MEIRELES, Cecília. Mar Absoluto e outros poemas: Retrato Natural. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1983. AUTO-RETRATO Se me contemplo, tantas me vejo, que não entendo quem sou, no tempo do pensamento. Vou desprendendo elos que tenho, alças, enredos... E é tudo imenso... Formas, desenho que tive, e esqueço! Falas, desejo e movimento - a que tremendo, vago segredo ides, sem medo?! Sombras conheço: não lhes ordeno. Como procedo meu sonho inteiro, e após me perco, sem mais governo?! Nem me lamento nem esmoreço: no meu silêncio há esforço e gênio e suave exemplo de mais silêncio. Não permaneço. Cada momento é meu e alheio. Meu sangue deixo, breve e surpreso, em cada veio semeado e isento. Meu campo, afeito à mão do vento, é alto e sereno: AMOR, DESPREZO. Assim compreendo o meu perfeito acabamento. Múltipla, venço este tormento do mundo eterno que em mim carrego: e, una, contemplo o jogo inquieto em que padeço. E recupero o meu alento e assim vou sendo. Ah, como dentro de um prisioneiro há espaço e jeito para esse apego a um deus supremo, e o acerbo intento do seu concerto com a morte, o erro... (Voltas do tempo - sabido e aceito - do seu desterro...)