Florbella Espanca - Amar Amar Eu quero amar, amar perdidamente! Amar so' por amar: Aqui... alem... Mais Este e Aquele, e Outro e toda a gente... Amar! Amar! E nao amar ninguem! Recordar? Esquecer? Indiferente!... Prender ou desprender? E' mal? E' bem? Quem disser que se pode amar alguem Durante a vida inteira e' porque mente! Ha' uma Primavera em cada dia: E' preciso canta-la assim florida, Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar! E se um dia hei-de ser po', cinza e nada Que seja a minha noite uma alvorada, Que me saiba perder... pra me encontrar... Florbela Espanca Amor que morre O nosso amor morreu... Quem o diria! Quem o pensara mesmo ao ver-me tonta, Ceguinha de te ver, sem ver a conta Do tempo que passava, que fugia! Bem estava a sentir que ele morria... E outro clara~o, ao longe, ja' desponta! Um engano que morre... e logo aponta A luz doutra miragem fugidia... Eu bem sei, meu Amor, que pra viver Sa~o precisos amores, pra morrer, E sa~o precisos sonhos para partir. E bem sei, meu Amor, que era preciso Fazer do amor que parte o claro riso De outro amor impossi'vel que ha'-de vir! ------------------------------------------------------------------------ Florbela Espanca Florbela Espanca Inconsta^ncia Procurei o amor, que me mentiu. Pedi `a Vida mais do que ela dava; Eterna sonhadora edificava Meu castelo de luz que me caiu! Tanto clara~o nas trevas refulgiu, E tanto beijo a boca me queimava! E era o sol que os longes deslumbrava Igual a tanto sol que me fugiu! Passei a vida a amar e a esquecer... Atra's do sol dum dia outro a aquecer As brumas dos atalhos por onde ando... E este amor que assim me vai fugindo E' igual a outro amor que vai surgindo, Que ha'-de partir tambe'm... nem eu sei quando... ------------------------------------------------------------------------ Florbela Espanca Florbella Espanca - O Meu Conda~o O Meu Conda~o Quis Deus dar-me o conda~o de ser sensi'vel Como o diamante `a luz que o alumia, Dar-me uma alma fanta'stica, impossi'vel: -- Um bailado de cor e fantasia! Quis Deus fazer de ti a ambrosia Desta paixa~o estranha, ardente, incri'vel! Erguer em mim o facho inextingui'vel, Como um cinzel vincando uma agonia! Quis Deus fazer-me tua... para nada! -- Va~os, os meus brac,os de crucificada, Inu'teis, esses beijos que te dei! Anda! Caminha! Aonde?... Mas por onde?... Se a um gesto dos teus a sombra esconde O caminho de estrelas que tracei... ------------------------------------------------------------------------ Florbela Espanca Sent by Carlos Bispo (cb8t+@andrew.cmu.edu) Florbela Espanca Princesa Desalento Minh'alma é a Princesa Desalento, Como um Poeta lhe chamou, um dia. É magoada, e pálida, e sombria, Como soluços trágicos do vento! É frágil como o sonho dum momento; Soturna como preces de agonia, Vive do riso duma boca fria: Minh'alma é a Princesa Desalento... Altas horas da noite ela vagueia... E ao luar suavíssimo, que anseia, Põe-se a falar de tanta coisa morta! O luar ouve minh'alma, ajoelhado, E vai traçar, fantástico e gelado, A sombra duma cruz `a tua porta... Florbela Espanca Florbella Espanca Se tu viesses ver-me... Se tu viesses ver-me hoje `a tardinha, A essa hora dos ma'gicos cansac,os, Quando a noite de manso se avizinha, E me prendesses toda nos teus brac,os... Quando me lembra: esse sabor que tinha A tua boca... o eco dos teus passos... O teu riso de fonte... os teus abrac,os... Os teus beijos... a tua ma~o na minha... Se tu viesses quando, linda e louca, Trac,a as linhas dulci'ssimas dum beijo E e' de seda vermelha e canta e ri E e' como um cravo ao sol a minha boca... Quando os olhos se me cerram de desejo... E os meus brac,os se estendem para ti... ------------------------------------------------------------------------ Florbella Espanca Florbela Espanca Tarde no mar A tarde e' de oiro ru'tilo: esbraseia. O horizonte: um cacto purpurino. E a vaga esbelta que palpita e ondeia, Com uma fra'gil grac,a de menino, Pousa o manto de arminho na areia E la' vai, e la' segue o seu destino! E o sol, nas casas brancas que incendeia, Desenha ma~os sangrentas de assassino! Que linda tarde aberta sobre o mar! Vai deitando do ce'u molhos de rosas Que Apolo se entrete'm a desfolhar... E, sobre mim, em gestos palpitantes, As tuas ma~os morenas, milagrosas, Sa~o as asas do sol, agonizantes... ------------------------------------------------------------------------ Florbela Espanca Florbela Espanca Vaidade Sonho que sou a Poetisa eleita, Aquela que diz tudo e tudo sabe, Que tem a inspiração pura e perfeita, Que reúne num verso a imensidade! Sonho que um verso meu tem claridade Para encher o mundo! E que deleita Mesmo aqueles que morrem de saudade! Mesmo os de alma profunda e insatisfeita! Sonho que sou Alguém cá neste mundo... Aquela de saber vasto e profundo, Aos pés de quem a Terra anda curvada! E quando mais no céu eu vou sonhando, E quando mais no alto ando voando, Acordo do meu sonho... E não sou nada!... Florbela Espanca Sent by Carlos Bispo