Batista de Lima Pródigo Sempre retorno para casa não para a casa para onde sempre retorno Retorno para uma outra casa que carrego aos ombros para outra casa que me carrega aos ombros Sempre carrego essa casa do retorno que cabe em qualquer casa e não cabe em casa alguma Não adianta a casa onde nasci nem a casa onde todo dia nasço A casa que carrego não tem portas nem paredes nem ocupa terreno algum A casa que carrego é apenas uma casa uma profunda e vasta casa * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * Batista de Lima A casa de meu avô A casa de meu avô tem histórias que o vento esqueceu nas cumeeiras Traços traçam amarelo de tempo nas pessoas dos retratos No chapéu de meu avô o peso do esperar pendurou-se nas abas O último cachorro deixou seu jeito no canto da porta seu grito no longe da serra e no susto dos bichos Nos varais as marcas dos panos se envergonham de nudez Nos baús o cheiro dos lençóis espera a vida que se esvaiu pelas frechas A casa de meu avô é uma dor sem jeito * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * Batista de Lima Só O que faz mais dura a solidão é tirar de mim o que me falta O que faz doer a solidão é sua sede é ter que arrancar destas entranhas um oceano de pedridade de quem freqüentou a escola das facas onde o que corta não é o gume mas a falta da lâmina O que fere não é a dor é sua ausência assassina pendurada nos cabides da alma O que dói na solidão é ter que amar e amar é perder uma banda é extrair um bonde de um homem é extrair um bosque de uma mulher O que mais fere na solidão é sua inscrição cravada em brasa no braço inútil do verso uma família em torno da mesa comendo pratos de silêncio O que mais dói na solidão é perder de mim os outros que carrego o segundo contra o primeiro o terceiro que instiga o quarto que dorme o quinto que inicia uma infinidade de outros O que dói na solidão é essa batalha que não acaba mais entre guerreiros invisíveis enquanto um boi passeia nas nuvens e uma bicicleta muge já que os verdes anos foram nulos para quem nasceu maduro para quem perdeu o ciso na primeira dentição e o cordão umbilical nos bicos de um galo cego Ia prás bandas da Cipaúba Quanto dói ver a velha mangueira se desfazendo velha velha mangueira por quanto tempo roerei teus nós por quanto tempo aguardarei a manga que os passarinhos bicam no último dos galhos O que dói na solidão é o vira-lata sozinho revirando o deserto da cidade esquecida nas ruas é ter um pai com muitas capas todas com seus mistérios se desfazendo em barro por um caminho que mespera O que mais dói na solidão é ter na mão uma chave que nada abre que nada abre O que mais dói na solidão é não se poderem conter os fantasmas que teimam em saltar das sombras de cada canto São essas cobras passeando em nossa cabeça serpentário infindável Difícil conviver com a inesgotável solidão mais difícil mesmo é compor o verso sem a vaca no divã triste luna rodonoite áspera/mente Só mesmo a roda grande sescondendo em menor roda Só mesmo a bicicleta pendurada no trem noturno Só mesmo a melancia no rio em cheia boiando E os carneiros na mesa grande boiando os teus olhos boiando na bandeja os teus seios boiando no cuscus os teus sais boiando nas iguarias os teus ais boiando na rememóría O que mais dói não é tua ausência mas tua presença estando longe Lembra-te pois do açude onde as águas ainda nos guardam e os peixes nos carpem em lágrimas de cumplicidade Lembra-te da porta marcada pelos mistérios de estar fechada da casa retendo a mesa onde saboreávamos os silêncios familiares e escrevíamos a história da solidão no livro branco do cotidiádo A solidão mora lá e é manca e usa bengala preta e óculos no nariz e se veste de uma veste que nunca muda e tem na mão fechada a chave da nossa libertação Solidão solidão meu coração é uma cidade entre muralhas esperando tuas chaves Solidão solidão certa vez em Mombaça pedia esmolas p'ra São Sebastião e desenhei teu corpo num surrão de mangas e em bandas de coité de brejo Desenhei teu corpo num portão de vidro éramos dois que não eram dois Éramos dois e só um sol a claridade e seu dorso a clara idade e sua dor Solidão solidão estamos em pleno mar e não há mar nenhum Estamos em pleno sono e não há qualquer sonho só minha mão como um rosto cortando em muitos o luar de agosto O que dói na solidão é ter Ter é estar preso pesar pesadamente fixo Não ter é poder voar Leve levo-me às alturas lavo-me candura com o vôo esculpido no azul azul o azul está no prato servido e sorvido seres vivos estamos nele e ele em nós pasto de pasto repasto solitariamente circular rodando em torno da roda A solidão eixa e deseixa em roda quanto mais vemos menos vivemos coração coração Tenho ossos e mais ossos a rodear Que tenho feito senão rodear nunca quebrei o fêmur do que está posto nem a tíbia das situações sem jeito Rodear é fugir Solidade quando chegamos ao trem não havia trilho No açude não havia água só a dor do pesca/dor dois meninos engolindo uma duna e uma duna engolindo um astro uma foto de uma foto partida onde o instante enterrou-se A solidão é uma foto em que se retorce um inconformado instante Solidão é desencontrar-se nos própios passos nos próprios ossos perder o azul do firmamento deixar de extrair gerânios das pedras e de suas raízes deixar de pentear os raios do sol desarredondar a lua em luares atravessados Uma casa é uma caixa de apenas portas e abertas todas uma casa é um avesso um delírio espesso vasto berro de barro vagido e gozo vôo espargido de sonho e suspiro Minha solidão é nódoa grudada no ombro esquerdo do corpo onde jaz a mala das minhas desventuras Minha mãe é a terra e cumpro seu estatuto em retomar ao seu ventre meus filhos todos me seguirão vastíssimos sonhos de/verão Tarde tarde a solidão me salga as horas a mulher que retém o homem suas asas e águas rio seco areia de leito íngua cortada ferida tratada a urina caborge no meu pescoço levo teu pescoço teus passos laçados teu poder de vôo teu grito guardado Solidão é Laura de costas Laura láurea loura minha querida Laura chorarei lágrimas douradas quando tua nudez se esculpir no relâmpago Querida Laura recupera aquele instante em que nossos dedos se tocaram e nos perdemos Recupera o instante anterior ao toque quando a correnteza era mais forte em mim o despencar mais vertical retendo aqui esse abismo que me engole Recupera teu pai e a cuia que enchamos de esperanças antes do leite Recupera tua mãe e a chuva fina no telhado Recupera as águas que nos levaram e lavaram nossos sais o céu azul o curto mundo onde só o coração era vasto Recupera as curvas dos caminhos Recupera o fogo de monturo em nós Se não me queimo não posso iluminar se não te firo não extraio de ti o coração "rosa vermelha do meu bem querer" Na noite tarde o que resta é meu corpo lá e eu daqui olhando sua/minha posição fetal e essa augústia de perdê-lo de vista Não sei quando perderei essa dor de perder a casca a casa do ser não importa tanto se tantas se erguem Só o ser é uno solitariamente nu e eu molusco a vida inteira tenho construído essa casca que me expele e me retém escravo da construção construir é viver terminar a casa é terminar-me é expulsar-me da casca construída Foi fácil colocar a flor atrás da flor e ficar de uma só flor reinventando pomares Foi fácil reverter a manhã colocando alvoreceres de sol a pino Foi fácil engatinhar pelas galácias semeando brancas nuvens Houve no entanto um difícil momento mudar o destino da tarde Solidão solidade quando procurarei no bolso o poema encontrei aberta uma artéria e teu rosto de fada tua avó morrente uma floresta escura Quando procurei no bolso o poema encontrei um mistério esculpido algumas lavadeiras oito bicicletas e uma tia puxando um terço solitária Quando procurei no bolso o poema te vi mais uma vez prima/vera/ndo Vi também uma dor sangrando solitária Nos nossos bolsos pulsam os meninos que enxotam o demônio escondido num cupim e uma mulher de tarrafa tentando pescar o mar nas entranhas de um peixe Nos nossos bolsos pulsa o destino do poetar o revirar cada coisa para desvendar seus mistérios enquanto meus mistérios para trás vão ficando cada vez mais distantes cada vez mais distantes * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * Batista de Lima O Doce de Vitalina Vitalina faz cocada com mais alma do que coco Uma semana de criação onde leite açúcar e coco não têm importância como não têm importância tição fogo e brasa O mais importante é que Vitalina se ponha no caco e vá na cocada e que o sétimo dia seja para descanso como fez Deus na criação * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * Batista de Lima Pródigo Sempre retorno para casa não para a casa para onde sempre retorno Retorno para uma outra casa que carrego aos ombros para outra casa que me carrega aos ombros Sempre carrego essa casa do retorno que cabe em qualquer casa e não cabe em casa alguma Não adiante a casa onde nasci nem a casa onde todo dia nasço A casa que carrego não tem portas nem paredes nem ocupa terreno algum A casa que carrego é apenas uma casa uma profunda e vasta casa * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *