------------------ Gerardo Mello Mourão Oito léguas pelo mesmo pampa triste Oito léguas pelo mesmo pampa triste o rastreador gaúcho consulta o inconsútil chão de joelhos e era de seus olhos o adorador e criador de corpos senhor e servidor Termina o chão começa o ar e onde se acaba todo elemento seria um rastro: do coração de outubro amadurece ao sol tua laranja: boa tarde Calíope e o pé pentesileu pisava seu pentâmetro e uns perdem e outros acham artelho e calcanhar e tornozelo entre solo e sol Do coração de outubro saltada a flor: quem despe um pé dum escarpim de cordobán? Pois busco o rastro de joelhos de olhos no chão: talvez nas águas nas verdes águas sobre ele adeje gaivota sábia Ao vento de Delfos boiava a morte boiava morto Sebastião Muniz na fonte de Castália e ali pisaras: por onde um rastro um dia florescera um corpo tuas ancas, Mepômene, dançaram o mel e a lua de teus seios. Boa noite, Calíope, por onde? A morte de Sebastião Muniz viera caminhando ao tom das harpas guaranis - ó noite azul, ó estrelas flutuando no rio ó noite azul do Paraguai! - a morte de Passo de Camaragibe e Araripina aos montes da Tessália por serras e por mares caminhando - na praia do Senegal dera uni aceno e por ali seu passo sertanejo - e sob aquele céu serrana e marinheira a Morte dizia chão e mar e por seu nome chamava cada chão e cada mar: virias defunta Musa e à sugerida lágrima uma estrela caíu despedaçada - e ali talvez ardera o pé do que pisara e à cadência da lira e ao som da flauta andara andando onde boiava ao vento de Delfos no jornal perdido a achada morte. Carrapateira - sertão da Paraíba - seiscentos habitantes receita orçamentária cem dólares quatro casas comerciais e um candeeiro amarelava a luz nas prateleiras de cachaça de Nezinho Varejão: Mariana debulha no jacá o milho elementar debulha Laurentina o rosário penitente: - "Tu crês, Arsênio, outro país lá em cima?" - "Não sei - sei que andaram seis léguas - terão casa? " João Pedrosa aponta a lua: no céu só Deus - no mundo o homem terra pra riba de jeito nenhum - o céu vive na vida boa pra nós tudo que vem é bom eu piso em qualquer chão". Chicão Gomes - "Deus não consente, gentes: a torre de Babel ia até o céu - o povo fazia a torre todo mundo lá em cima falando a mesma língua - Deus não deixou - como castigo misturou as línguas". - "Deus deixa tudo" - Arsênio emborca outro martelo de aguardente - "Deus deixa tudo - o mundo é nosso quem sabe viver, vive - quem não sabe, se acaba - a terminação é a cabeça da gente" Nezinho Varejão: - "o homem não tem poder, Arsênio, como o foguete engancha lá? Se chegar, não baixa, se baixar se machuca no rochedo de pedra: tudo é mentira acredita, Galdino?" - "Eu ? eu sou do tempo antigo difícil o homem ir na lua quando era impossível, meu pai dizia: "Só se for no mundo da lua" - Tem destino esse cabra americano" Galdino se exalta: - "o mundo vai acabar, Prefeito, isto é conversa dos beiradeiros de pé-de-serra mas o movimento dos homens dá de tudo morasse na cidade, eu ainda poderia pensar, lá eu via o movimento mais ou menos" - "Mas derrubar um boi - você derruba" - Peguei muito boi nesses pés-de-serra" Disse Antônio Matias: - "o aparelho tem que passar do terreno para poder pousar senão o cabra despenca lá de cima: a entrada é caso de dificuldade" - "Três já precisava coragem - imagine um só" os homens riem na bodega de Adonias: "Se o cabra passar da lua vai parar nos quintos do inferno" - "Com três é bom - um diz uma palestra outro diz outra você - uma viagem de quatro léguas sozinho é duro com três montados é melhor" Arsênio acende o cigarro na lamparina: - "o americano diz que mandaram um gato - morreu". - "Não teve vida de resistência". Nezinho Varejão: - "gato morre de fome de um dia pro outro" - "Gato morre" - sentença de Galdino Um gesto, alguém limita o cosmos: - "eles irão passar da chuva? pois pra riba da chuva só Nosso Senhor". - "Contam - conta Adonias - a gente sobe no avião - olha pra baixo é céu por todo lado o cabra não sabe se tem terreno na lua mesmo a três mil metros da terra brasileira não sabe". - "Eu estou aqui o sol gira - a terra fica parada" - "Quando eu era menino vi um avião o jumento largou as cangalhas larguei o jumento com dois surrões de farinha do Engenho Sereno hoje é diferente gente está aqui sabe até que acontece no estrangeiro". - "Isto é exploração do dinheiro, Galdino". - "Isto é coisa do Cão o estudante diz que o mundo gira como a bala do canhão". - "A ciência está atrobada, Arsênio, eles têm muita ciência muitos acreditam outros não acreditam depende de Deus" - - "Quando Deus consente - João Pedrosa - o homem muda tudo mas só quando Deus consente senão não muda nada" - - "É o homem abaixo de Deus" - "A lua é um planeta que vive no espaço não tem moirão nenhum pra segurar, o americano devia trazer uma banda dela, mas quem manobra é Deus Nosso Senhor - o homem está invadindo o terreno de São Jorge está desafiando Deus castiga" - "0 homem deve se contentar com o país dele" - Joana ergue o rosário - "Mas o homem é igual.a Cabral: tinha coragem - estava sem destino acabou descobrindo a terra". - "Nosso Senhor não fez a Lua pro homem chegar perto se quizesse, botava aqui em Piranha, bem pertinho ai o homem ia de jumento" - "Mas ele pára lá na lua para almoçar ou vem almoçar aqui embaixo no país dele? Porque a viagem é comprida, gente" - "0 Prefeito tem razão: a Lua não tem terra nem pedra nem nada só vento brabo e se o homem tivesse juizo não ia lá a cruviana mata ele o americano diz que a Lua joga lajedo de pedra: acho que é o corisco a Lua é um planeta sem infinidade na capital têm um aparelho que vai até o rochedo dela bem que Deus disse: aqui a minha semelhança - e fez o homem Deus é homem calmo queria que o homem ficasse aqui o homem está desafiando Deus castiga". Antonio Faustino armazena feijão verde na sala ouve a Voz da América e diz: - "Deus não existe". E de repente caiu dos espaços infinitos sobre os homens e as mulheres caiu um silêncio sagrado - vinha de Ribeirão das Almas - duas léguas de Carrapateira e ia subindo entre as ladainhas excelentes o anjinho morto em seu caixão azul ia subindo para o céu da tarde azul ia subindo azul e ia ficando sobre a estrada subitamente sagrada o rastro do caixão florido - o rastro das flores de salsa encarnada. ------------------ (Poema inicial de O Rastro de Apolo, terceiro volume de Os Peãs, Edição GRD. Este poema, conforme nota de introdução do autor:: "é uma transcrição muitas vezes textual, de reportagem publicada no Jornal do Brasil, ed. 20.07.69, assinada por Mário Lúcio Franklin e Rubens Barbosa. Não conhecendo pessoalmente os dois jornalistas, o autor cumpre o dever de creditar-lhes aqui o espantoso momento do tempo mítico que colheram com tanta densidade poética tanta ternura". ------------------ Gerardo Mello Mourão Da balança das águas venho de joelhos Da balança das águas venho de joelhos - aeroporto de Caracas - ego sacerdos - vou me preparando para os ritos: boa noite, Bolivar, boa noite, Simón, - Simón Rodriguez brincando de roda entre as crianças e duty free e Hilton e Tropical Hotel - e vou me preparando para a tática dos ritos o luxo das rubricas litúrgicas pois à volta das águas dançam em roda as ruas degoladas e algumas pessoas constroem o incidente da viagem - indo ou vindo ou não seguindo mais - e a cabeça de Balboa busca debalde talvez os Hiperbóreos - decerto uma terra e um mar e a terra e o mar já não são mais entre o canal e a selva do que o gosto do sal em sua língua ao sol do Panamá: resta o gosto do sal na boca de Balboa e Malpartida e os outros e vós sois pescadores de peixe e terras e homens o sal da terra quodsi sal evanuerit in quo salietur? Por isso o olfato o paladar os olhos e um aroma e um sabor e um rastro: e é dado o signo e habitamos o semáforo - por isso agora boa noite, Guatemala - e ali poderiam pescar-me o coração no rio de teus cabelos, Antonieta Ovalle, o coração neste bosque neste bosque moram terras mora a terra que roubou meu coração e repito as pessoas e os lugares que encontro e aprendi uns seios verdes em Honduras e ao sol de Dirianbo amadureciam sobre a Nicarágua as ancas magníficas - pois falo da viagem, suas pousadas, o itinerário pedestre eqüestre sigo os sinais do trânsito - passeio passeia Pilar Morelos seu passeio de poldra pela Avenida Juarez e alí emprenharei a neta de Hernán Cortez e a bisneta de Cuauhtémoc em um leito de rosas e sou - ego poeta o guia do turismo o trotador do mundo no avião da Braniff onde Doris e no aeroporto de San Antonio - Texas e em Dallas, Texas, os soldados negros e ruivos vão me encontrar erecto e brônzeo - pois preparo a estratégia da morte as manobras da vida o estratagema da beleza os ritos de Stepterion - "Na bagagem? " um coração embrulhado numa carta de amor e dois braços de abraçar e dois lábios de beijar e Abdias entoado à canela e ao cravo e às margaridas de Iemanjá do Nascimento. E agora a serpente no ninho de meus olhos já sou eu mesmo a minha própria bússola meu próprio ardil e de tua rosa brota o vento por onde chega o chegador à laranja de ouro - chega ao bote da serpente à seta desferida chega ao bosque ao mármore à mão da tecelã e ao fio e à flauta e ao silêncio e ao canto e ao beija-flor e ao assobio e à salamandra e à estrela e ao encontro da flecha e da serpente e à luz à luz Eleu Eleu Eleu theria Apó Apol Apolon Fototrephos Fotophagos Fotopaidos Febo Apolo puxam-te o carro de fogo os capricórnios de fogo e venho nele ao teu banquete onde as nove meninas em conchas de labaredas servem lagostas de fogo e verdes folhas de flamas ego poeta - o diábolos sonoro conservado em chamas - sou minha própria fronteira e tu, amor a norte a sul tu nascente e poente nas lindes crepitantes: e diz o portulano e ladro sua escrita pois cartógrafo sou desde o país do Ceará e Mel Redondo limita-se Ipueiras ao norte pelas cabras monteses e os montes da Aquitânia Delfos ao sul por Villaguay e Buenos Aires e a leste e oeste a serra dos Mourões serranos o Amazonas o oráculo a nordeste e segue a linha da Mantiqueira por Congonhas do Campo e Conceição, Conceição, José, do Mato Dentro - a sudoeste as coxas de Afrodite e o mar da Jônia e os limites por baixo são o chão de Eleusis e os limites por cima o Pentestrelo do Cruzeiro do Sul e os Hiperbóreos e noutras pétalas da rosa-dos-ventos o mar de La Serena o mar das Alagoas o mar da Jônia as ondas dos cabelos de Artemis e o ananás e a romã e o buriti a noroeste: pois a sopro de flauta fui riscando as divisas num mapa de safiras e limões e cravos macerados ao sereno da madrugada de um canto e viajar viajando o lombo de teus chãos e tuas águas é meu destino chegar chegando: nome - profissão - destino - o destino - da cifra de meu código e meus semáforos oriundo. * * ------------------ ------------------ Gerardo Mello Mourão E risco e arrisco as fronteiras E risco e arrisco as fronteiras East Side West Side por Lexington com seus caimãs e javalis e entre as pombas trigueiras do país do sul arrulha a noite do Harlem e um saxofone de vestido verde rebola as ancas saudosas de Trinidad-Tobago Calipso and Calíope e requebrando à morte - Dallas, Texas sobre o seio de Helena flutua ensangüentada a rosa de Aquileu: - Alagoas! Alagoas! pelos Alleghanys pelos Apalaches a caminho de ti me sepultei no sepulcro das neves e das cataratas pelos parques de Buffalo onde Marcuse a Tânatos do tonel de Diógenes erguia a cabeça elegíaca de onde do meio de sua queda a catarata de meu pranto a Eros voltava e remontava o penhasco clamando entre os ciprestes a viuvez das Musas. E vêm chegando e vou me despedindo em Nova York houve um cantor - good night good night, sweet Prince, mad Prince: Dylan Thomas morto e bêbado suplica em minha cama os inocentes pés para o rastro de seu silêncio e sua lágrima: em Nova York, Ezra, houve um cantor - adeus, príncipe bêbado, houve um cantor e houve uma fêmea e à espuma do Gênesis descobriu entre as coxas surpresas a ressurreição da rosa alegrada ao tato à mão à seta à flauta de ouro - "good morning, darling" - e vou ressuscitando rosas mortas e vou me despedindo e a noite às vezes tem a redondez de um seio pois chegavam de Aruba e da Jamaica e ali o travesti francês arrisca as açucenas seu passo galgo esgalga a tarde e vou me despedindo e as clarinetes memoráveis orvalham a memória - e vou me despedindo - e rosto e mão vou modelando: sou o senhor e o sabedor dos gestos criei meu próprio rosto e minha própria voz e por isso me olham e me escutam e gerânio o cavalo a rapariga e quebra Apolo a flecha à porta da cabana Boa noite, Melpômene, Calíope boa noite Eleuth eros eria. * * ------------------ ------------------ Gerardo Mello Mourão Visita o forasteiro sua própria beleza e traz Visita o forasteiro sua própria beleza e traz o coração na mão enrolado no mapa de sua própria pátria - "Moi aussi, Monsieur, je suis un étranger e meus olhos pranteiam minha beleza estranha aos circunstantes - pois estranho a mim mesmo só à minha beleza não sou estranho e só meu coração suporta a delícia cruel da inventada beleza" Volvia a cabeça e assumia a garça e o lírio e flutuavam sobre os ombros à soberba das pupilas as crinas das éguas alazãs. A noite se busca a si mesma nas calçadas de Chelsea da haste de sua galáxia sobre o casaco de pele pende la cansada paloma de su mano: não sabe de seu ninho e o ninho é que estremece à noite em busca do seu pássaro: anoiteceu em Chelsea boa noite, Melpômene Mourão Estava nu entre as montanhas sagradas e dizia: - "não governo meu nome dado a Melpômene e às outras tenho de meu o chão que piso a mulher que escolhi e os filhos que gerei: pois boa noite, Apolo, toma a minha mulher, dorme com ela viola em tua cama, Calíope, meus filhos". Quer a beleza o sacrifício da beleza e o amor o sacrifício do amor pois eu te queimo a rosa a bem-amada os pêssegos do outono e a rosa e a bem-amada e os pêssegos do outono serão aroma a tuas narinas - por isso - do hálito de teus pulmões venho viver. E lembro-me também das outras oferendas vinte amantes em chamas sobre teu altar - "Moi - j'ai brûlé mon sexe et je crie sur les flammes la douleur de ma beauté" e dessa dor se vive e dessa dor se morre Salamandra - chamei e fulgurou a boca à labareda de seus olhos Anoiteceu em Chelsea e sobre seus altares na pira crepitavam os bagos de seu sexo - "Moi, j'ai fait ce que fait un dieu" e eu mesmo sou meu próprio sacrifício e minha adoração" Anoiteceu em Chelsea o adorado adorava o adorador e às vezes crea a creatura sua creação - "Je suis l'esclave et le maitre de mon corps e canto sobre os querubins la fleur de ma beauté" - "Não te lembras? um dia a serpente andava erecta à beira dos riachos: contempla o meu andar quando anoitece em Chelsea - eu desejei meu corpo e eu mesmo ergui da relva as ancas altas e o redondo seio" E amante de si mesma dormia em seu jasmim sua beleza e em sua beleza sua solidão - "E sou Ginandramor Ginandramante a minha própria companhia Ginandramada" Os deuses - só os deuses não estão sós e os que caminham por seu país aprendem sua língua Boa noite, Apolo, anoitece em Chelsea e uma asa de pássaro ou de anjo me roça a fronte e tremo ao perigo de seu rosto - e dele nunca mais me despeçam estes olhos que a terra, a tua terra, há de nutrir. Movia as largas pálpebras e da cinza de suas pupilas se acendiam as lâmpadas douradas sobre Greenwich Village Coming from Ohio - "Are you going to be here for a couple of minutes? - "For ever, Johnny, pela eternidade". Anoitece em Chelsea from Chelsea to Eleusis, Mister Corso: - "Who are you who spend the day walking in this lobby" - eu sou o gastador do dia e o ecônomo da noite não caminho o hall ensaio a grande marcha caminho o dia rumo à noite e a noite rumo ao dia quando escapa Mona Lisa de seu quadro e sorri na adolescência milenária desse rosto chinês e os poetas, Ho pelos arrozais pelo ria amarelo pelo rio azul pelas serras de África conduzem a cruzada e a sagrada lira marca o ritmo das grandes marchas - entoando os teus peãs, Apolo, pois os ventos de Uganda trazem tua voz. Essa trabalha as ancas sob a saia de veludo vermelho essa trabalha as unhas escarlates nas sandálias de ouro essa o umbigo no strip-tease do Club 82 e Johnny no Chelsea trabalha o som: - "este é um poeta, darling, veio ouvir minha guitarra e contemplar teus seios" - e ouvir uma guitarra e contemplar teus seios é minha profissão e consumo o crepúsculo a aurora os clitóris rosados em seu ninho e o rouxinol e o grito do amor - e nasce um seio de Mo na li sa Laisa coming from Ohio to Delphos - Hellas - clamo e amo e o meu cl amor me tu mul tua Benditos os que beijam teu seio e intumescem teu seio e apojam teu seio, Eleutheria, onde as criaturas mamam o leite de Apolo Lykio. Vejo a lua do Potomac e banha-se no Hudson e à neblina verde de seus olhos Laisa agoniza o sexo e a garganta de um pássaro se forma desmancha-se em abelhas tu - mel - tuas - um tumulto de relvas orvalhadas. Pois vou a Port-au-Prince, Tuna, Port-au-Prince Porto Rico Porto Belo Porto Fino Porto Alegre alegre por tua noite e preciso de muitos lugares e de muitas pessoas preciso de cerejas e da cereja um mel e desse mel um fio para o caminho de labirintos pelas Califórnias de ouro e ali o Macho da Sibila - Alberto - entre Los Angeles Las Vegas pastoreia os anjos nas floridas veigas - caminhos dos Hyperbóreos. Pois de Kennedy Airport TWA - "are you a jew, sir? - Do you speak yddish"? "are you from India or Pakistan? Árabe ou grego? E eu sou das terras do Ceará Grande e Mel Redondo Ipueiras Itabuna e Tanque d'Arca, Jarmelino, e não falo yddish falo a fala falo a flauta falo a língua das abelhas sobre as cerejas e leio Léa e lêem- me los angeles e Lisa Laisa Mon a Lisa pois vou a Porto Belo Porto Fino e Porto Príncipe onde príncipe aguardo o reino e a núpcia - e onde a princesa aprende a abrir-me a flor das coxas lancinantes e a pitanga madura e o pintassilgo me ensinam o que sei: dormir contigo acordar contigo - bom dia boa noite Eleutheria. * * ------------------ ------------------ Gerardo Mello Mourão Pois tengo el ángel, Efrain, e uma noite Pois tengo el ángel, Efrain, e uma noite arribei a Los Angeles y siempre arriban los poetas a los angeles quando sabem o adeus: adeus Carole addío Mona Lisa farewell to Chelsea adeus addío adiú e Beth e Jéssica e vou levando o aroma de teus musgos - "C'est mon parfum - et ma beauté embriaga a narina dos deuses" e Apolo e os Querubins e Querubina conhecem este cheiro - e um dia ao Macho da Sibila rescendeu no terreiro um cheiro de bocetas em flor Mas Melpômene a outras rosas e outras violetas trescala ao longe: boa noite, Melpômene Mourão - e digo boa noite pela fala do falus falueiro E ela ia abrindo os lábios e a cada sopro de seus lábios uma rosa nascia e onde suas mãos tocavam - uma rosa nascia e outras coisas vi nascerem à mão dos taumaturgos: à de Balboa aqui um mar sangrou sua aguazul à ponta de uma espada cresceu na concha de sua mão marinheira à reza cosmogônica em nome de Castela - e o mundo lhe lavou os joelhos por onde as três quartas partes do planeta se crearam nas águas sob os céus de um deus no Panamá: e às vezes sobre as águas, Godo, os rastros duram - e onde pisava sua bota - da pisada surgia a fonte dos oceanos - pois vou a Delphos pelo Panamá de Guatemala venho por Managua e por Tegucigalpa e Costa Rica e acrescentei, Apolo. um furo novo à flauta em que soprei essa canção a Antonieta Ovalle em La Antigua e os guerreiros pararam nas ruas de Caracas quando cheguei cantando o Cavaleiro e a liberdade e quando de joelhos no chão de Bogotá cantei o pranto fúnebre das serras da Colômbia o pranto por Camilo como cantam as serranas morenas de redondos peitos em Santa Cruz de La Sierra e na serra de São Gonçalo dos Mourões e nas colinas Lyda nas colinas Danai das serras de Atinaia aquela noite por teus amantes mortos Eleutheria entre as vinhas do mar e a cordilheira - caminhos dos Hyperbóreos - e assobiamos na praia, Clodomir, chamando o vento o vento de pescar a vingança e o amor - vento de assobio en surdina em Puerto Limón de Costa Rica, marinheiro do Aracati na esquina à lua de Aracaju: Eleu Eleu Eleu theria. * * ------------------ ------------------ Gerardo Mello Mourão Raul Young, capitão de longo curso, Godo, Raul Young, capitão de longo curso, Godo, vai marinhando um barco de cedro por Buenos Aires ao vento fluvial - e alí inaugurei o Paraná e o pampa e os adolescentes se repetiram no Richmond de Florida onde um dia o espaço suplicou a forma de teu corpo: Joana Joana de Aragão - te chamamos - e acenaste um sorriso entre os cristais e ali ainda agora estão os teus cabelos governando o vento pois para sempre estarás onde estiveste: - viaja a estrela imóvel todos os céus do capitão de longo curso Trinta anos chorava o poeta a mesma lágrima no bar do Richmond de Florida: muitas vezes te encontrei e uma vez te alongavas entre as mesas do bar e crescias e recolhias o bandoneon de teu corpo: sobre esta mesa embaralho os naipes do tempo e preciso de muitos tempos no espaço desta mesa - de muitos espaços antigos e futuros para tuas chegadas e partidas outra vez tua beleza era uma lança fulgurante de Belgrano a Corrientes: janta Leopoldo Marechal com Juan Domingo entre choférs no restaurante de La Boca: por la cabeza de los dirigentes ou con la cabeza de los dirigentes salta Güemes de su tierra salteña los gauchos degolladores - e te lembras? - Carbajal servia numa terrina de prata a cabeça sangrenta do capitão e as taças espumavam à saúde vinho ou sangue pois tênsil é o dia e trazes o arco tenso e a lira de cordas tensas e buscar-te é desferir a flecha e desferir o som por teus signos teus rastros caminhamos caçadores da vida caçadores da morte caçadores do amor e assim se caça a liberdade e assim recolho em batalhas de amor campos de plumas, dom Luís, a rosa por botim - e ou vinho ou sangue à saúde, Apolo. * * ------------------ ------------------ Gerardo Mello Mourão Na noite de Connecticut Na noite de Connecticut lambe a língua nos lábios a memória de tua boca: não profeta não sou, Amós, nem fiho de profeta mas pastor e cultivador de canas e sicômoros - e Apolo me tirou de detrás dos rebanhos e comecei a andar cantando os anjos saberão dos pés desse andarilho pelas cidades sonolentas - e uma vez o Danúbio anoiteceu teus olhos em Belgrado e uma vez o Pacífico madrugou-te a pupila no país cerúleo de Viña del Mar - e outra vez à pálpebra do crepúsculo fulguraste e fugiste no jardim de Manágua - e na matilha das cadelas douradas tuas ancas surgiam e sumiam ao caçador da primavera essa tarde em Veneza - e em Paris eras a aurora persa a lima verde entre os pendões de cana entre a baunilha em flor do boulevard de salsas e alecrins por Saint Michel e São Miguel dos Campos talvez fronteira dos Hyperbóreos - pois senhor dos coitos menciono sempre os portos, as estações, a rota dos Hyperbóreos. Elas Hellas - Hélas! a adolescência prístina imortal no coração da morte: quando a máscara murcha a flor do rosto atende à primavera na esmeralda vegetal dos olhos et j'ai vu quelquefois, Jean Arthur, às vezes possuí, Francisco o que o macho pensou possuir e perder: pois por elas Hellas adelgaçada avena sou soprado e sopram nas jeiras desse tálamo a semente e do leite e do mel do vinho mosto: E nascem doces musas ébrias Hesper - - ma - ia - ieu ti ka Eleu theria Peregrina de ti mesma por ti mesma te peregrinas e o país viaja na planta de teu pé: flor desta planta pa - ís por - tátil ao tato a - corda dessa viola tua nua sobre os calcanhares uma noite em Copenhagen um dia em Belo Horizonte aquela tarde em Maceió e alguma vez a rosa oblíqua - de que Kamakuras talvez te disfarçaras celestial cereja às amêndoas e ao lótus: a quem te viu sabes voltar - pois de onde não vir ias? caíram uma vez dos laranjais as luas sobre teus olhos negra e formosa ao sul do Senegal por onde Arme Aribô e sobre os lençóis brancos a beleza noturna de seu corpo - e entre as virilhas ondul ando andam e ando as finas ser pentes em pé - filtro venenoso entre os pentelhos o convite a essa maçã de amor e morre à concha ébria e ali o amor é morte e a morte o estratagema da ressurreição: aparecida um dia e para sempre me habitas a pupila ouvi teu nome e desde então serias moradora de meus ouvidos e por isso - ocupado contigo muitas outras coisas não sei: mas aprendi a Musa e ensino a Musa - e ela no país de Apolo onde sou corógrafo e recito aos meninos a geografia de sua botânica sua fauna de pássaros e os peixes de seus golfos e seus pótamos a orografla de seus Himetos e o monte melodioso onde Melpômene e as outras consultam a estrela e os ventos boreais para compor a sílaba Me lo Me los melo dias e noites cantam amarradas ao mourão de minha herdade as nove novilhas em flor ao touro adúltero e um casto Dionísios cada noite sabe o sabor do lírio em que se filtra a doce castidade em cada corpo: boa noite, Melpômene Mourão e em teus veludos adormeça fiel a sábia flecha boa noite Eleu theria * * ------------------ ------------------ Gerardo Mello Mourão No caminho de Aretusa No caminho de Aretusa Hellas elas me iniciaram na língua e no alfabeto da língua: sabem agora os engenheiros e os empreiteiros: fui eu o ausente na torre de Babel guardo a letra o dissílabo o fonema e as chaves da sintaxe: - enquanto os povos se desentendiam em torno da areia e da argamassa e esqueciam o verbo e o advérbio nosotros recusamos a vã alvenaria ficamos de serviço, Efraín, com as nove meninas trabalhando na boca as promessas de amor em que sois mestre, Apolo: na sesmaria de violetas e girassóis por onde o ditongo maiêutico e a vogal eólia nominam nome e nume a Euterpe e às outras ao gavião e à pomba e à brisa e ao pêssego e à mulher e ao arco à flecha ao trigo ao vinho à abelha à fava ao favo e Artemis e Afrodite e Eleu theria. Quem se esqueceu pode lembrar-se e a semente da letra em sua leiva Linos faz florescer em Lambda e lírio - "Do you speak english"? - "No, darling", não estive na torre de Babel lambda loquor et lillia convallium e entendo a água o ar o fogo o azul e Lúcia e Laura e Léa e Luciléa e Lauriléa e Lucilauriléa e os cavalos e as éguas relinchando na madrugada de Pajeú das Flores e o motim de amor dos gatos no telhado de Iolanda Não estive em Babel - estive em Delfos e em Pentecostes e a Musa e a Virgem-mãe Mariamusa - Maria Leto Letícia repartiram comigo a língua de fogo e só ela conheço e tenho o dom da língua e me entendem o hebreu e o gentío e seus dialetos voltam à fonte e à flor et fons et flos dos tempos aurorais e a silaba da aurora posou-me sobre a sílaba dos lábios beijou-me a boca e neste beijo lateja o paladar de um deus e os outros deuses massacram meu coração e as moiras me plantam a demência na cabeça: invejado dos deuses "invejado a invejar os invejosos" - João - testemunho a beleza e canto a possessão de seu corpo e adúltero da adúltera choro a noite infiel Afrodite Helena Eleu theria trina teu nome trino pelas montanhas do país de Apoio onde pisaste as amoras maduras Cobrem- me o palitó as borboletas e as libélulas e aos lábios sábios de teu nome os beija-flores chegam e digo Mel po len me ne e é de mel a nossa lua desde já neiro a janeiro es cravo desse tufo de cravinas na virilha em flor por onde a sílaba da rosa pestaneja a pálpebra e balbucio o cio verbo gerúndio e gerundivo das intatas auroras videndus videnda videndum videndi video videmus videtur videbam visionem visa visione ablativo absoluto declino a Musa Musae Musaram Musis e o Musageta. * * ------------------ ------------------ Gerardo Mello Mourão Nasci tocando viola Nasci tocando viola sou Mourão das Ipueiras, dos Mello do pé-da-serra reinador destas ribeiras tanto canto em minha terra como em terras estrangeiras As cordas desta viola são meus pés e minha mão: no galope a beira-mar nos oito pés em quadrão; em martelo e gemedeira em gabinete e mourão. Devoto fiel de Apolo cantador de profissão, vou cantar o deus da lira de minha religião quero contar sua vida fazer sua louvação. E tanto o canto em sextilhas como em versos espondeus, que era Apoio sobre a terra Deus e homem e homem-deus pois a fêmea que o pariu pariu do sêmen de Zeus Quando Jesus veio ao mundo nessa noite do Natal, Maria, pra dar a luz só encontrou um curral - me ajoelho e peço a bênção e faço o pelo-sinal. Pois canto a história de Apolo falho de Zeus e de Leto, foi seu berço uma palmeira e o céu de Delos seu teto: mamou nos peitos de Temis nectar puro e mel do Himeto. Só Delos teve coragem de oferecer o seu chão, pois Hera, mulher de Zeus, prometia maldição a quem ajudasse o parto na terrível solidão Foi ali aos nove dias que o Deus Apolo nasceu Artemis, sua irmã gêmea, antes dele apareceu, vestido de linho e ouro a doce lira tangeu Pela folhinha dos gregos faço a conta e não me engano, foi dia sete de Bysios que nasceu o deus humano: fevereiro - entre oito e nove - do calendário romano. Até então era Delos uma ilha flutuante, quando nela um deus nasceu, Poseidon, no mesmo instante, firmou-a no chão com quatro colunas de diamante. Apenas nascido Apolo os cisnes em revoada sete vezes deram volta sobre a ilha abençoada e cantaram glória aos deuses e paz à terra sagrada. Mas Hera, mulher de Zeus, contra a mãe de Apolo irada ferida pelo ciúme pela paixão desvairada: contratou uma serpente traiçoeira e envenenada: Era a serpente Python com cabeça de dragão: contra Leto, mãe de Apolo, sem a menor compaixão, dia e noite ela movia terrível perseguição. Era Apolo deus e homem em todo o seu esplendor, e como homem - valente, e como Deus - vingador: pela honra da mãe armou-se com seu ódio e seu amor. Atrás da serpente pérfida percorreu terras sem conta, disposto a lavar em sangue a miserável afronta, nas cordas do arco de prata a flecha certeira pronta. Pelas bandas do Parnaso foi a serpente ferida, levou três flechas no lombo mais inda saíu com vida, no lugar santo de Delfos escondeu-se espavorida. E alí ao lado do oráculo, da gruta sagrada à porta, um rugido pavoroso racha a terra e os ares corta: com sua flecha certeira, Apolo deixou-a morta. É três, é quatro, é cinco, é seis, é sete, é oito, é nove, é dez, pegou o couro da cobra cortou de frente e viés e com ele fez o assento da cadeira de três pés. Era a trípode sagrada o trono da profetisa, no umbigo do mundo o céu e a terra fazem divisa, e a voz dos deuses se escuta na boca da Pythonisa. Pois o deus tomou à cobra pele e nome por botim: Apoio Pythio o chamaram e eu também o chamo assim: da história do mundo sabe o começo, o meio e o fim. E para purificar-se do sangue dessa serpente, com Artemis foi a Creta lavou-se n'água corrente, Karmanor lhe aspergiu o corpo e a alma inocente. Montou um delfim no mar, veio a Delfos no outro dia, arrebatou ao deus Pã a arte da profecia e pela boca da Pythia seus oráculos dizia. Afoito, ao bosque dos deuses veio um gigante malvado, quis violar sua mãe e Apolo ficou irado: chamou Artemis, a irmã, e o pacto foi combinado. Saíram os dois divinos no arco a flecha certeira, alvejaram o bandido oculto numa touceira e o corpo com duas flechas rolou pela ribanceira. Um dia o sileno Mársias desconheceu seu lugar e a pura lira de Apolo pretendia superar soprando a flauta de Atena que o ensinara a soprar. Os deuses e as musas foram o tribunal julgador do desafio insensato feito ao divino cantor e decretaram a Apolo a palma de vencedor. Para glória da poesia, para dar uma lição, Febo Apolo esfolou Mársias e arrancou-lhe o coração, que o desrespeito a um poeta nunca pode ter perdão. De outra feita ele tocava contra Pã numa função, Midas prefere o pastor, e ao dar esta opinião, duas orelhas de burro lhe crescem por punição. Há cantadores famosos nas feiras do Cariri, Jacó Alves Passarinho de Mutamba, Aracatí, há Romano de Mãe d'Água, Sinfrônio do Jabotí, Azulão em Pernambuco e Inácio da Catingueira, Serrador, Cego Aderaldo e mais Anselmo Vieira que foi o melhor de todos por ser filho da lpueira. Na viola e na rabeca eu também sou cantador, mas somos pobres mortais, eu, Anselmo ou Serrador, não vamos desafiar Apolo, Nosso Senhor. A todos os que ofenderem o poeta e sua glória, sejam reis ou coronéis, dos potentados a escória, deixaremos pendurados nos postes podres da história. Mas canto é Apolo formoso suas batalhas de amor, com musas, ninfas e deusas e raparigas em flor, nem escaparam mancebos de seu leito sedutor. Passou nos peitos Cirene, Coronis, Ária e Thalía, Naiades, Graças, Driopes e a mãe de Dorus, Phytía, Urânia, Clítia e Kimene e as nove Musas que havia. Recusou-lhe a pura Dafne seu lírio de castidade, transformada num loureiro Pasifae - na flor da idade, as verdes folhas consagra na doce dor da saudade. Jacyntho, o belo mancebo era seu lúdico amor, quando morto cai na relva pelo Zéfiro traidor, inconsolável Apolo o transforma numa flor, Pois o amor, a flor e a morte são obra de sua mão, são água do mesmo rio, são fonte do coração, por onde o sopro de Apolo rege a humana ordenação. Seu espírito divino, mais sábio que Salomão, sabia a ferida e o bálsamo, a doçura da canção, pois era senhor da vida, da morte e ressurreição. Para remédio das almas, fundou a Pythia divina, para remédio do corpo inventou a medicina, foi o pai de Asclépio, médico, mestre em sua disciplina. E quando o raio de Zeus fulminou este seu filho, na corda tensa do arco mostrou das setas o brilho, matou todos os Ciclopes como quem mata um novilho. Expulso por Zeus do Olimpo, foi ser pastor de carneiros, pastoreava cantando os rebanhos campineiros e era o cordeiro de Deus entre fontes e loureiros. Exilado sobre a terra, filho de Deus humanado, sua canção governava o bosque, as flores, o prado, o mar, as fontes, os rios, por todo o povo estimado. Os deuses então sentiram de seu prestígio temor, voltou por isso ao Olimpo, com todo o seu esplendor, pastor do sol, das estrelas, dos homens o Bom Pastor. Um dia a Zeus fez um susto, para dar-lhe uma lição, com outros deuses no Olimpo fèz uma conspiração, e quase derrubou Zeus, mas foi só por diversão. Sustentou Heitor em Troia, salvou Enéas da morte, uniu os povos da Grécia desde o sul até o norte e a liberdade dos homens cresceu, floriu, ficou forte. Proferiu as leis divinas, disse os preceitos humanos, esmagou os opressores mandou matar os tiranos, não há ricos, não há pobres, - são iguais em seus arcanos. Tudo na terra se curva e lhe rende adoração: galo, grifo, cisne, gralha a cigarra e o gavião, o mirto, o plátano, o zimbro e a palmeira do sertão. Das flores quer o jacinto e o girassol altaneiro, o lotus, o heliotrópio, e das folhas o loureiro, pois com ele é que coroa a testa do violeiro. Quer dos legumes da várzea a fava branca e o feijão, das montanhas a oliveira, dos pinheiros o pinhão, e das frutas a maçã, a mesma que quis Adão. Dos homens quer o poeta e o doutor que dá saúde, o marinheiro, o artista, o tocador de alaúde, o virtuoso do belo e a beleza da virtude. O lobo, a corsa, o delfim, são bichos de seu quintal, traz sempre a lira de ouro em sua mão sideral, e o tenso arco de prata e as flechas num embornal. Tenso é o arco, tensa a lira, tenso o Deus da formosura, tenso o poeta que canta e que pede à flecha pura a sábia coincidência da presença e da lonjura. Pois em Febo, Febo Apolo, eu estou e não estou, junto ao seu carro de fogo tanto sou como não sou, e quando ele risca as nuvens aos Hiperbóreos me vou. Busco nos céus uma estrela, busco no mar um farol, onde estão os Hiperbóreos onde se acende o arrebol, onde sempre desabrocha a mera rosa do sol. Terra de luz e calor, caem estrelas em cacho, será em Mourão-de-Cima, será em Mourão-de-Baixo, pois lá no norte do norte Apolo, vejo teu facho. Era de lá que descias no lombo das verdes emas, da aurora das Ipueiras, da manhã das Iracemas, do azul da Ibiapaba, da rosa das Borboremas. Palmares de Pernambuco, Limoeiro de Anadía, do Piauí das Oeiras ou de Alagoas descia, trazendo a Delos e Delfos o verbo da profecia. Hiperbóreos, Hiperbóreos, teu sol eterno, onde está? País da cobra de fogo, planeta do Boitajá, é nosso roteiro, Apolo de Delfos ao Ceará. Será em Mourão-de-Dentro, Mourão-de-Fora será, banda da Várzea dos Mello, das Ipueiras pra lá, toca viola nas serras Apolo do Ceará. Esta é a história de Apolo que se conta no sertão: à sombra das oiticicas na concha de sua mão, bebe o sol das Ipueiras como água do riachão, para levar aos países do frio e da solidão, seu oráculo de fogo a flor de sua canção, deixando o rastro da lira nas várzeas daquele chão, o violeiro que assina Apolo Mello Mourão. * * ------------------ ------------------ Gerardo Mello Mourão Pois José Cupertino cantava na praça Pois José Cupertino cantava na praça de São Luís do Maranhão já não entravam os deuses em seu negro corpo - e as mãos imploravam sobre a cabeça branca: - "um Deus é um sopro" - e José Cupertino soprava na praça à tarde de São Luís - "sem o sopro eu sou um pneu vazio já não me ouvem os deuses não me querem" e requebrava e chorava e cantava: - "Eu trepei na ponte a ponte quebrou sou moço bonito desembargador" - e se embargava a voz - e os deuses não olhavam sua beleza nas calçadas de São Luís: - "sou moço bonito desembargador" - Canta o concrís canta a gamarra canta o galo-de-campina ao céu de Campina Grande - e ali bêbada e bela pereceu Clarice os cabelos de ouro numa poça de sangue: resta uma cruz na estrada e esse aroma de jasmins e maracujá na tarde de Campina Grande e a tua lira, Apolo, resta onde canto o aroma a flor a morte ensangüentada e adorno a morte com flores e seus frutos o jambo o dáctilo o espondeu e os verdes anapestos Pois vejo o anjo a verbena o verso o verbo transitivo florescido nas vozes e nos tempos e nos modos finitos e infinitos - e Apolo ensina a fonte de jorrar o infinitivo dos intransitivos. O amante de si mesmo beija as águas - mas Apolo ergue das ondas deusas calipígias e onde era espuma onde água verde brotam em suas mãos as cabeças castanhas e as avelãs as tuas avelãs amada de cintura fina e de redondo seio. Nascido em minhas mãos um nome busco para teu seio - Mirabelos - um nome-próprio para a touceira de madressilvas de tuas coxas - Delta-Delphulvia Aqui, Apolo, venho fundar o nome das partes de seu corpo onde fundaste teu tempo e teu país e aqui em tua data e em teu sítio queimado o calendário se lerão nas cinzas minha data e meu solo pois sou datado e minha data é a data da Sibila dos profetas hebreus no chão do Apocalipse, Patmos, entranhas de Capricórnio - e ali arúspice de si mesmo o poeta se lê - e a decifrada vítima imola o imolador e entre os outros deuses ocupa o seu lugar: pois somos, Dionísios, Apolo, somos as ovelhas de Deus e o deus que tange os cordeiros nos montes da Tessália: e em mar e, monte e em ribeira e rio vou profetizando a profecia pois inventei o verbo depoente e seu modo e seu tempo e é este o depoimento: profissão - Inventor da palavra - Edi - a voz ativa a voz passiva reflexa perifrástica Afrodite germ herm afro ditirambo A flor a profecia do fruto na corola aos ventos inclementes despetalada - Pois posso a aurora e a noite arconte epônimo da lua e das estrelas Posso o azul posso o verde posso as vogais e as consoantes a cana-rosa o cabrito montês o touro a égua a ipecacuanha o cravo a peroba a canela a cascavel o acônito: - mas quem pode deter pupila e pálpebra? pois meus olhos não posso e neles vai crescendo a morte sua planta florescido no talhe de meus filhos já altos entre outros rapazes. Mas posso a flor e a profecia do fruto na corola - Scardanelli - pois tenho, Apolo, o prumo da flor sobre seu fruto. e José Cupertino cantava na praça de São Luís do Maranhão e às vezes por sua boca por seus ouvidos por seus poros pelos buracos de seu corpo entrava um deus em seu corpo - e ali aprendi sua visita nas entranhas e o possesso possui a possessão de um deus e à chama de sua língua na boca acesa arde o clarão de teu nome e em Lambda e Léa digo amor nos lábios crepitares Venho de um deus e só do que me esqueci me vou lembrando e só o que perdi procuro e acho na touceira de relva e de cidreira cidra romã respondem de teu corpo aromas formas formaromas assim chamados: pois comedor de deuses Abol Apfel Apple Apolón e um dia, Apolo, os deuses serão fêmeas e na praça de São Luís do Maranhão o sopro e o sumo e a polpa fruta à fruta o coração se nutra da cidra e da romã: pois Apfel Apple Apolo e Apoléa - seio por seio. * * ------------------ ------------------ Gerardo Mello Mourão Naquela tarde entre o cognac e o bourbon de New Naquela tarde entre o cognac e o bourbon de New Orleans conversávamos sobre Francisco ancorado - doce e inquieto bergantim ancorado em seu bar de São Paulo e de repente o ar de seus pulmões arrendondou as velas e nas nuvens pelas nuvens aos olhos de Menelaus Gordon derelicto e Helena Finamore - enfim o amor - aportou em New Orleans com suas velas pandas de brisas fervorosas - Francisco Francisco Luís de Almeida Salles: Alexandre Mourão adornava o mar com seus clavinotes ela com seus cabelos ao vento e seus seios dourados sobre as águas verdes: - Anne - je disais - Anne de Lille - e os marinheiros à estrela perigosa de seus olhos ensinavam a rota à nau de Helena e o caminho do amor é o caminho da morte e o caminho da morte é o caminho da vida e o caminho da vida é teu caminho pois, quem provou de tua boca e não morreu? e eu provei de tua boca e vivo dela vivo da morte e Helena nutre de sua vida sua morte e a vida é a semente da morte - e a morte é a flor da vida: foge Helena Finamore de New Orleans rumo à constelação das rosas e ao riso matinal de Anne de Lille e suas tangerinas verdes - enquanto pasta Menelaus a própria lágrima e a própria língua e esta é a derelição de Menelaus Gordon não poder a morte pois não pode a vida e Helena pode o mar e pode Anne de Lille abrir a rosa da boca lancinada à flecha de Eros e Francisco Luís pode a perpétua partida no perpétuo porto pois assim te encontramos, Apolo, acenando sempre e não partindo nunca e não chegando nunca e em teu rastro é a partitura de teu tom e ao tom de Apolo venho cantando e quanto canto - canto e começo a morrer - e desde longe venho cantando e desde longe começando a morrer e da incessante morte vai crescendo o caule da vida imarcessível - e aqui a flor do anacoluto promete às folhas verdes a maçã de teu rosto: guardo na boca o fruto desse riso e o sumo dessa lágrima : - o adolescente mordeu teu nome um dia e é dele nestes lábios maduros maduro o canto à tua clave clave de lua e lambda e Léa e si lá sol fá mi ré dó redor dos arredores do crepúsculo véspera de Vênus - e teu corpo irrompe desde um monte de pétalas - pois assim te quero - mera rosa - na véspera do amor e és tu a noite e és tu a madrugada e o canto do galo e o meio-dia e são a noite a madrugada o canto do galo e o meio-dia e as vésperas o tempo de meu canto e minha duração: por isso ensino às ondas e às serras do país o tom de Apolo - e os vales ecoantes repetem para sempre a melodia e um dia há de voltar a clave de teu nome à minha sepultura - e a flor na flor de minha boca há de achar sua terra: - sempreviva - dirão os ventos da província pois não morrem, Apolo, os que aprenderam a lira, e a noite e a madrugada e as vésperas vão florescendo no eterno calendário onde sucedem as três cordas da lira de teu nome entre as moiras Léa entre as musas Léa entre os anjos Léa entre Anne de Lille e Helena Finamore enfim o amor exala o testamento: e vivo herdei a morte e vou da morte herdar a vida. Pois conheci Menelaus Gordon e Paris Alexander e Francisco Luís e Alexandre Mourão e fui colhendo os inventários e os botins uma palmeira em Delos uma palavra em Delphos e uma noite contigo - e estas foram minhas heranças, Apolo, e uma viola serrana e dela guardo a serenata e a serra e dessa noite um beijo: pois herdeiro de um beijo beijo a flor cata casta cata Léa pende dos lábios teu espólio, Apolo, a sesmaria que me deste - suas eiras e jeiras as ribeiras verdes sob o céu a cabra montês e os cavalos ruivos e as éguas ruivas: pois entre os cavalos ruivos e as éguas ruivas e as ribeiras verdes passeio a peripécia da tristeza peri patética e a cada passo invento a morte e sou minha própria invenção e inventei este deus e este país, ao inventar, Apolo, o rastro de teus pés no chão de Orfeu - o rastro de tua flecha pelo céu e o rastro de tua voz nos presságios da noite no bóreas entre as folhas na sonora fonte: e quando mais ninguém cantarei eu ainda os sagrados eólios ao ouvido da ninfa e à virilha da fêmea Pois bem que estremeces, amore mio, quando canta o galo encarnado à madrugada de tuas coxas: venho do sono - e uma vez montei de um salto a égua malhada e despertei retinindo as esporas no barro da alpendrada reiúna: Helena se apeara da garupa e os touros e os vaqueiros e os garrotes dilatavam as narinas e urravam e escarvavam o chão e as orquídeas abriam as vaginas lascivas e os lábios abertos e as narinas tersas esse cheiro de cio ao vento sertanejo eras tu que chegavas pois sempre chegas quando chega o canto pois sempre chegas quando chega o amor pois sempre chegas quando chega Apolo Eleu theria. * * ------------------ ------------------ Gerardo Mello Mourão Pange língua gloriosi Pange língua gloriosi corporis mysterium: Bernardo de Clairvaux atravessou os Alpes vinha de Roma e trazia uma relíquia - o dente de São Cesário pela Ibiapaba pela Mantiqueira os Pirineus e os Kárpatos por Lisboa e Padova onde a língua de Antônio - trago por nova York Buenos Aires e São Paulo uma relíquia e calem-se os pregões da Bolsa trago a língua de Apolo a língua viva e pange a língua do corpo glorioso o oráculo celeste. Desce a tarde sobre os ananazes e as mangabas verdes e os cajus vermelhos em Feira de Santana: consulto a bússola onde o Norte da Musa - ali é o pomar onde colher a viagem madura e à sombra das mangueiras entre as folhas morena Antonieta Mello fundava a dor sagrada e a flor do puro coração e canto agora aos céus de Mecejana seu sorriso triste sua lágrima seu lírio imarcessível enquanto desçam as tardes sobre os ananazes: abre, menina, o coração na serena madrugada, se o coração não me abrires eu não sou eu nem sou nada: pois junto das de coração alanceado eu sou eu sou eu e amor e dor, Apolo, e as amorosas e as dolorosas sabem meu nome e a porta de minha casa: pois canto agora Antonieta Mello e um dia desta partitura para flauta doce em tua língua, Apolo, hão de dizer que entre Alecrim e as Quintas Antonieta Mello teve um cantor Pange língua - pois canto no caminho as coisas e as pessoas do caminho do país dos Mourões a teu país, Apolo, e teu país é meu caminho - e meu caminho é minha residência - pois sobre meus pés caminho e ao longo de minha sombra - e minha sombra responde ao sol e à lua seu mapa essencial: não viajo de mim - nesta fronteira Ich bin der Markgraf e o margrave marca sua fronteira e sua fronteira é sua sombra e habito minha sombra e sou cartógrafo de seu mapa sob a planta dos pés limito minha nação pois natural de praça e rua de monte e val a pura sombra dá deferência - deferimento ao mero corpo: ali sou eu onde o luar defira à noite minha memória pela raiz de minha sombra onde o resíduo de meus dias As viagens viajam a viagem e além não vou de minha sombra sou nela imóvel - eppur si muove - e às vezes passa-mo Apoio as rédeas de seu carro de fogo E pelo lago do céu pisando estrelas até a lapa do mundo galopavam os cascos faiscantes: um dia sobre as areias de Paranaguá caminhava uma estrela: para tua cabeça aluguei uma estrela para tua cabeça noite dia o diadema de um beijo em teus cabelos fulgurei - e o cometa coruscante na omoplata banhou o espinhaço moreno no céu curvo e profundo fundiu-se e resta a glória moribunda de sua coma desde até e um dia me disseste: "faz um milagre" escrevia com o dedo sobre a página "faz um milagre" - pedias escrevia com o dedo sobre a areia a rima de seu nome - "faz um milagre" e o dedo incandescente ejaculava cometas à rima de seu nome In firmamento coeli rorabam coeli desuper e enquanto os perfumes perguntam por teu seio nubes pluant rosam e o trevo de teu nome responde no orvalho da madrugada: poeta, ego íncola dos trevos - íncola de um trevo desde até pois alí oh laudes regis - calida latet el trébol - el trébol ó oriunda de Calíope a rosa veste a túnica e um perfume de talictres silvestres veste o trevo amante amore amavi amatam desde as celestes fugitivas e Carmen (carminum) até * * ------------------ ------------------ Gerardo Mello Mourão Divididos os idos in dimidio dierum meorum Divididos os idos in dimidio dierum meorum vadam ad portas inferi in dimidio dierum midnight she knocked at the door in Chelsea à porta do coração - nos assombrados olhos tacebit pupfila in oculo meo e bato à porta do inferno e bato ad portam paradisi e aos surdos anjos e aos demônios surdos emudece no olho a pupila - a minha - e de olho a olho sidera considera: considerei os astros, Musa, Musa, Palatini referamus Apollinis aedem: ali sob o reinado de Hilarius Bogbinder entre os lençóis de linho e os limões verdes floresciam as sardas ao redor de teus seios tua beleza ferruginosa suplicava os ruivos travesseiros: chegava Jéssica lavada pelos sumos da lua chegava por Santa Clara Ariston in dimidio dierum meorum: pois me refiro a Jéssica ao buscar Afrodite per talos me Veneram quaerente: e era uma vez a Infanta do crepúsculo seus cabelos pesavam nove libras de ouro - e era uma vez o céu de Coritiba e o vestido escocês e era sempre Isabella e o vento vindo de novembro pelo Paraná me Venerem quaerente pois quérulo me vou pelas veredas buscando Vênus: e onde tornozelos - ancas onde ancas - tua cintura fina onde tua cintura - a dança onde a dança - Afrodite e por ali rastro de Apolo poetae Venerem quaerenti - Apolo no inventado rosto inventa o coração Chegávamos de junho e julho e agosto vínhamos às vezes do mar da aurora e às vezes cavalgávamos serras de saudades - outras partíamos da noite enluarada e os tropeiros na estrada tiravam o chapéu na saudação ao poeta: palmilhado o silêncio no rumo da palavra e onde sua sílaba por alí Apolo ludum ludendum ludens e quando a madrugada explica a rosa se explica o coração na pálpebra explicada: mas ai de ti, Louis, Louis Alphonse Donatien na boca encarcerada morde o cerrado botão da rosa muda - e queima nos olhos moribundos queima a antífona do próprio requiem - mas Apolo desabrocha à lira a louvação da flor: a corola celebra teus cabelos a virilha celebra nome e nume e este é o ludus do amor a delta digo ao teu ouvido D e fundo o alfabeto em Lambda Delta Beta Kappa: e assim te chama a língua sábia o lábio o seio o umbigo a orquídea a curva pígia - por isso uma noite me castraram as Fúrias Eríneas e os eunucos dividiram entre si o pênis ceifado e à negra relva o milagre de teu sopro o ergueu de novo e cem vezes mil vezes me castraram as Fúrias Eríneas e os eunucos comiam as rodelas decepadas mas és mágica e cem vezes mil vezes traziam das entranhas e entre antúrios em seu pendão de cana florescia de novo a cabeça do príncipe perene no júbilo do orvalho entre os antúrios E muita noite quebrada a flauta não cessava a melodia - tenho lábios viciosos de música e de sopro entre os dedos teu corpo no ar e de horizonte a horizonte modulada canção se desferia da fonte do desejo - pois ali nessa clave de lua era soprada a rosa: E sopro a flauta a rosa súplice e a canção te compõe e decompõe de seio a seio Tanjo a ovelha da letra ovelha à ovelha toureio o touro da palavra picador banderilheiro no trapézio dos chifres perde o solo a sílaba do coração - e os olhos guardam gota a gota a espada matadora pois tourovelha toureirotouro arrebanha rebanho vivo rebanho à morte - e um dia há de restar de mim o pranto de Erifânia. Erifânia!. Erifânia! Pois busco ovelha por ovelha e touro a touro enfrento y me aúlla la perra Maira la perra um morto um vivo um touro - e salto picador de ditongos e tritongos sou o amante das Fúrias Eríneas Eumênidas Eumênidas pica - dor me castraram de novo e me busco no ventre das Eríneas e encontro ao ladrido da perra Erígona e Erifânia - - Erifânia canta a dor adorada - picador do touro pica as fúrias amadas entre as doces ovelhas ao ladrido de la perra Maira farejando dissílabos trissílabos tetrassílabos e chego ao pentassílabo per talos a brisa violeteira violava os irados cabelos dessa Moira e ela ao vento favônio - Musae, favete - lavava o favo das pupilas de mel: mas quem se esqueceria de teus olhos Isabela Isavela quem desse verde navegado pelas borboletas em cio? Pela perra Maira a língua varada pela lança por Maira e Moira por Erígena e Erifânia e as Eumênídas Pelas Fúrias Eríneas pela Musa pelas léguas vou lendo o chão. * * ------------------ ------------------ Gerardo Mello Mourão Caminhavam sobre meu corpo Caminhavam sobre meu corpo as de Goiás e do Piemonte uma delas costumava fincar a lança de seu pé no sítio do coração - outra rodopiava sobre o pênis taciturno e num salto certeiro cravava as ancas ao grito lancinante e engolia nas entranhas o príncipe fremente: florescia em suas bocas compunha o lábio formoso e a língua estudiosa mas não pisavam minha pele - ego poeta em floretes de sopro as sustentava e a sombra de suas pernas tecia túnica a meu corpo. Os que sabem de mim me lembram como um pequeno rei arteiro e moribundo entre amantes de todas as raças. Todas elas me possuíram ao longo das noites. E a noiva sérvia, as crinas do Danúbio sobre os ombros - e a princesa de Túnis com seus olhos de avelã e a puta de Araguari com seus seios salubres - todas me possuíram por dias e noites e anos me possuíram. E fui eu mesmo meu próprio preço: por isso tantas vezes me resgatei - e nunca as possuí - nem mesmo a pequena alemã de Blumenau nas noites de setembro. E Isabella era Lúcia Isabella. Quando pensei tê-la afinal dominada e possuída, metamorfoseou-se em rosa - melancólica rosa amarela num jarro de porcelana. De outras, desapareceram o rosto e o peito, todo o corpo transformado num pequeno sexo na palma da mão, uma crisálida, uma borboleta ou uma pomba, e fugiram voando para o teto da igreja de São Paulo. Outras ainda se transformaram em defuntas e eu as sepultei chorando num monte de lírios desolados - no entanto, eu as criara, ego poeta, de meu barro e meu sopro, pois antes de mim não existiam: quando sílaba à sílaba alguma noite pronunciei seus nomes Ma - da - le - na Ma - ri - e - le - na I - sa - be - la só então elas se ergueram com seus umbigos vertiginosos e nada mais pude dizer e seus nomes me esgotaram as veias e os pulmões. E quando eu lhes perguntava de onde vinham, para onde viajavam, de que pessoas ou lugares traziam ou buscavam notícias, respondiam simplesmente: - Apolo - e quando diziam o nome santo, voltavam de repente ao que eram: Isabella se incorporava em sua rosa amarela, a puta de Araguari se erguia de sua borboleta ou de sua pomba e as defuntas, sacudindo os lírios dos cabelos, se punham de pé sobre seus caixões azuis. - E todas me possuíam de novo Possesso delas - ego poeta produzia o vinho e o vinho produzia o bêbado - e o bêbado produzia a música e a música produzia a regência do ser em dança sobre os tornozelos em tomo delas - pois seus olhos guardavam o rosto de um deus e sua boca um nome - Apolo - e ao sagrado nome novamente se metamorfoseavam e a pequena alemã de Blumenau era uma égua ruça e a puta de Araguari uma poldra baia e emparelhadas com arreios de prata arrastavam entre as constelações o carro do deus. Entre Alpha e Beta de Capricómio o deus era arrastado pelas potrancas vertiginosas. O galope sideral atravessava as flechas do Sagitário, as rodas do carro de ouro deslisavam sobre o ruivo riacho da Coma de Berenice e as éguas se empinavam afinal, de narinas ciumentas, na colinas de Delfos onde Lúcia Isabella transfigurada, em Maira la Perra transfigurada, lambia a mão do deus com sua astúcia de irish-setter. E de repente assumiam outras formas e brotavam dos agapantos e dos crótons e luxuosas serpentes coleavam na relva com seus crótalos pressagos. Pois Lúcia lsabella era uma verde cascavel de olhos dourados, vertical e longa, meneando a cabeça e a puta de Araguari armava o bote de sua pele malhada e Jéssica e Elisabeth enrolavam o lustroso coral de seu dorso, enquanto Adriana e as outras lambiam os dentes perigosos. Ego, poeta, tenho a mão sagaz e arteira do Serpentário e empunho o sustento e encanto as serpentes enroladas no pênis em meu leito de rosas pois as rosas sideradas vão con- siderando o ouro e a praia das serpentes na mão do Serpentário onde ainda uma vez a cabeça dourada de Isabella. volta à antiga flor de seu sorriso pois et nunc et semper as auroras devolvem Lúcia Isabella do sítio da memória à ilha do coração de Apolo. Por isso peregrino a memória ego, poeta, romeiro do coração adonde parti retomo - e estudo minha esperança: de minha própria esperança estudioso sobre a podridão das horas planto a rosa e a maçã e habito a distância de sua primavera e seu outono: pois do lombo de capricórnio salto - ego, poeta a galope neste Monte Real la belle province e guardo sempre a língua - e é bom morrer restam algumas horas de vida - tant mieux pois não verei o estrangeiro plantar sua palavra onde plantei teu nome ao vento da montanha repetido entre as folhas do érable: pois ao morrer teu nome em minha boca terei cumprido a minha própria morte: na língua estou vivendo here lived and labored e os turistas atônitos e Agnes e Carole e as outras ouvirão do porteiro do hotel a evocação do poeta: from here sailed out to die as verdes águas escrevendo na vela as letras lancinantes de teu nome alí - satélites - meus olhos pois de Águas Be L as e Pa L mares e Pa L meira dos Indios a Be L grado me voy e eras o vale e o céu de Ia Be LL e Province e eras o nome de la Be LL e Province e a noite de Guatema L a e a lua de teus seios enluarava as laranjas nos jardins maduros de Teguciga L pa Teguciga L pa! en el cerro de plata tres mejülas de oro à janela dessa calle del Olvido rias o riso de cristal e prata de Tegucipalga e as colinas estudavam ali teus seios teus quadris e o vento aprendeu a mover-se em teus quadris e assim por Montes Claros e Diamantina onde bailavam nas suas manjeronas rescendentes Cristina e Júha. Por esta flor passou um beija-flor por esta relva um calcanhar por este lago uns pés: na flor na relva na água crescera o calcanhar da raiz do rastro teu talhe de palmeira desde até. * * ------------------ ------------------ Gerardo Mello Mourão Nascia o gerifalte sobre os ombros Nascia o gerifalte sobre os ombros na testa brotavam o louro e a madressilva a cintura gerava o boldrié de Orion e a flecha e o arco inteiravam as mãos o cavalo baio decorria das coxas e das ancas e nos olhos levantava-se a estrela: Phaeton! Phaeton! A caça caça o caçador A sombra assusta o corpo mas Apolo não teme seu fantasma e o cavalo baio galopa seu galope junto ao gerifalte à flecha à estrela Phaeton! Phaeton! Pois me nutrias quando a mão celeste ordenhava as estrelas apojadas de azul poeta sum a boca cheia dos gomos luminosos e da Vega da Lira e de Cassiopéia por isso - Fratello Sole, digo, Sorella Luna doce incesto noturno tu Pythia, tu Phebéia, tu Delphinia Artemis Artemísia quia nocte quasi dies in diebus diabola Bêbados de estrelas rolávamos sobre as constelações no lagar capitoso Phaeton! Phaeton Incestuosa - de nós mesmos nascíamos e éramos naquele tempo nossa própria fábula e a mesma flama nos torneia agora o corpo fulgurante no coração da lenda Pois quem te lembra nua empinado el culo quando ardiam nos lençóis as sarças peludas - eras a mera lenda e em tua virilha lendária fabulava o odor do pênis mitológico - Phaeton! Phaeton! Os cavalos nitrian no pântano, dos astros e seus cascos golpeavam os planetas - a espuma dos meteoros no focinho: os que Zeus derruba das alturas deixam no firmamento a Via-Láctea Phaeton! Phaeton! teu rastro Pyrie eleison. Sob plátanos brancos de uma ilha sepulcral oficiava ao crepúsculo tua beleza, amor Phanes Phanus Phalena Phales Phalerus Phales Phalanthus Phaletusa Phaeton Phalanthus Phalus De falernos na cavalgada embriagada conhecemos as veias da manhã e os ossos da noite pois transpusemos a aurora e seu crepúsculo e do tempo regido ao casco dos cavalos falernos apeei-me à fronteira da eternidade Atymnios - da heroica louvação insaciado Bebi o vinho do tempo - e a eternidade é minha embriaguez pois não existo mais senão no coração da lenda - e sou eu mesmo a minha própria lenda Phaeton heroicis laudibus non satiatus non satiatus insaciável inefável inconsolável pontífice e histrião mordia os rins do planeta e fincando as rosetas das esporas chibateava o lombo da galáxia com meu cometa coruscante Phaeton! Phaeton! um trevo nos calcanhares o rastro dos pés inapagável dizia norte e sul e leste e oeste com a rosa-dos-ventos sob os tornozelos ego poeta vou caminhando como o som caminha desde por para até ubi unde quo qua et usque quousque quam diu. * * ------------------ ------------------ Gerardo Mello Mourão Pois faço aos tempos surdos Pois faço aos tempos surdos a doação deste ouvido e venho doar ao tempo mudo esta língua aprendi as álgebras do espaço e calculei às vezes aurora e noite e sou sabedor de sua hipotenusa e mestre de sua bissetriz e de seu algarismo: posso armar no doce teorema de seu caule a parábola da rosa e sua paralaxe pois proponho a rosa aos circunstantes desde seu logaritmo - colho teu nome em minha boca e em minha mão floresces com teu monte de pétalas com teu seio redondo - não seria ali o sítio do desejo, Capitão Gofredo? e venho e volto e um deus veste na própria pele o corpo livre e gera da incessante vida a saciada morte e da morte incessante esta sede da vida. Não estão mortos os deuses, Efraim, sob a defunta máscara seus olhos cravejados de esmeraldas coruscam sobre nós e a rosa de seus lábios despetala ao fervor de seu sangue botânico a suplicante saudação: tu dichorisandra albo-lineata tu campelia zanonia tu gladiolus ceruleus venustus labiatus desde o musgo do chão ao firmamento firmas no lírio vertical o fluxo de teu rosto: também eu - ego poeta arranco e piso aos pés minha máscara de morto e sustento o fulgor de tua pupila incandescente. Não, Antônio José, não morreram os deuses e na pata do cavalo de Alexandre Mourão na palmeira de dona Úrsula em teus olhos moribundos, Capitão, num punhal no relógio da sala no patacão de prata no retrato da parede na relva de tuas coxas sagradas o rastro de Apolo: ego poeta, ego cartographus faço o mapa, Gonçalo, desse rastro entre o cróton e o crótalus terrificus pois de terra terrífica é o chão onde um dia deixaste florescer a planta de teu pé: e as distâncias do mundo permanecem regidas à balística de seu passo - não morreram, amor. E deles os que um dia visitaram a morte desceram aos infernos e subiram aos céus no terceiro dia - e um dia, Augustin, rebentou um ruido dos céus um vento de tempestade e mandaram descer suas línguas de fogo sobre a cabeça do poeta e saí pelo boulevard bêbado de glória e os Partas e os Medas e os Elamitas e os que habitam a Capadócia o Ponto e a Ásia a Frígia a Panfília e as partes da Líbia perto de Cirene - e os forasteiros romanos e judeus e seus prosélitos e os cretenses e os árabes e os servos e os croatas e os guerrilheiros guatemaltecos e a puta de Quebec e o travesti de Amsterdam recolhiam maravilhados sílaba por sílaba meu canto - pois conheço o poliedro da palavra - ego poeta e no sonho dos adolescentes e dos moribundos fiz minha morada no país de Pentecostes e abriram-se as fontes das águas em minha língua e todos entendiam a fala das fontes das águas. Por isso Pallas invoco - Palas Athenaia e Afrodite clamo - Afrodite e Zeus e Poseidon e Hermes Trimegisto e Afrodite clamo - Afrodite - e ao seu nome estremecem frementes a pele e o corpo dos machos e das fêmeas: da concha de seus lábios com seus olhos verdes ergue-se Afrodite os mesmos ombros de cabelos molhados pelo mar da Jônia na concha de Poseidon calipígia a oeste e a leste - de pentelhos frondosos mas ninguém lhe acaricia os pêlos pois transfigurada ela nos conta sob a luz das estrelas sua própria ficção e não é mais que a ficção de si mesma e de sua metáfora a metáfora a presença real - e só a morte dos deuses é irreal: e da raiz do coração a língua erecta ousa chegar ao êxtase: Afrodite! Afrodite! da transfiguração de teu nome real teu rosto original parece irreal. Um dia percorríamos a aurora de Montréal saudávamos os bisontes e os jaguares nas esquinas do bairro inglês e alí cantava o galo no quintal de Teresa e urrava o touro de Vila Bela no curral de Eufrásio ao quebrar das barras na madrugada hermafrodita: as donzelas e os Travestis e as putas da Guatemala e as leopardas ciumentas e os lábios no cio perguntavam - "por quem, poeta, teu amor, por quem?" Amante sou é de meu próprio rosto - amoroso estou do lago de tuas pupilas de onde meu amor é pela gema de meu dedos no pelo de tuas virilhas - e apaixonado estou por minha mão que ronda as tuas coxas pela língua que diz teu nome - línguabela abelha no mel de tuas pétalas em tua rosa negra - e ali em seu ninho de estrelas mergulhava o pássaro - e por ele, amor, o poeta, e seu amor. E não morreram - pois era uma vez uma cidade, Gilbués chamada - e era uma vez uma mulher por nome Laura - e outra vez bebíamos o Ballantine's twelve years na fronteira do Maranhão barrancas do Parnaíba: sob a celeste água-marinha da noite piauiense as doces loucas de Terezina penduravam sob as mangueiras no sanatório de Clidenor entre as douradas mangas-lira os redondos olhos - e a lua arredondava o seio das putas quotidianas sob os coqueiros de Ana Paula - e era uma vez uma noite - e era uma vez uma cidade, Gilbués chamada - e era uma vez uma mulher por nome Isidora - Dora - de Gilbués chegada - e quem se esquecerá de Mariana - os mesmos olhos augurais inaugurais de Sanharó chegada aos bordéis do Recife: do trampolim de seu rosto o peregrino pé ao desferir o salto cunhara o rastro - e, pois, por esses rostos e lugares vivo em romaria Delos Delfos Gilbués Oeiras e ali o Coronel Victor de Barros Galvão governador das armas até Olho d'Água Grande onde Domingos o Coronel Domingos Mourão Filho governador dos povos assentava o rústico condado e cultivava a rosa do perigo: pois visconde conde comes senhor e servo soldado de aventura sou, Apolo, pelo sangue das veias de todo chão de todo rosto onde quer que esse rastro e tua mão vela sobre nossos capitães pois flor-de-lis pois rosa de puro artelho rosa e flor-de-lis onde marquês marquei minha fronteira pelo som de uma flauta pela corda de sua lira - e por ela joguei a minha noiva e meu condado e meu escudo de faixa verde em campo de ouro um castelo em abismo e abismado entre as coxas das nove castelãs - ali farejo o faro de teu falus e sou de tua corte o derradeiro conde Gerardus derelictus - criatura de Apolo e de Melpômene ego poeta conde do abismo. Mas teço o pano pastoreio a cabra e forjo o ferro e planto a cana e camponez e obreiro degolo o conde nas auroras de outubro ego poeta o conde degolado à beira de seu abismo: depois com o sopro de meus pulmões encho de ar os foles de couro e malho a brasa dos metais e produzo as estrelas na oficina onde canto o meu próprio motim e o meu próprio massacre: Pois malho, Apolo, na bigorna os colhões de aço e o coração de chumbo - e invento a mágica do ouro e vou fazendo rosas braceletes pétalas e outros objetos de ouro até chegar à lira: pois criei a minha mão e fiz eu mesmo a minha própria lira suas cordas fiei e modelei os dedos com que as pulso do pulso às unhas. peregrino pelas calçadas do bairro e os rapazes e as raparigas me apontam: Gerardo de lira. * * ------------------ ------------------ Gerardo Mello Mourão Violava as borboletas e as violetas Violava as borboletas e as violetas lhe floresciam onde as abelhas cercavam a sagrada colmeia: Laura celebrava os ritos e as outras concelebravam - pois as bochechas cheias de esperma Salústia e Beatriz borrifavam as alfaias - manejava Mônica o estrangulado príncipe com as sementes leitosas aspergindo pupila umbigo e seio orvalhavam gotas de opalina as axilas peludas mas Laura celebrava os ritos: ao clarão do falus ao mergulho litúrgico celebrava os ritos na rua Paula Freitas sacrifício de lírios e verbenas nas tardes pluviais serviço de Perséfone e Afrodite esmagada na relva a boca na boca a relva: o macho à fêmea a fêmea ao macho imolados à súbita Ginandra vinham cantando à primeira semente de Apolo Ginandreu - pois Laura celebrava os ritos nos quadris em flor E deitado no mel das brisas flamejantes ego poeta começo o canto e digo: - "já nada mais existe, Apolo, e apenas somos na primavera do tempo quadris em flor" - e Laura celebrava os ritos. Quando as borboletas violavam as violetas inauguravam os áugures o augúrio e as palavras pereciam no lábio esquecidas de si mesmas a sós contigo, Apolo, e com a ninfa da vida e com a ninfa da morte murmurei o sopro da inefável canção: - pois somos celebrados enquanto Laura celebra os ritos. Mestre de cerimônias o poeta oficia a cerimônia do silêncio: o canto é seu ofício - mas o imolador se imola enquanto Laura celebra os ritos Um a um vêm os deuses chegando ao banquete da própria morte e da ressurreição - pois Laura moribunda e nascitura Laura agoniza a agonia de nascer de novo e ao ritmo e à tempestade de seu corpo o poeta celebra os ritos - e ali começa a nossa coisa cosa nostra, Apolo, de nossa raça: ego poeta sacerdote e vítima celebrado celebro a celebrante e o espaço perde a sua medida e o tempo perde a sua duração pois Laura celebra os ritos: brota de minha cabeça o cometa de seus cabelos e sob a torrente de seus cabelos meus olhos fitam o príncipe erguer da maçã de seus oasis de relva a cabeça da rosa e ali a derradeira súplica o suspiro e o pranto pois Laura despetalada recompõe a rosa - Laura celebra os ritos. Desaprendi teus outros nomes e na sabedoria do esquecimento invento as novas sílabas - Laura te digo e à minha língua sábia de teu próprio humus de tuas folhas te ergues - Laura celebrando os ritos Então começa - então termina Laura então se perde - então se busca Laura e neste chão o meu sepulcro e a minha fonte de minha morte jorro e piso minhas pupilas derelictas: pois no rastro de Apolo Laura celebra os ritos. * * ------------------ ------------------ Gerardo Mello Mourão Digo o que vi - pois vi os anjos Digo o que vi - pois vi os anjos montados no lombo das poldras azuis galopando nos potreiros ao redor da cidade - e digo o que ouvi - pois ouvi dizer que as deusas moribundas voltavam à adolescência no crepúsculo e se entregavam aos anjos no lombo das poldras azuis e muitas outras coisas sei de ver e de ouvir dizer sobre anjos e deuses alguns deuses: subi à montante do rio dos jaguares no dorso dos crocodilos e achei a nascente das águas - e escanchado no espinhado dos sáurios passei a divisa das águas - perguntei todos os caminhos do mar ao abismo à espuma à latitude e à longitude - pois habitei minha própria lonjura e meu álibi: a corrente das águas carregando a imagem de meu rosto por onde a figura se configura - pois habito meus próprios álibis: ali estou onde desejo estar - e desejo o caminho de teus rastros onde confinado e livre confino o mundo - pois o prisioneiro engenha a liberdade - engenheiro do dia e da noite aloeste a sudeste a nornordeste e quem queira encontrar-me há de seguir a rota dos abismos - pois incola do abismo - o abismo é meu porto e minha pátria ego poeta cidadão do abismo pois mordi, Apolo, a fruta de teu nome e, conheci o sal e o mel e o vinagre e a pimenta da palavra - o sangue dos seres e das coisas e seu vinho e sou o bêbado dos abismos onde veraneio os meses entre demônios cartomantes: - um moço louro a traição periga há uns papéis confusos longas viagens dinheiros curtos a mulher morena em lágrimas uma solteira uma casada e lágrimas pela porta da rua outra mulher mais outra empalidece e treme o valete de espadas uma ruiva pela porta da. rua por onde as já citadas lágrimas risco de morte uma herança uma estrela seus astres e desastres: - "embaralhe o baralho" - e a mão astuta arqueava as cartas e embaralhava os naipes descia ao abismo de seus signos cercado de profecias por todos os lados pois enxergava sempre a musa ali e o coração estremecia aos olhos da pythia alcovitada - e às vezes fulgurei em seus olhos e em meus olhos conheci minha verônica - pois o que sei de mim sei por uma sibila, pelas cartomantes pelas ciganas rastreando as linhas de minha mão e o que sei do mundo é o que sei de mim pelos profetas é o que sei de mim por ouvir dizer é o que sei dos defuntos na lívida escritura de seus rostos hirtos entre cravos e rosas quando meus olhos se agoniam sobre seus pergaminhos - entre o hieróglifo de seus dedos rúnicos e o silêncio pulcro de seus lábios rupestres Mas um dia rompo o meu silêncio - e as rosas começam a cair de minha boca as rosas e as estrelas e os circunstantes atônitos me tiram reverentes o chapéu e dobram os joelhos e me beijam os pés e quando se erguem escarnecem de mim e de si mesmos pois já não se vê mais que a poeira de um rastro a aparição e a desaparição - e as rosas voltam a fechar-se em seus botões de silêncio diante das estejas apagadas pelo sopro do vento e sou apenas o que fui - e fui apenas o que serei na boca dos profetas dos contadores de lendas eterno toda vez que as cartomantes inventem ao olhar de uma trêmula mulher o perigo de um príncipe a caminho e na palma da mão entre o monte de Vênus e a linha do destino - o presságio de meu nome alegrará um coração que espera a chegada da esperança. Não sou - já fui não fui - serei serei o que teria sido num país que carrego nas pupilas ego, poeta, Pigafetta meus olhos pisam meu chão e caminho pisando os próprios olhos meus pés escrevem no celeste espaço com o coruscante stil nuovo do pentestrelo minha bitácora - pois escrivão de Capricórnio tenho por nome meu pseudônimo -Caramuru ou Monteverde? - * * ------------------ ------------------ Gerardo Mello Mourão Olho com olho Olho com olho tua pupila dura sobre a beleza feroz de tua boca acompanhou meu canto - e não sei se pouco a pouco ou de repente começaram a nascer em tua pele umas flores azuis - e brotaram em teu rosto e invadiram tua cabeça e cobriam teus olhos e teus lábios e cresciam em tufos nas orelhas e se abriam sobre as narinas e a nuca e o seio e as pernas e formavam uma touceira de madressilvas onde eram antes os ásperos pentelhos e os beija-flores e as abelhas acendiam a tesoura de suas asas fulgurantes e sorviam o mel em teu semblante rosa - margarida - violeta e eu disse em vão teu nome - pois as corolas cambiavam de cor à minha voz Açucena e Magnólia e às vezes te desabrochavam da cútis milhões de miosótis multicores - e outras - eras toda um girassol de ouro - pois de tua pele estão nascendo flores - de tuas virilhas o antúrio vive - e um dia de teu hálito à tua voz se irão compondo nos lábios os gerânios rosas-moiras e grinaldas. de lavanda silvestre - e ao teu aroma brotarão de meus dedos e de meu umbigo e do sexo farejante narinas insaciadas Pois começaram a me nascer narizes por todo o corpo e me passeias os pulmões e aspiro e inspiro tua presença odorífera - e a doçura do orvalho orvalha agora as violetas onde fora a dura pupila de ouro Também contemplo as tuas dimensões pois ás vezes também me nascem, Godo, dois miserandos olhos sobre a nuca e quando pergunto o meu futuro responde o meu passado e quando contemplo o meu passado vejo o meu futuro - e assim caminho e sou eu mesmo a minha própria órbita mísero misérrimo vazio e cheio de misericórdia misericordioso pranto cerca os horizontes e arrastando-me na areia arrasto um Deus pelos cabelos e interpelo Apolo, Apolo mostra ao cego iluminado onde o passado começa e o futuro termina pois o mísero poeta prisioneiro nem de seu passado nem de seu futuro se liberta e em vão vê o cesto das horas encher-se em vão da água de seus dias Uma noite a rapariga de Serajevo apontou-me os Balkãs e por vinte dinars começou a ler a minha mão esquerda ao pé de um poste sob a lua de repente calou-se e passou a ler em silencio - ou rezava talvez - e começou a chorar - e as lágrimas caíam de seus olhos ciganos e o pranto vinha de longínquos países e ela banhava com ele a minha mão Perplexa e beijava e enxugava em seus cabelos e eu não sei de outra palavra senão a que naufragou em sua pupila e se despedaçou em seu soluço quando o cálamo vivo de seu dedo se erguia do mapa de minha palma e apontava no ar não sei se as serras dos Balkãs não sei se as serras da Lua não sei se os montes de Vênus ou. as estrelas de Capricórnio E assim, amor, em teus olhos transidos tenho lido a estrofe e a catástrofe de minha peripécia: velhas terras me envenenam os pés sobre o fio dos passos me devolvo del mezzo del cammin e não me perco na selva escura onde, Ariadne, o chão musgoso guarda a memória sábia do caminho me Venerem quarente per talos et paludes: pela planta dos pés me envenenaram esses doces venenos e rorejo dos poros o suor deste mel - e das pupilas oh dulce lacrymarum donum in quo salus salus mundi salutat - pois Apolo Apolo pai, Apolo filho, Apolo pneuma caminha só entre as estrelas nos outubros salubres do país. * * ------------------ ------------------ Gerardo Mello Mourão Jà vou atravessando a província formosa e a Musa Jà vou atravessando a província formosa e a Musa é contígua aos países longínquos: o prisioneiro é aquele que era livre o morto o que era vivo entre o cão e o cano linheiro da espingarda o caçador alinha o olho sagaz e a narceja selvagem tomba do azul do céu a asa pendida de seu fio de sangue - e sempre por um fio de sangue Eleutheria Ariadne convulsa a liberdade encontra o caminho da morte - poeta solus poeta tantum - só o poeta pranteia sua bela narceja derrubada na paisagem lacustre: maldito seja o estampido maldita seja a mão que afaga o gatilho e a pupila que endurece à pontaria maldita seja quando o tiro quebra as asas aflitas e ao peso da descarga de chumbo a flor alada se rebenta no chão e cai come corpo morto cade Já peregrinei essas províncias formosas vi a lua romena sobre os Kárpatos e as colinas dos Kárpatos onde os monjes serenos de Sinaia e o pátio de seu mosteiro sobre vales e colinas da Transilvânia montada em sua cítara de nuvens - vi a lua e a branca mão de Artemis sempre virgem caçadora de estrelas fere a noite no firmamento azul a seta sagrada e pulsa o coração da luz: ali quem sabe, Apolo, para teu rastro um rastro pois tu mesmo foras talvez apenas o buscador de teu próprio rastro pousam primeiro os olhos no caminho e ali onde pousaram pisam os pés nas pupilas onde ao chão da relva virgem se sugere o rastro que virá: e assim andei a Dácia e a Trácia e o Ponto Euxino e na montanha búlgara à chama crepitante desse rastro arderam calcanhares - e o vento desmanchou em cinza a pulcra perna varonil: não já sobre teu pé - sobre teu rastro se lança o corpo divino as estrelas desabrochavam da terra, Jonathan, e os firmamentos caíam dentro de um oceano de jardins: pois consultei as rosas de outono da Bulgária e os cravos de Istambul e naveguei o Bósforo o Mar Negro e o Mar de Mármara esse Ponto Euxino onde Ovídio Publius Ovidius Naso poeta fuit - e velejei as costas da Dardânia onde foi Troia onde Heitor domava os cavalos e onde a corda de tua lira regia a lança do mais doce dos homens - do guerreiro puro - Naveguei o Adriático e o Tirreno o Egeu e o Mar da Jônia e o Atlântico e o Pacífico e as ilhas e as antilhas e o mar do Caribe e o Mar do Norte e o Mar Mediterrâneo e o meio das terras e as terras ignotas e as terras filiorum dei e cavalguei o lombo do Ontário o São Lourenço e o Amazonas e o São Francisco e o Mississipi e o Paraguai e o Paraná e o Prata e as cataratas e os outros lagos e os outros rios o Danúbio e o Tibre o Jaguaribe e o Sena e o Pó e a ribeira do Arno por onde caminhava o poeta e o Reno e o Meno por onde cantava o demente divino e o Tejo de onde celebrava Camões as caravelas rumo aos mares nunca dantes navegados e às ilhas nunca depois reencontradas onde as ninfas se entregavam aos guerreiros enumero os caminhos - e seus nomes celebram a viagem aos tempos matinais pois navego a matina dos tempos onde apenas o som da lira e os cabelos de Melpômene vestiam a glória fálica de teu corpo nu na escritura do chão a memória de meus pés das serras do Ceará Grande e Mel Redondo às serras de mel do Himeto - pois pisei a água e o solo e não pisei a flor o anjo a oliva nem os filhos dos homens e odiei os lugares do ódio e os lugares do sangue sobre o chão dos algozes me cravei de espinhos e busco os caminhos do amor Esta é a memória de meus pés por onde a liberdade peregrina - por onde as columbas arrulham a paz por onde os adolescentes colhem as belas raparigas que adormecem nuas - por onde corre o vinho alegre e os homens e os deuses bebem no mesmo copo à saúde dos pássaros das colinas dos lagos e das árvores das cidades das ruas - à saúde dos circunstantes e dos transeuntes: Até breve, Apolo.