A CIDADE DOS SAPOS Os sapos que eu conheço no bairro onde resido, gritam, desde o comêço da noite, ao meu ouvido. Gritam a noite inteira; porém, são mais humanos, sob um certo sentido, que os de Manuel Bandeira. Pois não são parnasianos e nem tomam parte em discussões sôbre arte. São, todos, operários e dão-se a ofícios vários. Neste ponto, os meus sapos que também batem papos, já diferem dos seus... pois são filhos de Deus. Um dêles é ferreiro. E faz tanto barulho com os demais, da sua corporação, que chegom, em meu desassossêgo e já por mim conta, a crer que estará pronta até ao clarear do dia alguma Nova Iorque mais aérea e maior que a da fotografia. A julgar pelo ruído que sai dos seus martelos só o sapo ferreiro já construiu no charco uns duzentos castelos. Estrondeja a bigorna e, então, sobe e flutua, na noite grande e morna, o alvo disco da lua. Êste outro, carpinteiro, sapo de alma canora, em plena noite escura, conserta a fechadura do palácio onde mora. Vive serrando taboas... Ó sapo carpinteiro, serra as minhas mágoas! Aquêle outro é pedreiro. Mais que pedreiro, herói. Tudo o que êle constrói a água da enchente arrasa... Vai fazer minha casa. Lá longe, um bate-sola fabrica o azul sapato com que Nossa Senhora virá do céu, num barco de lua, só pra vê-lo, sem se sujar no charco. Mas há outros, que invejo, moradores do brejo: Uma intanha viúva, os olhos fora da órbita, pensa que o luar é chuva e sem compreendê-lo no espetáculo cósmico, abre seu guarda-chuva branco de cogumelo. Um sapo-pipa, bruxo, que não pára em casa, vive comendo brasa; pensa que come estrêla e tem o céu no buxo. Outro sapo é filósofo: quem será que me pôs na lama, tão de rastros sem ficar com a mão suja? quem será que criou o perfume das rosas? quem no céu espalhou o ouro aceso dos astros? Fulgem rosas lunares na água morta dos campos. É a cidade dos sapos que acende os seus lampiões verdes de pirilampos... Hoje tem espetáculo! Gritam todos os sapos. Hoje tem coisa boa! Clamam os bate-papos em ruidosa assembléia: e a algazarra plebéia por todo o brejo ecoa. Quando dissermos três, jacaré, você pule. E dizem um... dizem dois... é desta vez! dizem três, tchecumbum na lagoa. Ou então é o cinema do brejo que funciona, exibindo um desenho animado de Disney: "um sapo se suicida por causa de uma estrêla". E, no salão, do espaço, onde a neblina grossa se desfaz em farrapos ouve-se, a todo instante, a algazarra dos sapos, o tremendo barulho da infernal assistência: as rãs batendo palmas, quá-quá-quá de marrecos, muito bem, bis-bis-bis, ecos aos petelecos, um diz, outro desdiz. E ronca o sapo-boi tocando o "foi-não-foi". No outro dia, porém, quando chega a alvorada, loura, de olhar cerúlio: - por tanto barulho? que bconteceu? que foi? Vai-se ver; não foi nada E tudo continua no mesmo pé, na mesma luta desesperada. Eu suo: você sua... tudo por que? por nada. Ó pobre sapo-boi, foi Deus que assim te fêz? foi Deus que assim te quis? ao menos, uma vez, responde: foi? não foi? Pobre mundo infeliz que diz e se desdiz tocando o "foi, não foi", ininterruptamente. E a gente pede bis... Deus não tem dó da gente.