei: esta é a justiça, que manda El-Rei. A Casada com adorno, e o Marido mal vestido, crede que este tal Marido penteia monho de corno: se disser pelo contorno que se sofre a Frei Tomás por manter a honra o faz, esperai pela pancada, que com carocha pintada de Angola há de ser Visrei: esta é a justiça, que manda El-Rei. Os Letrados Peralvilhos citando o mesmo Doutor a fazer de réu o Autor comem de ambos os carrinhos: se se diz pelos corrilhos sua prevaricação, a desculpa, que lhe dão, é a honra de seus parentes e entonces os requerentes fogem desta infame grei: esta é a justiça, que manda El-Rei. O Clérigo julgador, que as causas julga sem pejo, não reparando que eu vejo que erra a Lei, e erra o Doutor: quando vêem de Monsenhor a sentença revogada por saber que foi comprada pelo jimbo, ou pelo abraço, responde o Juiz madraço, minha honra é minha Lei: esta é a justiça, que manda El-Rei. O Mercador avarento, quando a sua compra estende, no que compra, e no que vende, tira duzentos por cento: não é ele tão jumento, que não saiba que em Lisboa se lhe há de dar na gamboa; mas comido já o dinheiro diz que a honra está primeiro, e que honrado a toda Lei: esta é justiça, que manda El-Rei. A Viúva autorizada, que não possui um vintém, porque o Marido de bem deixou a casa empenhada: ali vai a fradalhada, qual formiga em correição, dizendo que à casa vão manter a honra da casa; se a virdes arder em brasa, que ardeu a honra entendei: esta é a justiça, que manda El-Rei. O Adônis da manhã, o Cupido em todo dia, que anda correndo a coxia com recadinhos da Irmã: e se lhe cortam a lã, diz que anda naquele andar por a honra conservar bem tratado, e bem vestido, eu o verei tão despido, que até as costas lhe verei: esta é a justiça, que manda El-Rei. Se virdes um Dom Abade sobre o púlpito cioso, não lhe chameis religioso, chamai-lhe embora de frade: e se o tal paternidade rouba as rendas do convento para acudir ao sustento da puta, como da peita, com que livra da suspeita do Geral, do Viso-Rei: esta é a justiça, que manda El-Rei. Gregório de Matos Define a Sua Cidade De dois ff se compõe esta cidade a meu ver: um furtar, outro foder. Recopilou-se o direito, e quem o recopilou com dous ff o explicou por estar feito, e bem feito: por bem digesto, e colheito só com dous ff o expõe, e assim quem os olhos põe no trato, que aqui se encerra, há de dizer que esta terra de dous ff se compõe. Se de dous ff composta está a nossa Bahia, errada a ortografia, a grande dano está posta: eu quero fazer aposta e quero um tostão perder, que isso a há de perverter, se o furtar e o foder bem não são os ff que tem esta cidade ao meu ver. Provo a conjetura já, prontamente como um brinco: Bahia tem letras cinco que são B-A-H-I-A: logo ninguém me dirá que dous ff chega a ter, pois nenhum contém sequer, salvo se em boa verdade são os ff da cidade um furtar, outro foder. Gregório de Matos reverente em vo Gregório de Matos Ao Mesmo Assumpto e na Mesma Occasião Pequei, Senhor, mas não porque hei pecado, Da vossa piedade me despido, Porque quanto mais tenho delinqüido, Vos tenho a perdoar mais empenhado. Se basta a vos irar tanto um pecado, A abrandar-vos sobeja um só gemido, Que a mesma culpa, que vos há ofendido, Vos tem para o perdão lisonjeado. Se uma ovelha perdida, e já cobrada Glória tal, e prazer tão repentino vos deu, como afirmais na Sacra História: Eu sou, Senhor, a ovelha desgarrada Cobrai-a, e não queirais, Pastor divino, Perder na vossa ovelha a vossa glória. Gregório de Matos Ao Braço do Mesmo Menino Jesus Quando Appareceo O todo sem a parte não é todo, A parte sem o todo não é parte, Mas se a parte o faz todo, sendo parte, Não se diga, que é parte, sendo todo. Em todo o Sacramento está Deus todo, E todo assiste inteiro em qualquer parte, E feito em partes todo em toda a parte, Em qualquer parte sempre fica o todo. O braço de Jesus não seja parte, Pois que feito Jesus em partes todo, Assiste cada parte em sua parte. Não se sabendo parte deste todo, Um braço, que lhe acharam, sendo parte, Nos disse as partes todas deste todo. Gregório de Matos A Nosso Senhor Jesus Christo Com Actos de Arrependido e Suspiros de Amor Ofendi-vos, Meu Deus, bem é verdade, É verdade, meu Deus, que hei delinqüido, Delinqüido vos tenho, e ofendido, Ofendido vos tem minha maldade. Maldade, que encaminha à vaidade, Vaidade, que todo me há vencido; Vencido quero ver-me, e arrependido, Arrependido a tanta enormidade. Arrependido estou de coração, De coração vos busco, dai-me os braços, Abraços, que me rendem vossa luz. Luz, que claro me mostra a salvação, A salvação pertendo em tais abraços, Misericórdia, Amor, Jesus, Jesus. Gregório de Matos Ao Sanctissimo Sacramento Estando para Comungar Tremendo chego, meu Deus, Ante vossa divindade, que a fé é muito animosa, mas a culpa mui cobarde. À vossa mesa divina como poderei chegar-me, se é triaga da virtude, e veneno da maldade? Como comerei de um pão, que me dais, porque me salve? um pão, que a todos dá vida, e a mim temo, que me mate. Como não hei de ter medo de um pão, que é tão formidável vendo, que estais todo em tudo, e estais todo em qualquer parte? Quanto a que o sangue vos beba, isso não, e perdoai-me: como quem tanto vos ama, há de beber-vos o sangue? Beber o sangue do amigo é sinal de inimizade; pois como quereis, que o beba, para confirmarmos pazes? Senhor, eu não vos entendo; vossos preceitos são graves, vossos juízos são fundos, vossa idéia inescrutável. Eu confuso neste caso entre tais perplexidades de salvar-me, ou de perder-me, só sei, que importa salvar-me. Oh se me déreis tal graça, que tenho culpas a mares, me virá salvar na tábua de auxílios tão eficazes! É pois já à mesa cheguei, onde é força alimentar-me deste manjar, de que os Anjos fazem seus próprios manjares: Os Anjos, meu Deus, vos louvem, que os vossos arcanos sabem, e os Santos todos da glória, que, o que vos devem, vos paguem. Louve-vos minha rudeza, por mais que sois inefável, porque se os brutos vos louvam, será a rudeza bastante. Todos os brutos vos louvam, troncos, penhas, montes, vales, e pois vos louva o sensível, louve-vos o vegetável, Gregório de Matos A. S. Francisco Tomando o Poeta o Habito de Terceyro Ó magno serafim, que a Deus voaste Com asas de humildade, e paciência, E absorto já nessa divina essência Logras o eterno bem, a que aspiraste: Pois o caminho aberto nos deixaste, Para alcançar de Deus também clemência Na ordem singular de penitência Destes Filhos Terceiros, que criaste. A Filhos, como Pai, olha queridos, E intercede por nós, Francisco Santo, Para que te sigamos, e imitemos. E assim desse teu hábito vestidos Na terra blasonemos de bem tanto, E depois para o Céu juntos voemos. Gregório de Matos No Dia Em Que Fazia Anos No Dia Em Que Fazia Anos Esta Divina Beleza; Este Portento De Formosura Dona Angela, Por Quem o Poeta Se Considerava Amorosamente Perdido, e Quase Sem Remédio Pela Grande Impossibilidade De Poder Lograr Seus Amores: Celebra Obsequiosa, e Primorosamente Suas Florentes Primaveras Com Esta Lindíssima Canção. 1. Pois os prados, as aves, as flores ensinam amores, carinhos, e afetos: venham correndo aos anos felizes, que hoje festejo: Porque aplausos de amor, e fortuna celebrem atentos as aves canoras as flores fragrantes e os prados amenos. 2. Pois os dias, as horas, os anos alegres, e ufanos dilatam as eras; Venham depressa aos anos felizes, que Amor festeja. Porque aplausos de amor, e fortuna celebrem deveras os anos fecundos, os dias alegres, as horas serenas. 3. Pois o Céu, os Planetas, e Estrelas com Luzes tão belas auspiciam as vidas, venham luzidas aos anos felizes que Amor publica. Porque aplausos de amor, e fortuna celebrem um dia a esfera imóvel, os astros errantes, e as estrelas fixas. 4. Pois o fogo, água, terra, e os ventos são quatro elementos, que alentam a idade, venham achar-se aos anos felizes que hoje se aplaudem. Porque aplausos de amor, e fortuna celebrem constantes a terra florida, o fogo abrasado, o mar furioso, e as auras suaves. Gregório de Matos Rompe o Poeta Com a Primeira Impaciência Querendo Declarar-se e Temendo Perder Por Ousado. Anjo no nome, Angélica na cara, Isso é ser flor, e Anjo juntamente, Ser Angélica flor, e Anjo florente, Em quem, senão em vós se uniformara? Quem veria uma flor, que não a cortara De verde pé, de rama florescente? E quem um Anjo vira tão luzente, Que por seu Deus, o não idolatra? Se como Anjo sois dos meus altares, Fôreis o meu custódio, e minha guarda, Livrara eu de diabólicos azares. Mas vejo, que tão bela, e tão galharda, Posto que os Anjos nunca dão pesares, Sois Anjo, que me tenta, e não me guarda. Gregório de Matos Segunda Impaciência Do Poeta Cresce o desejo, falta o sofrimento, Sofrendo morro, morro desejando, Por uma, e outra parte estou penando Sem poder dar alívio a meu tormento. Se quero declarar meu pensamento, Está-me um gesto grave acobardando, E tenho por melhor morrer calando, Que fiar-me de um néscio atrevimento. Quem pretende alcançar, espera, e cala, Porque quem temerário se abalança, Muitas vezes o amor o desiguala. Pois se aquele, que espera se alcança, Quero ter por melhor morrer sem fala, Que falando, perder toda esperança. Gregório de Matos Buscando a Cristo A vós correndo vou, braços sagrados, Nessa cruz sacrossanta descobertos Que, para receber-me, estais abertos, E, por não castigar-me, estais cravados. A vós, divinos olhos, eclipsados De tanto sangue e lágrimas abertos, Pois, para perdoar-me, estais despertos, E, por não condenar-me, estais fechados. A vós, pregados pés, por não deixar-me, A vós, sangue vertido, para ungir-me, A vós, cabeça baixa, p'ra chamar-me A vós, lado patente, quero unir-me, A vós, cravos preciosos, quero atar-me, Para ficar unido, atado e firme. Gregório de Matos Soneto Carregado de mim ando no mundo, E o grande peso embarga-me as passadas, Que como ando por vias desusadas, Faço o peso crescer, e vou-me ao fundo. O remédio será seguir o imundo Caminho, onde dos mais vejo as pisadas, Que as bestas andam juntas mais ousadas, Do que anda só o engenho mais profundo. Não é fácil viver entre os insanos, Erra, quem presumir que sabe tudo, Se o atalho não soube dos seus danos. O prudente varão há de ser mudo, Que é melhor neste mundo, mar de enganos, Ser louco c'os demais, que só, sisudo. Gregório de Matos Soneto A uma dama dormindo junto a uma fonte. À margem de uma fonte, que corria, Lira doce dos pássaros cantores A bela ocasião das minhas dores Dormindo estava ao despertar do dia. Mas como dorme Sílvia, não vestia O céu seus horizontes de mil cores; Dominava o silêncio entre as flores, Calava o mar, e rio não se ouvia, Não dão o parabém à nova Aurora Flores canoras, pássaros fragrantes, Nem seu âmbar respira a rica Flora. Porém abrindo Sílvia os dois diamantes, Tudo a Sílvia festeja, tudo adora Aves cheirosas, flores ressonantes. Gregório de Matos Soneto A uma dama dormindo junto a uma fonte. À margem de uma fonte, que corria, Lira doce dos pássaros cantores A bela ocasião das minhas dores Dormindo estava ao despertar do dia. Mas como dorme Sílvia, não vestia O céu seus horizontes de mil cores; Dominava o silêncio entre as flores, Calava o mar, e rio não se ouvia, Não dão o parabém à nova Aurora Flores canoras, pássaros fragrantes, Nem seu âmbar respira a rica Flora. Porém abrindo Sílvia os dois diamantes, Tudo a Sílvia festeja, tudo adora Aves cheirosas, flores ressonantes. Gregório de Matos Soneto Descreve um horroroso dia de trovões Na confusão do mais horrendo dia, Painel da noite em tempestade brava, O fogo com o ar se embaraçava Da terra e água o ser se confundia. Bramava o mar, o vento embravecia Em noite o dia enfim se equivocava, E com estrondo horrível, que assombrava, A terra se abalava e estremecia. Lá desde o alto aos côncavos rochedos, Cá desde o centro aos altos obeliscos Houve temor nas nuvens, e penedos. Pois dava o Céu ameaçando riscos Com assombros, com pasmos, e com medos Relâmpagos, trovões, raios, coriscos Gregório de Matos Soneto Continua o poeta em louvor a soledade vituperando a corte Ditoso aquele, e bem-aventurado, Que longe, e apartado das demandas, Não vê nos tribunais as apelandas Que à vida dão fastio, e dão enfado. Ditoso, quem povoa o despovoado, E dormindo o seu sono entre as holandas Acorda ao doce som, e às vozes brandas Do tenro passarinho enamorado. Se estando eu lá na Corte tão seguro Do néscio impertinente, que porfia, A deixei por um mal, que era futuro; Como estaria vendo na Bahia, Que das Cortes do mundo é vil monturo, O roubo, a injustiça, a tirania? Gregório de Matos Soneto Ao casamento de certo advogado com uma moça mal reputada. Casou-se nesta terra esta e aquele. Aquele um gozo filho de cadela, Esta uma donzelíssima donzela, Que muito antes do parto o sabia ele. Casaram por unir pele com pele; E tanto se uniram, que ele com ela Com seu mau parecer ganha para ela, com seu bom parecer ganha para ele. Deram-lhe em dote muitos mil cruzados, Excelentes alfaias, bons adornos, De que estão os seus quartos bem ornados: Por sinal que na porta e seus contornos Um dia amanheceram, bem contados, Três bacias de trampa e doze cornos. Gregório de Matos Soneto Conselhos a qualquer tolo para parecer fidalgo, rico e discreto Bote a sua casaca de veludo, E seja capitão sequer dois dias, Converse à porta de Domingos Dias, Que pega fidalguia mais que tudo. Seja um magano, um pícaro, um cornudo, Vá a palácio, e após das cortesias Perca quanto ganhar nas mercancias, E em que perca o alheio, esteja mudo. Sempre se ande na caça e montaria, Dê nova solução, novo epíteto, E diga-o, sem propósito, à porfia; Quem em dizendo: "facção, pretexto, efecto". Será no entendimento da Bahia Mui fidalgo, mui rico, e mui discreto. Gregório de Matos Soneto Descreve o que era naquele tempo a cidade da Bahia A cada canto um grande conselheiro, Que nos quer governar cabana e vinha; Não sabem governar sua cozinha, E podem governar o mundo inteiro. Em cada porta um bem freqüente olheiro, Que a vida do vizinho e da vizinha Pesquisa, escuta, espreita e esquadrinha, Para o levar à praça e ao terreiro. Muitos mulatos desavergonhados, Trazidos sob os pés os homens nobres, Posta nas palmas toda a picardia, Estupendas usuras nos mercados, Todos os que não furtam muito pobres: E eis aqui a cidade da Bahia. Gregório de Matos Epílogos Que falta nesta cidade?................Verdade Que mais por sua desonra?...........Honra Falta mais que se lhe ponha..........Vergonha. O demo a viver se exponha, Por mais que a fama a exalta, numa cidade, onde falta Verdade, Honra, Vergonha. Quem a pôs neste socrócio?..........Negócio Quem causa tal perdição?.............Ambição E o maior desta loucura?...............Usura. Notável desventura de um povo néscio, e sandeu, que não sabe, que o perdeu Negócio, Ambição, Usura. Quais são os seus doces objetos?....Pretos Tem outros bens mais maciços?.....Mestiços Quais destes lhe são mais gratos?...Mulatos. Dou ao demo os insensatos, dou ao demo a gente asnal, que estima por cabedal Pretos, Mestiços, Mulatos. Quem faz os círios mesquinhos?...Meirinhos Quem faz as farinhas tardas?.........Guardas Quem as tem nos aposentos?.........Sargentos. Os círios lá vêm aos centos, e a terra fica esfaimando, porque os vão atravessando Meirinhos, Guardas, Sargentos. E que justiça a resguarda?.............Bastarda É grátis distribuída?......................Vendida Que tem, que a todos assusta?.......Injusta. Valha-nos Deus, o que custa, o que El-Rei nos dá de graça, que anda a justiça na praça Bastarda, Vendida, Injusta. Que vai pela clerezia?..................Simonia E pelos membros da Igreja?..........Inveja Cuidei, que mais se lhe punha?.....Unha. Sazonada caramunha! enfim que na Santa Sé o que se pratica, é Simonia, Inveja, Unha. E nos frades há manqueiras?.........Freiras Em que ocupam os serões?............Sermões Não se ocupam em disputas?.........Putas. Com palavras dissolutas me concluís na verdade, que as lidas todas de um Frade são Freiras, Sermões, e Putas. O açúcar já se acabou?..................Baixou E o dinheiro se extinguiu?.............Subiu Logo já convalesceu?.....................Morreu. À Bahia aconteceu o que a um doente acontece, cai na cama, o mal lhe cresce, Baixou, Subiu, e Morreu. A Câmara não acode?...................Não pode Pois não tem todo o poder?...........Não quer É que o governo a convence?........Não vence. Que haverá que tal pense, que uma Câmara tão nobre por ver-se mísera, e pobre Não pode, não quer, não vence. Gregório de Matos Liras Oh não te espantes não, notomia, Que se atreva a Bahia Com oprimida voz, com plectro esquio Cantar ao mundo teu rico feitio, Que é já velho em Poetas elegantes O cair em torpezas semelhantes. Da Pulga acho, que Ovídio tem escrito, Lucano do Mosquito, Das Rãs Homero, e destes não desprezo, Que escreveram matérias de mais peso Do que eu, que canto cousa mais delgada Mais chata, mais sutil, mais esmagada. Quando desembarcaste da fragata, Meu Dom Braço de Prata, Cuidei, que a esta cidade tonta, e fátua Mandava a Inquisição alguma estátua Vendo tão espremida salvajola Visão de palha sobre um Mariola. O rosto de azarcão afogueado, E em partes mal untado, Tão cheio o corpanzil de godolhões, Que o julguei por um saco de melões; Vi-te o braço pendente da garganta, E nunca prata vi com liga tanta. O bigode fanado feito ao ferro Está ali num desterro, E cada pelo em solidão tão rara, Que parece ermitão de sua cara: Da cabeleira pois afirmam cegos, Que a mandaste comprar no arco dos pregos. Olhos cagões, que cagam sempre à porta, Me tem esta alma torta, Principalmente vendo-lhe as vidraças No grosseiro caixilho das couraças: Cangalhas, que formaram luminosas Sobre arcos de pipa duas ventosas. De muito cego, e não de malquerer A ninguém podes ver; Tão cego és, que não vês teu prejuízo Sendo cousa, que se olha com juízo: Tu és mais cego, que eu, que te sussurro, Que em te olhando, não vejo mais que um burro. Chato o nariz de cocras sempre posto: Te cobre todo o rosto, De gatinhas buscando algum jazigo Adonde o desconheçam por embigo: Até que se esconde, onde mal o vejo Por fugir do fedor do teu bocejo. Faz-lhe mal vizinhança a tua boca, Que com razão não pouca O nariz se recolhe para o centro Mudado para os baixos lá de dentro: Surge-lhe outra vez, e vendo a bafarada Lhe fica a ponta um dia ali engasgada. Pernas e pés defendem tua cara: Balha-te; e quem cuidara, Tomando-te a medida das cavernas Se movesse tal corpo com tais pernas! Cuidei, que eras rocim das alpujarrras, E já frisão te digo pelas garras. Um casaquim trazia sobre o couro, Qual odre, a quem o Touro Uma, e outra cornada deu traidora, E lhe deitou de todo o vento fora; Tal vinha o teu vestido de enrugado, Que o tive por um odre esfuracado. O que te vir a ser todo rabadilha Dirá, que te perfilha Uma quaresma (chato percevejo) Por Arenque de fumo, ou por Badejo: Sem carne, e osso, quem há ali, que creia, Senão que és descendente de Lampreia. Livre-te Deus de um Sapateiro, ou Sastre, Que te temo um desastre, E é, que por sovela, ou por agulha Arme sobre levar-te alguma bulha: Porque depositando-te à justiça Será num agulheiro ou em cortiça. Na esquerda mão trazias a bengala ou or força, ou por gala: No sovaco por vezes a metias, Só para fazer enfim descortesias, Tirando ao povo, quando te destapas, Entonces o chapéu, agora as capas. Fundia-se a cidade em carcajadas, Vendo as duas entradas, Que fizeste do Mar a Santo Inácio, E depois do colégio a teu palácio: O Rabo erguido em cortesias mudas, Como quem pelo cu tomava ajudas. Ao teu palácio te acolheste, e logo Casa armaste de jogo, Ordenando as merendas por tal jeito, Que a cada jogador cabe um confeito: Dos Tafuis um confeito era um bocado, Sendo tu pela cara o enforcado. Depois deste em fazer tanta parvoíce, Que inda que o povo risse Ao princípio, cresceu depois a tanto, Que chegou a chorar com triste pranto: Chora-te o nu de um roubador de falso, E vendo-te eu direito, me descalço. Xinga-te o negro, o branco te pragueja, E a ti nada te aleija, E por teu sensabor, e pouca graça És fábula do lar, riso da praça, Té que a bala, que o braço te levara, Venha segunda vez a levar-te a cara. Gregório de Matos Coplas Não sei, para que é nascer neste Brasil empestado um homem branco, e honrado sem outra raça. Terra tão grosseira, e crassa, que a ninguém se tem respeito, salvo quem mostra algum jeito de ser Mulato. Aqui o cão arranha o gato, não por ser mais valentão, mas porque sempre a um cão outros acodem. Os Brancos aqui não podem mais que sofrer, e calar, e se um negro vão matar, chovem despesas. Não lhe valem as defesas do atrevimento de um cão, porque acode a Relação sempre faminta. Logo a fazenda, e a quinta vai com tudo o mais à praça, onde se vende de graça, ou fiado. Que aguardas, homem honrado, vendo tantas sem-razões, que não vás para as nações de Berberia, Porque lá se te faria com essa barbaridade mais razão, e mais verdade, que aqui fazem. Porque esperas, que te engranzem, e esgotem os cabedais, os que tens por naturais, sendo estrangeiros! Ao cheiro dos teus dinheiros vêm como cabedal tão fraco, que tudo cabe num saco, que anda às costas. Os pés são duas lagostas de andar montes, passar vaus, as mãos são dois bacalhaus já bem ardidos. Sendo dous anos corridos, na loja estão recostados mais doces, enfidalgados, que os mesmos Godos. A mim me faltam apodos, com que apodar estes tais maganos de três canais até a ponta. Há outros de pior conta, que entre esses, e entre aqueles vêem cheios de PP, e LL atrás do ombro. De nada disso me assombro pois bota aqui o Senhor outros de marca maior gualde, e tostada. Perguntai à gente honrada, por que causa se desterra; diz que tem, quem lá na terra lhe queima o sangue. Vem viver ao pé de um mangue, e já vos veda o mangal, porque tem mais cabedal, que Porto Rico. Se algum vem de agudo bico, lá vão prendê-lo ao sertão, e ei-lo bugio em grilhão entre os galfarros. A terra é para os bizarros, que vêm na sua terrinha com mais gorda camisinha, que um traquete. Que me dizeis do clerguete, que mandaram degradado por dar o óleo sagrado à sua Puta. E a velhaca dissoluta destra de todo o artifício fez co óleo um malefício ao mesmo Zote. Folgo de ver tanto asnote, que com seus risonhos lábios andam zombando dos sábios e entendidos. E porque são aplaudidos de outros de sua facção, se fazem co'a discrição como com terra. E dizendo ferra ferra, quando vão a por o pé, conhecem, que em boa fé são uns asninhos. Porque com quatro ditinhos de conceitos estudados não podem ser graduados nas ciências. Então suas negligências os vão conhecendo ali, porque de si para si ninguém se engana. Mas em vindo outra semana, já caem no pecado velho, e presumem dar conselho a um Catão. Aqui frisava o Frisão, que foi o Heresiarca, porque mais da sua alparca o aprenderam. As Mulatas me esqueceram, a quem com veneração darei o meu beliscão pelo amoroso. Geralmente é mui custoso o conchego das Mulatas, que se foram mais baratas, não há mais Flandes. Aos que presumem de grandes, porque têm casa, e são forras têm, e chamam de cachorras às mais do trato. Angelinha do Sapato, valeria um pino de Ouro, porém tem o cagadouro muito baixo. Traz o amigo cabisbaixo com muitas aleivosias, sendo, que às Ave-Marias lhe fecha a porta. Mas isso porém que importa se ao fechar se põe já nua, e sobre o plantar na rua ainda a veste. Fica dentro, quem a investe, e o de fora suspirando lhe grita de quando em quando ora isto basta. Há gente de tão má casta, e de tão ruim catadura, que até esta cornadura bebe, e verte. Todos Agrela converte, porque se com tão ruim puta a alma há de ser dissoluta, antes mui Santa. Quem encontra ossada tanta nos beiços de uma caveira, vai fugindo de carreira, e a Deus busca. Em uma cova se ofusca, como eu estou ofuscado, chorando o magro pecado, que fiz com ela. É mui semelhante a Agrela a Mingota dos Negreiros, que me mamou os dinheiros, e pôs-me à orça. A Mangá com ser de alcorça dá-se a um Pardo vaganau, que a cunha do mesmo pau melhor atocha. À Mariana da Rocha, por outro nome a Pelica, nenhum homem já dedica a sua prata. Não há no Brasil Mulata que valha um recado só. Mas Joana Picaró O Brasil todo. Se em gostos não me acomodo das mais, não haja disputa, cada um gabe a sua puta, e haja sossego. Porque eu calo o meu emprego e o fiz com toda atenção, porque tal veneração se lhe devia. Fica-te em boa, Bahia, que eu me vou por esse mundo cortando pelo mar fundo numa barquinha. Porque inda que és pátria minha, sou segundo Cipião, que com dobrada razão a minha idéia te diz "non possedebis ossa mea". Gregório de Matos Soneto Um soneto começo em vosso gabo; Contemos esta regra por primeira, Já lá vão duas, e esta é a terceira, Já este quartetinho está no cabo. Na quinta torce agora a porca o rabo: A sexta vá também desta maneira, na sétima entro já com grã canseira, E saio dos quartetos muito brabo. Agora nos tercetos que direi? Direi, que vós, Senhor, a mim me honrais, Gabando-vos a vós, e eu fico um Rei. Nesta vida um soneto já ditei, Se desta agora escapo, nunca mais; Louvado seja Deus, que o acabei. Gregório de Matos Soneto Mancebo sem dinheiro, bom barrete, Medíocre o vestido, bom sapato, Meias velhas, calção de esfola-gato, Cabelo penteado, bom topete. Presumir de dançar, cantar falsete, Jogo de fidalguia, bom barato, Tirar falsídia ao Moço do seu trato, Furtar a carne à ama, que promete. A putinha aldeã achada em feira, Eterno murmurar de alheias famas, Soneto infame, sátira elegante. Cartinhas de trocado para a Freira, Comer boi, ser Quixote com as Damas, Pouco estudo, isto é ser estudante. Gregório de Matos Soneto Neste mundo é mais rico, o que mais rapa: Quem mais limpo se faz, tem mais carepa: Com sua língua ao nobre o vil decepa: O Velhaco maior sempre tem capa. Mostra o patife da nobreza o mapa: Quem tem mão de agarrar, ligeiro trepa; Quem menos falar pode, mais increpa: Quem dinheiro tiver, pode ser Papa. A flor baixa se inculca por Tulipa; Bengala hoje na mão, ontem garlopa: Mais isento se mostra, o que mais chupa. Para a tropa do trapo vazio a tripa, E mais não digo, porque a Musa topa Em apa, epa, ipa, opa, upa. Gregório de Matos Soneto Por entre o Beberibe, e o Oceano Em uma areia sáfia, e lagadiça Jaz o Recife povoação mestiça, Que o Belga edificou ímpio tirano. O Povo é pouco, e muito pouco urbano, Que vive à mercê de uma lingüiça, Unha de velha insípida enfermiça, E camarões de charco em todo o ano. As damas cortesãs, e por rasgadas Olhas podridas, são, e pestilências, Elas com purgações, nunca purgadas. Mas a culpa têm vossas reverências, Pois as trazem rompidas, e escaladas Com cordões, com bentinhos, e indulgências. Gregório de Matos Soneto Carregado de mim ando no mundo, E o grande peso embarga-me as passadas, Que como ando por vias desusadas, Faço o peso crescer, e vou-me ao fundo. O remédio será seguir o imundo Caminho, onde dos mais vejo as pisadas, Que as bestas andam juntas mais ornadas, Do que anda só o engenho mais profundo. Não é fácil viver entre os insanos, Erra, quem presumir, que sabe tudo, Se o atalho não soube dos seus danos. O prudente varão há de ser mudo, Que é melhor neste mundo em mar de enganos Ser louco cos demais, que ser sisudo. Gregório de Matos Soneto Nasce o Sol, e não dura mais que um dia, Depois da Luz se segue a noite escura, Em tristes sombras morre a formosura, Em contínuas tristezas a alegria. Porém se acaba o Sol, por que nascia? Se formosa a Luz é, por que não dura? Como a beleza assim se transfigura? Como o gosto da pena assim se fia? Mas no Sol, e na Luz, falte a firmeza, Na formosura não se dê constância, E na alegria sinta-se tristeza. Começa o mundo enfim pela ignorância, E tem qualquer dos bens por natureza A firmeza somente na inconstância. Gregório de Matos Descrição da Cidade de Sergipe D'el-Rei Três dúzias de casebres remendados, Seis becos, de mentrastos entupidos, Quinze soldados, rotos e despidos, Doze porcos na praça bem criados. Dois conventos, seis frades, três letrados, Um juiz, com bigodes, sem ouvidos, Três presos de piolhos carcomidos, Por comer dois meirinhos esfaimados. As damas com sapatos de baeta, Palmilha de tamanca como frade, Saia de chita, cinta de raqueta. O feijão, que só faz ventosidade Farinha de pipoca, pão que greta, De Sergipe d'El-Rei esta é a cidade.