Pedro Abrunhosa + perto do ceu Já ia sendo hora de o fenomeno musical portugues de 1994 dar entrada nos Versos de Segunda. Aqui o teem para vosso escrutinio, caso ainda não tivessem tido oportunidade de se cruzarem com os seus dizeres. Carlos Bispo ------------------------------------------------------------------------ Enquanto eu te escrevo, Sarajevo morre lenta uma morte amordaçada no silêncio dos tiros e na paz da granada. A noite acoita o metralhar será homem ou fera este triste uivar? Posso ver as avenidas, coloridas, presentes, hoje sombras despidas do passado distante. A vez do vizinho que hoje foi a enterrar, sózinho, claro, que morrer é ficar. Os amantes ali estão abraçados no asfalto onde as balas lá do alto os apanharam à traição, no coração, que é o sítio ideal para quem mata a paixão, que amar é fatal. (refrao) + perto do céu anjo d'alma azul + perto do céu + longe que o sul. Calor, ja 'não há, só se for o da mortalha que é o lençol que me agasalha e a cama onde me deito e me enrolo sobre o peito, recordando o céu azul, e quer a norte quer a sul a liberdade de fugir. Ficar a resistir, morrer, nem pensar, que a coragem de aqui estar, como ontem em Guernica, é a vontade de quem fica. Vazia a dispensa é pior a indiferença. Auschwitz ou Buchenwald que afinal foram debalde, porque as câmaras de gás não ficaram para trás estão aqui à minha frente. Eu só quero estar presente de novo em Nuremberga, porque um povo não se verga. (refrão) Por isso aqui estou com arma sem muniçào, carne para canhão para contar toda a verdade... ... e liberdade. E no futuro, nem sequer se vão lembrar que tudo dói, mesmo Tolstoi lido à luz da curta vela. Sarajevo donzela tantas vezes violada, sempre só, abandonada. Tudo o que tenho é o empenho de quem sonha. O silêncio é vergonha, arma mortal, punhal que mata e maltrata escondido, sem ruído, tantas vezes repetido, e penetra no meu corpo, que deixa morto pelas costas... sem resposta. Agora é de vez. Faz frio no inferno deste Inverno. Cada bomba é uma sombra de indiferença. Crença que tem que mudar. Há que gritar e mostrar ao mundo os mortos que o mundo ignora e demora a perceber. Uso a caneta que é a minha baioneta, país eterno que deixo no caderno tenho medo que me esqueças e me peças para calar a voz, mas não o faças, porque ontem foram outros e hoje nós. Pedro Abrunhosa Viagens Já vai alta a noite, vejo o negro do céu, deitado na areia, o teu corpo e o meu. Viajo com as mãos por entre as montanhas e os rios, e sinto nos meus lábios os teus doces e frios. E voas sobre o mar, com as asas que eu te dou, e dizes-me a cantar: "É assim que eu sou". Olhar para ti e ver o que eu vejo, olhar-te nos olhos com olhares de desejo. Olhar para ti e ver o que eu vejo, olhar-te nos olhos com olhares de desejo. Eu não tenho nada mais p'ra te dar, esta vida sao dois dias, e um é para acordar, das historias de encantar, das historias de encantar. Viagens que se perdem no tempo, viagens sem princípio nem fim, beijos entregues ao vento, e amor em mares de cetim. Gestos que riscam o ar, e olhares que trazem solidão, pedras e praias e o céu a bailar, e os corpos que fogem do chão.