ADÉLIA PRADO Adélia Prado não se fez poeta. Nasceu em Divinópolis, interior de Minas Gerais, em 1936, e Deus houve por bem dotá-la de fala poética. Assim acredita que aconteceu e assim viu saírem os livros - hoje são meia dúzia -, como frutos amadurecidos da vida. Sim, porque viver vem antes e acima de tudo. Menina viva, bonita, alegre e com vontade de ser professora, bebeu dos folguedos e dos ensinamentos dos Franciscanos em Divinópolis. Normalista, amou as crianças e depois os filhos, quando casou e assumiu a casa. Só depois que os filhos ficaram grandes voltou ao magistério. Fez Filosofia com seu companheiro de todas as emoções, casal em que a paixão une forte. Ele, chefe de família (funcionário do Banco do Brasil até há pouco tempo), com as responsabilidades do sustento. Ela, dona de casa eficiente antes de poeta, ou melhor, ao mesmo tempo, que há espaço para tudo. Quando Adélia se consagrou como escritora aos 40 anos, Zé, homenageado em prosa e em verso, foi seu primeiro admirador e devoto. A ponto de se considerar "co-autor" dos "nossos livros". Diz assim sem qualquer ranço machista, com alegria e amor, mesmo sem Adélia nunca ter levantado bandeiras feministas. De Divinópolis saíram os livros que a Editora Nova Fronteira tem publicado, primeiro originais escritos à mão, depois datilografados por Zé, que também corrige as provas gráficas. Adélia Prado surgiu como poeta madura, o verbo enxuto, certeiro. Tem oscilado entre o poético em versos ou o poético em prosa. Há quem comente que tanto faz, é a mesma força telúrica. Em 76, saiu o primeiro, de poemas - "Bagagem"; em 78, "O Coração Disparado"; "Solte os Cachorros" (79), prosa; "Cacos para um Vitral" (80), também prosa; "Terra de Santa Cruz" volta à poesia em 1981; e o último livro, "Os Componentes da Banda"(84). Retorna à prosa. Adélia Prado diz que a matéria comanda o texto, não sabe, conscientemente, porque sai em ritmo de poema ou de prosa. Donaldo Schüler, ao analisar "Terra de Santa Cruz", traça um sintético perfil do estilo da escritora: "O império das coisas é tão absoluto que as próprias palavras se mostram densas e sólidas como as coisas. (...) A palavra erudita distancia das coisas. No caminho da reconquista do mundo que impregna os sentidos. Adélia se nutre da linguagem coloquial e reinventa o verso longo. Distancia-se do ritmo medido, cerebral, de João Cabral. Adélia escreve instintivamente. Volta-se a ouvir o tom de conversa, o vocabulário familiar dos poetas de 22. A realidade quotidiana mostra-se na linguagem de todos os dias." A POESIA MARCOU ENCONTRO EM DIVINÓPOLIS Não sou matrona, mãe dos Gracos, Cornélia, sou é mulher do povo, mãe de filhos, Adélia. Faço comida e como. Aos domingos bato o osso no prato pra chamar o cachorro e atiro os restos. Quando dói, grito ai, quando é bom, fico bruta. As sensibilidades sem governo. Mas tenho meus prantos, claridades atrás do estômago humilde e fortíssima voz pra cânticos de festa. Quando escrever o livro com o meu nome e o nome que eu vou pôr nele, vou com ele a uma igreja, a uma lápide, a um descampado, para chorar, chorar, e chorar, requintada e esquisita como uma dama. Será que se perdeu o respeito, neste Brasil de estranhezas, por uma dama esquisita e requintada? Houve os que receberam sua poesia como "uma pregação bíblica, alienado esforço de didatismo e catequese". Houve outros que implicaram e até hoje não aceitam uma mulher simples, mãe de cinco filhos, dona de casa competente, mãos fortes de amassar pão, gesto sensual de um erotismo realizado no próprio casamento. No entanto, Adélia Prado se apresenta na poesia e na vida como autêntica dama e poeta. Foi Drummond, desinteressado e parco em elogios, que percebeu logo no começo: "Adélia é lírica, é bíblica, faz poesia como faz bom tempo". Não há nenhuma contradição entre receber sua filha que vem de Belo Horizonte, dos estudos, com um "abençoada sejas, minha filha", abraçá-la com vigor, levá-la para um porto seguro, a casa de Divinópolis, e, lá por dentro, amadurecer um fruto poético que, mais tarde, quando as lides domésticas sossegarem, o jantar estiver posto para a família, irá passar então para o papel. Versos ou frases que andavam com ela o dia todo. Não há contradição entre vida e poesia. A vida tem primazia, a poesia precisa pedir licença para entrar, interromper um ato de amor. Adélia Prado, bicho da terra e asas de borboleta, tem a sabedoria de quem cresceu verticalmente no interior das Minas Gerais: o que sente, escreve. "Cumpro a sina. / Inauguro linhagens, fundo reinos / (dor não é amargura). / Minha tristeza não tem pedigree, / já a minha vontade alegria, / sua raiz vai ao meu mil avô. / Vai ser coxo na vida, é a maldição pra homem. / Mulher é desdobrável. Eu sou". Aí está - mulher é desdobrável - e Adélia assume todos os papéis, não como exigência mas com a sensualidade que Deus lhe deu, Zé, seu marido, encontrou e se entregou e fizeram multiplicar em cinco filhos mais o amor de cada dia. Se só aos 40 anos a poesia veio acabada, para publicar em livro, é porque tem seu tempo, a mulher sabe muito disso, aprendido em longas gestações, a infinidade de horas e minutos do último mês até que a vida saia pronta. 1976. A Editora Nova Fronteira acreditou e lançou o primeiro livro, "Bagagem". Poesia, sempre difícil de publicar no Brasil. Antes da editora Affonso Romano de Sant'Anna se entusiasmou e Carlos Drummond de Andrade, que leu o original, a consagrou em uma crônica e reforçou, junto à editora, a publicação em livro. Começou, pois, com o pé direito. Mas a caminhada vinha de muito longe. Ocupada de mais com a vida, a literatura aconteceu com firmeza, na maturidade, mas Adélia já havia ensaiado seu texto nos anos 70, em Divinópolis, no "Diadorim", suplemento de A semana no suplemento do jornal Agora e no espaço literário do Estado de Minas, em Belo Horizonte. Divinópolis fica a pouco mais de cem quilômetros da capital mineira. Cidade sossegada, mas de alma literária, como de resto é o mineiro, afeito a contar estórias e burilar a frase. Não serve para Adélia um currículo de "pacata senhora mineira". Nada tem de pacata" a ação pauta seu dia a dia e o histórico da infância à maturidade. Escrever, decorrência da matéria-vida, esteve presente o tempo todo, com naturalidade. Até a há pouco via com estranheza referirem-se a ela como "escritora". Cumpre a sina, não uma Adélia Prado e uma escritora. Não escreve porque quer, porque se autodetermina: agora vou escrever. Ela - tem de agradecer ao Autor - recebeu uma disposição interna para transcender as experiências vividas através do texto. Por isso também ignora a carreira literária, degraus de mais ou menos sucesso. Como ser humano, sim, tem sua aspiração por um maior equilíbrio, a conquista de uma serena maturidade. Temas literários? Adélia vai sempre falar da mesma coisa, aquilo que ocupa sua reflexão e interrogação diárias: a condição humana, a busca do sentido da vida, o reforço da fé nos valores espirituais. Sempre pensou que o que diz é muito particular, muito enraizado na sua experiência. Minas e Divinópolis, e se assustou quando uma moça norte-americana traduziu textos seus para o inglês. Grande emoção, essa de se ver em diálogo com gentes de outras latitudes. Sinal que as ressonâncias da vida da pessoa, até mesmo de vida simples, doméstica, chegam aos confins do mundo. O retorno humano é mais importante para o artista do que o juízo crítico. Não que Adélia não valorize o que dizem os críticos de sua obra, mas é muito mais gratificante a compreensão desarmada de qualquer leitor, uma vizinha de Divinópolis, que percebe por inteiro, sem palavras difíceis, sua fidelidade ao ser ontológico. Quando isso é traduzido como a "apologia do fogão e do tanque", crítica velada a uma poesia sem bandeiras feministas, dói porque é muito pequeno. Insiste: não sente nenhuma vaidade de gênio, apenas deixa passar aquele dom que Deus lhe deu e a obra é sempre maior em relação ao escritor. O autor é sempre mais feio, encardido, que o texto que escreve. Você capta certas realidades, percebe-as como se estivesse dotado de uma luneta e foca o astro maior. Até os 14 anos, quando já cometia versos e prosa, era um simples porta-retrato das emoções alheias. Mais tarde, quando começa a fazer o que chama de literatura, descobre então seu jeito, sua fala. "Não sei se é simples: é tal e qual", responde aos críticos que eternamente registrarão seu despojamento, a linguagem concreta e substantiva, a forma direta de dizer as coisas. Só em 1973 escreveu textos que encarou como lírica. Poesia é lírica. Poesia é lirica para ela. Aos 40 anos, foi com grande alegria que se deparou com um atalho, uma via. Depois, ainda achou que era incapaz perante o texto em prosa. Mas não. Fluiu, a idéia se fez verbo pela frase. Sempre que está escrevendo em prosa, como agora, sente, porém, uma saudade danada da poesia. É a linguagem lírica por excelência. Faz distinção entre o poema e a poesia: espera em Deus que seus poemas contenham poesia. A frase de Guimarães Rosa é pura poesia. O poema "Tarde de Maio" de Drummond, que lhe vem todos os santos dias, é a mais perene poesia. Adélia, sensibilidade nas pontas dos dedos, no rictus da boca ou no foco dos olhos, conhece o segredo: todas as artes seguram a experiência do poético. Humildemente, enquanto serve seu café e o bolo que preparou, faz o diagnóstico: "Sou ignorante, ando por aí como o cão, só no faro". Em Divinópolis, 1984, essa senhora, que não é uma pacata dona de casa mineira, leva muito longe esse faro. Em contato com o mundo e com o resto Brasil, vive as angústias deste tempo sem perspectivas. O verbo encarnado, que são as pessoas, sempre valeu mais para ela que o verbo escrito. Então, os filhos (que, segundo Adélia, passam a gente a limpo) ocupam-lhe a cabeça, o coração. Que futuro tem o jovem neste país que oferece universidade e, depois, o nada. Os cinco filhos vivem todos essa encruzilhada: estudam foram, se formam e saem à batalha desigual, perdida, em busca de um emprego. Zé, o companheiro apaixonado que lhe datilografa os livros e espera pelas provas para corrigi-las e diz - "nosso livro vai sai daqui a meses" -, partilha também das mesmas inquietudes. Aposentado do Banco do Brasil, a casa, os filhos, a criação literária de Adélia absorvem seu dia, mais as leituras, o cinema possível em Divinópolis e o mais selecionado em Belo Horizonte. Quem põe em dúvida a normalidade e, ao mesmo tempo, a especialidade desta família brasileira? Fortes, eróticas, as mãos de Adélia Prado puxam para a terra, tomam atitudes eficientes. Os olhos, a cabeça, os ombros fogem para cima, em direção à estrela maior. Mais além, o faro a guia, mas não relaxa a atenção à volta: "Preciso preparar o jantar para os meninos". Eles vão de 17 a 25 anos, e a mãe os abençoa, à antiga. Quando um intruso a vai observar, sem perceber a "dama esquisita e sofisticada", liga sua sutil desconfiança (não aquele folclórico cuidado mineiro) diante da especulação pelo lado errado. Irritam-na as interpretações preconceituosas ou precipitadas. Que não lhe venham pedir também explicações sobre sua obra ou a carreira literária. Contra-ataca: "Sou profundamente ignorante". (Não é, não, pelo menos em literatura). Para Adélia, existe simplesmente um gosto ou não gosto, sente ou não a força do poético. Daquela poesia que, modéstia à parte, porque não é seu o mérito, tem representado o papel de porta-voz de uma realidade que a ultrapassa. Tudo que tem de ser dito aos curiosos está estampado na sua face ou em seu texto. Para que explicar? Interrogações, perguntas, são seu drama existencial e basta essa inquietude para sombrear a alegria de viver: Me toldam horas de cinza rachadas de imprecação. Ó Deus, não me humilhe mais com esta coceira no púbis. Responde-me sobre os mortos, se mamam, nesta lua visível em pleno dia, do seu leite de sonho.