LIRA I Eu, Marília, não sou algum vaqueiro Que viva de guardar alheio gado, De tosco trato, de expressões grosseiro, Dos frios gelos e dos sóis queimado; Tenho própio casal e nele assisto; Dá-me fruta, legume, vinho, azeite; Das brancas ovelhinhas tiro o leite E mais a fina lã, de que me visto, Graças, Marília bela, Graças à minha estrela! Eu vi o meu semblante numa fonte, Dos anos inda não está cortado: Os pastores que habitam este monte, Respeitam o poder do meu cajado; Com tal destreza toco a sanfoninha Que inveja até me tem o próprio Alceste; Ao som dela concerto a voz celeste; Nem canto letra que não seja minha. Graças, Marília bela, Graças à minha estrela! Mas tendo tantos dotes de ventura, Só apreço lhes dou, gentil pastora, Depois que o teu afeto me assegura, Que queres do que tenho ser senhora; É bom, minha Marília, é bom ser dono De um rebanho que cubra monte e prado; Porém, gentil pastora, o teu agrado Vale mais que um rebanho e mais que um trono. Graças, Marília bela, Graças à minha estrela! Tomás Antônico Gonzaga