Antônio Gonçalves Dias CANÇÃO DO EXILIO Kennst du das Land, wo die Citronen blühen, Im dunkeln Laub die Gold-Orangen glühen? Kennst du es wohl? - Dahin, dahin! Möchtl ich... ziehn. * Goethe Minha terra tem palmeiras, Onde canta o Sabiá; As aves, que aqui gorjeiam, Não gorjeiam como lá. Nosso céu tem mais estrelas, Nossas várzeas têm mais flores, Nossos bosques têm mais vida, Nossa vida mais amores. Em cismar, sozinho, à noite, Mais prazer encontro eu lá; Minha terra tem palmeiras, Onde canta o Sabiá. Minha terra tem primores, Que tais não encontro eu cá; Em cismar - sozinho, à noite - Mais prazer encontro eu lá; Minha terra tem palmeiras, Onde canta o Sabiá. Não permita Deus que eu morra, Sem que eu volte para lá; Sem que desfrute os primores Que não encontro por cá; Sem qu'inda aviste as palmeiras, Onde canta o Sabiá. Coimbra - julho 1843. * - "Conheces a região onde florescem os limoeiros ? laranjas de ouro ardem no verde escuro da folhagem; conheces bem ? Nesse lugar, eu desejava estar" (Mignon, de Goethe) Antônio Gonçalves Dias O CANTO DO GUERREIRO I Aqui na floresta Dos ventos batida, Façanhas de bravos Não geram escravos, Que estimem a vida Sem guerra e lidar. - Ouvi-me, Guerreiros, - Ouvi meu cantar. II Valente na guerra, Quem há, como eu sou? Quem vibra o tacape Com mais valentia? Quem golpes daria Fatais, como eu dou? - Guerreiros, ouvi-me; - Quem há, como eu sou? III Quem guia nos ares A frecha emplumada, Ferindo uma presa, Com tanta certeza, Na altura arrojada onde eu a mandar? - Guerreiros, ouvi-me, - Ouvi meu cantar. IV Quem tantos imigos Em guerras preou? Quem canta seus feitos Com mais energia? Quem golpes daria Fatais, como eu dou? - Guerreiros, ouvi-me: - Quem há, como eu sou? V Na caça ou na lide, Quem há que me afronte?! A onça raivosa Meus passos conhece, O imigo estremece, E a ave medrosa Se esconde no céu. - Quem há mais valente, - Mais destro que eu? VI Se as matas estrujo Co'os sons do Boré, Mil arcos se encurvam, Mil setas lá voam, Mil gritos reboam, Mil homens de pé Eis surgem, respondem Aos sons do Boré! - Quem é mais valente, - Mais forte quem é? VII Lá vão pelas matas; Não fazem ruído: O vento gemendo E as matas tremendo E o triste carpido Duma ave a cantar, São eles - guerreiros, Que faço avançar. VIII E o Piaga se ruge No seu Maracá, A morte lá paira Nos ares frechados, Os campos juncados De mortos são já: Mil homens viveram, Mil homens são lá. IX E então se de novo Eu toco o Boré; Qual fonte que salta De rocha empinada, Que vai marulhosa, Fremente e queixosa, Que a raiva apagada De todo não é, Tal eles se escoam Aos sons do Boré. - Guerreiros, dizei-me, - Tão forte quem é? Gonçalves Dias I-JUCA-PIRAMA I No meio das tabas de amenos verdores, Cercadas de troncos - cobertos de flores, Alteiam-se os tetos d'altiva nação; São muitos seus filhos, nos ânimos fortes, Temíveis na guerra, que em densas coortes Assombram das matas a imensa extensão. São rudos, severos, sedentos de glória, Já prélios incitam, já cantam vitória, Já meigos atendem à voz do cantor: São todos Timbiras, guerreiros valentes! Seu nome lá voa na boca das gentes, Condão de prodígios, de glória e terror! As tribos vizinhas, sem forças, sem brio, As armas quebrando, lançando-as ao rio, O incenso aspiraram dos seus maracás: Medrosos das guerras que os fortes acendem, Custosos tributos ignavos lá rendem, Aos duros guerreiros sujeitos na paz. No centro da taba se estende um terreiro, Onde ora se aduna o concílio guerreiro Da tribo senhora, das tribos servis: Os velhos sentados praticam d'outrora, E os moços inquietos, que a festa enamora, Derramam-se em torno dum índio infeliz. Quem é? - ninguém sabe: seu nome é ignoto, Sua tribo não diz: - de um povo remoto Descende por certo - dum povo gentil; Assim lá na Grécia ao escravo insulano Tornavam distinto do vil muçulmano As linhas corretas do nobre perfil. Por casos de guerra caiu prisioneiro Nas mãos dos Timbiras: - no extenso terreiro Assola-se o teto, que o teve em prisão; Convidam-se as tribos dos seus arredores, Cuidosos se incumbem do vaso das cores, Dos vários aprestos da honrosa função. Acerva-se a lenha da vasta fogueira, Entesa-se a corda de embira ligeira, Adorna-se a maça com penas gentis: A custo, entre as vagas do povo da aldeia Caminha o Timbira, que a turba rodeia, Garboso nas plumas de vário matiz. Entanto as mulheres com leda trigança, Afeitas ao rito da bárbara usança, O índio já querem cativo acabar: A coma lhe cortam, os membros lhe tingem, Brilhante enduape no corpo lhe cingem, Sombreia-lhe a fronte gentil canitar. II Em fundos vasos d'alvacenta argila ferve o cauim; Enchem-se as copas, o prazer começa, reina o festim. O prisioneiro, cuja morte anseiam, sentado está, O prisioneiro, que outro sol no ocaso jamais verá! A dura corda, que lhe enlaça o colo, mostra-lhe o fim Da vida escura, que será mais breve do que o festim! Contudo os olhos d'ignóbil pranto secos estão; Mudos os lábios não descerram queixas do coração. Mas um martírio, que encobrir não pode, em rugas faz A mentirosa placidez do rosto na fronte audaz! Que tens, guerreiro? Que temor te assalta no passo horrendo? Honra das tabas que nascer te viram, folga morrendo. Folga morrendo; porque além dos Andes revive o forte, Que soube ufano contrastar os medos da fria morte. Rasteira grama, exposta ao sol, à chuva, lá murcha e pende: Somente ao tronco, que devassa os ares, o raio ofende! Que foi? Tupã mandou que ele caísse, como viveu; E o caçador que o avistou prostrado esmoreceu! Que temes, ó guerreiro? Além dos Andes revive o forte, Que soube ufano contrastar os medos da fria morte. III Em larga roda de novéis guerreiros Ledo caminha o festival Timbira, A quem do sacrifício cabe as honras. Na fronte o canitar sacode em ondas, O enduape na cinta se embalança, Na destra mão sopesa a ivirapeme, Orgulhoso e pujante. - Ao menor passo Colar d'alvo marfim, insígnia d'honra, Que lhe orna o colo e o peito, ruge e freme, Como que por feitiço não sabido Encantadas ali as almas grandes Dos vencidos Tapuias, inda chorem Serem glória e brasão d'imigos feros. "Eis-me aqui, diz ao índio prisioneiro; "Pois que fraco, e sem tribo, e sem família, "As nossas matas devassaste ousado, "Morrerás morte vil da mão de um forte." Vem a terreiro o mísero contrário; Do colo à cinta a muçurana desce: "Dize-nos quem és, teus feitos canta, "Ou se mais te apraz, defende-te." Começa O índio, que ao redor derrama os olhos, Com triste voz que os ânimos comove. IV Meu canto de morte, Guerreiros, ouvi: Sou filho das selvas, Nas selvas cresci; Guerreiros, descendo Da tribo Tupi. Da tribo pujante, Que agora anda errante Por fado inconstante, Guerreiros, nasci; Sou bravo, sou forte, Sou filho do Norte; Meu canto de morte, Guerreiros, ouvi. Já vi cruas brigas, De tribos imigas, E as duras fadigas Da guerra provei; Nas ondas mendaces Senti pelas faces Os silvos fugaces Dos ventos que amei. Andei longes terras, Lidei cruas guerras, Vaguei pelas serras Dos vis Aimorés; Vi lutas de bravos, Vi fortes - escravos! De estranhos ignavos Calcados aos pés. E os campos talados, E os arcos quebrados, E os piagas coitados Já sem maracás; E os meigos cantores, Servindo a senhores, Que vinham traidores, Com mostras de paz Aos golpes do imigo Meu último amigo, Sem lar, sem abrigo Caiu junto a mi! Com plácido rosto, Sereno e composto, O acerbo desgosto Comigo sofri. Meu pai a meu lado Já cego e quebrado, De penas ralado, Firmava-se em mi: Nós ambos, mesquinhos, Por ínvios caminhos, Cobertos d'espinhos Chegamos aqui! O velho no entanto Sofrendo já tanto De fome e quebranto, Só qu'ria morrer! Não mais me contenho, Nas matas me embrenho, Das frechas que tenho Me quero valer. Então, forasteiro, Caí prisioneiro De um troço guerreiro Com que me encontrei: O cru dessossego Do pai fraco e cego, Enquanto não chego, Qual seja - dizei! Eu era o seu guia Na noite sombria, A só alegria Que Deus lhe deixou: Em mim se apoiava, Em mim se firmava, Em mim descansava, Que filho lhe sou. Ao velho coitado De penas ralado, Já cego e quebrado, Que resta? - Morrer. Enquanto descreve O giro tão breve Da vida que teve, Deixa-me viver! Não vil, não ignavo, Mas forte, mas bravo, Serei vosso escravo: Aqui virei ter. Guerreiros, não coro Do pranto que choro; Se a vida deploro, Também sei morrer. V Soltai-o! - diz o chefe. Pasma a turba; Os guerreiros murmuram: mal ouviram, Nem pode nunca um chefe dar tal ordem! Brada segunda vez com voz mais alta, Afrouxam-se as prisões, a embira cede, A custo, sim; mas cede: o estranho é salvo, - Timbira, diz o índio enternecido, Solto apenas dos nós que o seguravam: És um guerreiro ilustre, um grande chefe, Tu que assim do meu mal te comoveste, Nem sofres que, transposta a natureza, Com olhos onde a luz já não cintila, Chore a morte do filho o pai cansado, Que somente por seu na voz conhece. - És livre; parte. - E voltarei. - Debalde. - Sim, voltarei, morto meu pai. - Não voltes! É bem feliz, se existe, em que não veja, Que filho tem, qual chora: és livre; parte! - Acaso tu supões que me acobardo, Que receio morrer! - És livre; parte! - Ora não partirei; quero provar-te Que um filho dos Tupis vive com honra, E com honra maior, se acaso vencem, Da morte o passo glorioso afronta. - Mentiste, que um Tupi não chora nunca, E tu choraste!... parte; não queremos Com carne vil enfraquecer os fortes. Sobresteve o Tupi: - arfando em ondas O rebater do coração se ouvia Precipite. - Do rosto afogueado Gélidas bagas de suor corriam: Talvez que o assaltava um pensamento... Já não... que na enlutada fantasia, Um pesar, um martírio ao mesmo tempo, Do velho pai a moribunda imagem Quase bradar-lhe ouvia: - Ingrato! ingrato! Curvado o colo, taciturno e frio, Espectro d'homem, penetrou no bosque! VI - Filho meu, onde estás? - Ao vosso lado; Aqui vos trago provisões: tomai-as, As vossas forças restaurar perdidas, E a caminho, e já! - Tardaste muito! Não era nado o sol, quando partiste, E frouxo o seu calor já sinto agora! - Sim, demorei-me a divagar sem rumo, Perdi-me nestas matas intrincadas, Reaviei-me e tornei; mas urge o tempo; Convém partir, e já! - Que novos males Nos resta de sofrer? - que novas dores, No outro fado pior Tupã nos guarda? - As setas da aflição já se esgotaram, Nem para novo golpe espaço intacto Em nossos corpos resta. - Mas tu tremes - Talvez do afã da caça... - Oh filho caro Um quê misterioso aqui me fala, Aqui no coração; piedosa fraude Será por certo, que não mentes nunca! Não conheces temor, e agora temes? Vejo e sei: é Tupã que nos aflige, E contra o seu querer não valem brios. Partamos!... - E com mão trêmula, incerta Procura o filho, tateando as trevas Da sua noite lúgubre e medonha. Sentindo o acre odor das frescas tintas, Uma idéia fatal correu-lhe à mente... Do filho os membros gélidos apalpa, E a dolorosa maciez das plumas Conhece estremecendo: - foge, volta, encontra sob as mãos o duro crânio, Despido então do natural ornato!... Recua aflito e pávido, cobrindo Às mãos ambas os olhos fulminados, Como que teme ainda o triste velho De ver, não mais cruel, porém mais clara, Daquele exício grande a imagem viva Ante os olhos do corpo afigurada. Não era que a verdade conhecesse Inteira e tão cruel qual tinha sido; Mas que funesto azar correra o filho, Ele o via; ele o tinha ali presente; E era de repetir-se a cada instante. A dor passada, a previsão futura E o presente tão negro, ali os tinha; Ali no coração se concentrava, Era num ponto só, mas era a morte! - Tu prisioneiro, tu? - Vós o dissesses. - Dos índios? - Sim. - De que nação? - Timbiras - E a muçurana funeral rompeste, Dos falsos manitôs quebraste a maça... - Nada fiz... aqui estou. - Nada! - Emudecem; Curto instante depois prossegue o velho: - Tu és valente, bem o sei; confesso, Fizeste-o, certo, ou já não foras vivo! - Nada fiz; mas souberam da existência De um pobre velho, que em mim só vivia... - E depois?... -Eis-me aqui. -Fica essa taba? - Na direção do sol, quando transmonta. - Longe? - Não muito. - Tens razão: partamos. - E quereis ir?... - Na direção do ocaso. VII "Por amor de um triste velho, Que ao termo fatal já chega, Vós, guerreiros, concedesses A vida a um prisioneiro. Ação tão nobre vos honra, Nem tão alta cortesia Vi eu jamais praticada Entre os Tupis - e mas foram Senhores em gentileza. "Eu porém nunca vencido, Nem os combates por armas Nem por nobreza nos atos; Aqui venho, e o filho trago. Vós o dizeis prisioneiro, Seja assim como dizeis; Manda! vir a lenha, o fogo, A maça do sacrifício E a muçurana ligeira: Em tudo o rito se cumpra! E quando eu for só na terra, Certo acharei entre os vossos, Que tão gentis se revelam, Alguém que meus passos guie; Alguém, que vendo o meu peito Coberto de cicatrizes, Tomando a vez de meu filho, De haver-me por pai se ufane!" Mas o chefe dos Timbiras, Os sobrolhos encrespando, Ao velho Tupi guerreiro Responde com torvo acento: - Nada farei do que dizes: É teu filho imbele e fraco! Aviltaria o triunfo Da mais guerreira das tribos Derramar seu ignóbil sangue: Ele chorou de cobarde; Nós outros, fortes Timbiras, Só de heróis fazemos pasto. - Do velho Tupi guerreiro A surda voz na garganta Faz ouvir uns sons confusos, Como os rugidos de um tigre, Que pouco a pouco se assanha! VIII "Tu choraste em presença da morte? Na presença de estranhos choraste? Não descende o cobarde do forte; Pois choraste, meu filho não és! Possas tu, descendente maldito De uma tribo de nobres guerreiros, Implorando cruéis forasteiros, Seres presa de vis Aimorés. "Possas tu, isolado na terra, Sem arrimo e sem pátria vagando, Rejeitado da morte na guerra, Rejeitado dos homens na paz, Ser das gentes o espectro execrado; Não encontres amor nas mulheres, Teus amigos, se amigos tiveres, Tenham alma inconstante e falaz! "Não encontres doçura no dia, Nem as cores da aurora te ameiguem, E entre as larvas da noite sombria Nunca possas descanso gozar: Não encontres um tronco, uma pedra, Posta ao sol, posta às chuvas e aos ventos, Padecendo os maiores tormentos, Onde possas a fronte pousar. "Que a teus passos a relva se torre; Murchem prados, a flor desfaleça, E o regato que límpido corre, Mais te acenda o vesano furor; Suas águas depressa se tornem, Ao contacto dos lábios sedentos, Lago impuro de vermes nojentos, Donde festas como asco e terror! "Sempre o céu, como um teto incendido, Creste e punja teus membros malditos E o oceano de pó denegrido Seja a terra ao ignavo tupi! Miserável, faminto, sedento, Manitôs lhe não falem nos sonhos, E do horror os espectros medonhos Traga sempre o cobarde após si. "Um amigo não tenhas piedoso Que o teu corpo na terra embalsame, Pondo em vaso d'argila cuidoso Arco e frecha e tacape a teus pés! Sé maldito, e sozinho na terra; Pois que a tanta vileza chegaste, Que em presença da morte choraste, Tu, cobarde, meu filho não és." IX Isto dizendo, o meserando velho A quem Tupã tamanha dor, tal fado Já nos confins da vida reservara, Vai com trêmulo pé, com as mãos já frias Da sua noite escura as densas trevas Palpando. - Alarma! alarma! - O velho para. O grito que escutou é voz do filho, Voz de guerra que ouviu já tantas vezes Noutra quadra melhor. - Alarma! alarma! - Esse momento só vale apagar-lhe Os tão compridos transes, as angústias, Que o frio coração lhe atormentaram De guerreiro e de pai: - vale, e de sobra. Ele que em tanta dor se contivera, Tomado pelo súbito contraste, Desfaz-se agora em pranto copioso, Que o exaurido coração remoça. A taba se alborota, os golpes descem, Gritos, imprecações profundas soam, Emaranhada a multidão braveja, Revolve-se, enovela-se confusa, E mais revolta em mor furor se acende. E os sons dos golpes que incessantes fervem. Vozes, gemidos, estertor de morte Vão longe pelas ermas serranias Da humana tempestade propagando Quantas vagas de povo enfurecido Contra um rochedo vivo se quebravam. Era ele, o Tupi; nem fora justo Que a fama dos Tupis - o nome, a glória, Aturado labor de tantos anos, Derradeiro brasão da raça extinta, De um jacto e por um só se aniquilasse. - Basta! clama o chefe dos Timbiras, - Basta, guerreiro ilustre! assaz lutaste, E para o sacrifício é mister forças. - O guerreiro parou, caiu nos braços Do velho pai, que o cinge contra o peito, Com lágrimas de júbilo bradando: "Este, sim, que é meu filho muito amado! "E pois que o acho enfim, qual sempre o tive, "Corram livres as lágrimas que choro, "Estas lágrimas, sim, que não desonram." X Um velho Timbira, coberto de glória, guardou a memória Do moço guerreiro, do velho Tupi! E à noite, nas tabas, se alguém duvidava do que ele contava, Dizia prudente: - "Meninos, eu vi! "Eu vi o brioso no largo terreiro cantar prisioneiro Seu canto de morte, que nunca esqueci: Valente, como era, chorou sem ter pejo; parece que o vejo, Que o tenho nest'hora diante de mim. "Eu disse comigo: Que infâmia d'escravo! Pois não, era um bravo; Valente e brioso, como ele, não vi! E à fé que vos digo: parece-me encanto Que quem chorou tanto, Tivesse a coragem que tinha o Tupi!" Assim o Timbira, coberto de glória, guardava a memória Do moço guerreiro, do velho Tupi. E à noite nas tabas, se alguém duvidava do que ele contava, Tomava prudente: "Meninos, eu vi!" Antônio Gonçalves Dias Canção do Tamoio (Natalícia) I Não chores, meu filho; Não chores, que a vida É luta renhida: Viver é lutar. A vida é combate, Que os fracos abate, Que os fortes, os bravos Só pode exaltar. II Um dia vivemos! O homem que é forte Não teme da morte; Só teme fugir; No arco que entesa Tem certa uma presa, Quer seja tapuia, Condor ou tapir. III O forte, o cobarde Seus feitos inveja De o ver na peleja Garboso e feroz; E os tímidos velhos Nos graves concelhos, Curvadas as frontes, Escutam-lhe a voz! IV Domina, se vive; Se morre, descansa Dos seus na lembrança, Na voz do porvir. Não cures da vida! Sê bravo, sê forte! Não fujas da morte, Que a morte há de vir! V E pois que és meu filho, Meus brios reveste; Tamoio nasceste, Valente serás. Sê duro guerreiro, Robusto, fragueiro, Brasão dos tamoios Na guerra e na paz. VI Teu grito de guerra Retumbe aos ouvidos D'imigos transidos Por vil comoção; E tremam d'ouvi-lo Pior que o sibilo Das setas ligeiras, Pior que o trovão. VII E a mão nessas tabas, Querendo calados Os filhos criados Na lei do terror; Teu nome lhes diga, Que a gente inimiga Talvez não escute Sem pranto, sem dor! VIII Porém se a fortuna, Traindo teus passos, Te arroja nos laços Do inimigo falaz! Na última hora Teus feitos memora, Tranqüilo nos gestos, Impávido, audaz. IX E cai como o tronco Do raio tocado, Partido, rojado Por larga extensão; Assim morre o forte! No passo da morte Triunfa, conquista Mais alto brasão. X As armas ensaia, Penetra na vida: Pesada ou querida, Viver é lutar. Se o duro combate Os fracos abate, Aos fortes, aos bravos, Só pode exaltar. Antonio Gonçalves Dias A Concha e a Virgem Linda concha que passava, Boiando por sobre o mar, Junto a uma rocha, onde estava Triste donzela a pensar, Perguntou-lhe: - "Virgem bela, Que fazes no teu cismar?" - "E tu", pergunta a donzela, "Que fazes no teu vagar?" Responde a concha: - "Formada Por estas águas do mar, Sou pelas águas levada, Nem sei onde vou parar!" Responde a virgem sentida, Que estava triste a pensar: - "Eu também vago na vida, Como tu vagas no mar! "Vais duma a outra das vagas, Eu dum a outro cismar; Tu indolente divagas, Eu sofro triste a cantar. "Vais onde te leva a sorte, Eu, onde me leva Deus: Buscas a vida, - eu a morte; Buscas a terra, - eu os céus! Gonçalves Dias Ainda uma Vez - Adeus I Enfim te vejo! - enfim posso, Curvado a teus pés, dizer-te, Que não cessei de querer-te, Pesar de quanto sofri. Muito penei! Cruas ânsias, Dos teus olhos afastado, Houveram-me acabrunhado A não lembrar-me de ti! II Dum mundo a outro impelido, Derramei os meus lamentos Nas surdas asas dos ventos, Do mar na crespa cerviz! Baldão, ludíbrio da sorte Em terra estranha, entre gente, Que alheios males não sente, Nem se condói do infeliz! III Louco, aflito, a saciar-me D'agravar minha ferida, Tomou-me tédio da vida, Passos da morte senti; Mas quase no passo extremo, No último arcar da esp'rança, Tu me vieste à lembrança: Quis viver mais e vivi! IV Vivi; pois Deus me guardava Para este lugar e hora! Depois de tanto, senhora, Ver-te e falar-te outra vez; Rever-me em teu rosto amigo, Pensar em quanto hei perdido, E este pranto dolorido Deixar correr a teus pés. V Mas que tens? Não me conheces? De mim afastas teu rosto? Pois tanto pôde o desgosto Transformar o rosto meu? Sei a aflição quanto pode, Sei quanto ela desfigura, E eu não vivi na ventura... Olha-me bem, que sou eu! VI Nenhuma voz me diriges!... Julgas-te acaso ofendida? Deste-me amor, e a vida Que me darias - bem sei; Mas lembrem-te aqueles feros Corações, que se meteram Entre nós; e se venceram, Mal sabes quanto lutei! VII Oh! se lutei! . . . mas devera Expor-te em pública praça, Como um alvo à populaça, Um alvo aos dictérios seus! Devera, podia acaso Tal sacrifício aceitar-te Para no cabo pagar-te, Meus dias unindo aos teus? VIII Devera, sim; mas pensava, Que de mim t'esquecerias, Que, sem mim, alegres dias T'esperavam; e em favor De minhas preces, contava Que o bom Deus me aceitaria O meu quinhão de alegria Pelo teu, quinhão de dor! IX Que me enganei, ora o vejo; Nadam-te os olhos em pranto, Arfa-te o peito, e no entanto Nem me podes encarar; Erro foi, mas não foi crime, Não te esqueci, eu to juro: Sacrifiquei meu futuro, Vida e glória por te amar! X Tudo, tudo; e na miséria Dum martírio prolongado, Lento, cruel, disfarçado, Que eu nem a ti confiei; "Ela é feliz (me dizia) "Seu descanso é obra minha." Negou-me a sorte mesquinha. . . Perdoa, que me enganei! XI Tantos encantos me tinham, Tanta ilusão me afagava De noite, quando acordava, De dia em sonhos talvez! Tudo isso agora onde pára? Onde a ilusão dos meus sonhos? Tantos projetos risonhos, Tudo esse engano desfez! XII Enganei-me!... - Horrendo caos Nessas palavras se encerra, Quando do engano, quem erra. Não pode voltar atrás! Amarga irrisão! reflete: Quando eu gozar-te pudera, Mártir quis ser, cuidei qu'era... E um louco fui, nada mais! XIII Louco, julguei adornar-me Com palmas d'alta virtude! Que tinha eu bronco e rude Co que se chama ideal? O meu eras tu, não outro; Stava em deixar minha vida Correr por ti conduzida, Pura, na ausência do mal. XIV Pensar eu que o teu destino Ligado ao meu, outro fora, Pensar que te vejo agora, Por culpa minha, infeliz; Pensar que a tua ventura Deus ab eterno a fizera, No meu caminho a pusera... E eu! eu fui que a não quis! XV És doutro agora, e pr'a sempre! Eu a mísero desterro Volto, chorando o meu erro, Quase descrendo dos céus! Dói-te de mim, pois me encontras Em tanta miséria posto, Que a expressão deste desgosto Será um crime ante Deus! XVI Dói-te de mim, que t'imploro Perdão, a teus pés curvado; Perdão!... de não ter ousado Viver contente e feliz! Perdão da minha miséria, Da dor que me rala o peito, E se do mal que te hei feito, Também do mal que me fiz! XVII Adeus qu'eu parto, senhora; Negou-me o fado inimigo Passar a vida contigo, Ter sepultura entre os meus; Negou-me nesta hora extrema, Por extrema despedida, Ouvir-te a voz comovida Soluçar um breve Adeus! XVIII Lerás porém algum dia Meus versos d'alma arrancados, D'amargo pranto banhados, Com sangue escritos; - e então Confio que te comovas, Que a minha dor te apiade Que chores, não de saudade, Nem de amor, - de compaixão, Gonçalves Dias Se Se Morre de Amor! Meere und Berge und Horizonte zwischen den Liebenden - aber die Seelen versetzen sích aus dem staubigen Kerker und treffen sich im Paradiese der Liebe. Schiller, Die Rüuber Se se morre de amor! - Não, não se morre, Quando é fascinação que nos surpreende De ruidoso sarau entre os festejos; Quando luzes, calor, orquestra e flores Assomos de prazer nos raiam n'alma, Que embelezada e solta em tal ambiente No que ouve, e no que vê prazer alcança! Simpáticas feições, cintura breve, Graciosa postura, porte airoso, Uma fita, uma flor entre os cabelos, Um quê mal definido, acaso podem Num engano d'amor arrebatar-nos. Mas isso amor não é; isso é delírio, Devaneio, ilusão, que se esvaece Ao som final da orquestra, ao derradeiro Clarão, que as luzes no morrer despedem: Se outro nome lhe dão, se amor o chamam, D'amor igual ninguém sucumbe à perda. Amor é vida; é ter constantemente Alma, sentidos, coração - abertos Ao grande, ao belo; é ser capaz d'extremos, D'altas virtudes, té capaz de crimes! Compr'ender o infinito, a imensidade, E a natureza e Deus; gostar dos campos, D'aves, flores, murmúrios solitários; Buscar tristeza, a soledade, o ermo, E ter o coração em riso e festa; E à branda festa, ao riso da nossa alma Fontes de pranto intercalar sem custo; Conhecer o prazer e a desventura No mesmo tempo, e ser no mesmo ponto O ditoso, o misérrimo dos entes; Isso é amor, e desse amor se morre! Amar, e não saber, não ter coragem Para dizer que amor que em nós sentimos; Temer qu'olhos profanos nos devassem O templo, onde a melhor porção da vida Se concentra; onde avaros recatamos Essa fonte de amor, esses tesouros Inesgotáveis, d'ilusões floridas; Sentir, sem que se veja, a quem se adora, Compr'ender, sem lhe ouvir, seus pensamentos, Segui-la, sem poder fitar seus olhos, Amá-la, sem ousar dizer que amamos, E, temendo roçar os seus vestidos, Arder por afogá-la em mil abraços: Isso é amor, e desse amor se morre! Se tal paixão porém enfim transborda, Se tem na terra o galardão devido Em recíproco afeto; e unidas, uma, Dois seres, duas vidas se procuram, Entendem-se, confundem-se e penetram Juntas - em puro céu d'êxtases puros: Se logo a mão do fado as torna estranhas, Se os duplica e separa, quando unidos A mesma vida circulava em ambos; Que será do que fica, e do que longe Serve às borrascas de ludíbrio e escárnio? Pode o raio num píncaro caindo, Torná-lo dois, e o mar correr entre ambos; Pode rachar o tronco levantado E dois cimos depois verem-se erguidos, Sinais mostrando da aliança antiga; Dois corações porém, que juntos batem, Que juntos vivem, - se os separam, morrem; Ou se entre o próprio estrago inda vegetam, Se aparência de vida, em mal, conservam, Ãnsias cruas resumem do proscrito, Que busca achar no berço a sepultura! Esse, que sobrevive à própria ruína, Ao seu viver do coração, - às gratas Ilusões, quando em leito solitário, Entre as sombras da noite, em larga insônia, Devaneando, a futurar venturas, Mostra-se e brinca a apetecida imagem; Esse, que à dor tamanha não sucumbe, Inveja a quem na sepultura encontra Dos males seus o desejado termo! Gonçalves Dias O Canto do Piaga I Ó Guerreiros da Taba sagrada, Ó Guerreiros da Tribo Tupi, Falam Deuses nos cantos do Piaga, Ó Guerreiros, meus cantos ouvi. Esta noite - era a lua já morta - Anhangá me vedava sonhar; Eis na horrível caverna, que habito, Rouca voz começou-me a chamar. Abro os olhos, inquieto, medroso, Manitôs! que prodígios que vi! Arde o pau de resina fumosa, Não fui eu, não fui eu, que o acendi! Eis rebenta a meus pés um fantasma, Um fantasma d'imensa extensão; Liso crânio repousa a meu lado, Feia cobra se enrosca no chão. O meu sangue gelou-se nas veias, Todo inteiro - ossos, carnes - tremi, Frio horror me coou pelos membros Frio vento no rosto senti. Era feio, medonho, tremendo, Ó Guerreiros, o espectro que eu vi. Falam Deuses nos cantos do Piaga, Ó Guerreiros, meus cantos ouvi! II Por que dormes, ó Piaga divino? Começou-me a Visão a falar, Por que dormes? O sacro instrumento De per si já começa a vibrar. Tu não viste nos céus um negrume Toda a face do sol ofuscar; Não ouviste a coruja, de dia, Seus estrídulos torva soltar? Tu não viste dos bosques a coma Sem aragem - vergar-se e gemer, Nem a lua de fogo entre nuvens, Qual em vestes de sangue, nascer? E tu dormes, ó Piaga divino! E Anhangá te proíbe sonhar! E tu dormes, ó Piaga, e não sabes, E não podes augúrios cantar?! Ouve o anúncio do horrendo fantasma, Ouve os sons do fiel Maracá; Manitôs já fugiram da Taba! Ó desgraça! ó ruína! ó Tupá! III Pelas ondas do mar sem limites Basta selva, sem folhas, e vem; Hartos troncos, robustos, gigantes; Vossas matas tais monstros contêm. Traz embira dos cimos pendente -Brenha espessa de vário cipó - Dessas brenhas contêm vossas matas, Tais e quais, mas com folhas; é só! Negro monstro os sustenta por baixo, Brancas asas abrindo ao tufão, Como um bando de cândidas garças, Que nos ares pairando -lá vão. Oh! quem foi das entranhas das águas, O marinho arcabouço arrancar? Nossas terras demanda, fareja ... Esse monstro. . . - o que vem cá buscar? Não sabeis o que o monstro procura? Não sabeis a que vem, o que quer? Vem matar vossos bravos guerreiros, Vem roubar-vos a filha, a mulher! Vem trazer-vos crueza, impiedade - Dons cruéis do cruel Anhangá; Vem quebrar-vos a maça valente, Profanar Manitôs, Maracá. Vem trazer-vos algemas pesadas, Com que a tribo Tupi vai gemer; Hão de os velhos servirem de escravos Mesmo o Piaga inda escravo há de ser! Fugireis procurando um asilo, Triste asilo por ínvio sertão; Anhangá de prazer há de rir-se. Vendo os vossos quão poucos serão. Vossos Deuses, ó Piaga, conjura, Susta as iras do fero Anhangá. Manitôs já fugiram da Taba, Ó desgraça! ó ruína! ó Tupá! Gonçalves Dias Marabá Eu vivo sozinha, ninguém me procura! Acaso feitura Não sou de Tupá! Se algum dentre os homens de mim não se esconde: - "Tu és", me responde, "Tu és Marabá!" - Meus olhos são garços, são cor das safiras, - Têm luz das estrelas, têm meigo brilhar; - Imitam as nuvens de um céu anilado, - As cores imitam das vagas do mar! Se algum dos guerreiros não foge a meus passos: "Teus olhos são garços", Responde anojado, "mas és Marabá: "Quero antes uns olhos bem pretos, luzentes, "Uns olhos fulgentes, "Bem pretos, retintos, não cor d'anajá!" - É alvo meu rosto da alvura dos lírios, - Da cor das areias batidas do mar; - As aves mais brancas, as conchas mais puras - Não têm mais alvura, não têm mais brilhar. Se ainda me escuta meus agros delírios: - "És alva de lírios", Sorrindo responde, "mas és Marabá: "Quero antes um rosto de jambo corado, "Um rosto crestado "Do sol do deserto, não flor de cajá." - Meu colo de leve se encurva engraçado, - Como hástea pendente do cáctus em flor; - Mimosa, indolente, resvalo no prado, - Como um soluçado suspiro de amor! - "Eu amo a estatura flexível, ligeira, Qual duma palmeira", Então me respondem; "tu és Marabá: "Quero antes o colo da ema orgulhosa, Que pisa vaidosa, "Que as flóreas campinas governa, onde está." - Meus loiros cabelos em ondas se anelam, - O oiro mais puro não tem seu fulgor; - As brisas nos bosques de os ver se enamoram - De os ver tão formosos como um beija-flor! Mas eles respondem: "Teus longos cabelos, "São loiros, são belos, "Mas são anelados; tu és Marabá: "Quero antes cabelos, bem lisos, corridos, "Cabelos compridos, "Não cor d'oiro fino, nem cor d'anajá," ---- E as doces palavras que eu tinha cá dentro A quem nas direi? O ramo d'acácia na fronte de um homem Jamais cingirei: Jamais um guerreiro da minha arazóia Me desprenderá: Eu vivo sozinha, chorando mesquinha, Que sou Marabá! Gonçalves Dias O Gigante de Pedra O guerriers! ne laissez pas ma dépouille au corbeau! Ensevelissez-moi parmi des monts sublimes, Afin que l'étranger cherche, en voyant leurs cimes, Quelle montagne est mon tombeau! V.Hugo.Le Géant. I Gigante orgulhoso, de fero semblante, Num leito de pedra lá jaz a dormir! Em duro granito repousa o gigante, Que os raios somente puderam fundir. Dormido atalaia no serro empinado Devera cuidoso, sanhudo velar; O raio passando o deixou fulminado, E à aurora, que surge, não há de acordar! Co'os braços no peito cruzados nervosos, Mais alto que as nuvens, os céus a encarar, Seu corpo se estende por montes fragosos, Seus pés sobranceiros se elevam do mar! De lavas ardentes seus membros fundidos Avultam imensos: só Deus poderá Rebelde lançá-lo dos montes erguidos, Curvados ao peso, que sobre lhe 'stá. E o céu, e as estrelas e os astros fulgentes São velas, são tochas, são vivos brandões, E o branco sudário são névoas algentes, E o crepe, que o cobre, são negros bulcões. Da noite, que surge, no manto fagueiro Quis Deus que se erguesse, de junto a seus pés, A cruz sempre viva do sol no cruzeiro, Deitada nos braços do eterno Moisés. Perfumam-no odores que as flores exalam, Bafejam-no carmes de um hino de amor Dos homens, dos brutos, das nuvens que estalam, Dos ventos que rugem, do mar em furor. E lá na montanha, deitado dormido Campeia o gigante, - nem pode acordar! Cruzados os braços de ferro fundido, A fronte nas nuvens, os pés sobre o mar! II Banha o sol os horizontes, Trepa os castelos dos céus, Aclara serras e fontes, Vigia os domínios seus: Já descai p'ra o ocidente, E em globo de fogo ardente Vai-se no mar esconder; E lá campeia o gigante, Sem destorcer o semblante, Imóvel, mudo, a jazer! Vem a noite após o dia, Vem o silêncio, o frescor, E a brisa leve e macia, Que lhe suspira ao redor; E da noite entre os negrores, Das estrelas os fulgores Brilham na face do mar: Brilha a lua cintilante, E sempre mudo o gigante, Imóvel, sem acordar! Depois outro sol desponta, E outra noite também, Outra lua que aos céus monta, Outro sol que após lhe vem: Após um dia outro dia, Noite após noite sombria, Após a luz o bulcão, E sempre o duro gigante, Imóvel, mudo, constante Na calma e na cerração! Corre o tempo fugidio, Vem das águas a estação, Após ela o quente estio; E na calma do verão Crescem folhas, vingam flores, Entre galas e verdores Sazonam-se frutos mil; Cobrem-se os prados de relva, Murmura o vento na selva, Azulam-se os céus de anil! Tornam prados a despir-se, Tornam flores a murchar, Tornam de novo a vestir-se, Tornam depois a secar; E como gota filtrada De uma abóbada escavada Sempre, incessante a cair, Tombam as horas e os dias, Como fantasmas, sombrias, Nos abismos do porvir! E no féretro de montes Inconcusso, imóvel, fito, Escurece os horizontes O gigante de granito. Com soberba indiferença Sente extinta a antiga crença Dos Tamoios, dos Pajés; Nem vê que duras desgraças, Que lutas de novas raças Se lhe atropelam aos pés! III E lá na montanha deitado dormido Campeia o gigante! - nem pode acordar! Cruzados os braços de ferro fundido, A fronte nas nuvens, e os pés sobre o mar!... IV Viu primeiro os íncolas Robustos, das florestas, Batendo os arcos rígidos, Traçando homéreas festas, À luz dos fogos rútilos, Aos sons do murmuré! E em Guanabara esplêndida As danças dos guerreiros, E o guau cadente e vário Dos moços prazenteiros, E os cantos da vitória Tangidos no boré. E das igaras côncavas A frota aparelhada, Vistosa e formosíssima Cortando a undosa estrada, Sabendo, mas que frágeis, Os ventos contrastar: E a caça leda e rápida Por serras, por devesas, E os cantos da janúbia Junto às lenhas acesas, Quando o tapuia mísero Seus feitos vai narrar! E o germe da discórdia Crescendo em duras brigas, Ceifando os brios rústicos Das tribos sempre amigas, - Tamoi a raça antígua, Feroz Tupinambá. Lá vai a gente impróvida, Nação vencida, imbele, Buscando as matas ínvias, Donde outra tribo a expele; Jaz o pajé sem glória, Sem glória o maracá. Depois em naus flamívomas Um troço ardido e forte, Cobrindo os campos úmidos De fumo, e sangue, e morte, Traz dos reparos hórridos D'altíssimo pavês: E do sangrento pélago Em míseras ruínas Surgir galhardas, límpidas As portuguesas quinas, Murchos os lises cândidos Do impróvido gaulês! V Mudaram-se os tempos e a face da terra, Cidades alastram o antigo paul; Mas inda o gigante, que dorme na serra, Se abraça ao imenso cruzeiro do sul. Nas duras montanhas os membros gelados, Talhados a golpes de ignoto buril, Descansa, ó gigante, que encerras os fados, Que os términos guardas do vasto Brasil. Porém se algum dia fortuna inconstante Puder-nos a crença e a pátria acabar, Arroja-te às ondas, o duro gigante, Inunda estes montes, desloca este mar! Gonçalves Dias Leito de Folhas Verdes Por que tardas, Jatir, que tanto a custo À voz do meu amor moves teus passos? Da noite a viração, movendo as folhas, Já nos cimos do bosque rumoreja. Eu sob a copa da mangueira altiva Nosso leito gentil cobri zelosa Com mimoso tapiz de folhas brandas, Onde o frouxo luar brinca entre flores. Do tamarindo a flor abriu-se, há pouco, Já solta o bogari mais doce aroma! Como prece de amor, como estas preces, No silêncio da noite o bosque exala. Brilha a lua no céu, brilham estrelas, Correm perfumes no correr da brisa, A cujo influxo mágico respira-se Um quebranto de amor, melhor que a vida! A flor que desabrocha ao romper d'alva Um só giro do sol, não mais, vegeta: Eu sou aquela flor que espero ainda Doce raio do sol que me dê vida. Sejam vales ou montes, lago ou terra, Onde quer que tu vás, ou dia ou noite, Vai seguindo após ti meu pensamento; Outro amor nunca tive: és meu, sou tua! Meus olhos outros olhos nunca viram, Não sentiram meus lábios outros lábios, Nem outras mãos, Jatir, que não as tuas A arazóia na cinta me apertaram. Do tamarindo a flor jaz entreaberta, Já solta o bogari mais doce aroma Também meu coração, como estas flores, Melhor perfume ao pé da noite exala! Não me escutas, Jatir! nem tardo acodes À voz do meu amor, que em vão te chama! Tupã! lá rompe o sol! do leito inútil A brisa da manhã sacuda as folhas! Gonçalves Dias Deprecação Tupã, ó Deus grande! Cobriste o teu rosto Com denso velâmen de penas gentis; E jazem teus filhos clamando vingança Dos bens que lhes deste da perda infeliz! Tupã, ó Deus grande! teu rosto descobre: Bastante sofremos com tua vingança! Já lágrimas tristes choraram teus filhos, Teus filhos que choram tão grande mudança. Anhangá impiedoso nos trouxe de longe Os homens que o raio manejam cruentos, Que vivem sem pátria, que vagam sem tino Trás do ouro correndo, voraces, sedentos. E a terra em que pisam, e os campos e os rios Que assaltam, são nossos; tu és nosso Deus: Por que lhes concedes tão alta pujança, Se os raios de morte, que vibram, são teus? Tupã, ó Deus grande! cobriste o teu rosto Com denso velâmen de penas gentis; E jazem teus filhos clamando vingança Dos bens que lhes deste da perda infeliz. Teus filhos valentes, temidos na guerra, No albor da manhã quão fortes que os vi! A morte pousava nas plumas da frecha, No gume da maça, no arco Tupi! E hoje em que apenas a enchente do rio Cem vezes hei visto crescer e baixar... Já restam bem poucos dos teus, qu'inda possam Dos seus, que já dormem, os nossos levar. Teus filhos valentes causavam terror, Teus filhos enchiam as bordas do mar, As ondas coalhavam de estreitas igaras, De frechas cobrindo os espaços do ar. Já hoje não caçam nas matas frondosas A corça ligeira, o trombudo coati... A morte pousava nas plumas da frecha, no gume da maçã, no arco Tupi! O Piaga nos disse que breve seria, A que nos infliges cruel punição; E os teu inda vagam por serras, por vales, Buscando um asilo por ínvio sertão! Tupã, ó Deus grande! descobre o teu rosto: Bastante sofremos com tua vingança! Já lágrimas tristes choraram teus filhos, Teus filhos que choram tão grande tardança. Descobre o teu rosto, ressurjam os bravos Que eu vi combatendo no albor da manhã: Conheçam-te os feros, confessem vencidos Que és grande e te vingas, qu'és Deus, ó Tupã! Gonçalves Dias O Soldado Espanhol Un soldat au dur visage. V. Hugo I Oh! qui révèlera les troubles, les mystères Que ressentent d'abord deux amants solitaires Dans l'abandon dun chaste amour? (Amour et Foi) O céu era azul, tão meigo e tão brando, E a terra era a noiva que bem se arreava Que a mente exultava, mais longe escutando O mar a quebrar-se na praia arenosa. O céu era azul, e na cor semelhava Vestido sem nódoa de pura donzela; E a terra era a noiva que bem se arreava De flores, matizes; mas vária, mas bela. Ela era brilhante, Qual raio do sol; E ele arrogante, De sangue espanhol. E o espanhol muito amava A virgem mimosa e bela; Ela amante, ele zeloso Dos amores da donzela; Ele tão nobre e folgando De chamar-se escravo dela! E ele disse: - Vês o céu? - E ela disse: - Vejo, sim; Mais polido que o polido Do meu véu azul cetim. - Torna-lhe ele... (oh! quanto é doce Passar-se uma noite assim!) - Por entre os vidros pintados D'igreja antiga, a luzir Não vês luz? - Vejo. - E não sentes De a veres, meigo sentir? - É doce ver entre as sombras A luz do templo a luzir! - E o mar, além, preguiçoso Não vês tu em calmaria? - É belo o mar; porém sinto, Só de o ver, melancolia. - Que mais o teu rosto enfeita Que um sorriso de alegria. - E eu também acho em ser triste Do que alegre, mais prazer; Sou triste, quando em ti penso, Que só me falta morrer; Mesmo a tua voz saudosa Vem minha alma entristecer. - E eu sou feliz, como agora, Quando me falas assim; Sou feliz quando se riem Os lábios teus de carmim; Quando dizes que me adoras, Eu sinto o céu dentro em mim. - És tu só meu Deus, meu tudo. És tu só meu puro amar, És tu só que o pranto podes Dos meus olhos enxugar. - Com ela repete o amante: - És tu só meu puro amar! - E o céu era azul, tão meigo e tão brando E a terra tão erma, tão só, tão saudosa Que a mente exultava, mais longe escutando O mar a quebrar-se na praia arenosa! II Ainsi donc aujourd'hui, demain, après encore, Il faudra voir sans toi naitre et mourir l'aurore! V. Hugo E o espanhol viril, nobre e formoso, No bandolim Seus amores dizia mavioso, Cantando assim: "Já me vou por mar em fora Daqui longe a mover guerra, Já me vou, deixando tudo, Meus amores, minha terra. "Já me vou lidar em guerras, Vou-me à índia Ocidental; Hei de ter novos amores... De guerras... não temas ai. "Não chores, não, tão coitada, Não chores por t'eu deixar; Não chores que assim me custa O pranto meu sofrear. "Não chores! - sou como o Cid Partindo para a campanha; Não ceifarei tantos louros, Mas terei pena tamanha." E a amante que assim o via Partir-se tão desditoso, - Vai, mas volta; lhe dizia: Volta, sim, vitorioso. "Como o Cid, oh! crua sorte! Não me vou nesta campanha Guerrear contra o crescente, Porém sim contra os d'Espanha! "Não me aterram; porém sinto Cerrar-se o meu coração, Sinto deixar-te, meu anjo, Meu prazer, minha afeição. "Como é doce o romper d'alva, É-me doce o teu sorrir, Doce e puro, qual d'estrela De noite - o meigo luzir. "Eram meus teus pensamentos, Teu prazer minha alegria, Doirada fonte d'encantos, Fonte da minha poesia. "Vou-me longe, e o peito levo Rasgado de acerba dor, Mas comigo vão teus votos, Teus encantos, teu amor! "Já me vou lidar em guerras, Vou-me à índia Ocidental; Hei de ter novos amores... De guerras... não temas ai." Esta era a canção que acompanhava No bandolim, Tão triste, que triste não chorava Dizendo assim. III O Conde deu o sinal da partida: - À caça! meus amigos. BURGER "Quero, pajens, selado o ginete, Quero em punho nebris e falcão, Qu'é promessa de grande caçada Fresca aurora d'amigo verão. "Quero tudo luzindo, brilhante - Curta espada e venáb'lo e punhal, Cães e galgos farejem diante Leve odor de sanhudo animal. "E ai do gamo que eu vir na coutada, Corça, onagro, que eu primo avistar! Que o venáb'lo nos ares voando Lhe há de o salto no meio quebrar. "Eia, avante! - dizia folgando O fidalgo mancebo, loução: - Eía, avante! - e já todos galopam Trás do moço, soberbo infanção. E partem, qual do arco arranca e voa Nos amplos ares, mais veloz que a vista, A plúmea seta da entesada corda. Longe o eco reboa; - já mais fraco, Mais fraco ainda, pelos ares voa. Dos cães dúbios o latir se escuta apenas, Dos ginetes tropel, rinchar distante Que em lufadas o vento traz por vezes. Já som nenhum se escuta... Quê! - latido De cães, incerto, ao longe? Não, foi vento Na torre castelã batendo acaso, Nas seteiras acaso sibilando Do castelo feudal, deserto agora. IV Vois, à l'horizon Aucune maison? - Aucune. V. Hugo Já o sol se escondeu; cobre a terra Belo manto de frouxo luar; E o ginete, que esporas atracam, Nitre e corre sem nunca parar. Da coutada nas ínvias ramagens Vai sozinho o mancebo infanção; Vai sozinho, afanoso trotando Sem temores, sem pajens, sem cão. Companheiros da caça há perdido, Há perdido no aceso caçar; Há perdido, e não sente receio De sozinho, nas sombras trotar. Corno ebúmeo embocou muitas vezes, Muitas vezes de si deu sinal; Bebe atento a resposta, e não ouve Outro som responder-lhe; - lnda mal! E o ginete que esporas atracam, Nitre e corre sem nunca parar; Já o sol se escondeu, cobre a terra Belo manto de frouxo luar. V De rosée Arrosée. La rose a moins de fraicheur. Henrique IV Silêncio grato da noite Quebram sons duma canção, Que vai dos lábios de um anjo Do que escuta ao coração. Dizia a letra mimosa Saudades de muito amar; E o infanção enleado, Atento, pôs-se a escutar. Era encantos voz tão doce, Incentivo essa ternura, Gerava delícias n'alma Sonhar d'havê-la a ventura. Queixosa cantava a esposa Do guerreiro que partiu, Largos anos são passados, Missiva dele não viu... Parou!... escutando ao perto Responder-lhe outra canção!... Era terna a voz que ouvia, Lisonjeira - do infanção: "Tenho castelo soberbo Num monte, que beija um rio, De terra tenho no Doiro Jeiras cem de lavradio; "Tenho lindas haquenéias, Tenho pajens e matilha, Tenho os melhores ginetes Dos ginetes de Sevilha; "Tenho punhal, tenho espada D'alfageme alta feitura, Tenho lança, tenho adaga, Tenho completa armadura. "Tenho fragatas que cingem Dos mares a linfa clara, Que vão preando piratas Pelas rochas de Megara. "Dou-te o castelo soberbo E as terras do fértil Doiro, Dou-te ginetes e pajens E a espada de pomo d'oiro. "Dera a completa armadura E os meus barcos d'alto-mar, Que nas rochas de Megara Vão piratas cativar. "Fala de amores teu canto, Fala de acesa paixão... Ah! senhora, quem tivera Dos agrados teus condão! "Eu sou mancebo, sou Nobre, Sou nobre moço infanção; Assim pudesse o meu canto Algemar-te o coração, Ó Dona, que eu dera tudo Por vencer-te essa isenção!" Atenta escutava a esposa Do guerreiro que partiu, Largos anos são passados, Missiva dele não viu; Mas da letra que escutava Delícias n'alma sentiu. VI Si tu voulais, Madeleine, Je teferais châtelaine; Je suis le comte Roger: Quitte pour moi ces chaumières, À moins que tu ne préfères Que je me fasse berger. V. Hugo E noutra noite saudosa Bem junto dela sentado, Cantava brandas endechas O gardingo namorado . "Careço de ti, meu anjo, Careço do teu amor, Como da gota d'orvalho Carece no prado a flor. "Prazeres que eu nem sonhava Teu amor me fez gozar; Ah! que não queiras, senhora, Minha dita rematar. O teu marido é já morto, Notícia dele não soa; Pois desta gente guerreira Bastos ceifa a morte à toa. "Ventura me fora ver-te Nos lábios teus um sorriso, Delícias me fora amar-te, Gozar-te meu paraíso. "Sinto aflição, quando choras; Se te ris, sinto prazer; Se te ausentas, fico triste, Que só me falta morrer. "Careço de ti, meu ardo, Careço do teu amor, Como da gota d'orvalho Carece no prado a flor." VII L'époux, dont nul ne se souvient, Vient; II va punir ta vie infame, Femme! V. Hugo Era noite hibernal; girava dentro Da casa do guerreiro o riso, a dança, E reflexos de luz, e sons, e vozes, E deleite, e prazer: e fora a chuva, A escuridão, a tempestade, e o vento, Rugindo solto, indómito e terrível Entre o negror do céu e o horror da terra. Na geral confusão os céus e a terra Horrenda simpatia alimentavam. Ferve dentro o prazer, reina o sorriso, E fora a tiritar, fria, medonha, Marcha a vingança pressurosa e torva: Traz na destra o punhal, no peito a raiva, Nas faces palidez, nos olhos morte. O infanção extremoso enchia rasa A taça de licor mimoso e velho, Da usança ao brinde convidando a todos Em honra da esposada: - À noiva! exclama E a porta range e cede, e franca e livre Introduz o tufão, e um vulto assoma Altivo e colossal. - Em honra, brada, Do esposo deslembrado! - e a taça empunha Mas antes que o licor chegasse aos lábios, Desmaiada e por terra jaz a esposa, E a destra do infanção maneja o ferro, Por que tão grande afronta lave o sangue, Pouco, bem pouco para injúria tanta. Debalde o fez, que lhe golfeja o sangue D'ampla ferida no sinistro lado, E ao pé da esposa o assassino surge Co'o sangrento punhal na destra alçado. A flor purpúrea que matiza o prado, Se o vento da manhã lhe entorna o cálix, Perde aroma talvez; porém mais belo Colorido lhe vem do sol nos raios, As fagueiras feições daquele rosto Assim foram também; não foi do tempo Fatal o perpassar às faces lindas. Nota-lhe ele as feições, nota-lhe os lábios, Os curtos lábios que lhe deram vida, Longa vida de amor em longos beijos, Qual jamais não provou; e as iras todas Dos zelos vingadores descansaram No peito de sofrer cansado e cheio, Cheio qual na praia fica a esponja, Quando a vaga do mar passou sobre ela. Num relance fugiu, minaz no vulto: Como o raio que luz um breve instante, Sobre a terra baixou, deixando a morte. Gonçalves Dias Seus Olhos Oh! rouvre tes grands yeux dont la paupière tremble, Tes yeux pleins de langueur; Leur regard est si beau quand nous sommes ememble! Rouvre-les; ce regard manque à ma vie, il semble Que tufermes ton coeur. Turquety Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros, De vivo luzir, Estrelas incertas, que as águas dormentes Do mar vão ferir; Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros, Têm meiga expressão, Mais doce que a brisa, - mais doce que o nauta De noite cantando, - mais doce que a frauta Quebrando a solidão, Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros, De vivo luzir, São meigos infantes, gentis, engraçados Brincando a sorrir. São meigos infantes, brincando, saltando Em jogo infantil, Inquietos, travessos; - causando tormento, Com beijos nos pagam a dor de um momento, Com modo gentil. Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros, Assim é que são; Às vezes luzindo, serenos, tranqüilos, Às vezes vulcão! Às vezes, oh! sim, derramam tão fraco, Tão frouxo brilhar, Que a mim me parece que o ar lhes falece, E os olhos tão meigos, que o pranto umedece Me fazem chorar. Assim lindo infante, que dorme tranqüilo, Desperta a chorar; E mudo e sisudo, cismando mil coisas, Não pensa - a pensar. Nas almas tão puras da virgem, do infante, Às vezes do céu Cai doce harmonia duma Harpa celeste, Um vago desejo; e a mente se veste De pranto co'um véu. Quer sejam saudades, quer sejam desejos Da pátria melhor; Eu amo seus olhos que choram em causa Um pranto sem dor. Eu amo seus olhos tão negros, tão puros, De vivo fulgor; Seus olhos que exprimem tão doce harmonia, Que falam de amores com tanta poesia, Com tanto pudor. Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros, Assim é que são; Eu amo esses olhos que falam de amores Com tanta paixão. Gonçalves Dias Minha Vida e Meus Amores Mon Dieu, fais que je puisse aimer! S. Beuve Quando, no albor da vida, fascinado Com tanta luz e brilho e pompa e galas, Vi o mundo sorrir-me esperançoso: - Meu Deus, disse entre mim, oh! quanto é doce, Quanto é bela esta vida assim vivida! - Agora, logo, aqui, além, notando Uma pedra, uma flor, uma líndeza, Um seixo da corrente, uma conchinha À beira-mar colhida! Foi esta a infância minha; a juventude Falou-me ao coração: - amemos, disse, Porque amar é viver. E esta era linda, como é linda a aurora No fresco da manhã tingindo as nuvens De rósea cor fagueira; Aquela tinha um quê de anelos meigos Artífice sublime; Feiticeiro sorrir dos lábios dela Prendeu-me o coração; - julguei-o ao menos. Aquela outra sorria tristemente, Como um anjo no exílio, ou como o cálix De flor pendida e murcha e já sem brilho. Humilde flor tão bela e tão cheirosa, No seu deserto perfumando os ventos. -- Eu morrera feliz, dizia eu d'alma, Se pudesse enxertar uma esperança Naquela alma tão pura e tão formosa, E um alegre sorrir nos lábios dela. A fugaz borboleta as flores todas Elege, e liba e uma e outra, e foge Sempre em novos amores enlevada: Neste meu paraíso fui com ela, Inconstante vagando em mar de amores. O amor sincero e fundo e firme e eterno, Como o mar em bonança meigo e doce, Do templo como a luz perene e santo, Não, nunca o senti; - somente o viço Tão forte dos meus anos, por amores Tão fáceis quanto indi'nos fui trocando. Quanto fui louco, ó Deus! - Em vez do fruto Sazonado e maduro, que eu podia Como em jardim colher, mordi no fruto Pútrido e amargo e rebuçado em cinzas, Como infante glutão, que se não senta À mesa de seus pais Dá, meu Deus, que eu possa amar, Dá que eu sinta uma paixão, Toma-me virgem minha alma, E virgem meu coração. Um dia, em qu'eu sentei-me junto dela, Sua voz murmurou nos meus ouvidos, - Eu te amo! - ó anjo, que não possa eu crer-te! Ela, certo, não é mulher que vive Nas fezes da desonra, em cujos lábios Só mentira e traição eterno habitam. Tem uma alma inocente, um rosto belo, E amor nos olhos... - mas não posso crê-la. Dá, meu Deus, que eu possa amar, Dá que eu sinta uma paixao; Torna-me virgem minha alma, E virgem meu coração. Outra vez que lá fui, que a vi, que a medo Terna voz lhe escutei: - Sonhei contigo! - Inefável prazer banhou meu peito, Senti delícias; mas a sós comigo Pensei - talvez! - e já não pude crê-Ia. Ela tão meiga e tão cheia de encantos, Ela tão nova, tão pura e tão bela ... Amar-me! - Eu que sou? Meus olhos enxergam, enquanto duvida Minha alma sem crença, de força exaurida, Já farta da vida, Que amor não doirou. Malgrado meu, crer não posso, Malgrado meu que assim é; Queres ligar-te comigo Sem no amor ter crença e fé? Antes vai colar teu rosto, Colar teu seio nevado Contra o rosto mudo e frio, Contra o seio dum finado. Ou suplica a Deus comigo Que me dê uma paixão; Que me dê crença à minha alma, E vida ao meu coração. Gonçalves Dias Recordação Nessun maggior dolore... Dante Quando em meu peito as aflições rebentam Eivadas de sofrer acerbo e duro; Quando a desgraça o coração me arrocha Em círculos de ferro, com tal força, Que dele o sangue em borbotões golfeja; Quando minha alma de sofrer cansada, Bem que afeita a sofrer, sequer não pode Clamar: Senhor, piedade; - e que os meus olhos Rebeldes, uma lágrima não vertem Do mar d'angústias que meu peito oprime: Volvo aos instantes de ventura, e penso Que a sós contigo, em prática serena, Melhor futuro me augurava, as doces Palavras tuas, sôfregos, atentos Sorvendo meus ouvidos, - nos teus olhos Lendo os meus olhos tanto amor, que a vida Longa, bem longa, não bastara ainda por que de os ver me saciasse!... O pranto Então dos olhos meus corre espontâneo, Que não mais te verei. - Em tal pensando De martírios calar sinto em meu peito Tão grande plenitude, que a minha alma Sente amargo prazer de quanto sofre. Gonçalves Dias Amor ! Delirio - Engano Y el llanto que en su cólera derrama, La hoguera apaga del antiguo amor! Zorrilla Amor! delírio - engano... Sobre a terra Amor também fruí; a vida inteira Concentrei num só ponto - amá-la, e sempre. Amei! - dedicação, ternura, extremos Cismou meu coração, cismou minha alma, - Minha alma que na taça da ventura Vida breve d'amor sorveu gostosa. Eu e ela, ambos nós, na terra ingrata Oásis, paraíso, éden ou templo Habitamos uma hora; e logo o tempo Com a foice roaz quebrou-lhe o encanto, Doce encanto que o amor nos fabricara. E eu sempre a via!... quer nas nuvens d'oiro, Quando ia o sol nas vagas sepultar-se, Ou quer na branca nuvem que velava O círculo da lua, - quer no manto D'alvacenta neblina que baixava Sobre as folhas do bosque, muda e grave, Da tarde no cair; nos céus, na terra, A ela, a ela só, viam meus olhos. Seu nome, sua voz - ouvia eu sempre; Ouvia-os no gemer da parda rola, No trépido correr da veia argêntea, No respirar da brisa, no sussurro Do arvoredo frondoso, na harmonia Dos astros inefável; - o seu nome! Nos fugitivos sons de alguma frauta, Que da noite o silêncio realçavam, Os ares e a amplidão divinizando, Ouviam meus ouvidos; e de ouvi-lo Arfava de prazer meu peito ardente. Ah! quantas vezes, quantas! junto dela Não senti sua mão tremer na minha; Não lhe escutei um lânguido suspiro, Que vinha lá do peito à flor dos lábios Deslizar-se e morrer?! Dos seus cabelos A mágica fragrância respirando, Escutando-lhe a voz doce e pausada, Mil venturas colhi dos lábios dela, Que instantes de prazer me futuravam. Cada sorriso seu era uma esp'rança, E cada esp'rança enlouquecer de amores. E eu amei tanto! - Oh! não! não hão de os homens Saber que amor, à ingrata, havia eu dado; Que afetos melindrosos, que em meu peito Tinha eu guardado para ornar-lhe a fronte! Oh! - não, - morra comigo o meu segredo; Rebelde o coração murmure embora. Que de vezes, pensando a sós comigo, Não disse eu entre mim: - Anjo formoso, Da minha vida que farei, se acaso Faltar-me o teu amor um só instante; - Eu que só vivo por te amar, que apenas O que sinto por ti a custo exprimo? No mundo que farei, como estrangeiro Pelas vagas cruéis à praia inóspita Exânime arrojado? - Eu, que isto disse, Existo e penso - e não morri, - não morro Do que outrora senti, do que ora sinto, De pensar nela, de a rever em sonhos, Do que fui, do que sou e ser podia! Existo; e ela de mim jaz esquecida! Esquecida talvez de amor tamanho, Derramando talvez noutros ouvidos Frases doces de amor, que dos seus lábios Tantas vezes ouvi, - que tantas vezes Em êxtase divino aos céus me alçaram, - Que dando à terra ingrata o que era terra Minha alma além das nuvens transportaram. Existo! como outrora, no meu peito Férvido o coração pular sentindo, Todo o fogo da vida derramando Em queixas mulheris, em moles versos. E ela!... ela talvez nos braços doutrem Com sua vida alimenta uma outra vida, Com o seu coração o de outro amante, Que mais feliz do que eu, infemo! a goza. Ela, que eu respeitei, que eu venerava Como a relíquia santa! - a quem meus olhos, Receando ofendê-la, tantas vezes De castos e de humildes se abaixaram! Ela, perante quem sentia eu presa A voz nos lábios e a paixão no peito! Ela, ídolo meu, a quem o orgulho, A força d'homem, o sentir, vontade Própria e minha dediquei, - sujeita À voz de alguém que não sou eu, - desperta, Talvez no instante em que de mim se lembra, Por um ósculo frio, por carícias Devidas dum esposo!... Oh! não poder-te, Abutre roedor, cruel ciúme, Tua funda raiz e a imagem dela No peito em sangue espedaçar raivoso! Mas tu, cruel, que és meu rival, numa hora, Em que ela só julgar-se, hás de escutar-lhe Um quebrado suspiro do imo peito, Que d'eras já passadas se recorda. Hás de escutá-lo, e ver-lhe a cor do rosto Enrubescer-se ao deparar contigo! Presa serás também d'atros cuidados, Terás ciúme, e sofrerás qual sofro: Nem menor que o meu mal quero a vingança. Gonçalves Dias A Escrava O biem qu'aucun bien ne peut rendre, O Patrie, ó doux nom que l'exil fait comprendre! Marino Faliero Oh! doce país de Congo, Doces terras d'além-mar! Oh! dias de sol formoso! Oh! noites d'almo luar! Desertos de branca areia De vasta, imensa extensão, Onde livre corre a mente, Livre bate o coração! Onde a Ieda caravana Rasga o caminho passando, Onde bem longe se escuta As vozes que vão cantando! Onde longe inda se avista O turbante muçulmano, O Iatagã recurvado, Preso à cinta do Africano! Onde o sol na areia ardente Se espelha, como no mar; Oh! doces terras de Congo, Doces terras d'além-mar! Quando a noite sobre a terra Desenrolava o seu véu, Quando sequer uma estrela Não se pintava no céu; Quando só se ouvia o sopro De mansa brisa fagueira, Eu o aguardava - sentada Debaixo da bananeira. Um rochedo ao pé se erguia, Dele à base uma corrente Despenhada sobre pedras, Murmurava docemente. E ele às vezes me dizia: - "Minha Alsgá, não tenhas medo: Vem comigo, vem sentar-te Sobre o cimo do rochedo." E eu respondia animosa: - "Irei contigo, onde fores!" E tremendo e palpitando Me cingia aos meus amores. Ele depois me tornava Sobre o rochedo - sorrindo: - "As águas desta corrente Não vês como vão fugindo? "Tão depressa corre a vida, Minha Alsgá; depois morrer Só nos resta!... - Pois a vida Seja instantes de prazer. "Os olhos em torno volves Espantados - Ah! também Arfa o teu peito ansiado!... Acaso temes alguém? "Não receies de ser vista, Tudo agora jaz dormente; Minha voz mesmo se perde No fragor desta corrente. "Minha Alsgá, por que estremeces? Por que me foges assim? Não te partas, não me fujas, Que a vida me foge a mim! "Outro beijo acaso temes, Expressão de amor ardente? Quem o ouviu? - o som perdeu-se No fragor desta corrente." Assim praticando amigos A aurora nos vinha achar! Oh! doces terras de Congo, Doces terras d'além-mar! --- Do ríspido Senhor a voz irada Rábida soa, Sem o pranto enxugar a triste escrava Pávida voa. Mas era em mora por cismar na terra, Onde nascera, Onde vivera tão ditosa, e onde Morrer devera! Sofreu tormentos, porque tinha um peito, Qu'inda sentia; Mísera escrava! no sofrer cruento, "Congo!" dizia. Gonçalves Dias O Mar Frappé de ta grandeur farouche Je tremble... est-ce bien toi, vieux lion que je touche, Océan, terrible océan! Turquety Oceano terrível, mar imenso De vagas procelosas que se enrolam Floridas rebentando em branca espuma Num pólo e noutro pólo, Enfim... enfim te vejo; enfim meus olhos Na indômita cerviz trêmulos cravo, E esse rugido teu sanhudo e forte Enfim medroso escuto! Donde houveste, ó pélago revolto, Esse rugido teu? Em vão dos ventos Corre o insano pegão lascando os troncos, E do profundo abismo Chamando à superficie infindas vagas, Que avaro encerras no teu seio undoso; Ao insano rugir dos ventos bravos Sobressai teu rugido. Em vão troveja horríssona tormenta; Essa voz do trovão, que os céus abala, Não cobre a tua voz. - Ah! donde a houveste, Majestoso oceano? Ó mar, o teu rugido é um eco incerto Da criadora voz, de que surgiste: Seja, disse; e tu foste, e contra as rochas As vagas compeliste. E à noite, quando o céu é puro e limpo, Teu chão tinges de azul, - tuas ondas correm Por sobre estrelas mil; turvam-se os olhos Entre dois céus brilhantes. Da voz de Jeová um eco incerto Julgo ser teu rugir; mas só, perene, Imagem do infinito, retratando As feituras de Deus. Por isto, a sós contigo, a mente livre Se eleva, aos céus remonta ardente, altiva, E deste lodo terreal se apura, Bem como o bronze ao fogo. Férvida a Musa, co'os teus sons casada, Glorifica o Senhor de sobre os astros Co'a fronte além dos céus, além das nuvens, E co'os pés sobre ti. O que há mais forte do que tu? Se erriças A coma perigosa, a nau possante, Extremo de artificio, em breve tempo Se afunda e se aniquila. És poderoso sem rival na terra; Mas lá te vás quebrar num grão d'areia, Tão forte contra os homens, tão sem força Contra coisa tão fraca! Mas nesse instante que me está marcado, Em que hei de esta prisão fugir p'ra sempre, Irei tão alto, ó mar, que lá não chegue Teu sonoro rugido. Então mais forte do que tu, minha alma, Desconhecendo o temor, o espaço, o tempo, Quebrará num relance o círc'lo estreito Do finito e dos céus! Então, entre miríadas de estrelas, Cantando hinos d'amor nas harpas d'anjos, Mais forte soará que as tuas vagas, Mordendo a fulva areia; Inda mais doce que o singelo canto De merencória virgem, quando a noite Ocupa a terra, - e do que a mansa brisa, Que entre flores suspira. Gonçalves Dias Te Deum Nós, Senhor, nós te louvamos, Nós, Senhor, te confessamos. Senhor Deus Sabaó, três vezes santo, Imenso é o teu poder, tua força imensa, Teus prodígios sem conta; - e os céus e a terra Teu ser e nome e glória preconizam. E o arcanjo forte, e o serafim sem mancha, E o coro dos profetas, e dos mártires A turba eleita - a ti, Senhor, proclamam, Senhor Deus Sabaó, três vezes santo. Na inocência do infante és tu quem falas; A beleza, o pudor - és tu que as gravas Nas faces da mulher, - és tu que ao velho Prudência dás, - e o que verdade e força Nos puros lábios, do que é justo, imprimes. És tu quem dás rumor à quieta noite, És tu quem dás frescor à mansa brisa, Quem dás fulgor ao raio, asas ao vento, Quem na voz do trovão longe rouquejas. És tu que do oceano à fúria insana Pões limites e cobro, - és tu que a terra No seu vôo equilibras, - quem dos astros Governas a harmonia, como notas Acordes, simultâneas, palpitando Nas cordas d'Harpa do teu Rei Profeta, Quando ele em teu furor hinos soltava, Qu'iam, cheios de amor, beijar teu sólio. Santo! Santo! Santo! - teus prodígios São grandes, como os astros, - são imensos, Como areia delgada em quadra estiva. E o arcanjo forte e o serafim sem mancha, E o coro dos profetas, e dos mártires A turba eleita - a ti, Senhor, proclamam, Senhor Deus Sabaó, três vezes grande. Gonçalves Dias Canção Yo no soy más que un poeta, Sin otro bien que mi lira. Zorrilla Tenho uma harpa religiosa, Toda inteira fabricada De madeira preciosa Sobre o Líbano cortada. Foi o Senhor quem me deu, De santas palmas coberta, Que as notas suas concerta Aos sons do saltério hebreu! Tenho alaúde polido Em que antigos Trovadores, Em tom de guerra atrevido, Cantavam trovas de amores. Mas chegando a Santa Cruz, De volta do meu desterro, Cortei-lhe as cordas de ferro, Cordas de prata lhe pus. Tenho também uma lira De festões engrinaldada, Onde minha alma afinada Melindres d'amor suspira. Nas grinaldas, nos festões, Nas rosas com que s'enflora, Goteja o orvalho da aurora Dictamo dos corações. Eis o que tenho, ó Donzela, Só harpa, alaúde e lira; Nem vejo sorte mais bela, Nem coisa que lhe eu prefira. Votei assim ao meu Deus A minha harpa religiosa, A ti a lira mimosa, O grave alaúde aos meus! Gonçalves Dias Rosa no Mar! Rosa, rosa de amor purpúrea e bela, Quem entre os goivos te esfolhou da campa! Garret Por uma praia arenosa, Vagarosa Divagava uma Donzela; Dá largas ao pensamento. Brinca o vento Nos soltos cabelos dela. Leve ruga no semblante Vem num instante, Que noutro instante se alisa; Mais veloz que a sua idéia Não volteia, Não gira, não foge a brisa. No virginal devaneio Arfa o seio, Pranto ao riso se mistura; Doce rir dos céus encanto, Leve pranto, Que amargo não é, nem dura. Nesse lugar solitário, - Seu fadário. - De ver o mar se recreia; De o ver, à tarde, dormente, Docemente Suspirar na branca areia. Agora, qual sempre usava, Divagava Em seu pensar embebida; Tinha no seio uma rosa Melindrosa, De verde musgo vestida. Ia a virgem descuidosa, Quando a rosa Do seio no chão lhe cai: Vem um'onda bonançosa, Qu'impiedosa A flor consigo retrai. A meiga flor sobrenada; De agastada, A virge' a não quer deixar! Bóia a flor; a virgem bela, Vai trás ela, Rente, rente - à beira-mar. Vem a onda bonançosa, Vem a rosa; Foge a onda, a flor também. Se a onda foge, a donzela Vai sobre ela! Mas foge, se a onda vem. Muitas vezes enganada, De enfadada Não quer deixar de insistir; Das vagas menos se espanta, Nem com tanta Presteza lhes quer fugir. Nisto o mar que se encapela A virgem bela Recolhe e leva consigo; Tão falaz em calmaria, Como a fria Polidez de um falso amigo. Nas águas alguns instantes, Flutuantes Nadaram brancos vestidos: Logo o mar todo bonança, A praia cansa Com monótonos latidos. Um doce nome querido Foi ouvido, Ia a noite em mais de meia: Toda a praia perlustraram, Nem acharam Mais que a flor na branca areia. Gonçalves Dias A Noite Noite, melhor que o dia, quem não te ama! Quem não vive mais brando em teu regaço! Filinto Eu amo a noite solitária e muda, Quando no vasto céu fitando os olhos, Além do escuro, que lhe tinge a face, Alcanço deslumbrado Milhões de sóis a divagar no espaço, Como em salas de esplêndido banquete Mil tochas aromáticas ardendo Entre nuvens d'incenso! Eu amo a noite taciturna e queda! Amo a doce mudez que ela derrama, E a fresca aragem pelas densas folhas Do bosque murmurando: Então, malgrado o véu que envolve a terra, A vista, do que vela enxerga mundos, E apesar do silêncio, o ouvido escuta Notas de etéreas harpas. Eu amo a noite taciturna e queda! Então parece que da vida as fontes Mais fáceis correm, mais sonoras soam, Mais fundas se abrem; Então parece que mais pura a brisa Corre, - que então mais funda e leve a fonte Mana, - e que os sons então mais doce e triste Da música se espargem. O peito aspira sôfrego ar de vida, Que da terra não é; qual flor noturna, Que bebe orvalho, ele se embebe e ensopa Em êxtase de amor: Mais direitas então, mais puras devem, Calada a natureza, a terra e os homens, Subir as orações aos pés do Eterno Para afagar-lhe o trono! Assim é que no templo majestoso Reboa pela nave o som mais alto, Quando o sacro instrumento quebra a augusta Mudez do santuário; Assim é que o incenso mais direito Se eleva na capela que o resguarda, E na chave da abóbada topando, Como um dossel, se espraia. Eu amo a noite solitária e muda; Como formosa dona em régios paços, Trajando ao mesmo tempo luto e galas Majestosa e sentida; Se no dó atentais, de que se enluta, Certo sentis pesar de a ver tão triste; Se o rosto lhe fitais, sentis deleite De a ver tão bela e grave! Considerai porém o nobre aspecto, E o porte, e o garbo senhoril e altivo, E as falas poucas, e o olhar sob'rano, E a fronte levantada: No silêncio que a veste, adorna e honra, Conhecendo por fim quanto ela é grande, Com voz humilde a saudarei rainha, Curvado e respeitoso. Eu amo a noite solitária e muda, Quando, bem como em salas de banquete Mil tochas aromáticas ardendo, Giram fúlgidos astros! Eu amo o leve odor que ela difunde, E o rorante frescor caindo em pér'las, E a mágica mudez que tanto fala, E as sombras transparentes! Oh! quando sobre a terra ela se estende, Como em praia arenosa mansa vaga; Ou quando, como a flor dentre o seu musgo, A aurora desabrocha; Mais forte e pura a voz humana soa, E mais se acorda ao hino harmonioso, Que a natureza sem cessar repete, E Deus gostoso escuta. Gonçalves Dias O Amor Amare amabam. S. Agostinho Amor! enlevo d'alma, arroubo, encanto Desta existência mísera, onde existes? Fino sentir ou mágico transporte, (O quer que seja que nos leva a extremos, Aos quais não basta a natureza humana;) Simpática atração d'almas sinceras Que unidas pelo amor, no amor se apuram, Por quem suspiro, serás nome apenas? A inútil chama ressecou meus lábios, Mirrou-me o coração da vida em meio, E à terra fez baixar a mente errada Que entre nuvens, amor, por ti bradava! Não te pude encontrar! - em vão meus anos No louco intento esperdicei; gelados, Uns após outros a cair precípites Na urna do passado os vi; eu triste, Amor, por ti clamava; - e o meu deserto Aos meus acentos reboava embalde. Em vão meu coração por ti se fina, Em vão minha alma te compreende e busca, Em vão meus lábios sôfregos cobiçam Libar a taça que aos mortais of'reces! Dizem-na funda, inesgotável, meiga; Enquanto a vejo rasa, amarga e dura! Dizem-na bálsamo, eu veneno a sorvo: Prazer, doçura, - eu dor e fel encontro! Dobrei-me às duras leis que me impuseste, Curvei ao jugo teu meu colo humilde, Feri-me aos teus ardentes passadores, Prendi-me aos teus grilhões, rojei por terra... E o lucro?... foram lágrimas perdidas, Foi roxa cicatriz qu'inda conservo, Desbotada a ilusão e a vida exausta! Celeste emanação, gratos eflúvios Das roseiras do céu; bater macio Das asas auribrancas dalgum anjo, Que roça em noite amiga a nossa esfera, Centelha e luz do sol que nunca morre; És tudo, e mais qu'isto: - és luz e vida, Perfume, e vôo d'anjo mal sentido, Peregrinas essências trescalando!... Também passas veloz, - breve te apagas, Como duma ave a sombra fugitiva, Desgarrada voando à flor de um lago! Gonçalves Dias Sempre Ela Per noctem quaesivi, quam diligit anima mea et non inveni illam, Cant.Cant. Eu amo a doce virgem pensativa, Em cujo rosto a palidez se pinta, Como nos céus a matutina estrela! A dor lhe há desbotado a cor das faces, E o sorriso que lhe roça os lábios Murcha ledo sorrir nos lábios doutrem. Tem um timbre de voz que n'alma ecoa, Tem expressões d'angélica doçura, E a mente do que as ouve, se perfuma De amor profundo e de piedade santa, E exala eflúvios dum odor suave De aloés, de mirra ou de mais grato incenso. E nessas horas, quando a mente aflita, De dor oculta remordida, anseia Desabrochar-se em confidência amiga, "Neste mundo o que sou? - triste clamava; "Pérsica envolta em pó, entre ruínas, "Erma e sozinha a resolver-me em pranto! "Flor desbotada em hástea já roída, "De cujo tronco as outras amarelas "Já rojam sobre o pó, já murchas pendem! "É sentir e sofrer a minha vida!" Merencória dizia, erguendo os olhos Aos céus dum claro azul, que lhes sorriam. Nada o mudo alcion por sobre os mares, E próximo a seu fim desata o canto; A rosa do Sarão lá se despenha Nas águas do Jordão: e como a rosa, Como o cisne, do mar entre os perfumes, Aos sons duma Harpa interna ela morria! E como o partor que avista a linda rosa Nas águas da corrente, e como o nauta Que vê, que escuta o cisne ir-se embalado Sobre as águas do mar, cantando a morte; Eu também a segui - a rosa, o cisne, Que lá se foi sumir por clima estranho. E depois que os meus olhos a perderam, Como se perde a estrela em céus infindos, Errei por sobre as ondas do oceano, Sentei-me à sombra das florestas virgens, Procurando apagar a imagem dela, Que tão inteira me ficara n'alma! Embalde aos céus erguendo os olhos turvos Meu astro procurei entre os mais astros, Qu'outrora amiga sina me fadara! Com brilho embaciado e lua incerta Nos ares se perdeu antes do ocaso, Deixando-me sem norte em mar d'angústias. Gonçalves Dias Palinódia O céu não te dotou de formosura, De atrativo exterior, e a natureza Teu peito inficionou co'a vil torpeza D'ingrata condição falaz e impura! BOCAGE Se só por vós, Senhora, corpo e alma, Apesar da aversão que tenho ao crime, Inteiro me embucei nos seus andrajos, Em tremedal de vícios; Se só por vós descri do que era nobre, Porque envolto em torpeza imunda e feia, As vestes da virtude imaculada Rebolquei-as no lodo; Se só por vós persegue-me o remorso, Que os dias da existência me consome, E entre angústias cruéis minha alma anseia, - Ludíbrio dos meus erros: Consenti que a moral os seus direitos Reivindique uma vez, e que a minha alma Das lições que bebeu na pura infância Uma hora se recorde! Agora, agro censor, hão de os meus lábios, Duras verdades trovejando em verso, Fazer de vós, o que a razão não pôde, - Mulher ou estátua! Mentistes quando amor tínheis nos lábios. Mentistes a compor meigos sorrisos, Mentistes no olhar, na voz, no gesto... Fostes bem falsa!... Falsa, como a mulher que em bruta orgia Finge extremos de amor que ela não sente, E o rosto of'rece a ósculos vendidos, Ao sigilo de infâmia. Quantas vezes, Senhora, não caístes Humilhada, a meus pés, desfeita em pranto, Chorando - e que choráveis? - a jurar-me... - Que juráveis então? Se pois sentisses compaixão amiga A cair gota a gota dos meus lábios No que eu supunha cicatriz recente, e que era úlcera funda; Se me vistes os olhos incendidos, Sangrar-me o coração no peito aflito Ao fel das vossas dores, que azedáveis Co'o pranto refalsado: Ouvi! - não éreis bela, - nem minha alma Vos amou, que um modelo de virtudes, - Um sublime ideal - amou somente; Vós o não fostes nunca. Que uma alma como a vossa, já manchada, Aos negros vícios mais que muito afeita, Já feia, já corrupta, já sem brilho... Amá-la eu, Senhora! Deitar-me sob a copa traiçoeira, Que ao longe espalha a sombra, o engano, a morte; Recostar-me no seio onde outros dormem, Que por ninguém palpita! Beijar faces sem vida, onde se enxerga Visgo nojento d'ósculos comprados; Crer no que dizem olhos mentirosos, Em prantos de loureira! Antes curvar o colo envilecido Ao jugo vil da escravidão nefanda; Beijar humilde a mão que nos ofende, Que nos cobre de opróbio! Antes, possesso d'imprudência estúpida, Brincando remexer no açafate, Onde por baixo de mimosas flores, O áspide se esconde! Mas eu, nos meus acessos de delírio, Voz importuna de contínuo ouvia, Cá dentro em mim, a repr'ender-me sempre De vos amar... tão pouco! Assim o cego idólatra se culpa, Nos espasmos d'ascética virtude, De não amar assaz o vão fantasma, De suas mãos feitura. Porém se luz melhor de cima o aclara, Cospe afronte e desdém, e à chama entrega O cepo vil, que não merece altares, Nem d'ofrendas é digno! Releva-se a imprudência feminina, Inda um erro, uma culpa se perdoa, Se a desvaira a paixão, se amor a cega No mar de escolhos cheio. O Deus, que mais perdoa a quem mais ama, Talvez da vida a negra mancha apaga A quem as asas de algum anjo orvalha De lágrimas contritas. Mas não àquela, em cesto peito mora Torpeza só, - onde o amor se cobre De vícios - a nutrir-se d'impurezas, Como vermes de lodo. Se porém te aproveita o meu conselho, A quem, mais do que a mim, tens ofendido, Que entre os risos do mundo, vê tua alma E lê teus pensamentos; Se não crês noutra vida além da morte, Roga sequer a Deus, que te rompa A luz do sol divino da Justiça A máscara d'enganos! Que a rainha da terra inamolgável, - A dura opinião - te não entregue, Sozinha, e nua, e d'irrisão coberta, À popular vindita! Gonçalves Dias Espera! Quem há no mundo que aflições não passe, Que dores são suporte? Mais ou menos d'angústias cabe a todos, A todos cabe a morte. A vida é um fio negro d'amarguras E de longo sofrer; Semelha a noite; mas fagueiros sonhos Podem de noite haver. Por que então maldiremos este mundo E a vida que vivemos, Se nos tornamos do Senhor mais dignos, Quando mais dor sofremos? Quantos cabelos temos, ele o sabe; Ele pode contar As folhas que há no bosque, os grãos d'areia Que sustentam o mar. Como pois não será ele conosco No dia da aflição? Como não há de computar as dores Do nosso coração? Como há de ver-nos, sem piedade, o rosto Coberto d'amargura; Ele, senhor e pai, conforto e guia Da humana criatura? Se o vento sopra, se se move a terra, Se iroso o mar flutua; Se o sol rutila, se as estrelas brilham, Se gira a branca lua; Deus o quis, Deus que mede a intensidade Da dor e da alegria, Que cada ser comporta - num momento D'arroubo ou d'agonia! Embora pois a nossa vida corra Alheia da ventura! Além da terra há céus, e Deus protege A toda criatura! Viajor perdido na floresta à noite, Assim vago na vida; Mas sinto a voz que me dirige os passos E a luz que me convida. Gonçalves Dias Não me Deixes! Debruçada nas águas dum regato A flor dizia em vão À corrente, onde bela se mirava: "Ai, não me deixes, não! "Comigo fica ou leva-me contigo "Dos mares à amplidão; "Límpido ou turvo, te amarei constante; "Mas não me deixes, não!" E a corrente passava; novas águas Após as outras vão; E a flor sempre a dizer curva na fonte: "Ai, não me deixes, não!" E das águas que fogem incessantes À eterna sucessão Dizia sempre a flor, e sempre embalde: "Ai, não me deixes, não!" Por fim desfalecida e a cor murchada, Quase a lamber o chão, Buscava inda a corrente por dizer-lhe Que a não deixasse, não. A corrente impiedosa a flor enleia, Leva-a do seu torrão; A afundar-se dizia a pobrezinha: "Não me deixaste, não!" Gonçalves Dias Rola Dês que amor me deu que eu lesse Nos teus olhos minha sina, Ando, como a peregrina Rola, que o esposo perdeu! Seja noite ou seja dia, Eu te procuro constante: Vem, oh! vem, ó meu amante, Tua sou e tu és meu! Vem, oh! vem, que por ti clamo; Vem contentar meus desejos, Vem fartar-me com teus beijos, Vem saciar-me de amor! Amo-te, quero-te, adoro-te, Abraso-me quando em ti penso, E em fogo voraz, intenso, Anseio louca de amor! Vem, que te chamo e te aguardo, Vem apertar-me em teus braços, Estreitar-me em doces laços, Vem pousar no peito meu! Que, se amor me deu que eu lesse Nos teus olhos minha sina, Ando, como a peregrina Rola, que o esposo perdeu. Gonçalves Dias Zulmira Sonhara-te eu na veiga de Granada, Tapetada de flores e verdura, Onde o Darro e Xenil no lento giro Volvem a linfa pura. Ali te vejo em leda comitiva Dos gentis cavaleiros do oriente, Quando, deposta a malha do combate, Vestem da paz a seda reluzente. Ali te vejo num balcão sentada, Grande preço da maura arquitetura, Pejando as asas das noturnas brisas Dum canto de ternura. Ali te vejo, sim; mas mais me agrada O que se m'afigura noutro instante, Ver-te em vistosa tenda d'ouro e sedas, Levantada no dorso do elefante. E em roda, ao largo, o séquito pomposo D'eunucos a teu gesto vacilantes Em cestas frontes negras se destacam Alvíssimos turbantes. E pergunto quem és? - Então me dizem Ciosos de guardar o seu tesouro, Nome tão doce aos lábios, que parece Escrever-se em cetim com letras d'ouro. Gonçalves Dias Olhos Verdes Eles verdes são: E têm por usança, na cor esperança, E nas obras não. Cam. Rim. São uns olhos verdes, verdes, Uns olhos de verde-mar, Quando o tempo vai bonança; Uns olhos cor de esperança, Uns olhos por que morri; Que ai de mim! Nem já sei qual fiquei sendo Depois que os vi! Como duas esmeraldas, Iguais na forma e na cor, Têm luz mais branda e mais forte, Diz uma - vida, outra - morte; Uma - loucura, outra - amor. Mas ai de mim! Nem já sei qual fiquei sendo Depois que os vi! São verdes da cor do prado, Exprimem qualquer paixão, Tão facilmente se inflamam, Tão meigamente derramam Fogo e luz do coração Mas ai de mim! Nem já sei qual fiquei sendo depois que os vi! São uns olhos verdes, verdes, Que podem também brilhar; Não são de um verde embaçado, Mas verdes da cor do prado, Mas verdes da cor do mar. Mas ai de mim! Nem já sei qual fiquei sendo Depois que os vi! Como se lê num espelho, Pude ler nos olhos seus! Os olhos mostram a alma, Que as ondas postas em calma Também refletem os céus; Mas ai de mim! Nem já sei qual fiquei sendo Depois que os vi! Dizei vós, ó meus amigos, Se vos perguntam por mim, Que eu vivo só da lembrança De uns olhos cor de esperança, De uns olhos verdes que vi! Que ai de mim! Nem já sei qual fiquei sendo Depois que os vi! Dizei vós: Triste do bardo! Deixou-se de amor finar! Viu uns olhos verdes, verdes, uns olhos da cor do mar: Eram verdes sem esp'rança, Davam amor sem amar! Dizei-o vós, meus amigos, Que ai de mim! Não pertenço mais à vida Depois que os vi! Gonçalves Dias Sobre o Túmulo de um Menino 25 de outubro de 1848. O invólucro de um anjo aqui descansa, Alma do céu nascida entre amargores, Como flor entre espinhos! - tu, que passas, Não perguntes quem foi. - Nuvem risonha Que um instante correu no mar da vida; Romper da aurora que não teve ocaso, Realidade no céu, na terra um sonho! Fresca rosa nas ondas da existência, Levada à plaga eterna do infinito, Como of'renda de amor ao Deus que o rege; Não perguntes quem foi, não chores: passa. Gonçalves Dias Como eu te Amo Como se ama o silêncio, a luz, o aroma, O orvalho numa flor, nos céus a estrela, No largo mar a sombra de uma vela, Que lá na extrema do horizonte assoma; Como se ama o clarão da branca lua, Da noite na mudez os sons da flauta, As canções saudosíssimas do nauta, Quando em mole vaivém a nau flutua, Como se ama das aves o gemido, Da noite as sombras e do dia as cores, Um céu com luzes, um jardim com flores, Um canto quase em lágrimas sumido; Como se ama o crepúsculo da aurora, A mansa viração que o bosque ondeia, O sussurro da fonte que serpeia, Uma imagem risonha e sedutora; Como se ama o calor e a luz querida, A harmonia, o frescor, os sons, os céus, Silêncio, e cores, e perfume, e vida, Os pais e a pátria e a virtude e a Deus: ---- Assim eu te amo, assim; mais do que podem Dizer-to os lábios meus, - mais do que vale Cantar a voz do trovador cansada: O que é belo, o que é justo, santo e grande Amo em ti. - Por tudo quanto sofro, Por quanto já sofri, por quanto ainda Me resta de sofrer, por tudo eu te amo. O que espero, cobiço, almejo, ou temo De ti, só de ti pende: oh! nunca saibas Com quanto amor eu te amo, e de que fonte Tão terna, quanto amarga o vou nutrindo! Esta oculta paixão, que mal suspeitas, Que não vês, não supões, nem te eu revelo, Só pode no silêncio achar consolo, Na dor aumento, intérprete nas lágrimas. ---- De mim não saberás como te adoro; Não te direi jamais, Se te amo, e como, e a quanto extremo chega Esta paixão voraz! Se andas, sou o eco dos teus passos; Da tua voz, se falas; o murmúrio saudoso que responde Ao suspiro que exalas. No odor dos teus perfumes te procuro, Tuas pegadas sigo; Velo teus dias, te acompanho sempre, E não me vês contigo! Oculto e ignorado me desvelo Por ti, que me não vês; Aliso o teu caminho, esparjo flores, Onde pisam teus pés. Mesmo lendo estes versos, que m'inspiras, - "Não pensa em mim", dirás: Imagina-o, se o podes, que os meus lábios Não to dirão jamais! ---- Sim, eu te amo; porém nunca Saberás do meu amor; A minha canção singela Traiçoeira não revela O prêmio santo que anela O sofrer do trovador! Sim, eu te amo; porém nunca Dos lábios meus saberás, Que é fundo como a desgraça, Que o pranto não adelgaça, Leve, qual sombra que passa, Ou como um sonho fugaz! Aos meus lábios, aos meus olhos Do silêncio imponho a lei; Mas lá onde a dor se esquece, Onde a luz nunca falece, Onde o prazer sempre cresce, Lá saberás se te amei! E então dirás: "Objeto Fui de santo e puro amor: A sua canção singela; Tudo agora me revela; Já sei o prêmio que anela O sofrer do trovador. "Amou-me como se ama a luz querida, Como se ama o silêncio, os sons, os céus, Qual se amam cores e perfume e vida, Os pais e a pátria, e a virtude e a Deus!" Gonçalves Dias O Que Mais Dói na Vida I cannot but remember such things were, And were most dear to me. SHAKESPEARE O que mais dói na vida não é ver-se Mal pago um benefício, Nem ouvir dura voz dos que nos devem Agradecidos votos, Nem ter as mãos mordidas pelo ingrato, Que as devera beijar! Não! o que mais dói não é do mundo A sangrenta calúnia, Nem ver como s'infama a ação mais nobre, Os motivos mais justos, Nem como se deslustra o melhor feito, A mais alta façanha! Não! o que mais dói não é sentir-se As mãos dum ente amado Nos espasmos da morte resfriadas, E os olhos que se turvam, E os membros que entorpecem pouco e pouco, E o rosto que descora! Não! não é ouvir daqueles lábios, Doces, tristes, compassivas, Sobre o funéreo leito soluçadas As palavras amigas, Que tanto custa ouvir, que lembram tanto, Que não s'esquecem nunca! Não! não são as queixas amargadas No triunfar da morte; Que, se se apaga a luz da vida escassa, Mais viva a luz rutila; Luz da fé que não morre, luz que espanca As trevas do sepulcro. O que dói, mas de dor que não tem cura, O que aflige, o que mata, Mas de aflição cruel, de morte amara, É morrermos em vida No peito da mulher que idolatramos, No coração do amigo! Amizade e amor! - laço de flores, Que prende um breve instante O ligeiro batel à curva margem De terra hospitaleira; Com tanto amor se enastra, e tão depressa, E tão fácil se rompe! À mais ligeira ondulação dos mares, Ao mais ligeiro sopro Da viração - destrançam-se as grinaldas; O baixel se afasta, Veleja, foge, até que em plaga estranha Naufragado soçobre! Talvez permite Deus que tão depressa Estes laços se rompam, Por que nos pese o mundo, e os seus enganos Mais sem custo deixemos: Sem custo assim a brisa arrasta a planta, Que jaz solta na terra! Gonçalves Dias Amanhã Amanhã! - é o sol que desponta, É a aurora de róseo fulgor, É a pomba que passa e que estampa Leve sombra de um lago na flor. Amanhã! - é a folha orvalhada, É a rola a carpir-se de dor, É da brisa o suspiro, - é das aves Ledo canto, - é da fonte - o frescor. Amanhã! - são acasos da sorte; O queixume, o prazer, o amor, O triunfo que a vida nos doura, Ou a morte de baço palor. Amanhã! - é o vento que ruge, A procela d'horrendo fragor, É a vida no peito mirrada, Mal soltando um alento de dor. Amanhã! - é a folha pendida. É a fonte sem meigo frescor, São as aves sem canto, são bosques Já sem folhas, e o sol sem calor. Amanhã! - são acasos da sorte! É a vida no seu amargor, Amanhã! - o triunfo, ou a morte; Amanhã! - o prazer, ou a dor! Amanhã! - o que val', se hoje existes! Folga e ri de prazer e de amor; Hoje o dia nos cabe e nos toca, De amanhã Deus somente é Senhor! Gonçalves Dias Retratação Son reo, non mi difendo; Puniscimi, se vuoi! Metastásio Perdoa as duras frases que me ouviste: Vê que inda sangra o coração ferido, Vê que inda luta moribundo em ánsias Entre as garras da morte. Sim, eu devera moderar meu pranto, Sofrear minhas iras vingativas, Deixar que as minhas lágrimas corressem Dentro do peito em chaga. Sim, eu devera confranger meus lábios, Mordê-los té que o sangue espadanasse, Afogar na garganta a ultriz sentença, Apagá-la em meu sangue. Sim, eu devera comprimir meu peito, Conter meu coração, que não pulsasse, Apagado vulcão, que inda fumega, Que faz, que jorra cinzas? Que m'importava a mim teu fingimento, Se uma hora fui feliz quando te amava, Se ideei breve sonho de venturas, Dormindo em teu regaço; Luz mimosa de amor, que te apagaste, Ou gota pura de cristal luzente Filtrando os poros de uma rocha a custo, Caída em negro abismo! Devera pois meu pranto borrifar-te Amigo e benfazejo, como aljôfar De branco orvalho em pérolas tornado Num cálice de flor; Não converter-se em pedras de saraiva, Em chuva de granizo fulminante, Que em chão de morte as pétalas viçosas Desfolhasse entreabertas. ----- Feliz o doce poeta, Cuja lira sonora Ressoa como a queixosa, Trépida fonte a correr; Que só tem palavras meigas, Brandos ais, brandos acentos, Cuja dor, cestos tormentos Sabe-os no peito esconder! Feliz o doce poeta, Que não andou em procura De terrena formosura, Nem as graças lhe notou! Que lhe não deu sua lira, Que lhe não deu seus cantares, Que lhe não deu seus pesares, Nem junto dela quedou! Antes na mente escaldada Forma um composto divino De algum ente peregrino, De algum dos filhos dos céus; E ante essa imagem criada, Que vê sempre noite e dia, Dobra as leis da fantasia, Acurva os desejos seus. É dela quando se carpe, É dela quando suspira, É dela quando na lira Entoa um canto feliz: Dela acordado ou dormindo, Dela na vida ou na morte, Tenha alegre ou triste sorte, Seja Laura ou Beatriz! Que talvez a doce imagem, A cismada fantasia Há de o poeta algum dia Junto de Deus encontrar; E que havendo-a produzido Antes do mundo formado, Dê-lhe um sonhar acordado Por um viver a sonhar! Gonçalves Dias Meu Anjo, Escuta Le mal dontj'ai souffert s'est enfui comme un rêve, Je nen puis comparer le lontain souvenir Qu'à ces brouillards légers que l'aurore soulève Et quavec Ia rosée on voit s'évanouir. MUSSET Meu anjo, escuta: quando junto à noite Perpassa a brisa pelo rosto teu, Como suspiro que um menino exala; Na voz da brisa quem murmura e fala Brando queixume, que tão triste cala No peito teu? Sou eu, sou eu, sou eu! Quando tu sentes lutuosa imagem D'aflito pranto com sombrio véu, Rasgado o peito por aeerbas dores; Quem murcha as flores Do brando sonho? - Quem te pinta amores Dum puro céu? Sou eu, sou eu, sou eu! Se alguém te acorda do celeste arroubo. Na amenidade do silêncio teu, Quando tua alma noutros mundos erra, Se alguém descerra Ao lado teu Fraco suspiro que no peito encerra; Sou eu, sou eu, sou eu! Se alguém se aflige de te ver chorosa, Se alguém se alegra co'um sorriso teu, Se alguém suspira de te ver formosa O mar e a terra a enamorar e o céu; Se alguém definha Por amor teu, Sou eu, sou eu, sou eu! Gonçalves Dias Voltas e Mortes Glosados I Não posso dizer que não, Não posso dizer que sim. VOLTA Senhora, pois que podeis Dizer que não, ou que sim, A ambos não magoeis: Dizei - sim, mas não a ele; Dizei - não, mas não a mim. OUTRAVOLTA Senhora, que amor é esse, Ou que nova sem-razão! Que se eu vos pergunto - sim? Respondeis-me sempre - não! Senhora, é isso paixão? Oh! que o é, mas não por mim; Que quando vós dizeis - sim, Um não quisera eu então! Já nem sei que bem vos queira, Nem que mais querer vos possa; Sede antes vossa que dele, Sede antes minha que vossa. Rio, 24 d'outubro de 1846 Gonçalves Dias Soneto Pensas tu, bela Anarda, que os poetas Vivem d'ar, de perfumes, d'ambrosia? Que vagando por mares d'harmonia São melhores que as próprias borboletas? Não creias que eles sejam tão patetas. Isso é bom, muito bom mas em poesia, São contos com que a velha o sono cria No menino que engorda a comer petas! Talvez mesmo que algum desses brejeiros Te diga que assim é, que os dessa gente Não são lá dos heróis mais verdadeiros. Eu que sou pecador, - que indiferente Não me julgo ao que toca aos meus parceiros, Julgo um beijo sem fim cousa excelente. Rio de Janeiro - 1848. Gonçalves Dias Oh ! Que Acordar! Se o que somos, se o que temos sofrido Não fosse mais que um sonho! A despedida sem adeus, a ausência, O desterro medonho! O viver sem família, sem ventura, Sem esperanças mais... Este penar eterno, este sofrer sem crime, Este descrer dos mais; E aquele ver-te qual t'eu vi, co'o pranto Nos olhos a brilhar, E nos lábios sorrisos porque vias Qual era o meu penar! Se esse fingir que a vida te esgotava Do pobre coração, Se tudo fosse um pesadelo horrível, Um sonho vão; Se outra vez amanhã meiga sorrindo Me viesses contar Teu sonho mau, durante a noite, e o ledo Venturoso acordar! E que de ver-te se me fosse d'alma D'angústia o sentimento, Como visão noturna, como um traço n'água, Nuvem que tange o vento! Se em nossos peitos desses caos surgissem Os êxtases de amor, Como aves mil, que no romper do dia Voam de um ramo em flor! E a vida entre nós franca! o amor possível, E o paraíso ali! Oh! que acordar!... Venham dizer-me agora depois do que sofri, Que o mundo é vasto, que não devo amar-te, Que renuncie a ti! Fazei-o vós, se sois capaz de tanto... Não o peçais de mim. Qual o horrendo porvir que após nos guarda Não o sabeis, eu sei! É ser morto por dentro, é dizer d'alma Jamais feliz serei! É criar tédio à vida! - um só receio Ter-se - que seja eterno Este viver, este descrer de tudo, Este penar do inferno! Manaus - 30 de maio de 1861. Gonçalves Dias Se Muito Sofri Já, Nào Me Perguntes Se muito sofri já, se ainda sofro Por teu amor?! Não me perguntes! que do inferno a vida Não é pior! ... Eu! vegetar da terra entre os felizes! Que faço aqui? Sonhos de amor, de glória, - lá se foram Atrás de ti! A ver se encontro d'esperança um raio Olho em redor, E nada vejo, e mais profunda sinto No peito a dor! Que faço aqui? Dias cansados, anos Sem fim - durar! Depois que te perdi, viver ainda, Viver! penar! ... Eu, não! Quem for feliz que preze a vida, Tema perdê-la! Por mim não tenho horror, nem tédio à morte, Clamo por ela! Bendita seja pois a que mandada Me for - por Deus. Matar-me, não; que quero ver-te ainda Feliz nos céus! Mas no pego da dor, em que me abismo? - Nesta aflição Negra como a do cego que na estrada Esmola o pão! Como a do viajor que pelas trevas Sem tino vai, E, errado o trilho, se embrenhou nas matas, Nem delas sai! Neste viver sofrendo, errante, louco, Mísero Jó, Que amigos e inimigos à porfia Pungem sem dó! Às vezes, da amargura no remanso, Ao Criador Minha alma eleva cânticos de graças, Hinos de amor! Que se estivesse em mim renascer hoje, Sofrer o que sofri... Eu quisera viver para ainda amar-te E amado ser por ti! Manaus - 16 de junho de 1861. Gonçalves Dias No Jardim! Lembra-te o Jardim, querida! Lembra-te ainda da vida Aquela quadra florida, Que ali passamos então!... - Duas salas, um terraço, Poucas flores, muito espaço, Muita luz; mas a melhor, - A flor do teu coração, A luz do teu santo amor! Não tinha a casa pintura, O chão não tinha cultura: Paredes nuas, ladrilho, Tudo singelo, sem brilho... Ninguém diria a ventura Que ali se pudera achar! É porque ninguém sabia Que tu ali vinhas ter A cada romper do dia Como um raio de alegria! É que o sol no seu morrer Seus raios ali mandava, Como que nos céus fixava A história do amanhecer! - Que o ciclo da nossa vida Da terra oscilava aos céus, Na luz do amor teu, querida, Na luz mandada por Deus! E depois, se vinha a noite. Fossem trevas ou luar, - Como em sonhos prazenteiros, Como em mágicos luzeiros, Do infinito pelos campos Se ia minha alma a vagar! - São menos os pirilampos No bosque - à noite! - as estrelas Nem tantas são, nem tão belas Como os doces devaneios, Desejos, temor, receios, Daquele ameno cismar! Vivia! estava desperto! Eu contigo me entretinha; Tu ali estavas - bem perto, A voz te ouvia que vinha De amor minha alma inundar! Mais formoso que tal sonho Era só meu acordar, Vendo teu rosto risonho, Vendo nele do meu sonho A imagem se desenhar! - Ouvindo-te a voz macia Baixinho pronunciar Frases de amor, de poesia, Que ninguém pudera achar! Crê-me! a infanta portuguesa, De Inglaterra a princesa, Laura, Elvira, Beatriz, Nos cantos de ilustres bardos Só - foram grandes: tu, não! Distinta por natureza No sentimento rainha, A poesia te vinha Sublime, estreme, feliz, Traduzida em gesto brando, Ou d'alma plena brotando Do abundante coração, Ampla, caudal como um rio, Como pérolas em fio A granizarem no chão! Aquelas vivem eterno Na história do seu amor! Em trono de luz sentadas, C'roadas de resplendor! Mas, quem dirá o que foste! O que és ainda - talvez! Se estas pobres folhas soltas Nem chegarão a teus pés?! Manaus - 17 de junho de 1861. Gonçalves Dias A Baunilha Vês como aquela baunilha Do tronco rugoso e feio Da palmeira - em doce enleio Se prendeu! Como as raízes meteu Da úsnea no musgo raro, Como as folhas - verde-claro - Espalmou! Como as bagas pendurou Lá de cima! como enleva O rio, o arvoredo, a relva Nos odores, Que inspiram falas de amores! Dá-lhe o tronco - apoio, abrigo, Dá-lhe ela - perfume amigo, Graça e olor! E no consórcio de amor - Nesse divino existir - Que os prende, vai-lhes a vida De uma só seiva nutrida, Cada vez mais a subir! Se o verme a raiz lhe ataca, Se o raio o cimo lhe ofende, Cai a palmeira, e contudo Inda a baunilha recende! Um dia só! - que mais tarde, Exausta a fonte do amor, Também a baunilha perde Vida, graça, encanto, olor! Eu sou da palmeira o tronco, Tu - a baunilha serás! Se sofro, sofres comigo; Se morro - virás atrás! Ai! que por isso, querida, Tenho aprendido a sofrer! Porque sei que a minha vida É também o teu viver. Manaus - 17 de junho de 1861. Gonçalves Dias Se te Amo, Não Sei! Amar! se te amo, não sei. Oiço aí pronunciar Essa palavra de modo Que não sei o que é amar. Se amar é sonhar contigo, Se é pensar, velando, em ti, Se é ter-te n'alma presente Todo esquecido de mim! Se é cobiçar-te, querer-te Como uma bênção dos céus A ti somente na terra Como lá em cima a Deus; Se é dar a vida, o futuro, Para dizer que te amei: Amo; porém se te amo Como oiço dizer, - não sei. ---- Sei que se um gênio bom me aparecesse E tronos, glórias, ilusões floridas, E os tesouros da terra me oferecesse E as riquezas que o mar tem escondidas; E do outro lado - a ti somente, - e o gozo Efêmero e precário - e após a morte; E me dissesse: "Escolhe" - oh! jubiloso, Exclamara, senhor da minha sorte! - "Que tesouro na terra há i que a iguale? Quero-a mil vezes, de joelhos - sim! Bendita a vida que tal preço vale, E que merece de acabar assim!" Manaus - 25 de junho de 1861. Gonçalves Dias Como ! És Tu? Como! és tu?! essa grinalda De flores de laranjeira! ... Branco véu, nuvem ligeira Sobre o teu rosto a ondear! Pálida, pálida a fronte E os olhos quase a chorar! És tu! bem vejo... não fales! Cala-te! já sei o que é! A mão vais dar, vida e fé A outro!... Vais te casar. Pálida, pálida a fronte, Olhos em pranto a nadar! E vais! e és tu mesma? - e vais!... Fui eu quem te dei o exemplo... Sei que te aguardam no templo, Deixa-me aqui a chorar: Fazes somente o que fiz, Não fazes mais que imitar! Mas eu quis ver-te feliz, Não dar-te exemplo!... pensava Que ileso e firme ficava O teu amor - a guardar A fé, que eu mesmo, insensato! Fui o primeiro a quebrar! Contradições d'alma humana! Fui, sim, quem te dei o exemplo, Isso quis, e ora contemplo Essa grinalda - a chorar, A fronte pálida, pálida, E o branco véu a ondular! E há de o mundo inda algum dia Do olvido o véu tenebroso Estender por tanto gozo, Tanto crer, tanto esperar! Vai que te aguardam: já tardas: Deixa-me aqui a chorar! Vai! e que os anjos derramem Sobre ti flores, venturas, Que as alegrias mais puras Floresçam dos passos teus: E que entres na casa estranha Como uma bênção dos céus! Que a fortuna - de veludos Alcatife os teus caminhos, Que o orvalho dos teus carinhos A esse faça feliz Com quem te casas - que te ame Como te amei e te quis! Porém procura esquecer-te, Das venturas no regaço, De mim, dos votos que faço, De quanto pedi aos céus Ver este dia... mas choro! Vai! sê feliz! adeus! Manaus - 25 de junho de 1861. Gonçalves Dias A Minha Rosa A mim! foi a mim que o ouviste? Eu! - chamá-la minha rosa!... De certo que é bem formosa, Entre criança e mulher! Se a vejo tão jovem inda, Tão simples, tão meiga e linda, Da vida no rosicler; Podia chamá-la - rosa, De musgo ou de Alexandria, Rosa de amor, de poesia, Mais lhe não dava que o seu; Porque se essa flor mimosa Já chegaste ao teu retrato, Havias ver como a rosa De repente esmoreceu! Porém teu amor, querida, Teu amor que é minha vida, Que é meu cismar, que é só meu; Esse que te faz formosa Entre todas as mulheres, Onde achá-lo?! - Minha rosa... Minha és tu!... como sou teu. Não nego que é meiga e linda, Entre mulher e criança, Tão jovem, tão meiga, e ainda Da vida no rosicler; Mas tu vales mais do que ela, Não conheces bem teu preço, Acho-te muito mais bela, Como és, - entre anjo e mulher. Gonçalves Dias Minha Terra! Quanto é grato em terra estranha Sob um céu menos querido, Entre feições estrangeiras, Ver um rosto conhecido; Ouvir a pátria linguagem Do berço balbuciada, Recordar sabidos casos Saudosos - da terra amada! E em tristes serões d'inverno, Tendo a face contra o lar, Lembrar o sol que já vimos, E o nosso ameno luar! Certo é grato; mais sentido Se nos bate o coração, Que para a pátria nos voa, P'ra onde os nossos estão! Depois de girar no mundo Como barco em crespo mar, Amiga praia nos chama Lá no horizonte a brilhar. E vendo os vales e os montes E a pátria que Deus nos deu, Possamos dizer contentes: Tudo isto que vejo é meu! Meu este sol que me aclara, Minha esta brisa, estes céus: Estas praias, bosques, fontes, Eu os conheço - são meus! Mais os amo quando volte, Pois do que por fora vi, A mais querer minha terra, E minha gente aprendi. Paris - 1864.