Medina, Cremilda de Araújo- Sonha Mamana África.São Paulo: Epopeia: Secretaria do Estado da Cultura,1987. CALANE DA SILVA Eu venho do outro lado da parede das coisas. A poesia está colada à vida. Para cada momento em peregrinação, o verso como cajado. Dito e criado em cima do fato. Calane da Silva, jornalista, escritor, andarilho, amante da Arte, seja ela posta no palco, na tela, na batucada de um samba ou no gesto que se encontra na rua. Foi fácil encontrá-lo. Avançamos dez anos nas gerações, e nos reunimos no mesmo patamar, o dos anos 60. Calane da Silva estava então na órbita da revista Cruzeiro, da luta dos camponeses no Nordeste, Francisco Julião e todos os impulsos revolucionários (O Brasil era a esperança mais viva). Mas também o mundo nos entrava pelos poros, tanto em Moçambique quanto em Porto Alegre, ou Salvador, Recife, Florianópolis, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, São Paulo. Todos nós, os da geração 60, vimos ciclos de cinema do mundo inteiro - o cineclubismo era um milagre da natureza, também no Índico - lemos Sartre, andamos às voltas com Camus e, de outro lado, a turma do nouveau roman, da nouvelle vague, e beat generation, e depois hippies, e Summer Hill. O planeta Norte se enfiava no planeta Sul através de suas melhores idéias, suas mais profundas inquietudes. Não precisava pedir licença, como naqueles versos de Manuel Bandeira, Irene, você não precisa pedir licença. Lourenço Marques, anos 60. Calane da Silva se lança com a energia quase ainda adolescente em um jornalismo que, por si, era agressivo. Fazia jus à decada de grandes fermentações em toda a parte. E por sorte encontra, à partida, companheiros de frente, já iniciados, como um José Craveirinha. Todos iam desaguar no Jornalismo. Calane, porém, vestiu-o sobre a pele e por ele respira até hoje. Escolheu da profissão o lado vivo, o da reportagem - e não deixou de ser poeta. O Jornalismo de reportagem, de grande reportagem, o que chama de Jornalismo vivo, é sua forma de ser. A literatura, outro vírus. Havia uma livraria que importava títulos, lá estavam os brasileiros que vinham pelos navios da Lloyd (hoje, não chegam mais). Graciliano Ramos, Jorge Amado, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Josué de Castro e tantos outros despertaram sua consciência política: debruçar-se sobre a realidade, embebido de sensibilidade coletiva. Tia Nini também (Calane explica a intimidade - Carolina Noémia de Sousa, a poeta-mãe dos moçambicanos, mamana de todos). Antes de existir a Frelimo e todo um aparato ideológico, a proposta sócio-política-cultural, havia olhos moçambicanos nos versos, nas atitudes de Tia Nini. Que prenunciaram as independências africanas dos anos 60, do Continente em polvorosa que, mesmo nos jornais fascistas de Moçambique, exigia uma manchete implícita - A África Está a Virar. Não se podia ficar neutro diante de tantos impulsos, motivações revolucionárias. E por isso a geração 60 matizou de cores fortes a pintura, os poemas foram ficando cada vez mais militantes. Noémia de Souza foi-se embora, auto-exilou-se, José Craveirinha ficou e com ele, muitos outros, discípulos, ou pares. O Jornalismo moçambicano, de aguerrido, provocador na medida do possível, passa a ser controlado pela PIDE, o fascismo fecha o cerco, surge a Frelimo e a luta armada, as prisões, as torturas, os cruéis, últimos e arrastados suspiros do colonialismo que teimosamente se mantêm até o dia 25 de Abril de 1974. Calane adere também, compulsivamente, ao lado justo da luta pela libertação. Em 1965 foi para a tropa. Revoltado amanuense, caiu em Nampula, na zona de guerra. Fez das tripas coração, ou das armas, arte. Em plena frente, em 1967, pôs-se a organizar exposições de telas, poemas, bonecos - nenhum deles vendido, os generais não gostavam daqueles "produtos exóticos". Entre os oficiais, porém, como em qualquer "raça", havia um que, um dia, lhe mostrou um livro: veja aí, que poesia. Era realmente a fina expressão da poesia africana revolucionária - Senghor, sul-africanos, moçambicanos. O tal oficial nunctalonfessou a que vinha, mas certamente era uma consciência desperta, sabia usar as oportunidades históricas. Para quem ainda era adolescente, de versos de amor, este batismo serviu para pôr o pé no chão, aderir à literatura feita em nome de um povo. Os poemas de um menino suburbano, mestiço de Oriente e Ocidente, África e Europa, foram recusados em 1965, na Voz de Moçambique. O apartheid cultural era tão declarado quanto o preconceito de cor da pele. Uma coisa, um fado da Amália Rodrigues, um vira; outra coisa, coisa mesmo, o folclore do preto. Como poeta, que fazer senão contestar o português padrão e introduzir, na clandestinidade, versos escritos no português mestiço? Vejam só neste poema de Calane: Rôsinha Rôsinha eu estar chatiado não ir trabalhar. Rôsinha agente aôje vai amar. - Ouvi quirido você sabe qui Chiquito comeu manga verde tem dor no barriga agente aôje não vai amar. Rôsinha eli não vai chorar! Eu vai comprar rimédio pra Chiquito eli ficar bom eli ádi brincar. Tira capulana Rôsinha agente aôje vai amar! (1966) Não é que a poesia se despisse da capulana para vestir o uniforme de soldado. Outra questão: o verso corria rápido entre as pessoas, oral ou manuscrito, em qualquer pedaço de matéria. Alguém punha um poema de Craveirinha no sapato, chegava, tirava debaixo do pé, o proclamava e todos entendiam a voz da alma. Essa alma poética lhes pertence ou veio com os próprios portugueses? Os moçambicanos não se preocupam mais em afirmar nacionalismos desvairados. A poesia vem de todos os séculos, de todos os cruzamentos - Calane sabe disso no próprio jeito de ser. Indianos, portugueses, africanos e sabe-se lá quantas culturas passam por sua gênese. Mais recentemente, seu pai Mário Alves da Silva, foi obrigado a se exilar em Moçambique como republicano repelido de Portugal em 1887. (Essa parece ter sido a sina de Moçambique, um lugar de degredo: o Brasil também o freqüenta, a partir de Tomás Antônio Gonzaga, lá está, um poeta.) A terceira mulher de seu pai, Emília Calane, foi comprada por dote - o lobolo. Emília vinha de mãe ronga e pai hindu, um sacerdote brâmane foragido, que fundou a primeira igreja hindu, em 1905. Calane traz nas veias, pela mãe, a cultura do campesinato. O pai lhe doou vozes ibéricas, mas não houve tempo. Aos oito anos perdeu-o, não chegou a beber muito da cultura portuguesa. Sua mãe, analfabeta, falava ronga com as irmãs dela, mas com os filhos - cinco - só se comunicava em português e os obrigava a dominar a língua de acesso à história do país. Essa mulher tinha consciência do valor político da língua portuguesa. E como ela, muitas mulheres ronga ou de outras culturas maternas. Hoje, vivido, Calane da Silva faz retrospectos históricos e verifica a saga da herança democrática em Moçambique; até onde pode chegar, alcança já nos anos 20 bons vestígios. As missões protestantes, por exemplo, promovendo as escolas laicas desde 1911, onde tinham acesso negros e mestiços; a criação de liceus a partir de 1926; jornais e jornalistas que atuam após a fundação de O Africano (editado em português e ronga desde 1909) e, sobretudo, o Brado Africano, 1918 (entre 1919 e 1920, nas línguas portuguesa, ronga e inglesa). Ao se pretender traçar os alvores da apropriação da língua portuguesa e dos ideiais democráticos é preciso cavar, portanto, nos anos 20. A década de 30, porém, representa um retrocesso, por causa da ascensão do fascismo. Calane pára e lembra uma obra literária que retrata magistralmente este pano de fundo - "O Ano da Morte de Ricardo Reis" de José Saramago (Editorial Caminho, 1983). Mas por mais fechado que tenha ficado o colonialismo, as brechas eram incontornáveis. No equilíbrio da serenidade, Calane da Silva pesa o lado bom e o lado cruel da civilização, ainda que na sua face colonialista. Técnicas e idéias modernas avançam em qualquer lugar, não há cerco que as contenha. E se Salazar tivesse sido mais inteligente, outro teria sido o rumo das suas colônias. Soubesse ele perceber e aproveitar o sincretismo cultural... Nos anos 50 e anos 60, o Jornalismo foi, em Moçambique, o exercício possível da literatura. Quando se intensifica a guerra pela independência, também as tropas, a luta armada, se transformam em veículos de difusão, acima de tudo da poesia. No final da década de 60, ao sair da tropa, ingressou definitivamente na militância jornalística. Teve a sorte, no Notícias, de encontrar um grupo intelectual de oposição em que o diálogo fluía. A reportagem e a mobilidade pelo País lhe deu o resto, ou o principal - conhecer sua terra, sua gente. O grupo do jornal, ligado economicamente a uma oligarquia portuguesa local, estava interessado em fazer um trabalho dinâmico, quase jornalismo independente. Mas a incompatibilidade com o Banco Nacional Ultramarino, o proprietário, levou esse grupo a obter um alvará para fundar a revista Tempo, inclusive com o apoio de capitalistas liberais. A Censura, a repressão cerca de perto a Tempo, criada em 1971. O uso de espaços em branco (censurados) não passa incólume por muito tempo; pouco depois, vem a lei que os proíbe. Em 1973, a revista não mais pertence à Sociedade de Redatores que a fundara - as reportagens são substituídas por capas e chamadas de matérias em que dominam concursos de misses. Só no 25 de Abril de 1974, os cravos se espalham no Atlântico e no Índico. Na semana seguinte à revolução portuguesa, a Tempo publica uma matéria com documentos fotográficos e tudo - "O que é a Frelimo" (esses documentos vinham da Suíça). Os tempos de transição foram rápidos: a 25 de junho de 1975, Moçambique era um país independente e os desafios saltaram para os ombros de quem fez esse dia. Calane da Silav não mais sossegou. Trabalhou arduamente na direção dos rumos da imprensa moçambicana. Envelhecemos de repente. Carência de quadros, cada líder é pessoa pouca para todas as tarefas. Houve uma fuga maciça de profissionais, técnicos, empresários etc. etc.. Principalmente após a nacionalização dos prédios, em 1976. Hoje até se questiona esta medida radical, poderia ter sido implantado um imposto progressivo, por exemplo. Calane reconsidera: não, foi uma resposta radical a um comportamento radical - os proprietários se recusavam a alugar um flat para pretos. Assim as nacionalizações das terras, da saúde, da escola. Isso foi o que mais assustou a classe intermediária e provocou a grande fuga (a guerra dos caixotes, como dize os angolanos). Um grande vazio para o começo de uma Nação. Errámos? Pergunta que inquieta as lúcidas consciências. A luta dos anos 60, começo dos anos 70, prometeu muito ao povo. Calane da Silva pondera, com amargura: criámos vazios grandes que não soubemos preencher. E ele se volta para a cultura. Quando quebraram rituais de iniciação, não ofereceram, entre outras coisas, uma educação sexual alternativa nas escolas. E o grande problema é que primeiro a Rodésia, depois a África do Sul, perceberam muito bem a fragilidade de Moçambique em todos os flancos - os estrategistas e pesquisadores da África do Sul conhecem, canto por canto, o país vizinho. Há, por trás disso, agora visível no banditismo armado, um plano diabólico de total desestabilização. Calane não mede, porém, a auto-crítica: criámos novas estruturas de Estado, que falam em nome da Nação e não em nome da estrutura tribal, a mais autêntica realidade cultural. Daí surgiu a primeira grande expansão da língua portuguesa como língua de prestígio. A viloência pode ser caracterizada por ocasião da nacionalização dos prédios: uma família saía do campo ou da periferia falando ronga e em dois anos estava falando português. A urgência e a emergência precipitaram tudo. Mas, quem sabe, teria sido válido, não fosse o estado de guerra que soterrou os ideiais de construção. Os grupos armados crescem conquistando dissidentes. Ou como diz Calane, vietnamizando contingentes de terroristas. Um povo sofrido, vítima de várias calamidades - o vazio dos que desertaram com a independência, secas, tufões, paralisação de unidades produtivas por falta de matérias-primas - é um povo vulnerável ao canto de sereias do extremo sul da África, uma vitrina autosuficiente de todos os luxos ocidentais. Calane não disse, outros disseram, mas recrutam-se bandidos armados nas aldeias na pura violência; ou, o que também é cruel,, soldados com fome, da Frelimo, passam para o outro lado, dos que assaltam casas e culturas agrícolas, que pilham e matam sem qualquer sentido humano. Dessa crueldade, Calane da Silva é testemunha como jornalista: os BA's liquidam primeiro o professor, o enfermeiro, o secretário do Partido, os deputados, depois queimam a aldeia e todos os meios de produção, pegam a população para a retribalizar ou, melhor dizendo, para a barbarizar. Dão plenos poderes ao antigo régulo e ao feiticeiro, reenquadram a população no obscurantismo e levam os menimos para o banditismo. Ou seja, o tal plano diabólico para rebentar o embrião da Nação moçambicana. Pode algum escritor, artista, ficar tranquilo diante de tudo isto? Calane da Silva sente-se em um momento decisivo. Um dia pensou o mesmo, antes da Independência. A impressão que tem é que se a ação política, diplomática, do mundo inteiro não derrubar o apartheid e desequilibrar esse gigante da África do Sul, ficará iminente a guerra total. Lembra: "mandámos dois mil jovens lutar na Rodésia e Smith caiu." Perdidos por cem, perdidos por mil. O que os moçambicanos têm a perder mais do que já perderam? Em setembro de 1986, Samora Machel fez um apelo às Nações Unidas para que mandassem cereais para aplacar a fome de quatro milhões dos treze milhões de moçambicanos. Concessões ao mundo capitalista, que não via com bons olhos uma República Popular, já foram feitas e outras tantas estão em processo. Há investimentos que se concentram na África Austral, mina inesgotável. Mas quanto desses lucros é reinvestido em armamento dos BA's? Calane da Silva não quer, no momento, batalhar naquele que foi sempre o seu front - o Jornalismo diário. Está cansado, tanto quanto qualquer homem ou mulher do povo moçambicano. Quer ver se escreve seus livros, ainda que não tenha recursos nem para convidar um visitante para jantar com ele, porque, no máximo, oferecerá um chá. Nem pão, nem manteiga. Apenas um chá. Dizem que faz guerra de fome, porque não quer assumir um novo cargo de direção na imprensa, na rádio ou na televisão experimental. Todo o escritor moçambicano sonha com este estágio - aliás, qual o escritor brasileiro que não curte o mesmo delírio? Mas Calane radicalizou, está sozinho, teimoso. Em outro período, ficou no hospital. Hoje, com falta de comida, papel e fita de máquina de escrever, gravador que está estragado e não tem como consertar, permanece no claustro ascético, escreve contos e uma novela. Não abandona os grupos experimentais de teatro e, se é preciso, lá está ele, ator de perfeita dicção: ponho a minha placa e a articulação das palavras sai perfeita. Se precisar de máscara grega, também a usa. Em um programa de anti-jornalismo - a sátira do telejornal - na tevê experimental, lá vai ele, escreve roteiros e interpreta papéis: um repórter fechado em um elevador, porque este deixa de funcionar, para sempre, não há manutenção em Moçambique. Num sábado à noite, na casa de alguém que possa festejar uma pequena alegria da vida - porque elas resistem em Moçambique -, Calane da Silva se entrega a outra paixão. A música, ou melhor, a música brasileira, que sai na batucada das mãos ou nos versos enunciados na sonoridade do samba. Gosta de mostrar sua erudição aos jovens: letras de samba de todas as décadas. Veio ao Brasil no ano da morte de Adoniram Barbosa, acompanhou o último Trem das Onze. Seus olhos se enchem de lágrimas e lamenta não ter podido seguir a pé a partida de Elis Regina. CALANE DA SILVA Auto-retrato Raul Alves Calane da Silva nasceu em Maputo, em 1945, numa zona intermediária dos bairros suburbanos da Mafalala e Chamculo, tendo crescido na Malanga (Mukhokweni), outro bairro extremamente marginalizado. Aos quatro anos, "aprendeu a ler pelo método audiovisual". Assim brinca coma situação de irmão mais novo, que ia pendurado no irmão mais velho e frequentava a escola, enquanto a mãe vendia peixe no mercado. De tanto ouvir pela música, de tanto ver no quadro negro as letrinhas e as sílabas da alfabetização, ficou apto a ler jornal. Um dia, foi comprar The Guardian (edição bilíngüe) para o pai, vinha soletrando a manchete - da Guerra da Coréia - e bateu com a cabeça num poste. Quem o atendeu gozou com ele - imagine, o miúdo lendo jornal... Não estou a brincar, disse com convicção, e leu a manchete para espanto geral. Acabou apenas o liceu; quando ia tentar o curso de Direito, abraçou a carreira jornalística. Passou pelo Notícias, revista Tempo e a Televisão Experimental de Moçambique; experimentou da reportagem e foi convocado às chefias de redação; hoje, só quer colaborar com textos e programas regulares. Calane tem paixão por teatro, é um dos fundadores do grupo "Tchova Xi Da Duma", aí produziu dramaturgia e tem representado papéis. Como poeta e prosador, é um dos fundadores da Associação dos Escritores Moçambicanos. Embora seu chão seja a prosa, começou pela poesia, que chegou a publicar, apesar da censura, em alguns jornais moçambicanos do tempo colonial (Notícias, Notícias da Beira). O seu livro de poemas, "Dos Meninos da Malanga", saiu em 1981, edição dos Cadernos Tempo. O autor julga-o prosa poética, mas por mais que repudie o verso, é comum, no improviso, compor poemas como quem passa manteiga no pão. Atualmente estão no prelo um livro de contos, "Xicandarinha na Lenha do Mundo" (xicandarinha, palavra que vem dos indianos, kandarí, chaleira), e a novela "Nhembête" (nome de pessoa que, em ronga, significa lágrima).