Augusto dos Anjos Il Trovatore Canta da torre o trovador saudoso - Addio, Eleonora! Oh! sonhos meus! E o canto se desprende harmonioso Na vibração final do extremo adeus. Repercute, dolente, mavioso, Subindo pelo Azul da Inspiração; Assim canta também meu coração, Trovador torturado e angustioso. Ai! não, não acordeis, lembranças minhas! Saudades d'umas noutes em que vinhas Cantar comigo em doce desafio! Mas, pouco a pouco, os sons esmorecendo, Perdem-se as notas pelo Azul morrendo, - Addio, Eleonora, addio, addio! Augusto dos Anjos Remetibo por F.Sátiro - fsatiro@openline.com.br A Aeronave Cindindo a vastidão do Azul profundo, Sulcando o espaço, devassando a terra, A aeronave que um mistério encerra Vai pelo espaço acompanhando o mundo. E na esteira sem fim da azúlea esfera Ei-la embalada n'amplidão dos ares, Fitando o abismo sepulcral dos mares, Vencendo o azul que ante si s'erguera. Voa, se eleva em busca do infinito, É como um despertar de estranho mito, Auroreando a humana consciência. Cheia da luz do cintilar de um astro, Deixa ver na fulgência do seu rastro A trajetória augusta da Ciência. Augusto dos Anjos A Árvore da Serra - As árvores, meu filho, não têm alma! E esta árvore me serve de empecilho... É preciso cortá-la, pois, meu filho, Para que eu tenha uma velhice calma! - Meu pai, por que sua ira não se acalma?! Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?! Deus pos almas nos cedros... no junquilho... Esta árvore, meu pai, possui minh'alma! ... - Disse - e ajoelhou-se, numa rogativa: «Não mate a árvore, pai, para que eu viva!» E quando a árvore, olhando a pátria serra, Caiu aos golpes do machado bronco, O moço triste se abraçou com o tronco E nunca mais se levantou da terra! Augusto dos Anjos A Esmola de Dulce Ao Alfredo A. E todo o dia eu vou como um perdido De dor, por entre a dolorosa estrada, Pedir a Dulce, a minha bem amada, A esmola dum carinho apetecido. E ela fita-me, o olhar enlanguescido, E eu balbucio trêmula balada: - Senhora, dai-me u'a esmola - e estertorada A minha voz soluça num gemido. Morre-me a voz, e eu gemo o último harpejo, Estendo à Dulce a mão, a fé perdida, E dos lábios de Dulce cai um beijo. Depois, como este beijo me consola! Bendita seja a Dulce! A minha vida Estava unicamente nessa esmola. Augusto dos Anjos A Esperança A Espeerança não murcha, ela não cansa, Também como ela não sucumbe a Crença. Vão-se sonhos nas asas da Descrença, Voltam sonhos nas asas da Esperança. Muita gente infeliz assim não pensa; No entanto o mundo é uma ilusão completa, E não é a Esperança por sentença Este laço que ao mundo nos manieta? Mocidade, portanto, ergue o teu grito, Sirva-te a crença de fanal bendito, Salve-te a glória no futuro - avança! E eu, que vivo atrelado ao desalento, Também espero o fim do meu tormento, Na voz da morte a me bradar: descansa! Augusto dos Anjos A Dança da Psiquê A dança dos encéfalos acesos Começa. A carne é fogo. A alma arde. A espaços As cabeças, as mãos, os pés e os braços Tombara, cedendo à ação de ignotos pesos! É então que a vaga dos instintos presos - Mãe de esterilidades e cansaços - Atira os pensamentos mais devassos Contra os ossos cranianos indefesos. Subitamente a cerebral coréa Pára. O cosmos sintético da Idéa Surge. Emoções extraordinárias sinto... Arranco do meu crânio as nebulosas. E acho um feixe de forças prodigiosas Sustentando dois monstros: a alma e o instinto! Augusto dos Anjos A Floresta Em vão com o mundo da floresta privas!... - Todas as hermenêuticas sondagens, Ante o hieróglifo e o enigma das folhagens, São absolutamente negativas! Araucárias, traçando arcos de ogivas, Bracejamentos de álamos selvagens, Como um convite para estranhas viagens, Tornam todas as almas pensativas! Há uma força vencida nesse mundo! Todo o organismo florestal profundo É dor viva, trancada num disfarce... Vivem só, nele, os elementos broncos, - As ambições que se fizeram troncos, Porque nunca puderam realizar-se! Augusto dos Anjos A Fome e o Amor A um monstro Fome! E, na ânsia voraz que, ávida, aumenta, Receando outras mandíbulas a esbangem, Os dentes antropófagos que rangem, Antes darefeição sanguinolenta! Amor! E a satiríasis sedenta, Rugindo, enquanto as almas se confrangem, Todas as danações sexuais que abrangem A apolínica besta famulenta! Ambos assim, tragando a ambiência vasta, No desembestamento que os arrasta, Superexcitadíssimos, os dois Representam, no ardor dos seus assomos A alegoria do que outrora fomos E a imagem bronca do que inda hoje sois! Augusto dos Anjos A Idéia De onde ela vem?! De que matéria bruta Vem essa luz que sobre as nebulosas Cai de incógnitas criptas misteriosas Como as estalactites duma gruta?! Vem da psicogenética e alta luta Do feixe de moléculas nervosas, Que, em desintegrações maravilhosas, Delibera, e depois, quer e executa! Vem do encéfalo absconso que a constringe, Chega em seguida às cordas do laringe, Tísica, tênue, mínima, raquítica ... Quebra a força centrípeta que a amarra, Mas, de repente, e quase morta, esbarra No mulambo da língua paralítica Augusto dos Anjos A Ilha de Cipango Estou sozinho! A estrada se desdobra Como uma imensa e rutilante cobra De epiderme finíssima de areia... E por essa finíssima epiderme Eis-me passeando como um grande verme Que, ao sol, em plena podridão, passeia! A agonia do sol vai ter começo! Caio de joelhos, trêmulo... Ofereço Preces a Deus de amor e de respeito E o ocaso que nas águas se retrata Nitidamente reproduz, exata, A saudade interior que há no meu peito. Tenho alucinações de toda a sorte... Impressionado sem cessar com a Morte E sentindo o que um lázaro não sente, Em negras nuanças lúgubres e aziagas Vejo terribilíssimas adagas, Atravessando os ares bruscamente. Os olhos volvo para o céu divino E observo-me pigmeu e pequenino Através de minúsculos espelhos. Assim, quem diante duma cordilheira, Pára, entre assombros, pela vez primeira, Sente vontade de cair de joelhos! Soa o rumor fatídico dos ventos, Anunciando desmoronamentos De mil lajedos sobre mil lajedos... E ao longe soam trágicos fracassos De heróis, partindo e fraturando os braços Nas pontas escarpadas dos rochedos! Mas de repente, num enleio doce, Qual se num sonho arrebatado fosse, Na ilha encantada de Cipango tombo, Da qual, no meio, em luz perpétua, brilha A árvore da perpétua maravilha, A cuja sombra descansou Colombo! Foi nessa ilha encantada de Cipango, Verde, afetando a forma, de um losango, Rica, ostentando amplo floral risonho, Que Toscanelli viu seu sonho extinto E como sucedeu a Afonso Quinto Foi sobre essa ilha que extingui meu sonho! Lembro-me bem. Nesse maldito dia O gênio singular da Fantasia Convidou-me a sorrir para um passeio. Iríamos a um país de eternas pazes Onde em cada deserto há mil oásis E em cada rocha um cristalino veio. Gozei numa hora séculos de afagos, Banhei-me na água de risonhos lagos, E finalmente me cobri de flores... Mas veio o vento que a Desgraça espalha E cobriu-me com o pano da mortalha, Que estou cosendo para os meus amores! Desde então para cá fiquei sombrio! Um penetrante e corrosivo frio Anestesiou-me a sensibilidade E a grandes golpes arrancou as raízes Que prendiam meus dias infelizes A um sonho antigo de felicidade! Invoco os Deuses salvadores do erro. A tarde morre. Passa o seu enterro!... A luz descreve ziguezagues tortos Enviando à terra os derradeiros beijos. Pela estrada feral dois realejos Estão chorando meus amores mortos! E a treva ocupa toda a estrada longa... O Firmamento é uma caverna oblonga Em cujo fundo a Via-Láctea existe. E como agora a lua cheia brilha! Ilha maldita vinte vezes a ilha Que para todo o sempre me fez triste! Augusto dos Anjos Remetibo por F.Sátiro - fsatiro@openline.com.br A Louca A Dias Paredes Quando ela passa: - a veste desgrenhada, O cabelo revolto em desalinho, No seu olhar feroz eu adivinho O mistério da dor que a traz penada. Moça, tão moça e já desventurada; Da desdita ferida pelo espinho, Vai morta em vida assim pelo caminho, No sudário de mágoa sepultada. Eu sei a sua história. - Em seu passado Houve um drama d'amor misterioso - O segredo d'um peito torturado - E hoje, para guardar a mágoa oculta, Canta, soluça - coração saudoso, Chora, gargalha, a desgraçada estulta. Augusto dos Anjos A Máscara Eu sei que há muito pranto na existência, Dores que ferem corações de pedra, E onde a vida borbulha e o sangue medra, Aí existe a mágoa em sua essência. No delírio, porém, da febre ardente Da ventura fugaz e transitória O peito rompe a capa tormentória Para sorrindo palpitar contente. Assim a turba inconsciente passa, Muitos que esgotam do prazer a taça Sentem no peito a dor indefinida. E entre a mágoa que masc'ra eterna apouca A humanidade ri-se e ri-se louca No carnaval intérmino da vida. Augusto dos Anjos À Mesa Cedo à sofreguidão do estômago. É a hora De comer. Coisa hedionda! Corro. E agora, Antegozando a ensangüentada presa, Rodeado pelas moscas repugnantes, Para comer meus próprios semelhantes Eis-me sentado à mesa! Como porções de carne morta ... Ai! Como Os que, como eu, têm carne, com este assomo Que a espécie humana em comer carne tem! ... Como! E pois que a Razão me não reprime, Possa a terra vingar-se do meu crime Comendo-me também. Augusto dos Anjos Remetibo por F.Sátiro - fsatiro@openline.com.br A Minha Estrela A meu irmão Aprígio A. E eu disse - Vai-te, estrela do Passado! Esconde-te no Azul da Imensidade, Lá onde nunca chegue esta saudade, - A sombra deste afeto estiolado. Disse, e a estrela foi p'ra o Céu subindo, Minh'alma que de longe a acompanhava, Viu o adeus que do Céu ela enviava, E quando ela no Azul foi-se sumindo Surgia a Aurora - a mágica princesa! E eu vi o Sol do Céu iluminando A Catedral da Grande Natureza. Mas a noute chegou, triste, com ela Negras sombras também foram chegando, E nunca mais eu vi a minha estrela! Augusto dos Anjos A Nau A Heitor Lima Sôfrega, alçando o hirto esporão guerreiro, Zarpa. A íngreme cordoalha úmida fica. ... Lambe-lhe a quilha a espúmea onda impudica E ébrios tritões, babando, haurem-lhe o cheiro Na glauca artéria equórea ou no estaleiro Ergue a alta mastreação, que o éter indica, E estende os braços de madeira rica Para as populações do mundo inteiro! Aguarda-a ampla reentrância de angra horrenda Pára e, a amarra agarrada à âncora, sonha! Mágoas, se as tem, subjugue-as ou disfarce-as... E não haver uma alma que lhe entenda A angústia transoceânica medonha No rangido de todas as enxárcias! Augusto dos Anjos A Noite A nebulosidade ameaçadora Tolda o éter, mancha a gleba, agride os rios E urde amplas teias de carvões sombrios No ar que álacre e radiante, há instantes, fora. A água transubstancia-se. A onda estoura Na negridão do oceano e entre os navios Troa bárbara zoada de ais bravios, Extraordinariamente atordoadora. A custódia do anímico registro A planetária escuridão se anexa... Somente, iguais a espiões que acordam cedo, Ficam brilhando com fulgor sinistro Dentro da treva omnímoda e complexa Os olhos fundos dos que estão com medo! Augusto dos Anjos A Obsessão Do Sangue Acordou, vendo sangue... - Horrível! O osso Frontal em fogo... Ia talvez morrer, Disse. olhou-se no espelho. Era tão moço, Ah! certamente não podia ser! Levantou-se. E eis que viu, antes do almoço, Na mão dos açougueiros, a escorrer Fita rubra de sangue muito grosso, A carne que ele havia de comer! No inferno da visão alucinada, Viu montanhas de sangue enchendo a estrada, Viu vísceras vermelhas pelo chão ... E amou, com um berro bárbaro de gozo, o monocromatismo monstruoso Daquela universal vermelhidão Augusto dos Anjos A um Carneiro Morto Misericordiosíssímo carneiro Esquartejado, a maldição de Pio Décimo caia em teu algoz sombrio E em todo aquele que for seu herdeiro! Maldito seja o mercador vadio Que te vender as carnes por dinheiro, Pois, tua lã aquece o mundo inteiro E guarda as carnes dos que estão com frio! Quando a faca rangeu no teu pescoço, Ao monstro que espremeu teu sangue grosso Teus olhos - fontes de perdão - perdoaram! Oh! tu que no Perdão eu simbolizo, Se fosses Deus, no Dia do juízo, Talvez perdoasses os que te mataram! Augusto dos Anjos A Um Epilético Perguntarás quem sou?! - ao suor que te unta, À dor que os queixos te arrebenta, aos trismos Da epilepsia horrenda, e nos abismos Ninguém responderá tua pergunta! Reclamada por negros magnetismos Tua cabeça há de cair, defunta Na aterradora operação conjunta Da tarefa animal dos organismos! Mas após o antropófago alambique Em que é mister todo o teu corpo fique Reduzido a excreções de sânie e lodo, Como a luz que arde, virgem, num monturo, Tu hás de entrar completamente puro Para a circulação do Grande Todo! Augusto dos Anjos A Um Gérmen Começaste a existir, geléia crua, E hás de crescer, no teu silêncio, tanto Que, é natural, ainda algum dia, o pranto Das tuas concreções plásmicas flua! A água, em conjugação com a terra nua, Vence o granito, deprimindo-o ... O espanto Convulsiona os espíritos, e, entanto, Teu desenvolvimento continua! Antes, geléia humana, não progridas E em retrogradações indefinidas, Volvas à antiga inexistência calma!... Antes o Nada, oh! gérmen, que ainda haveres De atingir, como o gérmen de outros seres, Ao supremo infortúnio de ser alma! Augusto dos Anjos Abandonada Ao meu irmão Odilon dos Anjos Bem depressa sumiu-se a vaporosa Nuvem de amores, de ilusões tão bela; O brilho se apagou daquela estrela Que a vida lhe tornava venturosa! Sombras que passam, sombras cor-de-rosa - Todas se foram num festivo bando, Fugazes sonhos, gárrulos voando - Resta somente um'alma tristurosa! Coitada! o gozo lhe fugiu correndo, Hoje ela habita a erma soledade, Em que vive e em que aos poucos vai morrendo! Seu rosto triste, seu olhar magoado, Fazem lembrar em noute de saudade A luz mortiça d'um olhar nublado. Augusto dos Anjos Aberração Na velhice automática e na infância, (Hoje, ontem, amanhã e em qualquer era) Minha hibridez é a súmula sincera Das defectividades da Substância. Criando na alma a estesia abstrusa da ânsia, Como Belerofonte com a Quimera Mato o ideal; cresto o sonho; achato a esfera E acho odor de cadáver na fragrância! Chamo-me Aberração. Minha alma é um misto De anomalias lúgubres. Existo Como o cancro, a exigir que os sãos enfermem... Teço a infâmia; urdo o crime; engendro o iodo E nas mudanças do Universo todo Deixo inscrita a memória do meu gérmen! Augusto dos Anjos Remetibo por F.Sátiro - fsatiro@openline.com.br Soneto Pareceu-me inda ouvir o nome dela No badalar monótono dos sinos. Hermeto Lima Adeus, adeus, adeus! E, suspirando, Saí deixando morta a minha amada, Vinha o luar iluminando a estrada E eu vinha pela estrada soluçando. Perto, um ribeiro claro murmurando Muito baixinho como quem chorava, Parecia o ribeiro estar chorando As lágrimas que eu triste gotejava. Súbito ecoou do sino o som profundo! Adeus! - eu disse. Para mim no mundo Tudo acabou-se, apenas restam mágoas. Mas no mistério astral da noute bela Pareceu-me inda ouvir o nome dela No marulhar monótono das águas! Augusto dos Anjos Soneto Aurora morta, foge! Eu busco a virgem loura Que fugiu-me do peito ao teu clarão de morte E Ela era a minha estrela, o meu único Norte, O grande Sol de afeto - o Sol que as almas doura! Fugiu... e em si a Luz consoladora Do amor - esse clarão eterno d'alma forte - Astro da minha Paz, Sírius da minha Sorte E da Noute da vida a Vênus Redentora. Agora, oh! Minha Mágoa, agita as tuas asas, Vem! Rasga deste peito as nebulosas gazas E, num Pálio auroral de Luz deslumbradora, Ascende à Claridade. Adeus oh! Dia escuro, Dia do meu Passado! Irrompe, meu Futuro; Aurora morta, foge - eu busco a virgem loura! Pau d'Arco - 1902 Augusto dos Anjos Agonia de um Filósofo Consulto o Phtah-Hotep. Leio o obsoleto Rig-Veda. E, ante obras tais, me não consolo... O Inconsciente me assombra e eu nêle tolo Com a eólica fúria do harmatã inquieto! Assisto agora à morte de um inseto!... Ah! todos os fenômenos do solo Parecem realizar de pólo a pólo O ideal de Anaximandro de Mileto! No hierático areopago heterogêneo Das idéas, percorro como um gênio Desde a alma de Haeckel à alma cenobial!... Rasgo dos mundos o velário espesso; E em tudo, igual a Goethe, reconheço O império da substância universal! Augusto dos Anjos Alucinação à Beira-mar Um medo de morrer meus pés esfriava. Noite alta. Ante o telúrico recorte, Na diuturna discórdia, a equórea coorte Atordoadoramente ribombava! Eu, ególatra céptico, cismava Em meu destino!... O vento estava forte E aquela matemática da Morte Com os seus números negros me assombrava! Mas a alga usufructuária dos oceanos E os malacopterígios subraquianos Que um castigo de espécie emudeceu, No eterno horror das convulsões marítimas Pareciam também corpos de vítimas Condenadas à Morte, assim como eu! Augusto dos Anjos Remetibo por F.Sátiro - fsatiro@openline.com.br Amor e Crença E sê bendita! H. Sienkiewicz Sabes que é Deus?! Esse infinito e santo Ser que preside e rege os outros seres, Que os encantos e a força dos poderes Reúne tudo em si, num só encanto? Esse mistério eterno e sacrossanto, Essa sublime adoração do crente, Esse manto de amor doce e clemente Que lava as dores e que enxuga o pranto?! Ah! Se queres saber a sua grandeza, Estende o teu olhar à Natureza, Fita a cúp'la do Céu santa e infinita! Deus é o templo do Bem. Na altura Imensa, O amor é a hóstia que bendiz a Crença, ama, pois, crê em Deus, e... sê bendita! Augusto dos Anjos Amor e Religião Conheci-o: era um padre, um desses santos Sacerdotes da Fé de crença pura, Da sua fala na eternal doçura Falava o coração. Quantos, oh! Quantos Ouviram dele frases de candura Que d'infelizes enxugavam prantos! E como alegres não ficaram tantos Corações sem prazer e sem ventura! No entanto dizem que este padre amara. Morrera um dia desvairado, estulto, Su'alma livre para o Céu se alara. E Deus lhe disse: "És duas vezes santo, Pois se da Religião fizeste culto, Foste do amor o mártir sacrossanto." Augusto dos Anjos Anseio Que sou eu, neste ergástulo das vidas Danadamente, a soluçar de dor?! - Trinta triliões de células vencidas, Nutrindo uma efeméride inferior. Branda, entanto, a afagar tantas feridas, A áurea mão taumitúrgica do Amor Traça, nas minhas formas carcomidas, A estrutura de um mundo superior! Alta noite, esse mundo incoerente Essa elementaríssima semente Do que hei de ser, tenta transpor o Ideal... Grita em meu grito, alarga-se em meu hausto, E, ai! como eu sinto no esqueleto exausto Não poder dar-lhe vida material! Augusto dos Anjos Anseio Nessas paragens desoladas, onde O silêncio campeia soberano Morreram notas do bulício humano, Nem vibra a corda que a saudade esconde. Anseios d'alma aqui se perdem. Donde Fluiu outrora a luz dum doce engano, Hoje é trevas, é dor, é desengano, E eu ergo preces que ninguém responde. Triste criança virginal, quem dera Voar est'alma a ti, longe dos laços Dessa jaula de carne que a encarcera! Ah! Que unidos assim, lá nos espaços, Cantarias do amor a primavera, Tendo a minh'alma presa nos teus braços! Pau d'Arco - 1902 Augusto dos Anjos Ao Luar Quando, à noite, o Infinito se levanta A luz do luar, pelos caminhos quedos Minha tactil intensidade é tanta Que eu sinto a alma do Cosmos nos meus dedos! Quebro a custódia dos sentidos tredos E a minha mão, dona, por fim, de quanta Grandeza o Orbe estrangula em seus segredos, Todas as coisas íntimas suplanta! Penetro, agarro, ausculto, apreendo, invado, Nos paroxismos da hiperestesia, O Infinitésimo e o Indeterminado... Transponho ousadamente o átomo rude E, transmudado em rutilância fria, Encho o Espaço com a minha plenitude! Augusto dos Anjos Aos Meus Filhos Na intermitência da vital canseira, Sois vós que sustentais ( Força Alta exige-o ... ) Com o vosso catalítico prestígio, Meu fantasma de carne passageira! Vulcão da bioquímica fogueira Destruiu-me todo o orgânico fastígio ... Dai-me asas, pois, para o último remígio, Dai-me alma, pois, para a hora derradeira! Culminâncias humanas ainda obscuras, Expressões do universo radioativo, Ions emanados do meu próprio ideal, Benditos vós, que, em épocas futuras, Haveis de ser no mundo subjetivo, Minha continuidade emocional! Augusto dos Anjos Apocalipse Minha divinatória Arte ultrapassa os séculos efêmeros e nota Diminuição dinâmica, derrota Na atual força, integérrima, da Massa. É a subversão universal que ameaça A Natureza, e, em noite aziaga e ignota, Destrói a ebulição que a água alvorota E põe todos os astros na desgraça! São despedaçamentos, derrubadas, Federações sidéricas quebradas... E eu só, o último a ser, pelo orbe adeante, Espião da cataclísmica surpresa A única luz tragicamente acesa Na universalidade agonizante! Augusto dos Anjos Apostrofe à Carne Quando eu pego nas carnes do meu rosto. Pressinto o fim da orgânica batalha: - Olhos que o húmus necrófago estraçalha, Diafragmas, decompondo-se, ao sol posto... E o Homem - negro e heteróclito composto, Onde a alva flama psíquica trabalha, Desagrega-se e deixa na mortalha O tacto, a vista, o ouvido, o olfato e o gosto! Carne, feixe de mônadas bastardas, Conquanto em flâmeo fogo efêmero ardas, A dardejar relampejantes brilhos, Dói-me ver, muito embora a alma te acenda, Em tua podridão a herança horrenda, Que eu tenho de deixar para os meus filhos! Augusto dos Anjos Remetibo por F.Sátiro - fsatiro@openline.com.br Ariana Ela é o tipo perfeito da ariana, Branca, nevada, púbere, mimosa, A carne exuberante e capitosa Trescala a essência que de si dimana. As níveas pomas do candor da rosa, Rendilhando-lhe o colo de sultana, Emergem da camisa cetinosa Entre as rendas sutis de filigrana. Dorme talvez. Em flácido abandono Lembra formosa no seu casto sono A languidez dormente da indiana, Enquanto o amante pálido, a seu lado Medita, a fronte triste, o olhar velado No Mistério da Carne Soberana Augusto dos Anjos As Cismas do Destino I Recife. Ponte Buarque de Macedo. Eu, indo em direção à casa do Agra, Assombrado com a minha sombra magra, Pensava no Destino, e tinha medo! Na austera abóbada alta o fósforo alvo Das estrelas luzia... O calçamento Sáxeo, de asfalto rijo, atro e vidrento, Copiava a polidez de um crânio calvo. Lembro-me bem. A ponte era comprida, E a minha sombra enorme enchia a ponte, Como uma pele de rinoceronte Estendida por toda a minha vida! A noite fecundava o ovo dos vícios Animais. Do carvão da treva imensa Caía um ar danado de doença Sobre a cara geral dos edifícios! Tal uma horda feroz de cães famintos, Atravessando uma estação deserta, Uivava dentro do eu, com a boca aberta, A matilha espantada dos instintos! Era como se, na alma da cidade, Profundamente lúbrica e revolta, Mostrando as carnes, uma besta solta Soltasse o berro da animalidade. E aprofundando o raciocínio obscuro, Eu vi, então, à luz de áureos reflexos, O trabalho genésico dos sexos, Fazendo à noite os homens do Futuro. Livres de microscópios e escalpelos, Dançavam, parodiando saraus cínicos, Biliões de centrosomas apolínicos Na câmara promíscua do vitellus. Mas, a irritar-me os globos oculares, Apregoando e alardeando a cor nojenta, Fetos magros, ainda na placenta, Estendiam-me as mãos rudimentares! Mostravam-rne o apriorismo incognoscível Dessa fatalidade egualitária, Que fez minha família originária Do antro daquela fábrica terrível! A corrente atmosférica mais forte Zunia. E, na ígnea crostra do Cruzeiro, julgava eu ver o fúnebre candieiro Que há de me alumiar na hora da morte. Ninguém compreendia o meu soluço, Nem mesmo Deus! Da roupa pelas brechas, O vento bravo me atirava flechas E aplicações hiemais de gelo russo. A vingança dos mundos astronômicos Enviava à terra extraordinária faca, Posta em rija adesão de goma laca Sobre os meus elementos anatômicos. Ali! Com certeza, Deus me castigava! Por toda a parte, como um réu confesso, Havia um juiz que lia o meu processo E uma forca especial que me esperava! Mas o vento cessara por instantes Ou, pelo menos, o ignís sapiens do Orco Abafava-me o peito arqueado e porco Num núcleo de substâncias abrasantes. É bem possível que eu um dia cegue. No ardor desta letal tórrida zona, A cor do sangue é a cor que me impressiona E a que mais neste mundo me persegue! Essa obsessão cromática me abate. Não sei por que me vêm sempre à lembrança O estômago esfaqueado de uma creança E um pedaço de víscera escarlate. Quisera qualquer coisa provisória Que a minha cerebral caverna entrasse, E até ao fim, cortasse e recortasse A faculdade aziaga da memória. Na ascensão barométrica da calma, Eu bem sabia, ansiado e contrafeito, Que uma população doente do peito Tossia sem remédio na minh'alma! E o cuspo que essa hereditária tosse Golfava, à guisa de ácido resíduo, Não era o cuspo só de um indivíduo Minado pela tísica precoce. Não! Não era o meu cuspo, com certeza Era a expectoração pútrida e crassa Dos brônquios pulmonares de uma taça Que, violou as leis da Natureza! Era antes uma tosse úbiqua, estranha, Igual ao ruído de um calhau redondo Arremessado no apogeu do estrondo, Pelos fundibulários da montanha! E a saliva daqueles infelizes Inchava, em minha boca, de tal arte, Que eu, para não cuspir por toda a parte, Ia engolindo, aos poucos, a hemoptisis! Na alta alucinação de minhas cismas O microcosmos líquido da gota Tinha a abundância de tinia artéria rota, Arrebentada pelos aneurismas. Chegou-me o estado máximo da mágoa! Duas, três, quatro, cinco, seis e sete Vezes que eu me furei com um canivete, A hemoglobina vinha cheia de água! Cuspo, cujas caudais meus beiços regam, Sob a forma de mínimas camândulas, Benditas sejam todas essas glândulas, Que, quotidianamente, te segregam! Escarrar de um abismo noutro abismo, Mandando ao Céu o fumo de um cigarro, Há mais filosofia neste escarro Do que em toda a moral do cristianismo! Porque, se no orbe oval que os meus pés tocam Eu não deixasse o meu cuspo carrasco, jamais exprimiria o acérrimo asco Que os canalhas do mundo me provocam! II Foi no horror dessa noite tão funérea Que eu descobri, maior talvez que Vinci, Com a força visualística do lince, A falta de unidade na matéria! Os esqueletos desarticulados, Livres do acre fedor das carnes mortas, Rodopiavam, com as brancas tíbias tortas, Numa dança de números quebrados! Todas as divindades malfazejas, Siva e Arimã, os duendes, o In e os trasgos, Imitando o barulho dos engasgos, Davam pancadas no adro das igrejas. Nessa hora de monólogos sublimes, A companhia dos ladrões da noite, Buscando uma taverna que os acoite, Vai pela escuridão pensando crimes. Perpetravam-se os actos mais funestos, E o luar, da cor de um doente de icterícia, Iluminava, a rir, sem pudicícia, A camisa vermelha dos incestos. Ninguém, de certo, estava ali, a espiar-me, Mas um lampeão, lembrava ante o meu rosto, Um sugestionador olho, ali posto De propósito, para hipnotizar-me! Em tudo, então, meus olhos distinguiram Da miniatura singular de uma aspa, A anatomia mínima da caspa, Embriões de mundos que não progrediram! Pois quem não vê aí, em qualquer rua, Com a fina nitidez de um claro jorro, Na paciência budista do cachorro A alma embrionária que não continua?! Ser cachorro! Ganir incompreendidos Verbos! Querer dizer-nos que não finge, E a palavra embrulhar-se no laringe, Escapando-se apenas em latidos! Despir a putrescível forma tosca, Na atra dissolução que tudo inverte, Deixar cair sobre a barriga inerte O apetite necrófago da mosca! A alma dos animais! Pego-a, distingo-a, Acho-a nesse interior duelo secreto Entre a ânsia de um vocábulo completo E uma expressão que não chegou à língua! Surpreendo-a em quatriliões de corpos vivos, Nos antiperistálticos abalos Que produzem nos bois e nos cavalos A contracção dos gritos instintivos! Tempo viria, em que, daquele horrendo Caos de corpos orgânicos disformes Rebentariam cérebros enormes Como bolhas febris de água, fervendo! Nessa época que os sábios não ensinam, A pedra dura, os montes argilosos Creariam feixes de cordões nervosos E o neuroplasma dos que raciocinam! Almas pigméas! Deus subjuga-as, cinge-as A imperfeição! Mas vem o Tempo, e vence-O, E o meu sonho crescia no silêncio, Maior que as epopéas carolíngias! Era a revolta trágica dos tipos Ontogênicos mais elementares, Desde os foraminíferos dos mares À grei liliputiana dos polipos. Todos os personagens da tragédia, Cansados de viver na paz de Buda, Pareciam pedir com a boca muda A ganglionária célula intermédia. A planta que a canícula ígnea torra, E as coisas inorgânicas mais nulas Apregoavam encéfalos, medulas Na alegria guerreira da desforra! Os protistas e o obscuro acervo rijo Dos espongiários e dos infusórios Recebiam com os seus órgãos sensórios O triunfo emocional do regozijo! E apesar de já ser assim tão tarde, Aquela humanidade parasita, Como um bicho inferior, berrava, aflita, No meu temperamento de covarde! Mas, reflectindo, a sós, sobre o meu caso, Vi que, igual a um amneota subterrâneo, jazia atravessada no meu crânio A intercessão fatídica do atraso! A hipótese genial do microzima Me estrangulava o pensamento guapo, E eu me encolhia todo como um sapo Que tem um peso incômodo por cima! Nas agonias do delíríum-tremens, Os bêbedos alvares que me olhavam, Com os copos cheios esterilizavam A substância prolífica dos semens! Enterram as mãos dentro das goelas, E sacudidos de um tremor indômito Expeliam, na dor forte do vômito, Um conjunto de gosmas amarelas. Iam depois dormir nos lupanares Onde, na glória da concupiscência, Depositavam quase sem consciência As derradeiras forças musculares. Fabricavam destarte os blastodermas, Em cujo repugnante receptáculo Minha perscrutação via o espectáculo De uma progênie idiota de palermas. Prostituição ou outro qualquer nome, Por tua causa, embora o homem te aceite, É que as mulheres ruins ficam sem leite E os meninos sem pai morrem de fome! Por que há de haver aqui tantos enterros? Lá no "Engenho" também, a morte é ingrata... Há o malvado carbúnculo que mata A sociedade infante dos bezerros! Quantas moças que o túmulo reclama! E após a podridão de tantas moças, Os porcos esponjando-se nas poças Da virgindade reduzida à lama! Morte, ponto final da última cena, Forma difusa da matéria imbele, Minha filosofia te repele, Meu raciocínio enorme te condena! Deante de ti, nas catedrais mais ricas, Rolam sem eficácia os amuletos, Oh! Senhora dos nossos esqueletos E das caveiras diárias que fabricas! E eu desejava ter, numa ânsia rara, Ao pensar nas pessoas que perdera, A inconsciência das máscaras de cera Que a gente prega, com um cordão, na cara! Era um sonho ladrão de submergir-me Na vida universal, e, em tudo imerso, Fazer da parte abstracta do Universo, Minha morada equilibrada e firme! Nisto, pior que o remorso do assassino, Reboou, tal qual, num fundo de caverna, Numa impressionadora voz interna, O eco particular do meu Destino: III "Homem! por mais que a Idéa desintegres, Nessas perquisições que não têm pausa, jamais, magro homem, saberás a causa De todos os fenômenos alegres! Em vão, com a bronca enxada árdega, sondas A estéril terra, e a hialina lâmpada ôca, Trazes, por perscrutar (oh! ciência louca!) O conteúdo das lágrimas hediondas. Negro e sem fim é esse em que te mergulhas Lugar do Cosmos, onde a dor infrene É feita como é feito o querosene Nos recôncavos úmidos das hulhas! Porque, para que a Dor perscrutes, fora Mister que, não como és, em síntese, antes Fosses, a reflectir teus semelhantes, A própria humanidade sofredora! A universal complexidade é que Ela Compreende. E se, por vezes, se divide, Mesmo ainda assim, seu todo não reside No quociente isolado da parcela! Ah! Como o ar imortal a Dor não finda! Das papilas nervosas que há nos tactos Veio e vai desde os tempos mais transactos Para outros tempos que hão de vir ainda! Como o machucamento das insônias Te estraga, quando toda a estuada Idéa Dás ao sôfrego estudo da ninféa E de outras plantas dicotiledôneas! A diáfana água alvíssima e a hórrida áscua Que da ígnea flama bruta, estriada, espirra; A formação molecular da mirra, O cordeiro simbólico da Páscoa; As rebeladas cóleras que rugem No homem civilizado, e a ele se prendem Como às pulseiras que os mascates vendem A aderência teimosa da ferrugem, O orbe feraz que bastos tojos acres Produz; a rebelião que, na batalha, Deixa os homens deitados, sem mortalha. Na sangueira concreta dos massacres; Os sanguinolentíssimos chicotes Da hemorragia; as nódoas mais espessas, O achatamento ignóbil das cabeças, Que ainda degrada os povos hotentotes; O Amor e a Fome, a fera ultriz que o fojo Entra, à espera que a mansa vítima o entre, - Tudo que gera no materno ventre A causa fisiológica do nojo; As pálpebras inchadas na vigília, As aves moças que perderam a asa, O fogão apagado de uma casa, Onde morreu o chefe da família; O trem particular que um corpo arrasta Sinistramente pela via-férrea, A cristalização da massa térrea, O tecido da roupa que se gasta; A água arbitrária que hiulcos caules grossos Carrega e come; as negras formas feias Dos aracnídeos e das centopéias, O fogo-fátuo que ilumina os ossos; As projecções flamívomas que ofuscam, Como uma pincelada rembrandtesca, A sensação que uma coalhada fresca Transmite às mãos nervosas dos que a buscam; O antagonismo de Tifon e Osíris, O homem grande oprimindo o homem pequeno, A lua falsa de um parasseleno, A mentira mateórica do arco-íris; Os terremotos que, abalando os solos, Lembram paióis de pólvora explodindo, A rotação dos fluidos produzindo A depressão geológica dos pólos; O instinto de procrear, a ânsia legitima Da alma, afrontando ovante aziagos riscos, O juramento dos guerreiros priscos Metendo as mãos nas glândulas da vítima; As diferenciações que o psicoplasma Humano sofre na mania mística, A pesada opressão característica Dos 10 minutos de um acesso de asma; E, (conquanto contra isto ódios regougues) A utilidade fúnebre da corda Que arrasta a rês, depois que a rês engorda, A morte desgraçada dos açougues... Tudo isto que o terráqueo abismo encerra Forma a complicação desse barulho Travado entre o dragão do humano orgulho E as forças inorgânicas da terra! Por descobrir tudo isso, embalde cansas! Ignoto é o gérmen dessa força ativa Que engendra, em cada célula passiva, A heterogeneidade das mudanças! Poeta, feto malsão, criado com os sucos De um leite mau, carnívoro asqueroso, Gerado no atavismo monstruoso Da alma desordenada dos malucos; Última das criaturas inferiores Governada por átomos mesquinhos, Teu pé mata a uberdade dos caminhos E esteriliza os ventres geradores! O áspero mal que a tudo, em torno, trazes, Análogo é ao que, negro e a seu turno, Traz o ávido filóstomo noturno, Ao sangue dos mamíferos vorazes! Ah! Por mais que, com o espírito, trabalhes A perfeição dos seres existentes, Hás de mostrar a cárie dos teus dentes Na anatomia horrenda dos detalhes! O Espaço - esta abstração spencereana Que abrange as relações de coexistência E só! Não tem nenhuma dependência Com as vértebras mortais da espécie humana! As radiantes elipses que as estrelas Traçam, e ao espectador falsas se antolham São verdades de luz que os homens olham Sem poder, no entretanto, compreendê-las. Em vão, com a mão corrupta, outro éter pedes Que essa mão, de esqueléticas falanges, Dentro dessa água que com a vista abranges, Também prova o princípio de Arquimedes! A fadiga feroz que te esbordoa Há de deixar-te essa medonha marca, Que, nos corpos inchados de anasarca, Deixam os dedos de qualquer pessoa! Nem terás no trabalho que tiveste A misericordiosa toalha amiga, Que afaga os homens doentes de bexiga E enxuga, à noite, as pústulas da peste! Quando chegar depois a hora tranqüila, Tu serás arrastado, na carreira, Como um cepo inconsciente de madeira Na evolução orgânica da argila! Um dia comparado com um milênio Seja, pois, o teu último Evangelho... E a evolução do novo para o velho E do homogêneo para o heterogêneo! Adeus! Fica-te aí, com o abdômen largo A apodrecer!. .. És poeira, e embalde vibras! O corvo que comer as tuas fibras Há de achar nelas um sabor amargo! IV Calou-se a voz. A noite era funesta. E os queixos, a exibir trismos danados, Eu puxava os cabelos desgrenhados Como o rei Lear, no meio da floresta! Maldizia, com apóstrofes veementes, No stentor de mil línguas insurrectas, O convencionalismo das Pandectas E os textos maus dos códigos recentes! Minha imaginação atormentada Paria absurdos... Como diabos juntos, Perseguiam-me os olhos dos defuntos Com a carne da esclerótica esverdeada. Secara a clorofila das lavouras. Igual aos sostenidos de uma endeixa, Vinha me às cordas glóticas a queixa Das coletividades sofredoras. O mundo resignava-se invertido Nas forças principais do seu trabalho... A gravidade era um princípio falho, A análise espectral tinha mentido! O Estado, a Associação, os Municípios Eram mortos. De todo aquele mundo Restava um mecanismo moribundo E uma teleologia sem princípios. Eu queria correr, ir para o inferno, Para que, da psiquê no oculto jogo, Morressem sufocadas pelo fogo Tôdas as impressões do mundo externo! Mas a Terra negava-me o equilíbrio... Na Natureza, uma mulher de luto Cantava, espiando as árvores sem fruto, A canção prostituta do ludíbrio! Augusto dos Anjos As Montanhas I Das nebulosas em que te emaranhas Levanta-te, alma, e dize-me, afinal, Qual é, na natureza espiritual, A significação dessas montanhas! Quem não vê nas graníticas entranhas A subjetividade ascensional Paralisada e estrangulada, mal Quis erguer-se a cumíadas tamanhas?! Ah! Nesse anelo trágico de altura Não serão as montanhas, porventura, Estacionadas, íngremes, assim, Por um abortamento de mecânica, A representação ainda inorgânica De tudo aquilo que parou em mim?! II Agora, oh! deslumbrada alma perscruta O puerpério geológico interior, De onde rebenta, em contrações de dor, Toda a sublevação da crusta hirsuta! No curso inquieto da terráquea luta Quantos desejos férvidos de amor Não dormem, recalcados, sob o horror Dessas agregações de pedra bruta?! Como nesses relevos orográfícos, Inacessíveis aos humanos tráficos Onde sóis, em semente, amam jazer, Quem sabe, alma, se o que ainda não existe Não vive em gérmen no agregado triste Da síntese sombria do meu Ser?! Augusto dos Anjos Asa de Corvo Asa de corvos carniceiros, asa De mau agouro que, nos doze meses, Cobre às vezes o espaço e cobre às vezes O telhado de nossa própria casa... Perseguido por todos os reveses, É meu destino viver junto a essa asa, Como a cinza que vive junto à brasa, Como os Goncourts, como os irmãos siameses! É com essa asa que eu faço este soneto E a indústria humana faz o pano preto Que as famílias de luto martiriza... É ainda com essa asa extraordinária Que a Morte - a costureira funerária - Cose para o homem a última camisa! Augusto dos Anjos Ave Dolorosa Ave perdida para sempre - crença Perdida - segue a trilha que te traça O Destino, ave negra da Desgraça, Gêmea da Mágoa e núncia da Descrença! Dos sonhos meus na Catedral imensa Que nunca pouses. Lá, na névoa baça Onde o teu vulto lúrido esvoaça, Seja-te a vida uma agonia intensa! Vives de crenças mortas e te nutres, Empenhada na sanha dos abutres, Num desespero rábido, assassino... E hás de tombar um dia em mágoas lentas, Negrejadas das asas lutulentas Que te emprestar o corvo do Destino! Augusto dos Anjos Ave Libertas Ao clarão irial da madrugada, Da liberdade ao toque alvissareiro, Banhou-se o coração do Brasileiro Num eflúvio de luz auroreada. É que baqueia a vida escravizada! Já se ouvem os clangores do pregoeiro, Como um Tritão, levando ao mundo inteiro Da República a nova sublimada. E ali, do despotismo entre os escombros, Rola um drama que a Pátria exalça e doura Numa auréola de paz imorredoura, A República rola-lhe nos ombros; Enquanto fora na trevosa agrura Sucumbe o servilismo, e, esplendorosa, A Liberdade assoma majestosa, - Estrela d'Alva imaculada e pura! É livre a Pátria outrora opressa e exangue! Esse labéu que mancha a glória pública, Que apouca o triunfo e que se chama sangue, Manchar não pôde as aras da República. Não! Que esse ideal puro, risonho, Há de transpor sereno os penetrais Da Pátria, e há de elevar-se neste sonho Ao topo azul das Glórias Imortais! Esplende, pois, oh! Redentora d'alma, Oh! Liberdade, essa bendita e branca Luz que os negrores da opressão espanca, Essa luz etereal bendita e calma. Vós, oh Pátria, fazei que destes brilhos, Caia do Santuário lá da História, Fulgente do valor da vossa glória, A Bênção do valor dos vossos filhos! Augusto dos Anjos Barcarola Cantam nautas, choram flautas Pelo mar e pelo mar -Uma sereia a cantar Vela o Destino dos nautas. Espelham-se os esplendores Do céu, em reflexos, nas Águas, fingindo cristais Das mais deslumbrantes cores. Em fulvos filões doirados Cai a luz dos astros por Sobre o marítimo horror Como globos estrelados. Lá onde as rochas se assentam Fulguram como outros sóis Os flamívomos faróis Que os navegantes orientam. Vai uma onda, vem outra onda E nesse eterno vaivém Coitadas! não acham quem, Quem as esconda, as esconda... Alegoria tristonha Do que pelo Mundo vai! Se um sonha e se ergue, outro cai; Se um cai, outro se ergue e sonha. Mas desgraçado do pobre Que em meio da Vida cai! Esse não volta, esse vai Para o túmulo que o cobre. Vagueia um poeta num barco. O Céu, de cima, a luzir Como um diamante de Ofír Imita a curva de um arco. A Lua - globo de louça - Surgiu, em lúcido véu. Cantam! Os astros do Céu Ouçam e a Lua Cheia ouça! Ouça do alto a Lua Cheia Que a sereia vai falar... Haja silêncio no mar Para se ouvir a sereia. Que é que ela diz?! Será uma História de amor feliz? Não! O que a sereia diz Não é história nenhuma. É como um réquiem profundo De tristíssimos bemóis... Sua voz é igual à voz Das dores todas do mundo. Fecha-te nesse medonho Reduto de Maldição, Viajeiro da Extrema-Unção, Sonhador do último sonho! Numa redoma ilusória Cercou-te a glória falaz, Mas nunca mais, nunca mais Há de cercar-te essa glória! Nunca mais! Sê, porém, forte. O poeta é como Jesus! Abraça-te à tua Cruz E morre, poeta da Morte! - E disse e porque isto disse O luar no Céu se apagou... Súbito o barco tombou Sem que o poeta o pressentisse! Vista de luto o Universo E Deus se enl Augusto dos Anjos Budismo Moderno Tome, Dr., esta tesoura, e... corte Minha singularíssima pessoa. Que importa a mim que a bicharia roa Todo o meu coração, depois da morte?! Ah! Um urubu pousou na minha sorte! Também, das diatomáceas da lagoa A criptógama cápsula se esbroa Ao contato de bronca destra forte! Dissolva-se, portanto, minha vida Igualmente a uma célula caída Na aberração de um óvulo infecundo; Mas o agregado abstrato das saudades Fique batendo nas perpétuas grades Do último verso que eu fizer no mundo! Augusto dos Anjos Canto de Onipotência Cloto, Átropos, Tifon, Laquesis, Siva... E acima deles, como um astro, a arder, Na hiperculminação definitiva O meu supremo e extraordinário Ser! Em minha sobre-humana retentiva Brilhavam, como a luz do amanhecer, A perfeição virtual tornada viva E o embrião do que podia acontecer! Por antecipação divinatória, Eu, projetado muito além da História, Sentia dos fenômenos o fim.. . A coisa em si movia-se aos meus brados E os acontecimentos subjugados Olhavam como escravos para mim! Augusto dos Anjos Caput Immortale Na dinâmica aziaga das descidas, Aglomeradamente e em turbilhão Solucem dentro do Universo ancião, Todas as urbes siderais vencidas! Morra o éter. Cesse a luz. Parem as vidas, Sobre a pancosmológica exaustão Reste apenas o acervo árido e vão Das muscularidades consumidas! Ainda assim, a animar o cosmos ermo, Morto o comércio físico nefando, Oh! Nauta aflito do Subliminal, Como a última expressão da Dor sem termo, Tua cabeça há de ficar vibrando Na negatividade universal! Augusto dos Anjos Ceticismo Desci um dia ao tenebroso abismo, Onde a dúvida ergueu altar profano; Cansado de lutar no mundo insano, Fraco que sou, volvi ao ceticismo. Da Igreja - a Grande Mãe - o exorcismo Terrível me feriu, e então sereno, De joelhos aos pés do Nazareno Baixo rezei, em fundo misticismo: - Oh! Deus, eu creio em ti, mas me perdoa! Se esta dúvida cruel qual me magoa Me torna ínfimo, desgraçado réu. Ah, entre o medo que o meu Ser aterra, Não sei se viva p'ra morrer na terra, Não sei se morra p'ra viver no Céu! Augusto dos Anjos Contrastes A antítese do novo e do obsoleto, O Amor e a Paz, o ódio e a Carnificina, O que o homem ama e o que o homem abomina, Tudo convém para o homem ser completo! O ângulo obtuso, pois, e o ângulo reto, Uma feição humana e outra divina São como a eximenina e a endimenina Que servem ambas para o mesmo feto! Eu sei tudo isto mais do que o Eclesiastes! Por justaposição destes contrastes, junta-se um hemisfério a outro hemisfério, As alegrias juntam-se as tristezas, E o carpinteiro que fabrica as mesas Faz também os caixões do cemitério!... Augusto dos Anjos Debaixo do Tamarindo No tempo de meu Pai, sob estes galhos, Como uma vela fúnebre de cera, Chorei biliões de vezes com a canseira De inexorabilíssimos trabalhos! Hoje, esta árvore, de amplos agasalhos, Guarda, corno uma caixa derradeira, O passado da Flora Brasileira E a paleontologia dos Carvalhos! Quando pararem todos os relógios De minha vida, e a voz dos necrológios Gritar nos noticiários que eu morri, Voltando à pátria da homogeneidade, Abraçada com a própria Eternidade A minha sombra há de ficar aqui! Augusto dos Anjos Decadência Iguais às linhas perpendiculares Caíram, como cruéis e hórridas hastas, Nas suas 33 vértebras gastas Quase todas as pedras tumulares! A frialdade dos círculos polares, Em sucessivas atuações nefastas, Penetrara-lhe os próprios neuroplastas, Estragara-lhe os centros medulares! Como quem quebra o objeto mais querido E começa a apanhar piedosamente Todas as microscópicas partículas, Ele hoje vê que, após tudo perdido, Só lhe restam agora o último dente E a armação funerária das clavículas! Augusto dos Anjos Depois da Orgia O prazer que na orgia a hetaíra goza Produz no meu sensorium de bacante O efeito de uma túnica brilhante Cobrindo ampla apostema escrofulosa! Troveja! E anelo ter, sôfrega e ansiosa, O sistema nervoso de um gigante Para sofrer na minha carne estuante A dor da força cósmica furiosa. Apraz-me, enfim, despindo a última alfaia Que ao comércio dos homens me traz presa, Livre deste cadeado de peçonha, Semelhante a um cachorro de atalaia Às decomposições da Natureza, Ficar latindo minha dor medonha! Augusto dos Anjos Duas Estrofes A queda do teu lírico arrabil De um sentimento português ignoto Lembra Lisboa, bela como um brinco, Que um dia no ano trágico de mil E setecentos e cincoenta e cinco, Foi abalada por um terremoto! A água quieta do Tejo te abençoa. Tu representas toda essa Lisboa De glórias quase sobrenaturais, Apenas com uma diferença triste, Com a diferença que Lisboa existe E tu, amigo, não existes mais! Augusto dos Anjos Remetibo por F.Sátiro - fsatiro@openline.com.br Ecos d'Alma Oh! madrugada de ilusões, santíssima, Sombra perdida lá do meu Passado, Vinde entornar a clâmide puríssima Da luz que fulge no ideal sagrado! Longe das tristes noutes tumulares Quem me dera viver entre quimeras, Por entre o resplandor das Primaveeras Oh! madrugada azul dos meus sonhares; Mas quando vibrar a última balada Da tarde e se calar a passarada Na bruma sepulcral que o céu embaça, Quem me dera morrer então risonho, Fitando a nebulosa do meu Sonho E a Via-Láctea da Ilusão que passa! Augusto dos Anjos Eterna Mágoa O homem por sobre quem caiu a praga Da tristeza do Mundo, o homem que é triste Para todos os séculos existe E nunca mais o seu pesar se apaga! Não crê em nada, pois, nada há que traga Consolo à Mágoa, a que só ele assiste. Quer resistir, e quanto mais resiste Mais se lhe aumenta e se lhe afunda a chaga. Sabe que sofre, mas o que não sabe E que essa mágoa infinda assim não cabe Na sua vida, é que essa mágoa infinda Transpõe a vida do seu corpo inerme; E quando esse homem se transforma em verme É essa mágoa que o acompanha ainda! Augusto dos Anjos Gemidos de Arte I Esta desilusão que me acabrunha É mais traidora do que o foi Pilatos!... Por causa disto, eu vivo pelos matos, Magro, roendo a substância córnea da unha. Tenho estremecimentos indecisos E sinto, haurindo o tépido ar sereno, O mesmo assombro que sentiu Parfeno Quando arrancou os olhos de Dionisos! Em giro e em redemoinho em mim caminham Ríspidas mágoas estranguladores, Tais quais, nos fortes fulcros, as tesouras Brônzeas, também giram e redemoinham. Os pães - filhos legítimos dos trigos - Nutrem a geração do ódio e da Guerra... Os cachorros anônimos da terra São talvez os meus únicos amigos! Ah! Por que desgraçada contingência A híspida aresta sáxea áspera e abrupta Da rocha brava, numa ininterrupta Adesão, não prendi minha existência?! Por que Jeová, maior do que Laplace, Não fez cair o túmulo de Plínio Por sobre todo o meu raciocínio Para que eu nunca mais raciocinasse?! Pois minha Mãe tão cheia assim daqueles Carinhos, com que guarda meus sapatos, Por que me deu consciência dos meus atos Para eu me arrepender de todos ele?! Quisera, antes, mordendo glabros talos, Nabucodonosor ser no Pau d'Arco, Beber a acre e estagnada água do charco, Dormir na manjedoura com os cavalos! Mas a carne é que é humana! A alma é divina. Dorme num leito de feridas, goza O lodo, apalpa a úlcera cancerosa, Beija a peçonha, e não se contamina! Ser homem! escapar de ser aborto! Sair de um ventre inchado que se anoja, Comprar vestidos pretos numa loja E andar de luto pelo pai que é morto! E por trezentos e sessenta dias Trabalhar e comer! Martírios juntos! Alimentar-se dos irmãos defuntos, Chupar os ossos das alisarias Barulho de mandíbulas e abdomens! E vem-me com um desprezo por tudo isto Uma vontade absurda de ser Cristo Para sacrificar-me pelos homens! Soberano desejo! Soberana Ambição de construir para o homem uma Região, onde não cuspa língua alguma O óleo rançoso da saliva humana! Uma região sem nódoas e sem lixos, Subtraída à hediondez de ínfimo casco, Onde a forca feroz coma o carrasco E o olho do estuprador se encha de bichos! Outras constelações e outros espaços Em que, no agudo grau da última crise, O braço do ladrão se paralise E a mão da meretriz caia aos pedaços! II O sol agora é de um fulgor compacto, E eu vou andando, cheio de chamusco, Com a flexibilidade de um molusco, Úmido, pegajoso e untuoso ao tacto! Reunam-se em rebelião ardente e acesa Todas as minhas forças emotivas E armem ciladas como cobras vivas Para despedaçar minha tristeza! O sol de cima espiando a flora moça Arda, fustigue, queime, corte, morda!... Deleito a vista na verdura gorda Que nas hastes delgadas se balouça! Avisto o vulto das sombrias granjas Perdidas no alto... Nos terrenos baixos, Das laranjeiras eu admiro os cachos E a ampla circunferência das laranjas. Ladra furiosa a tribo dos podengos. Olhando para as pútridas charnecas Grita o exército avulso das marrecas Na úmida copa dos bambus verdoengos. Um pássaro alvo artífice da teia De um ninho, salta, no árdego trabalho, De árvore em árvore e de galho em galho, Com a rapidez duma semicolcheia. Em grandes semicírculos aduncos, Entrançados, pelo ar, largando pêlos, Voam à semelhança de cabelos Os chicotes finíssimos dos juncos. Os ventos vagabundos batem, bolem Nas árvores. O ar cheira. A terra cheira... E a alma dos vegetais rebenta inteira De todos os corpúsculos do pólen. A câmara nupcial de cada ovário Se abre. No chão coleia a lagartixa. Por toda a parte a seiva bruta esguicha Num extravasamento involuntário. Eu, depois de morrer, depois de tanta Tristeza, quero, em vez do nome - Augusto, Possuir aí o nome dum arbusto Qualquer ou de qualquer obscura planta! III Pelo acidentadíssimo caminho Faísca o sol. Nédios, batendo a cauda, Urram os bois. O céu lembra uma lauda Do mais incorruptível pergaminho. Uma atmosfera má de incômoda hulha Abafa o ambiente. O aziago ar morto a morte Fede. O ardente calor da areia forte Racha-me os pés como se fosse agulha. Não sei que subterrânea e atra voz rouca. Por saibros e por cem côncavos vales, Como pela avenida das Mappales, Me arrasta à casa do finado Tôca! Todas as tardes a esta casa venho. Aqui, outrora, sem conchego nobre, Viveu, sentiu e amou este homem pobre Que carregava canas para o engenho! Nos outros tempos e nas outras eras, Quantas flores! Agora, em vez de flores, Os musgos, como exóticos pintores, Pintam caretas verdes nas taperas. Na bruta dispersão de vítreos cacos, À dura luz do sol resplandecente, Trôpega e antiga, uma parede doente Mostra a cara medonha dos buracos. O cupim negro. broca o âmago fino Do teto. E traça trombas de elefantes Com as circunvoluções extravagantes Do seu complicadíssimo intestino. O lodo, obscuro trepa-se nas portas. Amontoadas em grossos feixes rijos, As lagartixas dos esconderijos Estão olhando aquelas coisas mortas! Fico a pensar no Espírito disperso Que, unindo a pedra ao gneiss e a árvore à criança, Como um anel enorme de aliança, Une todas as coisas do Universo! E assim pensando, com a cabeça em brasas Ante a fatalidade que me oprime, julgo ver este Espírito sublime, Chamando-me do sol com as suas asas! Gosto do sol ignívomo e iracundo Como o reptil gosta quando se molha E na atra escuridão dos ares, olha Melancolicamente para o mundo! Essa alegria imaterializada. Que por vezes me absorve, é o óbolo obscuro, É o pedaço já podre de pão duro Que o miserável recebeu na estrada! Não são os cinco mil milhões de francos Que a Alemanha pediu a Jules Favre... É o dinheiro coberto de azinhavre Que o escravo ganha, trabalhando aos brancos! Seja este sol meu último consolo; E o espírito infeliz que em mim se encarna Se alegre ao sol, como quem raspa a sarna, Só, com a misericórdia de um tijolo! ... Tudo enfim a mesma órbita percorre E as bocas vão beber o mesmo leite... A lamparina quando falta o azeite Morre, da mesma forma que o homem morre. Súbito, arrebentando a horrenda calma, Grito, e se grito é para que meu grito Seja a revelação deste Infinito Que eu trago encarcerado na minh'alma! Sol brasileiro! Queima-me os destroços! Quero assistir, aqui, sem pai que me ame, De pé, à luz da consciência infame, À carbonização dos próprios ossos! Augusto dos Anjos Hino à Dor Dor, saúde dos seres que se fanam, Riqueza da alma, psíquico tesouro, Alegria das glândulas do choro De onde todas as lágrimas emanam.. És suprema! Os meus átomos se ufanam De pertencer-te, oh! Dor, ancoradouro Dos desgraçados, sol do cérebro, ouro De que as próprias desgraças se engalanam! Sou teu amante! Ardo em teu corpo abstrato. Com os corpúsculos mágicos do tacto Prendo a orquestra de chamas que executas... E, assim, sem convulsão que me alvorece, Minha maior ventura é estar de posse De tuas claridades absolutas! Augusto dos Anjos Homo Infimus Homem, carne sem luz, criatura cega, Realidade geográfica infeliz, O Universo calado te renega E a tua própria boca te maldiz! O nôumeno e o fenômeno, o alfa e o omega Amarguram-te. Hebdômadas hostis Passam... Teu coração se desagrega, Sangram-te os olhos, e, entretanto, ris! Fruto injustificável dentre os frutos, Montão de estercorária argila preta, Excrescência de terra singular. Deixa a tua alegria aos seres brutos, Porque, na superfície do planeta, Tu só tens um direito: - o de chorar! Augusto dos Anjos Homo Infimus Homem, carne sem luz, criatura cega, Realidade geográfica infeliz, O Universo calado te renega E a tua própria boca te maldiz! O nôumeno e o fenômeno, o alfa e o omega Amarguram-te. Hebdômadas hostis Passam... Teu coração se desagrega, Sangram-te os olhos, e, entretanto, ris! Fruto injustificável dentre os frutos, Montão de estercorária argila preta, Excrescência de terra singular. Deixa a tua alegria aos seres brutos, Porque, na superfície do planeta, Tu só tens um direito: - o de chorar! Augusto dos Anjos Idealismo Falas de amor, e eu ouço tudo e calo O amor na Humanidade é uma mentira. É. E é por isto que na minha lira De amores fúteis poucas vezes falo. O amor! Quando virei por fim a amá-lo?! Quando, se o amor que a Humanidade inspira É o amor do sibarita e da hetaíra, De Messalina e de Sardanapalo? Pois é mister que, para o amor sagrado, O mundo fique imaterializado - Alavanca desviada do seu fulcro - E haja só amizade verdadeira Duma caveira para outra caveira, Do meu sepulcro para o teu sepulcro?! Augusto dos Anjos Idealização da Humanidade Futura Rugia nos meus centros cerebrais A multidão dos séculos futuros - Homens que a herança de ímpetos impuros Tornara étnicamente irracionais! - Não sei que livro, em letras garrafais, Meus olhos liam! No húmus dos monturos, Realizavam-se os partos mais obscuros, Dentre as genealogias animais! Como quem esmigalha protozoários Meti todos os dedos mercenários Na consciência daquela multidão... E, em vez de achar a luz que os Céus inflama, Somente achei moléculas de lama E a mosca alegre da putrefação! Augusto dos Anjos Infeliz Alma viúva das paixões da vida, Tu que, na estrada da existência em fora, Cantaste e riste, e na existência agora Triste soluças a ilusão peerdida; Oh! Tu, que na grinalda emurchecida De teu passado de felicidade Foste juntar os goivos da Saudade Às flores da Esperança enlanguescida; Se nada te aniquila o desalento Que te invade, e o pesar negro e profundo, Esconde à Natureza o sofrimento, E fica no teu ermo entristecida, Alma arrancada do prazer do mundo, Alma viúva das paixões da vida. Augusto dos Anjos Insânia de um Simples Em cismas patológicas insanas, É-me grato adstringir-me, na hierarquia Das formas vivas, à categoria Das organizações liliputianas; Ser semelhante aos zoófitos e às lianas, Ter o destino de uma larva fria, Deixar enfim na cloaca mais sombria Este feixe de células humanas! E enquanto arremedando Eolo iracundo, Na orgia heliogabálica do mundo, Ganem todos os vícios de uma vez, Apraz-me, adstricto ao triângulo mesquinho De um delta humilde, apodrecer sozinho No silêncio de minha pequenez! Augusto dos Anjos Insônia Noite. Da Mágoa o espírito noctâmbulo Passou de certo por aqui chorando! Assim, em mágoa, eu também vou passando Sonâmbulo... sonâmbulo... sonâmbulo... Que voz é esta que a gemer concentro No meu ouvido e que do meu ouvido Como um bemol e como um sustenido Rola impetuosa por meu peito a dentro?! - Por que é que este gemido me acompanha?! Mas dos meus olhos no sombrio palco Súbito surge como um catafalco Uma cidade ao mapa-mundi estranha. A dispersão dos sonhos vagos reuno. Desta cidade pelas ruas erra A procissão dos Mártires da Terra Desde os Cristãos até Giordano Bruno! Vejo diante de mim Santa Francisca Que com o cilício as tentações suplanta, E invejo o sofrimento desta Santa, Em cujo olhar o Vício não faísca! Se eu pudesse ser puro! Se eu pudesse, Depois de embebedado deste vinho. Sair da vida puro como o arminho Que os cabelos dos velhos embranquece! Por que cumpri o universal ditame!? Pois se eu sabia onde morava o Vício, Por que não evitei o precipício Estrangulando minha carne infame?! Até que dia o intoxicado aroma Das paixões torpes sorverei contente? E os dias correrão eternamente?! E eu nunca sairei desta Sodoma?! À proporção que a minha insônia aumenta Hieroglifos e esfinges interrogo. . . Mas, triunfalmente, nos céus altos, logo Toda a alvorada esplêndida se ostenta. Vagueio pela Noite decaída... No espaço a luz de Aldebarã e de Árgus Vai projetando sobre os campos largos O derradeiro fósforo da Vida. O Sol, equilibrando-se na esfera, Restitui-me a pureza da hematose E então uma interior metamorfose Nas minhas arcas cerebrais se opera. O odor da margarida e da begônia Subitamente me penetra o olfato... Aqui, neste silêncio e neste mato, Respira com vontade a alma campônia! Grita a satisfação na alma dos bichos. Incensa o ambiente o fumo dos cachimbos. As árvores, as flores, os corimbos, Recordam santos nos seus próprios nichos. Com o olhar a verde periferia abarco. Estou alegre. Agora, por exemplo, Cercado destas árvores, contemplo As maravilhas reais do meu Pau d'Arco Cedo virá, porém, o funerário, Atro dragão da escura noite, hedionda, Em que o Tédio, batendo na alma, estronda Como um grande trovão extraordinário. Outra vez serei pábulo do susto E terei outra vez de, em mágoa imerso, Sacrificar-me por amor do Verso No meu eterno leito de Procusto! Augusto dos Anjos Remetibo por F.Sátiro - fsatiro@openline.com.br Lirial Por que choras assim, tristonho lírio, Se eu sou o orvalho eterno que te chora, P'ra que pendes o cálice que enflora Teu seio branco do palor do círio?! Baixa a mim, irmã pálida da Aurora, Estrela esmaecida do Martírio; Envolto da tristeza no delírio, Deixa beijar-te a face que descora! Fosses antes a rosa purpurina E eu beijaria a pétala divina Da rosa, onde não pousa a desventura. Ai! que ao menos talvez na vida escassa Não chorasses à sombra da desgraça, Para eu sorrir à sombra da ventura! Augusto dos Anjos Louvor a Unidade "Escafandros, arpões, sondas e agulhas "Debalde aplicas aos heterogêneos "Fenômenos, e, há inúmeros milênios, "Num pluralismo hediondo o olhar mergulhas! "Une, pois, a irmanar diamantes e hulhas, "Com essa intuição monística dos gênios, "À hirta forma falaz do are perennius "A transitoriedade das fagulhas!" - Era a estrangulação, sem retumbância, Da multimilenária dissonância Que as harmonias siderais invade... Era, numa alta aclamação, sem gritos, O regresso dos átomos aflitos Ao descanso perpétuo da Unidade! Augusto dos Anjos Mãos Há mãos que fazem medo Feias agregações pentagonais, Umas, em sangue, a delinqüentes natos, Assinalados pelo mancinismo, Pertencentes talvez... Outras, negras, a farpas de rochedo Completamente iguais... Mãos de linhas análogas a anfratos Que a Natureza omnicreadora fez Em contraposição e antagonismo Às da estrela, às da neve, às dos cristais. Mãos que adquiriram olhos, pituitárias Olfativas, tentáculos subtis E à noite, vão cheirar, quebrando portas O azul gasofiláceo silencioso Dos tálamos cristãos. Mãos adúlteras, mãos mais sanguinárias E estupradoras do que os bisturis Cortando a carne em flor das crianças mortas. Monstruosíssimas mãos, Que apalpam e olham com lascívia e gozo A pureza dos corpos infantis. Augusto dos Anjos Mágoas Quando nasci, num mês de tantas flores, Todas murcharam, tristes, langorosas, Tristes fanaram redolentes rosas, Morreram todas, todas sem olores. Mais tarde da existência nos verdores Da infância nunca tive as venturosas Alegrias que passam bonançosas, Oh! Minha infância nunca teve flores! Volvendo à quadra azul da mocidade, Minh'alma levo aflita à Eternidade, Quando a morte matar meus dissabores. Cansado de chorar pelas estradas, Exausto de pisar mágoas pisadas, Hoje eu carrego a cruz das minhas dores! Augusto dos Anjos Mater Como a crisálida emergindo do ovo Para que o campo flórido a concentre, Assim, oh! Mãe, sujo de sangue, um novo Ser, entre dores, te emergiu do ventre! E puseste-lhe, haurindo amplo deleite, No lábio róseo a grande teta farta - Fecunda fonte desse mesmo leite - Que amamentou os éfebos de Sparta. - Com que avidez ele essa fonte suga! Ninguém mais com a Beleza está de acordo, Do que essa pequenina sanguessuga, Bebendo a vida no teu seio gordo! Pois, quanto a mim, sem pretensões, comparo, Essas humanas cousas pequeninas A um biscuít de quilate muito raro Exposto aí, à amostra, nas vitrinas. Mas o ramo fragílimo e venusto Que hoje nas débeis gêmulas se esboça, Há de crescera há de tornar-se arbusto E álamo altivo de ramagem grossa. Clara, a atmosfera se encherá de aromas, O Sol virá das épocas sadias... E o antigo leão, que te esgotou as pomas, Há de beijar-te as mãos todos os dias! Quando chegar depois tua velhice Batida pelos bárbaros invernos! Relembrarás chorando o que eu te disse, A sombra dos sicômoros eternos! Augusto dos Anjos Mater Originalis Forma vermicular desconhecida Que estacionaste, mísera e mofina, Como quase impalpável gelatina, Nos estados prodrômicos da vida; O hierofante que leu a minha sina Ignorante é de que és, talvez, nascida Dessa homogeneidade indefinida Que o insigne Herbert Spencer nos ensina. Nenhuma ignota união ou nenhum nexo A contingência orgânica do sexo A tua estacionária alma prendeu... Ah! de ti foi que, autônoma e sem normas, Oh! Mãe original das outras formas, A minha forma lúgubre nasceu! Augusto dos Anjos Minha Árvore Olha: É um triângulo estéril de ínvia estrada! Como que a erva tem dor... Roem-na amarguras Talvez humanas, e entre rochas duras Mostra ao Cosmos a face degradada! Entre os pedrouços maus dessa morada É que, às apalpadelas e às escuras, Hão de encontrar as gerações futuras Só, minha árvore humana desfolhada! Mulher nenhuma afagará meu tronco! Eu não me abalarei, nem mesmo ao ronco Do furacão que, rábido, remoinha... Folhas e frutos, sobre a terra ardente Hão de encher outras árvores! Somente Minha desgraça há de ficar sozinha! Augusto dos Anjos Minha Finalidade Turbilhão teleológico incoercível, Que força alguma inibitória acalma, Levou-me o crânio e pôs-lhe dentro a palma Dos que amam apreender o Inapreensível! Predeterminação imprescriptível Oriunda da infra-astral Substância calma Plasmou, aparelhou, talhou minha alma Para cantar de preferência o Horrível! Na canonização emocionante, Da dor humana, sou maior que Dante, - A águia dos latifúndios florentinos! Sistematizo, soluçando, o Inferno... E trago em mim, num sincronismo eterno A fórmula de todos os destinos! Augusto dos Anjos Mistérios de um Fósforo Pego de um fósforo. Olho-o. Olho-o ainda. Risco-o Depois. E o que depois fica e depois Resta é um ou, por outra, é mais de um, são dois Túmulos dentro de um carvão promíscuo. Dois são, porque um, certo, é do sonho assíduo Que a individual psiquê humana tece e O outro é o do sonho altruístico da espécie Que é o substractum dos sonhos do indivíduo! E exclamo, ébrio, a esvaziar báquicos odres: - Cinza, síntese má da podridão, "Miniatura alegórica do chão, "Onde os ventres maternos ficam podres; "Na tua clandestina e erma alma vasta, "Onde nenhuma lâmpada se acende, "Meu raciocínio sôfrego surpreende "Todas as formas da matéria gasta!" Raciocinar! Aziaga contingência! Ser quadrúpede! Andar de quatro pés É mais do que ser Cristo e ser Moisés Porque é ser animal sem ter consciência! Bêbedo, os beiços na ânfora ínfima, harto, Mergulho, e na ínfima ânfora, harto, O amargor específico do absinto E o cheiro animalíssimo do parto! E afogo mentalmente os olhos fundos Na amorfia da cítula inicial, De onde, por epigênese geral, Todos os organismos são oriundos. Presto, irrupto, através ovóide e hialino Vidro, aparece, amorfo e lúrido, ante Minha massa encefálica minguante Todo o gênero humano intra-uterino! É o caos da ávita víscera avarenta - Mucosa nojentíssima de pus, A nutrir diariamente os fetos nus Pelas vilosidades da placenta! - Certo, o arquitetural e íntegro aspecto Do mundo o mesmo ainda é, que, ora, o que nele Morre, sou eu, sois vós, é todo aquele Que vem de um ventre inchado, ínfimo e infecto! É a flor dos genealógicos abismos - Zooplasma pequeníssimo e plebeu, De onde o desprotegido homem nasceu Para a fatalidade dos tropismos. - Depois, é o céu abscôndito do Nada. É este ato extraordinário de morrer Que há de, na última hebdômada, atender Ao pedido da célula cansada! Um dia restará, na terra instável, De minha antropocêntrica matéria Numa côncava xícara funérea Uma colher de cinza miserável! Abro na treva os olhos quase cegos. Que mão sinistra e desgraçada encheu Os olhos tristes que meu Pai me deu De alfinetes, de agulhas e de pregos?! Pesam sobre o meu corpo oitenta arráteis! Dentro um dínamo déspota, sozinho, Sob a morfologia de um moinho, Move todos os meus nervos vibráteis. Então, do meu espírito, em segredo, Se escapa, dentre as tênebras, muito alto, Na síntese acrobática de um salto, O espectro angulosíssimo do Medo! Em cismas filosóficas me perco E, vejo, como nunca outro homem viu, Na anfigonia que me produziu Noniliões de moléculas de esterco. Vida, mônada vil, cósmico zero, Migalha de albumina semifluida, Que fez a boca mística do druida E a língua revoltada de Lutero; Teus gineceus prolíficos envolvem Cinza fetal!... Basta um fósforo só Para mostrar a incógnita de pó, Em que todos os seres se resolvem! Ah! Maldito o conúbio incestuoso Dessas afinidades eletivas, De onde quimicamente tu derivas, Na aclamação simbiótica do gozo! O enterro de minha última neurona Desfila... E eis-me outro fósforo a riscar E esse acidente químico vulgar Extraordinariamente me impressiona! Mas minha crise artrítica não tarda. Adeus! Que eu vejo enfim, com a alma vencida, Na abjecção embriológica da vida O futuro de cinza que me aguarda! Augusto dos Anjos Monólogo de uma Sombra «Sou uma Sombra! Venho de outras eras, Do cosmopolitismo das moneras... Pólipo de recônditas reentrâncias, Larva de caos telúrico, procedo Da escuridão do cósmico segredo, Da substância de todas as substâncias! A simbiose das coisas me equilibra. Em minha ignota mônada, ampla, vibra A alma dos movimentos rotatórios... E é de mim que decorrem, simultâneas, A saúde das forças subterrâneas E a morbidez dos seres ilusórios! Pairando acima dos mundanos tectos, Não conheço o acidente da Senectus - Esta universitária sanguessuga , Que produz, sem dispêndio algum de vírus, O amarelecimento do papirus E a miséria anatômica da ruga! Na existência social, possuo uma arma - O metafisicismo de Abidarma - E trago, sem bramânicas tesouras, Como um dorso de azêmola passiva, A solidariedade subjetiva De todas as espécies sofredoras. Com um pouco de saliva quotidiana Mostro meu nojo à Natureza Humana. A podridão me serve de Evangelho... Amo o esterco, os resíduos ruins dos quiosques E o animal inferior que urra nos bosques E com certeza meu irmão mais velho! Tal qual quem para o próprio túmulo olha, Amarguradamente se me antolha, À luz do americano plenilúnio, Na alma crepuscular de minha raça Como uma vocação para a Desgraça E um tropismo ancestral para o Infortúnio. Aí vem sujo, a coçar chagas plebéias, Trazendo no deserto das idéias O desespero endêmico do inferno, Com a cara hirta, tatuada de fuligens Esse mineiro doido das origens, Que se chama o Filósofo Moderno! Quis compreender, quebrando estéreis normas, A vida fenomênica das Formas, Que, iguais a fogos passageiros, luzem... E apenas encontrou na idéia gasta, O horror dessa mecânica nefasta, A que todas as cousas se reduzem! E hão de achá-lo, amanhã, bestas agrestes, Sobre a esteira sarcófaga das pestes A mostrar, já nos últimos momentos, Como quem se submete a uma charqueada, Ao clarão tropical da luz danada, espólio dos seus dedos peçonhentos. Tal a finalidade dos estames! Mas ele viverá, rotos os liames Dessa estranguladora lei que aperta Todos os agregados perecíveis, Nas eterizações indefiníveis Da energia intra-atômica liberta! Será calor, causa úbiqua de gozo, Raio X, magnetismo misterioso, Quimiotaxia, ondulação aérea, Fonte de repulsões e de prazeres, Sonoridade potencial dos seres, Estrangulada dentro da matéria! E o que ele foi: clavículas, abdômen, O coração, a boca, em síntese, o Homem, - Engrenagem de vísceras vulgares - Os dedos carregados de peçonha, Tudo coube na lógica medonha Dos apodrecimentos musculares! A desarrumação dos intestinos Assombra! Vede-a! Os vermes assassinos Dentro daquela massa que o húmus come, Numa glutoneria hedionda, brincam, Como as cadelas que as dentuças trincam No espasmo fisiológico da fome. É uma trágica festa emocionante! A bacteriologia inventariante Toma conta do corpo que apodrece ... E até os membros da família engulham, Vendo as larvas malignas que se embrulham No cadáver malsão, fazendo um s. E foi então para isto que esse doudo Estragou o vibrátil plasma todo, À guisa de um faquir, pelos cenóbios?! ... Num suicídio graduado, consumir-se, E após tantas vigílias, reduzir-se A herança miserável de micróbios! Estoutro agora é o sátiro peralta Que o sensualismo sodomista exalta, Nutrindo sua infâmia a leite e a trigo. Como que, em suas células vilíssimas, Há estratificações requintadíssimas De uma animalidade sem castigo. Brancas bacantes bêbedas o beijam. Suas artérias hírcicas latejam, Sentindo o odor das carnações abstêmias, E à noite, vai gozar, ébrio de vício, No sombrio bazar do meretrício, O cuspo afrodisíaco das fêmeas. No horror de sua anômala nevrose, Toda a sensualidade da simbiose, Uivando, à noite, em lúbricos arroubos, Como no babilônico sansara, Lembra a fome incoercível que escancara A mucosa carnívora dos lobos. Sôfrego, o monstro as vítimas aguarda. Negra paixão congênita, bastarda, Do seu zooplasma ofídico resulta... E explode, igual à luz que o ar acomete, Com a veemência mavórtica do ariete E os arremessos de uma catapulta. Mas muitas vezes, quando a noite avança, Hirto, observa através a tênue trança Dos filamentos fluídicos de um halo A destra descarnada de um duende, Que, tateando nas tênebras, se estende Dentro da noite má, para agarrá-lo! Cresce-lhe a intracefálica tortura, E de su'alma na caverna escura, Fazendo ultra-epilépticos esforços, Acorda, com os candieiros apagados, Numa coreografia de danados, A família alarmada dos remorsos. E o despertar de um povo subterrâneo! É a fauna cavernícola do crânio - Macbeths da patológica vigília, Mostrando, em rembrandtescas telas várias, As incestuosidades sanguinárias Que ele tem praticado na família. As alucinações tácteis pululam. Sente que megatérios o estrangulam... A asa negra das moscas o horroriza; E autopsiando a amaríssirna existência Encontra um cancro assíduo na consciência E três manchas de sangue na camisa! Míngua-se o combustível da lanterna E a consciência do sátiro se inferna, Reconhecendo, bêbedo de sono, Na própria ânsia dionísica do gozo, Essa necessidade de horroroso, Que é talvez propriedade do carbono! Ah! Dentro de toda a alma existe a prova De que a dor como um dartro se renova, Quando o prazer barbaramente a ataca... Assim também, observa a ciência crua, Dentro da elipse ignívoma da lua A realidade de uma esfera opaca. Somente a Arte, esculpindo a humana mágoa, Abranda as rochas rígidas, torna água Todo o fogo telúrico profundo E reduz, sem que, entanto, a desintegre, A condição de uma planície alegre, A aspereza orográfica do mundo! Provo desta maneira ao mundo odiento Pelas grandes razões do sentimento, Sem os métodos da abstrusa ciência fria E os trovões gritadores da dialética, Que a mais alta expressão da dor estética Consiste essencialmente na alegria. Continua o martírio das criaturas: - O homicídio nas vielas mais escuras, - O ferido que a hostil gleba atra escarva, - O último solilóquio dos suicidas - E eu sinto a dor de todas essas vidas Em minha vida anônima de larva!» Disse isto a Sombra. E, ouvindo estes vocábulos, Da luz da lua aos pálidos venábulos, Na ânsia de um nervosíssimo entusiasmo, julgava ouvir monótonas corujas, Executando, entre caveiras sujas, A orquestra arrepiadura do sarcasmo! Era a elegia panteísta do Universo, Na podridão do sangue humano imerso, Prostituído talvez, em suas bases... Era a canção da Natureza exausta, Chorando e rindo na ironia infausta Da incoerência infernal daquelas frases. E o turbilhão de tais fonemas acres Trovejando grandíloquos massacres, Há-de ferir-me as auditivas portas, Até que minha efêmera cabeça Reverta à quietação da treva espessa E à palidez das fotosferas mortas! * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * Augusto dos Anjos Natureza Íntima Ao filósofo Farias Brito Cansada de observar-se na corrente Que os acontecimentos refletia, Reconcentrando-se em si mesma, um dia, A Natureza olhou-se interiormente! Baldada introspecção! Noumenalmente O que Ela, em realidade, ainda sentia Era a mesma imortal monotonia De sua face externa indiferente! E a Natureza disse com desgosto: "Terei somente, porventura, rosto?! "Serei apenas mera crusta espessa?! "Pois é possível que Eu, causa do Mundo, "Quanto mais em mim mesma me aprofundo, "Menos interiormente me conheça?!" Augusto dos Anjos Nimbos Nimbos de bronze que empanais escuros O santuário azul da Natureza, Quando vos vejo, negros palinuros Da tempestade negra e da tristeza, Abismados na bruma enegrecida, Julgo ver nos reflexos de minh'alma As mesmas nuvens deslizando em calma, Os nimbos das procelas desta vida; Mas quando o céu é límpido, sem bruma Que a transparência tolde, sem nenhuma Nuvem sequer, então, num mar de esp'rança, Que o céu reflete, a vida é qual risonho Batel, e a alma é a Flâmula do sonho, Que o guia e o leva ao porto da bonança. Augusto dos Anjos No Campo Tarde. Um arroio canta pela umbrosa Estrada; as águas límpidas alvejam Com cristais. Aragem suspirosa Agita os roseirais que ali vicejam. No alto, entretanto, os astros rumorejam Um presságio de noute luminosa E ei-la que assoma - a Louca tenebrosa, Branca, emergindo às trevas que a negrejam. Chora a corrente múrmura, e, à dolente Unção da noute, as flores também choram Num chuveiro de pétalas, nitente, Pendem e caem - os roseirais descoram E elas bóiam no pranto da corrente Que as rosas, ao luar, chorando enfloram. Pau d'Arco - 1902 Augusto dos Anjos No Claustro Pelas do claustro salas silenciosas De lutulentas, úmidas arcadas, Na vastidão silente das caladas Abóbodas sombrias tenebrosas, Vagueiam tristemente desfiladas De freiras e de monjas tristurosas, Que guardam cinzas de ilusões passadas, Que guardam pér'las de funéreas rosas. E à noute quando rezam na clausura, No sigilo das rezas misteriosas, Nem a sombra mais leve de ventura! Sempre as arcadas ogivais, desnudas, E as mesmas monjas sempre tristurosas, E as mesmas portas impassíveis, mudas! Augusto dos Anjos Noivado Os namorados ternos suspiravam, Quando há de ser o venturoso dia?! Quando há de ser!? O noivo então dizia E a noiva e ambos d'amores s'embriagavam. E a mesma frase o noivo repetia; Fora no campo pássaros trinavam, Quando há de ser!? E os pássaros falavam; Há de chegar, a brisa respondia. Vinha rompendo a aurora majestosa, Dos rouxinóis ao sonoroso harpejo E a luz do sol vibrava esplendorosa. Chegara enfim o dia desejado, Ambos unidos soluçara um beijo, Era o supremo beijo de noivado! Augusto dos Anjos Noli me Tangere A exaltação emocional do Gozo, O Amor, a Glória, a Ciência, a Arte e a Beleza Servem de combustíveis à ira acesa Das tempestades do meu ser nervoso! Eu sou, por conseqüência um ser monstruoso! Em minha arca encefálica indefesa Choram as forças más da Natureza Sem possibilidades de repouso! Agregados anômalos malditos Despedaçam-se, mordem-se, dão gritos Nas minhas camas cerebrais funéreas... Ai! Não toqueis em minhas faces verdes, Sob pena, homens felizes, de sofrerdes A sensação de todas as misérias! Augusto dos Anjos O Caixão Fantástico Célere ia o caixão, e, nele, inclusas, Cinzas, caixas cranianas, cartilagens Oriundas, como os sonhos dos selvagens, De aberratórias abstrações abstrusas! Nesse caixão iam talvez as Musas, Talvez meu Pai! Hoffmânnicas visagens Enchiam meu encéfalo de imagens As mais contraditórias e confusas! A energia monástica do Mundo, À meia-noite, penetrava fundo No meu fenomenal cérebro cheio... Era tarde! Fazia muito frio. Na rua apenas o caixão sombrio Ia continuando o seu passeio! Augusto dos Anjos O Canto Dos Presos Troa, a alardear bárbaros sons abstrusos, O epitalâmio da Suprema Falta, Entoado asperamente, em voz muito alta, Pela promiscuidade dos reclusos! No wagnerismo desses sons confusos, Em que o Mal se engrandece e o ódio se exalta, Uiva, à luz de fantástica ribalta, A ignomínia de todos os abusos! É a prosódia do cárcere, é a partênea Aterradoramente heterogênea Dos grandes transviamentos subjectivos... È a saudade dos erros satisfeitos, Que, não cabendo mais dentro dos peitos, Se escapa pela boca dos cativos! Augusto dos Anjos O Condenado Folga a justiça e geme a natureza - Bocage Alma feita somente de granito, Condenada a sofrer cruel tortura Pela rua sombria d'amargura - Ei-lo que passa - réprobo maldito. Olhar ao chão cravado e sempre fito, Parece contemplar a sepultura Das suas ilusões que a desventura Desfez em pó no hórrido delito. E, à cruz da expiação subindo mudo, A vida a lhe fugir já sente prestes Quando ao golpe do algoz, calou-se tudo. O mundo é um sepulcro de tristeza, Ali, por entre matas de ciprestes, Folga a justiça e geme a natureza. Augusto dos Anjos O Corrupião Escaveirado corrupião idiota, Olha a atmosfera livre, o amplo éter belo, E a alga criptógama e a úsnea e o cogumelo, Que do fundo do chão todo o ano brota! Mas a ânsia de alto voar, de à antiga rota Voar, não tens mais! E pois, preto e amarelo, Pões-te a assobiar, bruto, sem cerebelo A gargalhada da última derrota! A gaiola aboliu tua vontade. Tu nunca mais verás a liberdade! ... Ah! Tu somente ainda és igual a mim. Continua a comer teu milho alpiste. Foi este mundo que me fez tão triste, Foi a gaiola que te pôs assim! Augusto dos Anjos O Coveiro Uma tarde de abril suave e pura Visitava eu somente ao derradeiro Lar; tinha ido ver a sepultura De um ente caro, amigo verdadeiro. Lá encontrei um pálido coveiro Com a cabeça para o chão pendida; Eu senti a minh'alma entristecida E interroguei-o: "Eterno companheiro Da morte, que matou-te o coração?" Ele apontou para uma cruz no chão, Ali jazia o seu amor primeiro! Depois, tomando a enxada gravemente, Balbuciou, sorrindo tristemente: - "Ai! Foi por isso que me fiz coveiro!"