Gerardo Mello Mourão Naquele Tempo Naquele tempo chiava o ferro no quarto dos bois e o gado do capitão mugia gordo nas soltas dos Mourões e as cabras eram assinadas na orelha e as éguas e os jumentos ferrados e o ferro negro marcava o gibão dos vaqueiros, os bancos da alpendrada, a aroeira dos currais de tronqueira e as camas de couro cru onde nascemos e a marca dos Mourões marcava homem alimária e coisa naquele tempo: cabo de osso do facão mateiro coronha do rifle papo-amarelo lâmina do terçado de três palmos e este é o ferro de meu avô e Estêvão ferrou com ele a testa do cabra Amarante no Cabaret Iracema, sertão de Crateús e João Mello ferrou a bochecha de um senhor de engenho no caminho de Águas Belas e Antônio ferrou a banda da bunda do sírio David em plena feira de São Gonçalo dos Mourões a outra banda fora ferrada por Alexandre num terreiro de engenho, Canabrava dos Mourões e este é o ferro de Josué nas vacas de Água Verde e com este desenho de meu avô tenho ferrado o corpo da viola em que te canto as cantigas que cantavam os machos à janela das fêmeas no país dos Mourões in illo tempore. E caíram as chuvas e rompeu-se o ferrolho das tempestades e os rochedos rolaram no tempo e abriram-se as sepulturas e a gravura de fogo permanece na tampa do baú na tampa do caixão dos mortos além do tempo e o tempo aquele tempo marcado pelo ferro dos Mourões e o lombo do touro em que viaja teu alvo corpo de cintura fina entre o peito e as romãs floresce a possuída marca a negra flor à sombra do longo cílio à luz dos olhos verdes. Herdei o ferro em fogo - herdeiro e do ferro e do fogo fazenda, cabedal, moeda gasto ferro e fogo na compra das noites e dos dias e das fêmeas na compra da lágrima e sorriso e compro eu mesmo a minha própria dor e lavro o mármore do chão de viver e do chão de morrer marcada a letra a fogo e ferro a mão de minha raça sobre o lombo da pedra: Vexilla Regis ao seu campo de prata a flor de lys de ferro em brasa de ouro na lapela no anel de brazão no quarto dos bois e dos cavalos na barriga do barril de aguardente de Benedito Torres, São Miguel dos Campos, no país de Alagoas, no passaporte no casco do navio e em volta da branca flor de teu umbigo no rastro de meus pés por todos os caminhos Mourão. Gerardo Mello Mourão Vem, formosa mulher Vem, formosa mulher, camélia pálida, que banharam de luz as alvoradas, vem com teus olhos verdes desvairados abertos para a vida e para a morte abertos para o amor mais forte do que a morte nel mezzo del cammin Ihr Goldnes Geschmeide o fósforo de teus olhos esverdeia as madeixas de ouro verde flor de um país de esmeraldas serene o vento à volta de teu caule quadra 51, sepultura 68.061 e pétala por pétala levanta-te anja nua, anja verde, anja de ouro, santa pássara Maria Helena Maria Helena Marques do país goiano do país de Eleusis do país de Orfeu das catacumbas de meu coração por onde iremos para a lua óbito 64.239, Livro 231, Fls. 101 do mel das tardes longe no cemitério de São Francisco quem viu Maria Helena aquela noite quando um deus se sentou à beira de seu leito quando o amor mais forte do que a morte fixou para sempre nos olhos o olhar que nunca mais o riso, o hálito, o cigarro e em cada brisa o sussurro e em cada luz a sombra de sua voz e de seu vulto: Irreparável companheira e quem, se eu chamasse, dentre os coros dos anjos partiria senão tu, querubina dolorosa, anja perdida achada no caminho: vem, pois, com teu andar de corça e teu susto de corça e o susto sempre verde de teus olhos, Nena, Nenita, Nena, aliás, Maria Helena, não, Nenen, vem, formosa mulher, camélia pálida que banharam de luz as alvoradas por quem a noite e as águas de Copacabana nas manhãs de agosto perguntam sem cessar por quem perguntam minhas noites todas minhas mãos no ar em jarro erguidas caçando seios e ancas e minha boca e as narinas acesas Eurídice! Eurídice! não te diga morta a memória do tato a rosa entre as virilhas afagada a língua trêmula, o coração no pênis não te dizem morta o inesquecido aroma a nuca os tornozelos O telefone ansioso e o olhar de ciúme e este morir a gotas me sabe a miel pois me levam os passos cada dia ao teu encontro e cada dia é bom: me aproxima de ti, anja imolada, para juntos partirmos e ficarmos, pois quem, se eu chamasse, dentre os coros dos anjos me ouviria, senão tu, bem amada irreparável? Um dia levou a mão ao coração e o dedo entrou na terra úmida do coração; e disse: aqui jaz Maria Helena Talita Cummi! Muitas vezes saímos com Toulouse Lautrec e outras com Degas e Sônia e Laura, a de Punta del Este: colecionávamos olhos de bailarinas e elas diáfanas libélulas de nylon rosas de biquíni borboletas despetalavam-se do palco ao camarim onde apenas restavam as gemas de seus olhos e eram negros os de Marivalda atlânticos e azuis os de May Marcinelli castanhos os de Dora e os de Gisela Greco ora cinza ora verdes mas verdes desse verde verdes nunca mais do que os teus e nunca mais. Basta de bíblias, de mitologias e de putas Godo, de Paris, aonde foi no êxodo do Chile; e foi cantando salmos com os outros mancebos incólumes no meio da fornalha e entre labaredas Apolo cozinhou-lhe sua puta sed non satiatus a uns sacia a vida e eu não me saciei de mim e de Diana de Éfeso me parto aos efésios de Paulo e os deuses me interrompem no caminho de caçar as putas nos logares altos de Ravenna testemunha Giovanni no exílio de Ravenna na uva de tua boca o sal do exílio não toldava o vinho e eras na terra estrangeira, Nena, a única embriaguez a que o sal do estrangeiro não lograva amargar e da verde semente de teus olhos brotou uma açucena quadra 51, sepultura 68.061 e comecei a raptá-la ao carregar no lombo teu corpo memorável e teu esquife e eu me empenho na ressurreição da carne de Afrodite Helena minha amante testemunha da noite e das estrelas testemunha de mim, de Deus, da Virgem e da Sibila a povoar em Delfos o coração dos adolescentes com as faces de Febo e de Atenéa. Agora tu, entre o linho da mesa e o linho d'alma entre lágrima e sorriso e dedos hábeis o espanto de seus olhos e na tela refeita e já desfeita não se desfaz o rosto: não temas, não és tu: Dona úrsula Mourão, da Canabrava dos Mourões, mandou cortar os lábios da cigana e os peitos de Maria Antônia e os olhos do Coronel doíam de saudade sobre o canavial e as novilhas e as dornas de angico de suas aguardentes: filha de minha raça tu te ocupas de aprender o amor e quando eu vou és tu mesma que vais aos meus tratos com Circe e com Calipso e meu hálito é sempre presente em tua nuca por meu nome te chamas e não sabes onde acaba o meu barro e o teu começa ao mesmo sopro: de qual de nós amadurara a polpa de teu ventre por meu nome te chamas e onde sou cabem no espaço o rosto, a graça, o gesto de sobrancelha ou ombro e na tela refeita e já desfeita não se desfaz o rosto que suspeitas e não cortaste a rosa de seus peitos nem se desfaz à lágrima o sorriso por meu trato com Circe e com Calipso e tu mesma debruça-te comigo sobre o rosto dela nesse lago de lágrima aprendendo amor: é o teu, Narcisa, debruça-te comigo sobre o rosto dela e à sua estrela - quem se eu clamasse me ouviria? - o banco do silêncio conduzindo a Delfos Afrodite Helena acesa em tocha o barco do silêncio conduzindo a Delfos e a pungente Sibila voltaria de súbito: Ia fleur de l'églantier sent ses bourgeons éclore, poète, prends ton luth et me donne un baiser e à boca da Sibila a palavra verde nos olhos de Maria Helena anunciada fitarias meu rosto e era o teu fitarias seu rosto e era o meu e entre os espelhos circulares na inumerável companhia a solidão do amor do teu amor . . . . . . . . . Pois também tu que mordeste o favo do amor quem, se tu clamasses, te ouviria para a viagem às catacumbas deste coração? Só os viajantes do país da morte nos diriam tudo. Vamos, Neyde Marçal, à valsa, ao tango? Ao twist do Tanny's, Marilu? Uns vão ao cocktail, ao chá das cinco, ao circo, ao club, talvez cruzem na escada e não se encontram e a valsa e o tango e o chá das cinco murcham nas torradas secas: tu que ousaste com teus passos com teus olhos verdes conhecer a margem do caminho só tu de torna-volta nos dirias Maria Helena do país de Eleusis pétala que foste, bailada sombra arrancada da boca: dessa pétala é nossa única esperança de flor dessa sombra a única memória de sorriso dessa boca a única... e súbito te encontro e súbito te perco e do achar-te e perder-te vivo e morro em serenata e nênia. Gerardo Mello Mourão Iam Caindo Iam caindo: à esquerda e à direita iam caindo; Alexandre e Francisco, meus bisavós tombaram, O primeiro com sua farda de gala, seus botões de ouro e sua patente de coronel e o outro com sua barba nunca mais alisada e sua bengala de castão de ouro. Antes, caíam hierárquicos e cronológicos: Manuel Martins Chaves na prisão do Limoeiro, Ana, Eufrosina e Úrsula Mourão, da Canabrava dos Mourões, em suas camarinhas cheias de santos, Antônio, com seus bordados de general nos campos do Paraguai, um picado de cobra, outro sangrado a punhal, outro varado à bala, outro de maleita, à esquerda e à direita foram todos caindo, primeiro os que já eram lenda na memória dos velhos, depois os avós de meus avós, porque antes tombavam hierárquicos e cronológicos. Foi assim que tombou, ao lado de seu rifle, o Coronel José de Barros Mello, chamado "O Cascavel", meu tetravô, e depois o Major Galdino, entre seu bacamarte e suas gaiolas de pássaros, depois, meu outro avô, o capitão de cenho espesso sobre a tribo ao talhe de seu tronco frondejando a cabeça de Mellos e Mourões. A esquerda e à direita iam tombando, Úrsula, Francisca e tantas outras, até cair meu pai. Depois, começou a romper-se a ordenação da morte e tombavam os tios e as crianças: Etelberto, com seus negros cabelos lisos, Raimundo prometera devolver à terra o que da terra houvera e tombou nela; Elisa, Elvina e tu, com teus oito anos e tua cabeça castanha; tombaram um por um: Ignácia e Ladislau viveram cem anos e também morreram; tombou Quintino e nunca mais pela estrada de Águas Belas alazão levará coronel tão galante e nunca mais na lua da sela clavinote tão certeiro; tombou Quintino e antes dele porque a morte ia deixando de ser hierárquica e cronológica tombou no Maranhão Francisco apunhalado. A direita e à esquerda iam caindo: Hermenegildo, chefe político e farmacêutico no distrito do Livramento, ainda teve forças para se erguer, beber uma garrafa de aguardente, destruir a farmácia e escrever ao meu avô: "Compadre, vou morrer, os remédios não valem nada quando chega a hora; mando-lhe aquele relógio Patek que você aprecia e a corrente do mesmo, com dois patacões de ouro. Adeus, compadre, Deus o guarde com os seus, do primo ass, Hermenegildo". Outros tombaram sem carta e sem notícia: meu tio e padrinho Antônio Ribeiro deu uma surra no capitão delegado de Polícia e desde a queda do Acioly desapareceu para sempre, como Raimundo Mourão, tombado a tiros num seringal do Amazonas: tinha sessenta contos no bolso, surrara todos os barraqueiros e ganhara num sete de ouros o dinheiro e as mulheres do cabaret: pois morreu, com sua chibata na mão, com seus sessenta contos e com suas mulheres, macho e inquebrável tombou. À esquerda e à direita iam caindo: Manuel Mourão que registrara em seu nome todas as terras do cartório de Ipueiras, dorme nelas: Tobias não tinha terra nenhuma e matava bois no açougue e vivia disso, tombou como um de seus bois; à esquerda e à direita iam caindo homens e mulheres: Tabajara, pai de Araci, Potiguara e Tupinambá, fabricava aguardente e não bebia - morreu abstêmio, mas morreu; o Major Borete Mourão, da Canabrava dos Mourões, destilava a sua no próprio fígado - morreu bêbado, mas morreu; e Dondon e Cotinha e Missanta Mourão, senhora do Engenho Baixa Verde e Gilberto e Toínho Mourão e as primas que morriam de parto e pariam filhos também destinados a cair um dia, foram caindo todos, à esquerda e à direita. E agora sei: não apenas os de meu sangue iam caindo, pois onde estão José Bento e Sinhá e o Coronel Dédo Catunda? Onde está o caboclo Antônio Pixuna, com suas mandíbulas que varavam no dente uma cana caiana? Foram caindo todos: à direita e à esquerda e em todas as cidades Deolindo assassinado por Chico Monte em Sobral, o velho Duíno em Minas Gerais, onde também tombaram outros, Vicente e sua mulher e Fernando no Espírito Santo e em Porto Alegre, com a pensão que lhe dera o Governo, a filha de Antônio, general e herói da guerra do Paraguai, comprava a sepultura, pois sabia que ia tombar, como tombou: e em toda parte e em todo tempo, todos, Bela, Manrica, Sinsa, Torquato, Zezé, Nazária, Aprígio e Waldomiro, Ignácio e Mariana e Atanagildo, à esquerda e à direita iam caindo. E ainda os que encontrei noutros caminhos também foram tombando: esta é a bengala do Coronel Carvalhinho, pai do Senador e avô de Léa: tombou sem ela e Geraldino apagou seus grandes olhos e o jovem sacerdote barroco Caetano partiu-se o grande Cristo de bronze se abatendo sobre a jarra de porcelana azul outrora azul do altar. E tu mesma caíste, eu que te havia por endereço do coração (e ainda cantarei de ti, que agora tenho apenas o espanto da implacável derrubada em que todos vão tombando em toda parte). Em minha casa, em minha rua e na cidade e no país dos Mourões onde eram clavinotes e nos outros países além dos mares, o velho Nicolau, pai de Gofredo, quem sabe Cuca, a tia de Raul, e em Milão e em Berlim e na Provença foram caindo. Apalpa, meu amor, meu rosto apalpa, não tombei: sou eu. Como venho dos mortos nem eu sei, mas sei que na partilha me tocou a herança de sobreviver; vou devorando a terra com meus olhos que a terra não comeu, a terra que comeu tantos olhos e da qual os meus hoje se nutrem. Apalpa, meu amor, meu corpo inteiro, sou macho e forte e em meus ombros de touro porque não te levar na madrugada e atravessar contigo as ruas desertas e as ruínas e as cidades cobertas de hera onde à esquerda e à direita eles tombaram e à beira de um riacho ver teu ventre crescer e irem surgindo já de mãos dadas, já de pés em dança rapazes e raparigas e a cantiga de roda e a flauta de Mársyas e o ritmo de tornozelos e ancas que Sextus Propertius foi o primeiro a introduzir na Itália e trouxe da Grécia para a Itália e Ezra para Idaho e das ruínas das cidades ver surgirem os pastos e os pastores da pedra das palavras? Teu poeta e teu macho te carrega nos ombros e à esquerda e à direita onde tombavam antes, como um mágico de uma cartola irei tirando de teu ventre inesgotável os que não mais cairão, os que se irão à esquerda e à direita incorporando. Pois apenas esperavas a chegada de teu macho; diz agora: era assim que o querias, o vencedor da morte, o que enrijou os músculos almoçando e jantando a medula dos homens e das fêmeas que à sua esquerda e à sua direita iam caindo, era assim que o querias o que venceu a Dor? Sou Eu, Amor, apalpa agora minha boca pronta ao riso alegre, minhas bochechas, apalpa-me o sexo frondoso e fértil e escancha as tuas pernas sobre o meu pescoço: é tempo. "Aos oito dias do mês de Janeiro do ano da graça de Nosso Senhor Jesus Cristo, de mil e novecentos e dezessete, eu, Manuel Guilhermino Moreira, recebi em meu cartório o Senhor Capitão José Ribeiro Mello que, acompanhado das testemunhas abaixo, declarou o nascimento hoje, a uma hora da madrugada, em sua casa, à Rua Padre Feitosa, nesta Vila de Ipueiras, de seu neto, o Inocente Gerardo Majella, do sexo masculino", etc. E aqui restei: não venho introduzir a dança na Itália, trazer a dança da Grécia para a Itália ou para qualquer outra terra de Europa: sou o inocente do sexo masculino e venho do país dos Mourões comunicar-te a inocência e o pênis erguido em lírio vertical e puro sob os céus da Etrúria, sob os céus da Toscana, às margens do Arno e junto de Fiesole e San Minniato, sobre os campos de Florença como o lírio que deu nome à cidade e com que o rei de França agraciou as armas da cidade. Ao pênis de ouro que se erguer do lírio, a rosa de teu ventre se abrirá, e onde o touro pisar no chão dorido, a rosa de teu ventre se abrirá, e onde o lombo do touro se reclinar contigo, a rosa de teu ventre se abrirá ao pênis de ouro que se erguer do lírio e der nome às cidades e agraciar as armas das cidades. Wovon kommen Sie? Jawohl, Fräulein, na noite em que eu chegar hás de ver tua aldeia renana acender nas alcovas a alfazema antiga. Wovon kommen Sie? Mas da alfazema e tua aldeia me suspeita há séculos: esperava por mim a rapariga que acendia os olhos e a lanterna de ferro sobre o portal da Hospedaria "Ao Cavaleiro de Koenigswinter": eu era sugerido às raparigas esperando a noite e quanta vez sonharam distinguir-me na lonjura entre as tulipas e o trigo e as espumas do Reno e luar dele sugerido o süddeutsche Nacht! o Heidelberge Nacht! quem sabe eu chegaria a bordo de urna brisa, de uma folha de outono, moreno e torneado ao sopro daquele tocador de flauta de louça à porta do castelo de Brühl. É certo que outros tentaram chegar antes de mim, mas não me confundiste com eles; de outros - nem os conheceste nem te conheceram, o velho gangster não montava um cavalo do Texas: na garupa da cadeira de rodas grunhiu: "nossa fronteira está no Reno"; Beethoven surdo em sua casa de Bonngasse ergueu-se e ergueu ao ouvido sagrado o corno acústico e o uivo do bárbaro não era nem seu nome será em nosso idílio. O nome dele, sim; veio de Hailey, Idaho, U.S.A., a 30 de outubro de 1885 e em seus ombros, amada, partirias: era belo demais e foste tu que rendida a seus pés deste a garupa e o raptado raptor - ó delícias de Cápua - divino gigolô lambendo os seios da deusa ao fim do outono, nas mãos do Pan de Idaho reencontra o verão ao céu toscano, Rapallo azul e a primavera à voz do Pan de Idaho: e o que te pudera arrastar às ilhas puras embala-se contigo en los Cantares dolci canti pisani in blood and blue e a minha rede, a rede do filho dos Mourões entre a torre de Pisa e a de Giotto sopro de campanile se balança il nostro Cavazere fú: e ali virás para a última sesta latina e onde o lombo do touro galopar contigo a rosa de teu ventre se abrirá ao pênis de ouro que se erguer do lírio e der nome às cidades e agraciar as armas das cidades. O Abendland, Abendländische Elegie! Velho profeta alemão, vidente de olhos cinzentas, teus olhos cinza em cinza desmanchados, toldam de cinza a paisagem: olha a nua banhista, esverdeadas peras, olha a dança, olha o elegíaco nada, o nada de elegias e à madrugada entre as virilhas olha amanhecer o macho: sou eu e em meu louvor maduram-se laranjas e ananases, em meu louvor as ondas bailam no oceano e sob a verde umbrela dos coqueiros Passo de Carnaragibe, os cocos se arredondam em meu louvor e os cantadores na feira de São Gonçalo dos Mourões, da Canabrava dos Mourões e os cegos e os videntes e o gitano andaluz entre o Atlântico e a montanha empreendem na viola a minha louvação: e Hans Carossa, na aldeia hamburguesa, o último hálito sopra dos olhos a última cinza, compõe no próprio rosto a própria morte em meu louvor. E meus olhos assíduos a defuntos como a vivos começam a apalpar-vos: quem será testemunha senão vós de partida e chegada? E que sou eu senão a celebração de meu rosto e que é meu rosto senão a beleza que o amor talhara nalguns olhos? Sempre os deuses precisam de um lugar e de uma companhia: assim eu sou: é sobre a terra de meu pai que me levanto agora e a tantos que à esquerda e à direita lhe caíram, eu os chamo e suplico: e altar e coro se incorporem e assim eu sou: celebrado celebro dia e noite a terra e as águas e as pessoas e assim eu sou. Gerardo Mello Mourão Pois entre brisa e brisa deixei de navegar Pois entre brisa e brisa deixei de navegar em barco de silêncio: tu, passaramagda, passaralena, pássara de água em minhas mãos desfeita, tu, se as flautas te soprassem - voltarias? Ou tu, passaraléa, pássara de água em pétala e milagre, cataléa asa pétala pássara de água em pétala e milagre de pétala g u a quem sabe deste sopro para sempre pássara de vinho no cristal das curvas deixarias bêbado o coração em cântaro durar-me? E tu, não tornarias, pajem, de teus coros e da lágrima tua e deste sangue, quem sabe um distraído querubim não inventara o sangue que nos falta? E vós, que de meu hálito uma noite respondesses à dança e florescestes - repetireis a face que vos trago? Continente de vivos e de mortos, eu vos quero chamar a leste, a sul, o pai em cuja boca a relva cresce, o irmão que dorme sob a madressilva e tantos que fiz meus: aquele adolescente, certa vez, de tantos mares vindo para apagar o verde de seus olhos entre as flores da ilha, numa carta qualquer. Desabituado o infante do materno peito, Onde era o seio sobre o busto ao longe arredonda-se um cáctus; e onde o lábio do infante aponta o espinho agora e sua dor a lágrima endurece nos teus olhos: que há entre mim e ti, mulher? Píetá! Pietá! Da rosa eu sei o nome e o nome sei da primavera e digo: e a rosa e a primavera são com todo o seu aroma; pois entre brisa e brisa navegamos em barco de silêncio cantarei as partidas e as chegadas, Bárbara, a estrela, Estêvão, quando a luz em viagem se esqueceu da morte, a estrela d'alva cantarei, Gonçalo, e a madrugada ao mar, Antônio, o trabalho, Efraim, das velas e das cordas e os corsários, Raul, e os bergantins, nossas bússolas bêbadas, Gofredo, Ipueiras e Rios de Janeiro e maios e Congonhas e profetas de pedra, Francisco, acordados da pedra ao cantar do galo e confissões e carcereiros, Curt e capitães e padres e sambistas e tripulações de freiras e meliantes, Napoleão, Napoleão, e cantarei contigo, Abdias, as mulheres sem nome, o menino, o apito do navio e o tédio do convés e as garrafas de gim, ó Paulo Fleming, Paulo de Manola. Dizei pétala à pauta da memória e a flor ensaiarei à flor da boca; dizei uva e nas taças da lembrança o vinho espumarei embriagado; e os estrangeiros no triclínio atônitos perguntarão se o menestrel de vós seria a sombra, a flauta, o pai, o filho que inventado talvez vos inventara. Gerardo Mello Mourão E a duração do lírio fora um hálito E a duração do lírio fora um hálito, o lírio, Geraldino, de cristal, que te floresce sobre a sepultura; o lírio, Telmo, que em teus olhos pálpebras apascentam de pétalas no claustro. E no entanto durara: ao tempo quando a madressilva não temia os pés desabrochados entre margaridas e a mão sabia a dança que hoje não. Era não distinguir do dia a noite, entre uma lua e um quarto errar em casa, morar nas mangas e nas rosas hóspede e ao pássaro alugar-se de repente. E alugavam-se ao vento os calendários, as datas e os ponteiros do relógio sucediam-se pétalas de espátulas alugados aos ventos os ponteiros giravam girassóis de cataventos. E a duração do lírio fora um hálito. Gerardo Mello Mourão Balbuciei-lhe o nome e na penumbra Balbuciei-lhe o nome e na penumbra esboçaram-se os olhos e os cabelos e a boca e o gesto demoraram juntos no espaço de onde ainda não resolvera despedir-se o Anjo esboçaram-se os olhos e os cabelos. Balbuciei-lhe o nome e na penumbra ia sílaba à sílaba o seu rosto ousando a testa os lábios as maçãs; das sobrancelhas o arco confundia-se à auréola às asas quando balbuciei-lhe o nome na penumbra. A boca e o gesto demoraram juntos tal na mesma corola cor e aroma e eis que o mesmo logar no espaço a um tempo ocupavam os dois: o Anjo desatava na garganta o nódulo do infante com seu módulo. Começava a crescer; e as raparigas e as cirandas à noite, ao canto em roda iam acostumando o gato a rosa a conhecer-lhe o nome e o meneio do corpo ao atender à laranja à cantiga à blusa azul. A blusa azul do marinheiro à porta foras talvez o Anjo de Tobias que voltava em criança disfarçado para a minha viagem foras quem sabe uma resposta ao céu criança mesmo - disfarçado em Anjo? Foras quem sabe uma resposta ao céu onde demoras desde tantos maios acostumando a lua a estrela a nuvem a conhecer-te o nome e a decorar teu gesto de atender à laranja à cantiga à blusa azul. Ia sílaba à sílaba o teu rosto compondo a melodia de teu nome: se nele se empenhavam brisas deuses e garotos da rua eu mesmo desatei na minha boca o nódulo do infante com teu modulo. E um dia eu te chamei - ia chamar-te e na escala da boca o solfejo do nome nas cordas da garganta o roto violão quebrou-se num soluço: tu entre as flores tu entre as velas tu entre as mãos cruzadas sobre o peito tu entre o azul e o roxo e a palidez ao longo desse lago de cedro tu entre o dobre dos sinos já flor já bronze à brônzea flor da mesa tu nunca mais. A boca branca erguias para sempre a palmeira da primeira solidão. Branco embora o bangalô da morte e a cruz coberta de madressilvas e de primaveras como amarias como cruzarias salas e camarinhas enterrado? Tu que amavas paletós botinas amarelas e cavalos tu que amavas o rio e a poltrona da avó e um copo de alumínio e os potes de água fresca tu súbito a boca cheia na véspera de risos a boca cheia de terra cheia de raí Gerardo Mello Mourão Hei de buscar teus cabelos de trigo Hei de buscar teus cabelos de trigo no ventre de uma amante e repetir no ventre de alguma filha de um coronel do Báltico os teus olhos azuis, tua brava estampa, a poderosa mão, o cenho espesso sobre a tribo e sobre o talhe de teu tronco onde frondeja a cabeça de Mellos e Mourões: entre o rifle de coice na botina e a codorniz tombada te situas, José Ribeiro Mello, capitão de Floriano e coqueiro frondoso de Mellos e Mourões. E múltiplo e coral te cantarei achando-me e perdendo-me em teus gestos e brotando inumerável de teu tronco por onde a seiva de meus filhos borbulha na torrente de capitães-mores e barões de Holanda, de caciques da raça Tabajara, de pontífices, mártires, bandidos, nós, do Conselho do Mourão no Alentejo, nós, Carvalhedo, Araújo e Martins Chaves de Penedo, Alagoas, nós, da Capitania de Pernambuco, nós, Vera, nós, fidalgos de Utrecht, Holanda, nós, filhos da índia preada juriti na aldeia potiguara, nós, do regaço e do leite das princesas de ébano da Serra Leoa, o sexo alegre do baluba sob a alvura da tanga, nós, senhores de engenho, padres, bandoleiros, nós, orgulhosos do Coronel José de Barros Mello, chamado o Cascavel e do bacamarte de Alexandre Mourão com seus quatorze entalhes na coronha, Pela picada de teu engenho no pé da serra é o caminho do mundo. E canto em ti, com seu sobrinho Antônio, aquele coronel das Ipueiras, avô de meus avós que me legou a soberba ferida do leão na jaula por amor de elegâncias de sua condição de cavalheiro: de Manuel Martins Chaves aprendi a erguer sobre os calabouços a cabeça viril e cuspir no marquês, no general, no rosto do juiz Ao teu afago rude parecia talhar-se a cabeça do infante em tuas mãos: de tuas mãos recolho a herança que me deram os pais de minha raça: a mandíbula quadrada e o gosto das velhas aguardentes e das putas e o gosto das pistolas e da morte e dos assassinos e dos assassinados e os espantados olhos assíduos a defuntos como a vivos. E era uma vez o hercúleo avô de olhos azuis e ensinou a preparar a vida e ensinou a preparar a morte e a morte avançou a labareda de sua coivara lenta e implacável: primeiro, lambeu suas pernas de gigante, subiu pela poltrona e lhe alcançou as mãos, projetou-se em seus braços, em seu rosto, até erguer-se trêmula em seus olhos azuis e abater-se no breve telegrama. Àquele afago rude uma cabeça um coração talhou-se: vita hominis super terram militia - ex libro Job - e é bom ser bravo e é bom o olhar felino enxergar o caminho da noite e é bom poder o ouvido sábio conhecer ao longe a pisada da morte. Madame Sosostris, Eliot, T.S. Eliot e o velho Major, seu Né das Águas Belas eram de profissão adivinhões: mas tu, tu eras uma vez e era contigo e eu o guardo na viagem talismã à branca amada que carrego no espinhado o logaritmo da vida e da morte gole a gole saboreadas. Quem sabe eu não viajo senão para trazer teus cabelos de trigo do ventre de uma filha de um coronel do Báltico e teus olhos azuis, tua bravia estampa repetir no tempo? Gerardo Mello Mourão Exilado e Romeiro ia Crescendo Exilado e romeiro ia crescendo em idade e desgraça e às vêzes graça sôbolos rios, sôbolos montes, sôbolos dias romeiro ia crescendo crescendo juntos a lira a tiracolo, o revólver nos quartos o falus-potro, os merencórios olhos E era uma vez Pedro Simão, dito Bar-jonas e tocava berimbáu e dava saltos mortais na beira das calçadas e morreu num duelo à faca sôbre o vagão do trem veloz entre o Ipu e as Ipueiras e, o coração varado, o corpo nu produziu o verdadeiro salto-mortal e era formoso e odorífero o súbito cadáver entre as touceiras de capim-cheiroso: assim morreu Pedro Simão, dito Bar-jonas, filho bastardo - diziam - de um Coronel da raça dos Mourões e Gesuino morreu num domingo de feira de uma só morte com seu primo Laureano Mourão e os dois amavam a mesma prima de olhos redondos e dourada pele e juraram lutar por ela até morrer e um ao outro amarraram o loro ao cós das calças e o cinturão e os corações jungidos as rutilantes lâminas cruzaram nem se afrouxava punho e as parnaíbas de cabo de osso faziam parte da mão e durante tres horas de luta a prima atônita hesitava escolher e a morte atônita hesitava entre o tombo dos corpos envoltos afinal num só lençol: pelo mesmo sangue se banharam a mesma lágrima os chorou nos olhos de Francisca e o mesmo túmulo acolheu o caixão de pau-d'arco das matas de Água Verde: entre cargas de rapadura e cangalhas viradas entre surrões da branca farinha da serra, entre ancoretas de aguardente do Major Borete Mourão no chão da feira de domingo dia de quermesse e leilão no patamar da igreja assim morreram Gesuino e Laureano Mourão: causa mortis - os olhos de Francisca e é por olhos de fêmeas que partimos os filhos dos Mourões às romarias da vida e às da morte: vem, formosa mulher, camélia pálida, vem com teus olhos verdes marinheiro a ora sôbre eles quem não vira a jangada, o cisne e o touro à beira-mar na angra de esmeralda do país de Apolo? Dormem Elisa e Eufrásia e meu pai dorme sob a cruz de ferro e um dia de seu pampo estradeiro Zacarias rolou: e a moita de cidreira que escondera o sinistro caçador de Mourões guardou em seu perfume o corpo ensanguentado e o gibão de couro e ao aroma do sangue e da cidreira comecei a narrar ao olfato, amor, a lição da violeta ao ar de Eleusis ah! deixa-me pastar a herva em tua mão, e aspirar quanto possa a flor divina em tua nuca de ouro em teus dois peitos gêmeos de ouro: das moitas de cidreira sou caçado e ao aroma silvestre e à morte rude cheira o corpo dos machos no país dos Mourões e Zacarias, senhor de engenho das Vazantes e da Várzea Formosa carregava na cabeça um chapéu de couro de oito quilos de peso e meses e anos o chapéu parecia de bronze espetado sobre a cruz das almas à beira da estrada onde tombou seu dono: pesa a memória na cabeça dos machos da raça dos Mourões e o peso dela dá sombra às sepulturas onde floresce a flor vingada de meu nome; com esta flor na mão ao teu encontro ao longo dos dias e das noites me parti * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * Gerardo Mello Mourão Distrito de São Gonçalo, velho Distrito de São Gonçalo, velho Distrito de São Gonçalo dos Mourões, não já no pé da serra, como as Ipueiras dos Mourões e a Canabrava dos Mourões: no alto da serra de São Gonçalo dos Mourões, cordilheira da Ibiapaba, o cemitério sobre as alvas areias de cristal: aqui jaz Dona Úrsula de Barros Mello, aqui jaz o Coronel Alexandre Mourão Quinto, o quinto de seu nome em sua raça, aqui jaz o Capitão José Ribeiro Mello, aqui irão jazer outros Mellos, outros Mourões e outras palmeiras de suas sepulturas se erguerão; aqui não jazerei - no entanto, fora belo ali jazer à flor de um cactus lúbrico imolado da morta pele alimentar a pele dos verdes gravatás, das palmas longas e no espinho das palmas despontar. Mas tenho que partir e a solidão como o cansaço do amor aos que se amaram desde a ponta dos pés à dos cabelos me ocupa e me dói: são muitas solidões e eu me repito nelas e em cada losango da epiderme alguma de minhas muitas solidões me açoita. É preciso partir: E quem, se eu chamasse, partiria comigo dentre os coros dos anjos? Rafael, o poeta, o escudeiro? Gerardo Mello Mourão Formosa mulher, camélia pálida, Formosa mulher, camélia pálida, que banharam de luz as alvoradas, vem com teus olhos verdes desvairados abertos para a vida e para a morte abertos para o amor mais forte do que a morte nel mezzo del cammin Ihr Goldnes Geschmeide o fósforo de teus olhos esverdeia as madeixas de ouro verde flor de um país de esmeraldas serene o vento à volta de teu caule quadra 51, sepultura 68.061 e pétala por pétala levanta-te anja nua, anja verde, anja de ouro, santa pássara Maria Helena Maria Helena Marques do país goiano do país de Eleusis do país de Orfeu das catacumbas de meu coração por onde iremos para a lua óbito 64.239, Livro 231, Fls. 101 do mel das tardes longe no cemitério de São Francisco quem viu Maria Helena aquela noite quando um deus se sentou à beira de seu leito quando o amor mais forte do que a morte fixou para sempre nos olhos o olhar que nunca mais o riso, o hálito, o cigarro e em cada brisa o sussurro e em cada luz a sombra de sua voz e de seu vulto: Irreparável companheira e quem, se eu chamasse, dentre os coros dos anjos partiria senão tu, querubina dolorosa, anja perdida achada no caminho: vem, pois, com teu andar de corça e teu susto de corça e o susto sempre verde de teus olhos, Nena, Nenita, Nena, aliás, Maria Helena, não, Nenen, vem, formosa mulher, camélia pálida que banharam de luz as alvoradas por quem a noite e as águas de Copacabana nas manhãs de agosto perguntam sem cessar por quem perguntam minhas noites todas minhas mãos no ar em jarro erguidas caçando seios e ancas e minha boca e as narinas acesas Eurídice! Eurídice! não te diga morta a memória do tato a rosa entre as virilhas afagada a língua trêmula, o coração no pênis não te dizem morta o inesquecido aroma a nuca os tornozelos O telefone ansioso e o olhar de ciúme e este morir a gotas me sabe a miel pois me levam os passos cada dia ao teu encontro e cada dia é bom: me aproxima de ti, anja imolada, para juntos partirmos e ficarmos, pois quem, se eu chamasse, dentre os coros dos anjos me ouviria, senão tu, bem amada irreparável? Um dia levou a mão ao coração e o dedo entrou na terra úmida do coração; e disse: aqui jaz Maria Helena Talita Cummi! Muitas vezes saímos com Toulouse Lautrec e outras com Degas e Sônia e Laura, a de Punta del Este: colecionávamos olhos de bailarinas e elas diáfanas libélulas de nylon rosas de biquíni borboletas despetalavam-se do palco ao camarim onde apenas restavam as gemas de seus olhos e eram negros os de Marivalda atlânticos e azuis os de May Marcinelli castanhos os de Dora e os de Gisela Greco ora cinza ora verdes mas verdes desse verde verdes nunca mais do que os teus e nunca mais. Basta de bíblias, de mitologias e de putas Godo, de Paris, aonde foi no êxodo do Chile; e foi cantando salmos com os outros mancebos incólumes no meio da fornalha e entre labaredas Apolo cozinhou-lhe sua puta sed non satiatus a uns sacia a vida e eu não me saciei de mim e de Diana de Éfeso me parto aos efésios de Paulo e os deuses me interrompem no caminho de caçar as putas nos logares altos de Ravenna testemunha Giovanni no exílio de Ravenna na uva de tua boca o sal do exílio não toldava o vinho e eras na terra estrangeira, Nena, a única embriaguez a que o sal do estrangeiro não lograva amargar e da verde semente de teus olhos brotou uma açucena quadra 51, sepultura 68.061 e comecei a raptá-la ao carregar no lombo teu corpo memorável e teu esquife e eu me empenho na ressurreição da carne de Afrodite Helena minha amante testemunha da noite e das estrelas testemunha de mim, de Deus, da Virgem e da Sibila a povoar em Delfos o coração dos adolescentes com as faces de Febo e de Atenéa. Agora tu, entre o linho da mesa e o linho d'alma entre lágrima e sorriso e dedos hábeis o espanto de seus olhos e na tela refeita e já desfeita não se desfaz o rosto: não temas, não és tu: Dona úrsula Mourão, da Canabrava dos Mourões, mandou cortar os lábios da cigana e os peitos de Maria Antônia e os olhos do Coronel doíam de saudade sobre o canavial e as novilhas e as dornas de angico de suas aguardentes: filha de minha raça tu te ocupas de aprender o amor e quando eu vou és tu mesma que vais aos meus tratos com Circe e com Calipso e meu hálito é sempre presente em tua nuca por meu nome te chamas e não sabes onde acaba o meu barro e o teu começa ao mesmo sopro: de qual de nós amadurara a polpa de teu ventre por meu nome te chamas e onde sou cabem no espaço o rosto, a graça, o gesto de sobrancelha ou ombro e na tela refeita e já desfeita não se desfaz o rosto que suspeitas e não cortaste a rosa de seus peitos nem se desfaz à lágrima o sorriso por meu trato com Circe e com Calipso e tu mesma debruça-te comigo sobre o rosto dela nesse lago de lágrima aprendendo amor: é o teu, Narcisa, debruça-te comigo sobre o rosto dela e à sua estrela - quem se eu clamasse me ouviria? - o banco do silêncio conduzindo a Delfos Afrodite Helena acesa em tocha o barco do silêncio conduzindo a Delfos e a pungente Sibila voltaria de súbito: Ia fleur de l'églantier sent ses bourgeons éclore, poète, prends ton luth et me donne un baiser e à boca da Sibila a palavra verde nos olhos de Maria Helena anunciada fitarias meu rosto e era o teu fitarias seu rosto e era o meu e entre os espelhos circulares na inumerável companhia a solidão do amor do teu amor Pois também tu que mordeste o favo do amor quem, se tu clamasses, te ouviria para a viagem às catacumbas deste coração? Só os viajantes do país da morte nos diriam tudo. Vamos, Neyde Marçal, à valsa, ao tango? Ao twist do Tanny's, Marilu? Uns vão ao cocktail, ao chá das cinco, ao circo, ao club, talvez cruzem na escada e não se encontram e a valsa e o tango e o chá das cinco murcham nas torradas secas: tu que ousaste com teus passos com teus olhos verdes conhecer a margem do caminho só tu de torna-volta nos dirias Maria Helena do país de Eleusis pétala que foste, bailada sombra arrancada da boca: dessa pétala é nossa única esperança de flor dessa sombra a única memória de sorriso dessa boca a única... e súbito te encontro e súbito te perco e do achar-te e perder-te vivo e morro em serenata e nênia. Gerardo Mello Mourão Nênia da Sibila Onde agora A forma restauração da rosa espedaçada? Onde o rastro onde o gesto onde a maneira da corola outrora? E bem que possuías. Bem que de teu sopro batidas desprendiam-se e caíam: era o canto, era o aceno a aparição na sílaba caindo de teus lábios pétala à pétala apagando-se a flor pétala à pétala a tua boca o fruto do enigma com seu rumo. Restaria o perfume restaria o ouvido tantas vezes ansioso a espera alguma noite de um rumor qualquer que não sabemos bem: da pedra agora lisa onde palavra e riso foi teu rosto apenas água e limo descem: quem sabe que lembrança de teus olhos de tua lágrima? Ora de fogo ora de água ora de ar brotava e transitava a palavra de Apolo e foi-se transformando tudo em cinza areia soprada e um sino às próprias badaladas gasto e as ondas de seu som desmaiando se esquecem do caminho da volta à cor primeira. Ai! poder trazer-te nos aflitos olhos o aflito coração populoso da mudez dos perfumes e das sombras em busca de seu corpo e sua essência seu número e seu nome. Ai tempos de Apolo tempos de púrpura ao ritmo de teus ombros e teus braços à regência de teus lábios: ai tempos de outrora tempos de púrpura hoje mortos contigo e do silêncio de teu corpo agora como erguer o sudário em que as auroras se amortalharam sobre a tua boca? Eram de ti nas mãos de amantes e guerreiros hexágonos de luz dormirias no bosque, ó dos contos de fada, para acordar um dia e a festa ser de novo? O luar do mistério iluminava os cegos pudessem hoje o príncipe e o guerreiro ao fio de tua voz governar seus cavalos: pelas alamedas nunca se perdiam teus aflitos. Ai de nós, ó morta, a solidão de agora nos diz tudo de nós. Sombras e espelhos dizem de nosso corpo e as mãos no espaço ajustam a resposta das formas já medidas e os abismos nos faltam os abismos de rosas e de lírios: tu, nome de aroma tu, mistério conosco. Junto ao teu esquife debruçados morta - já nada te perguntaremos decifrada e fatal em teu sarcófago: sobre teu lábio agora as chaves são de cinza e do mistério morto o pulso nunca tomaremos: fora belo rasgar os vidros de amanhã ao sopro de diamante dos oráculos. Que importa também fosse insondável abismo a tua voz? Ao mistério o mistério respondera: já ouviste no vale o eco mensurar a trompa matinal dos caçadores: tal na rosa acontece o perfume e a rosa é sugerida. És morta e de teu seio o agouro das estrelas já não bole no coração por onde medram da garganta à boca os musgos e apascentam a pedra do silêncio. Foi banida de nós a noite a mera noite e banidos o medo e a treva e o silêncio da noite em que falavas. Entanto às vezes quantas vezes uma saudade chega e um instante parece noite eterna solidão de eterna noite e teu último poeta fere na pedra a boca súbito, lembrada de teu nome Gerardo Mello Mourão Vem, formosa mulher, camélia pálida Vem, formosa mulher, camélia pálida que banharam de luz as alvoradas tu que ousaste com teus olhos verdes conhecer a margem do caminho quem sabe tu de torna-volta Maria Helena do pais de Eleusis do anjo da morte houveras aprendido o mapa do sepulcro o equador guardado e a latitude onde a sibila dorme e a palavra do sortilégio e da ressurreição: os deuses a conhecem e Lázaro acordou à sua sílaba vinho da uva, água da fonte, luz da estrela emanação do amor ela se diz ao ouvido dos mortos e eles estremecem desatados da morte e do silêncio. Não a ouviste talvez em tua morte tu maestra del amor y de la muerte? Sábio de lembrar-me de seus olhos dela - sábia do amor, sábia da morte sobre as areias do coração não desmanchou a lágrima a planta de seu pé: e nesse rastro vamos e uma noite qualquer é sua voz o pomo do mistério partido em nossas mãos o oráculo. Madame Sosostris, Eliot, T. S. Eliot, o Major seu Né das Águas Belas eram de profissão adivinhões: ela era de profissão a minha amante aprendiz na oficina de seus olhos o oráculo da morta nos espanta e quem se nós clamássemos nos ouviria mais que ela? e atrás de seu caminho de mãos dadas vai nosso amor mais forte do que a morte. No solo las estrellas tienen el pulso del zenith Léa nas mãos dadas apertamos a estrela e a minha profissão é o teu amor e a tua profissão é o meu afago pousa o dedo no lábios da cigana e surge musa única musa vera única mais bela - morena e magnífica - sobre o dorso dos ventos que deitam o canavial sobre o lombo das novghas matinais em que te ensaias para a doce viagem nos meus ombros à ilha de cravo e mel daquela estrela. Gerardo Mello Mourão Barão publicou na Revista do Instituto Histórico Barão publicou na Revista do Instituto Histórico as Memórias de Alexandre Mourão: muito sangue e muito amor nessa história e as velhas da família contam com ódio e orgulho a devastação das terras dos Mourões pela tropa imperial Alexandre Mourão salvou-se atravessando a nado o rio Parnaíba com um patacão de dois mil réis na boca e o ódio e o orgulho e o sangue e o amor e os patacões de prata são a herança de meus filhos e a minha tarefa é atravessar o rio a nado com o ódio o orgulho o sangue o amor e os patacões de prata na boca e nunca perecer na travessia e saltar na terra estrangeira a água de meus rios escorrendo dos cabelos e o barro de minha terra no couro das alpercatas e do peito. Francisco, neto de Tobias, tinha os cabelos de ouro e arrancava comigo no quintal as penas dos pavões azuis e caiu da grande cajazeira sobre a lança do gradil e houve um jorro de sangue em sua coxa o sangue pintou a cauda azul dos pavões o sangue dos Mourões se derrama no país dos Mourões há quatro séculos o velho Tobias derramou o seu nos dentes de um jacaré do Amazonas também o derramam das coxas as raparigas fecundas temos cobrado largamente o nosso sangue e do alimento da bravura o nosso coração faz a sua pureza e a sua força e na festa rústica à beira da fogueira nossos adolescentes ensinavam os meninos a cantarem na viola em mesmo tom o amor e a morte. E as primas prometiam o seio e o ventre às estrelas de agosto e à lua do Equador. A linha do Equador passa aqui perto e o signo de Capricórnio já me envolve no tempo e no espaço e envolta nele ao luar do trópico - ó noite de Crateús! - veio Elisa banhada no açude veio Carmen banhada nos jasmins da noite vieram as primas de vestido encarnado e veio ao coração do infante o vaticínio do rosto que trarias o anúncio de teus olhos e o desejo dos quadris adivinhados noutras noites mais longe possuídos. A linha do Equador passa aqui perto e de seu fio de fogo o meu novelo há de levar ao coração varado do Minotauro e dali devolver a alegria dos rapares e raparigas de Atenas a linha do Equador passa aqui perto e em portulanos de Gênova e de Sagres fui sonhado: Vicente Yañez Pínzón e Cristóvão Colombo e Pedro Álvares Cabral e Bartolomeu Perestrello e o Infante Dom Henrique e Isabel, a Católica, me caçavam no mar entre hipocampos. "Se o Amor servir de guia, terás êxito" disse a Teseu o oráculo de Delfos. De tuas mãos, amor, recebo o novelo de fogo da linha do Equador e vou e volto e devolvo aos conquistadores rijo e novo o pênis que por mim se murchara no ventre da índia Iracema da tribo tabajara. Branca filha de Telefasse! Crescem ao sol numa terra de sol essas flores de cactus da grinalda que me dói na cabeça cresce a fome das ervas que já vou pastar em tua mão: sobre as margens do Letes os plátanos de Creta aprenderão as palmas sempre verdes do buriti selvagem. Não me temas se venho coroado dos cactus e talictres do país dos Mourões e trago o rosto rude das terras imaturas sou filho de Calíope e fui eu que recebi de Apolo na floresta virgem a cítara de Linos e aprendi a tanger a cítara de Linos e fui o primeiro a juntar mais duas cordas à cítara de Linos e de volta do país moreno sou eu que vou introduzir de novo em tua casa a expiação dos crimes, o culto de Dionísios, de Hécate Ctônia e os outros mistérios órficos. Todas as noivas mortas voltarão quando eu tanger a lira no Tenaro e condoer os capitães do inferno. Não, eu não te perdi; ao teu encalço viajei o inferno e demorei no inferno e ainda espedaçado nas orgias trácias as águas do rio a arrastar-me a cabeça cortada os lábios à torrente clamariam teu nome - e tu serias no meu canto e touro e cisne e degolado Orfeu a flor do talictres tem o cheiro da semente humana em meu lombo em minha asa em minha lira em minha toledana celebrarás, ó bem amada, o teu guerreiro e o teu cantor. Gerardo Mello Mourão O Capitão me olhou no fundo da rede O Capitão me olhou no fundo da rede - contam - foi ao cartório de Manuel Guilhermino e disse: - "Compadre, registre meu neto na folha número um de seu livro, mande comprar um livro novo, vai ser o maior homem das Ipueiras tenho cinco terças de prata e ele vai estudar na Europa". Depois, veio a seca do dezenove e o Capitão, que se salvara no quinze, mandando o gado para o Piauí viu morrerem seus últimos garrotes, secarem suas últimas canas noblesse oblige - a honra dos senhores - trabalho é coisa de escravos a honra dos senhores e o futuro dos netos se guardava testemunha Cynobelino na barriga das novilhas e na garapa da cana caiana e o Capitão, deitado em sua rede de varandas azuis e brancas - rede do Acarati - comeu com dignidade as cinco terças de prata e o neto não foi estudar na Europa e um dia à beira da límpida cacimba à ribanceira de seu rio perfumava o corpo trigueiro com as folhas do mofumbo à sombra das oiticicas e pendiam sobre sua boca primitiva dois seios brancos entre axilas de ouro dois olhos verdes em seus olhos mergulhados e sua voz ariana murmurava: "venho estudar no espanto de teus olhos na pureza de tua fronte na dor de tua face na alegria de teu sexo ingênuo e na Ásia e na África e na América do fervor de teu sangue o sangue que te dei." E eram talismã e tônico e retorno à adolescência e à rosa de teu ventre. Gerardo Mello Mourão Àquele tempo a musa pícara Àquele tempo a musa pícara ensaiava os tanguinhos brasileiros de Ernesto Nazareth e oh! que saudades que eu tenho da aurora da minha vida ia colher as pitangas trepava a tirar as mangas à sombra das bananeiras debaixo dos laranjais livre filho das montanhas eu ia bem satisfeito de camisa aberta ao peito pés descalços, braços nus correndo pelas campinas à volta das cachoeiras atrás das asas ligeiras das borboletas azuis e surgia ao salto de um peixe de prata na cachoeira a garganta respondia ao trom das águas e o reflexo dos mangarás vermelhos se quebrava na lagoa aos cangapés e deles súbito o fauno de sete anos relinchava no barranco erguendo a saia da menina aguadeira. Tereza, filha de Damiana, puta da beira do rio, era botadeira de água e meu primo Francisco aguardava, dia a dia, seus treze anos chegarem e um braço na cintura e outro na cabeça onde se erguia a cabaça de água limpa anunciavam seus dois seios e sobre suas ancas baiadeiras já Tereza ensinava o caminho da Grécia e a rua do alto onde a grande pedra terminava junto à casa de Antônio Pinho e Olívia na graça de um cabrito Imóvel ao crepúsculo. Estrela do mar sobre o lago do ventre estrela de pelos pentágono pentélicon pentelhos pentâmetro pentateuco do amor! Tereza, filha de Damiana, puta da beira do rio anunciara o pentâmetro de ouro da canção ninho da estrela e o bulício do pássaro da estrela preparava a lua e o mel de tua noite. De longe venho para a possessão e da lua e do mel e da noite Tão minha como as terras, as cabras, as novilhas, os patacões de prata e os rifles de papo-amarelo e os engenhos de cana e as raparigas essas terras são minhas e a mais das escrituras de meu avô Major ou de Manuel Mourão nos cartórios de Tamboril e Ipueiras sobre elas hei lavrado a escritura de meu canto. Doação de minha avó, Dona Ana Feitosa: "Trezentas braças de terra de comprido e outras trezentas braças de largo, de uma só banda do rio Acaracu, da parte do sul, onde ela, doadora, tem sua casa de vivenda, com quarenta vacas situadas neste mesmo logar, ao Senhor Santo Anastácio, para patrimônio de uma capela que se pretende erigir neste mencionado logar do Tamboril e nela colocar dito santo". O Capitão encomendara em Pernambuco uma imagem da Senhora Santana, que seria a padroeira, e os comerciantes do Recife, por engano, mandaram Santo Anastácio. De qualquer forma, o chão de Deus foi tirado de minhas braças de terra e Santo Anastácio, padroeiro por engano, tem seu logar ao lado de São Gonçalo dos Mourões, que essas terras são minhas, desde as dezoito léguas de serra na Serra dos Cocos, de São Gonçalo dos Mourões, até os limites da Serra Azul e o sertão de Bruxaxá, Borborema, Paraíba, onde os vaqueiros encourados furam grotas testemunha José Joffily no rastro do boi ensebado e ainda ali assentamos os currais reiúnos e os engenhos de rapadura e cachaça até o grande sertão que se abre depois da Canabrava dos Mourões, ao pé da serra dos Mourões do pé-da-serra e se estende pelo Crateús, Piauí a oeste, e se dilata do antigo cortume de Nova-Russas dos Mourões, que ali tinham mulheres ruças e éguas ruças, e vai para o sertão do Tamboril e atravessa os Inhamuns, onde dorme meu pai e chega ao Tauá e à Mombaça onde os Feitosa somos senhores do Cococi e de outras terras e onde era a minha avó do país dos Calabaças. Nesta estrada que o senhor está vendo, onde não há um pé-de-pau para se descomer atrás, o Major Galdino, seu avô, derrubou a rifle um caboclo sem prestância. O Major beirava os oitenta, fez pontaria do alto de rua burra de sela - uma burra baia - e creio que foi a última façanha dele, das vinte e seis que se conhecem. Enviávamos às nossas mulheres rosários de ouro e pulseiras de ouro e a orelha sangrenta do inimigo dentro do porta-orelhas de ouro que hoje está entre as jóias da prima Sinhá. São minhas essas terras, as vacas, os mandiocais, as casas-de-farinha e os vaqueiros e suas orelhas e suas fêmeas: de trinta e duas delas teve filhos o Coronel José de Barros Mello, chamado o Cascavel, meu tetravô e os bastardos do General cobrem as terras que são minhas que hei lavrado em meu canto e sobre elas vou lavrando a escritura de meu canto desde as ribeiras do Acaracu, do Potí, do Jatobá, até o Parnaíba, o sertão de Oeiras, Piauí onde o avô de meu avó foi Capitão-Mor, Governador da Província, Vítor de Barros Galvão, até o São Francisco onde canta o poeta do país das Gerais, onde Penedo ergue seus templos de pedra e a flor de pedra de seus templos de onde viemos e onde a formosa filha de Alagoas banha o seio moreno: naquele tempo meu avô alagoano, o Coronel Martins Chaves, deu duas léguas de terra a São Francisco e duas arrobas de ouro e prata à filha núbil e dois bacamartes de coronha lavrada ao genro Carvalhedo e sobre o voto a São Francisco e sobre duas arrobas de ouro e prata e sobre dois bacamartes de coronha lavrada das Alagoas ao Ceará foi construída a raça dos Mourões in illo tempore. Esta é a bengala de seu avô e esta de toledana é de meu padrinho Padre Feitosa e com ela, mais seu avô, mais o velho Alexandre Mourão, mais oitocentos parentes e cabras das Ipueiras, mais quinhentos do Tamboril invadimos Crateús para tirar da cadeia nosso primo, o Coronel Giló, e defender os nossos primos Correia Lima, que estavam se acabando na política de baixo e os Correia Lima não podiam se acabar antes de Emília, a mais bela de seus país. Naquele tempo a beleza das mulheres nos fez valentes e Antônio raptou Maria Veras e de Alexandre um dia sem esperar foi descoberto e custou caro - conta ele - o belo amor e do Piauí ao Maranhão a Pernambueo o sangue de Manuel, de Sinhôsinho, do Cascavel foi derramado por amor das mulheres e por ela e por todas elas, por três, por duas e por uma delas aguardo militarmente el tiempo e sirvo o dia e a noite a coice d'armas con el florete de la aventura manchado de sangre no olvidada e estou de partida e não me parto e me muero porque no muero e não quero morrer e sobrevivo entre os que tombaram à esquerda e à direita para comer a erva tenra em sua mão e carregá-lo no lombo e à sombra do plátano ensinar ao seu ventre a prenhez dos Mourões ensinar ao seu ventre a prenhez e a dor e o sangue dos Mourões e a alegria da ressurreição a alegria dos rapazes e raparigas de Atenas. Gerardo Mello Mourão Vamos, Marivalda, à madrugada Vamos, Marivalda, à madrugada aprender a areia, a espuma ensinar-te a ninfa e os exercícios: todas têm sua vez e agora é a vez de Marivalda e cada uma ensaia a sua pauta: esta ensina a nuca tonsurada, Paula, aquela o seio, Dalva, Elisabeth a coxa, Iolanda os quadris, je t'apprendrai une caresse nouvelle le bout des doigts tout doucement, Dolly, essa a boca, essa a orelha e sempre Maria Helena a ordenação o ensaio da mestria a ordenação da posse o coração desordenado de suas mãos amorosas o amor ó o amor abriu, compôs o cravo de vinho em que me torno e entorno à tua boca, à tua embriaguez. Gerardo Mello Mourão Hoje é dia de louras, Abdias Hoje é dia de louras, Abdias, telefona e amanhã quero Wanda Moreno, quero Hilda, quero Rosa e depois quero de novo a ruiva da Barata Ribeiro, quero Néa, quero Paula da casa de Arabela e Lourdes com Marina e quero todas da casa de Helenita: meu avô passou nos peitos todas as filhas dos moradores do engenho os Mourões raparigueiros há trezentos anos: eram cinqüenta mulheres à noite no cabaret entre elas uma francesa sentada num canapé Raimundo Mourão brigava com o vigário da Sé trazia o diabo no couro quando entrou no cabaret as mulheres quando o viram ficaram todas em pé. Deixara em baixo o Marreira no cabresto do alazão na cinta o coldre bordado e unia chibata na mão parecia um cangaceiro do bando do Lampeão a parnaíba nos quartos vinte léguas de sertão cantador Nertan Macedo afina já teu bordão matéria-prima do verso este é um Mello Mourão valente rico e faceiro dançador e fanfarrão tanto bebe como canta como atira que nem cão mulheres no porta-seios segurem o coração "couro bando papaceia o chão imemorial o bode o cavalo o boi o sentimento mortal o homem caça dileta refletida no punhal" tanta tesão entre as coxas como balas no embornal A noite se encheu de tiros começou a confusão não ficou homem na sala pois quem enfrenta um Mourão? as luzes levando chumbo virou tudo escuridão provou as cinqüenta fêmeas pôs a mão no coração e sentiu que ele no peito não se fartara inda não não encontrava em Francisca os seios de Conceição nem em Antônia a cadência que as ancas de Isaura dão: só mesmo teus olhos verdes dariam a ordenação capaz na noite e no dia de saciar um Mourão mas antes que tu chegasses um punhal na escuridão deixou morto aquele macho banhado em sangue no chão: caça dileta do amor tombou Raimundo Mourão herdei-lhe a espora de prata o rebenque e o alazão relógio de ouro maciço de corrente e medalhão trinta e dois de carga dupla o clavinote alemão e na bainha de couro o punhal de estimação dezoito pentes de bala cartucheira e cinturão os olhos concupiscentes a aguardente e a perdição o gosto de mulher boa procurada com paixão e atrás de ti pelo mundo abandonei o sertão. Gerardo Mello Mourão Hoje, Abdias, a noite quer tarefa de morenas e amanhã Hoje, Abdias, a noite quer tarefa de morenas e amanhã voltaremos à ruiva de outro dia vem, formosa mulher, camélia pálida que banharam de luz as alvoradas e assiste-me a buscar uma por uma o amor que juntos aprendemos clavel de vino que me hiciste ó Afrodite Helena para a embriaguez da que me nutre de ervas em sua mão da que parte comigo e ninguém mais é ó Gerardo Mello Mourão Naquele tempo Naquele tempo não só de fêmeas se ocupavam os machos no país dos Mourões onde eram bacamartes e clavinas in illo tempore, Das coisas de suas vidas mulher pistola aguardente foi feita a morte de muitos esta é a terra do sol e o sol e a cobiça sagrada dos Mourões brilham entre os canaviais e as ramas do algodão: sangrados por ferro às vezes por essas léguas de terra em sete palmos de terra muitos dos nossos caíram; mas muito mais se acabaram à boca de nossos rifles e à ponta de nossas facas os Muquecas sem caráter os pulhas dos Maciéis e os ignóbeis dos Montes: não só de fêmeas se ocupavam os machos do país dos Mourões naquele tempo: ao seu vigor ergueram-se e deitaram-se para a vida e para a morte as coisas os logares as pessoas. Saibam quantos fls. 17, Livro I, do Cartório da Vila: Não se lhe monte homem que não seja bem nascido não se lhe imponham arreios que não de prata, e sela seja só de vaqueta bem curtida e assovelada por mestre Saturnino nela não se monte quem não seja filho legitimo nem gente de polícia e outras laias baixas e de meu cabedal, a mais do que se tire para freios de prata que não entrem nunca em boca de outro animal e estribos de prata deixo cincoenta contos de réis à minha burra de sela Graviola e enquanto ela viver se compre milho da safra sem gorgulho e seja sua água de cacimba limpa pagando-se aguadeiro e moleque de estribo e o aguadeiro e o estribeiro podem ter jornal até meia pataca e nunca menos do que o pago no eito aos filhos do Távora e outros inferiores de minhas terras e este é o testamento do Coronel Alexandre de Barros Mello, pai de minha avó apostila ao codicilo depois de minha morte não se empreste dita burra de estimação a oficiais de Ordenanças ou de Guarda de patente inferior à minha e dentre os clérigos somente ao Senhor Bispo.e nunca a simples vigários e cônegos ou freires estropiadores de cavalos e nunca a partidários inimigos nem mascates levantinos como Jereissati e seus paridos, todos ladrões bargados de rabo branco e raça frouxa e sempre à frente do cavaleiro que a cavalgue marche em sela bem luzida um pagem vestido de pano vistoso ou todo encourado, de mosquetão à lua da sela tal qual os pagens de meu hábito ou do hábito de meu primo, o Coronel Quintino Benjamin à moda dos senhores de prol de meu sangue e país e em tudo nesta e noutras partes este meu testamento que de lúcida mente e no uso e gozo de minhas faculdades mentais de meu direito e cabedal ora disponho e se cumpra e em tempo: à liberta Caetana, que engomava meus uniformes brancos e brunia os botões de ouro, disponho lhe seja pago até o final dos dias como se seguisse engomando e brunindo depois de minha morte ditos uniformes serão guardados em arca de cedro engomados e abotoados de ouro como eu os envergava na praça da Vila em dia de gala à vista das gentes montado em minha burra Graviola cercado de meus parentes e aderentes e assim sejam em todo este país dos Mourões que Deus os ouça louvados o meu nome e a grandeza dos bens de minha fazenda por toda criatura racional e irracional homem, alimária e coisa. E assim Deus me ajude e Manuel Mourão, meu irmão, que tem bom talhe de letra e sabe de escrituras deposite perante testemunhas este testamento com todas as suas partes em cartório quando haja eu depositado nas mãos da Misericórdia e da Glória increada o testamento de meu cabedal em pensamento, palavra e obra de quanto foi e será Alexandre de Barros Mello, Coronel das Ordenanças da Cavalaria do Império e Coronel da Guarda dos Povos. Gerardo Mello Mourão "Quem de vocês matou o uruguaio?" "Quem de vocês matou o uruguaio?" os soldados não sabiam "Quero saber imediatamente quem matou o uruguaio" - - "Saberá Vossa Senhoria que fui eu, Benedito Antônio da Silva, natural do Crato, número 39 da 2.a Companhia do 12, praça de 1851, ferido na batalha de Caseros". "E por que matou?" - "Vossa Mercê, que é da raça dos Mourões, não há de ignorar que eu também sou morador daqueles pés-de-serra e por isto matei o gringo; pois saiba Vossa Mercê que estou sem matar desde a guerra do Rosas e o Senhor seu pai me encomendou três dúzias. Tá completo". Sob a pala da barretina agaloada o General de rosto sereno e triste sorriu sobre o pátio do quartel de Bastarrica e mandou os soldados passearem tocando charanga pelas ruas de Montevidéu. O Marquês de Herval era galante: Ordem do Dia sobre a batalha de Tuiuti: - é de louvar o bizarro comportamento do General Sampaio, da raça dos Mourões - o primeiro cavalo fora derrubado à bala, o segundo também e o terceiro e o quarto varados à baioneta combatia a pé "Guarde seu cavalo, alferes, eu sou da Infantaria" "Corra à barraca de Osório e diga que estou perdendo muito sangue, é conveniente substituir-me, fui ferido duas vezes" continência do Alferes, mão de súbito no peito: "e esta é a terceira". "Maté el general brasilero!" ainda não - e o paraguaio engoliu com chumbo a última sílaba na mão o sangue da última tapa de carícia sobre a cabeça de seu alazão espedaçada à bala quando outra bala decepa a folha da espada "soldado, passe-me sua espada" um olhar para o alferes fanfarrão: tomara a bandeira do porta-estandarte e no meio do mar de sangue e fumaça gritava "viva o General Sampaio!" e nos braços dos guerreiros que rangiam os dentes e choravam e banhado no sangue dos cavalos fortes como o seu e banhado em seu sangue o sangue da raça dos Mourões: "não corte minha perna, doutor, um general morto é bizarro ainda um general coxo é feio". E belo e triste em seu caixão de zinco os guerreiros da Argentina e do Uruguai lhe hastearam em funeral as bandeiras do Prata e sobre o chão do país de Godo, Raul e Efra'n vou lavrando a escritura deste canto e ali também é o país dos Mourões e nosso primo Martin Fierro e Osório, Marquês de Herval, são testemunhas Antônio de Sampaio, filho do ferreiro de Monte-Mor-o-Velho, da estirpe de Francisco e Manuel, da raça dos Mourões era um general bizarro. As exéquias na Corte custaram um conto e quatrocentos o Maestro Arcângelo Fiorito regeu de graça o coro e a orquestra com primeiros e segundos violinos, violas, violoncelos, fagotes e oboés e trompas e pistons e Sua Majestade o Imperador que lhe trouxera o corpo de Buenos Aires ao meio-dia em ponto na Ilha do Bom Jesus entre os inválidos da Pátria curva a cabeça em reverência ao filho dos Mourões: - "Só no Maranhão foram quarenta e seis combates por Vossa Majestade" sua Divisão se chamava Encouraçada bateu o paraguaio a ferro-frio nas sangas dos banhados encouraçada à dureza de seu olhar a soldadesca não conhecia o medo aquele olhar endurecido ao ódio dos Mourões - seu amor e seu ódio - e ao seu vigor ergueram-se e deitaram-se para a vida e para a morte as coisas e os logares e as pessoas. "Alferes, a morte é bizarra guarde este botão de minha farda de lembrança e cante na hora aquela moda que eu cantei no Tamboril à janela de Maria Veras. Aquela moda..." E ao meu canto e à moda antiga que cantavam os machos à janela das fêmeas no país dos Mourões vou lavrando a escritura destas terras que são minhas até além do Prata e além dos Andes das Ibiturunas azuis e um dia no cartório de Ipueiras, Penedo ou Arapiraca te farei a doação dessas léguas de sesmaria do Passo de Camaragibe a Villaguay, de Crateús, Ipu e São Gonçalo dos Mourões até Buenos Aires e Santiago do Chile e Guayaquil e Bogotá nos termos da doação de minha avó Dona Ana Feitosa a Santo Anastácio e Dona Úrsula Mourão a São Gonçalo e, te farei sobre essas braças de chão um templo e uma cama de cedro sob o céu de Deus à sombra dos plátanos e das carnaubeiras para onde deitada no meu lombo vens chegando. Gerardo Mello Mourão Nem sempre vinham imperadores a nossos enterros Nem sempre vinham imperadores a nossos enterros naquele tempo mas nunca deixamos nossos mortos insepultos insepultos eram os temerários que ousaram nossa terra e nosso punho. O Padre Martiniano de Alencar, pai de José de Alencar, governava a província in illo tempore a província era governada por um padre endemoniado, adúltero, covarde e por covarde invejoso dos bravos que troavam livremente o clavinote pelos pés-de-serra dos Mourões do pé-da-serra e emprenhavam suas fêmeas ao ar livre e eram fortes e belos e bons. Este papel amarelo é uma carta de seu tetravô: encomenda doze caixas de vinho francês outras doze de cognac de la ville de Cognac para a fartura de sua mesa de caitetus, marrecos e veados e atas maduras graviolas silvestres, cajás, cajus, melancias e ananazes no país dos Mourões e biscoitos de Jacob's, London, para as mulheres de sua casa e por essas fidalguias o biltre do Alencar decreta: seja afogado em sangue o país dos Mourões. Meus engenhos foram queimados queimados vivos os garrotes de meus currais ainda hoje nossas terras cheiram a carne assada a mel queimado à la viande flambée não se afogam na água os surubins no sangue não se afoga a raça dos Mourões alimento do amor e da bravura deste vinho se nutre o coração dos puros deste vinho venho vindo e vejo a vida e busco sua uva e te chamo de novo vem, formosa mulher, camélia pálida que banharam de luz as alvoradas vem com teus olhos verdes desvairados ensinar o caminho das uvas o fervor destas veias quer mais vinho minha raça é a dos embriagados minha profissão, meu estado civil: bêbado residência não tenho: bebo, bêbado, exilado do país dos Mourões conspiro a volta e conspiro o Anschlusz de todas as terras à Capitania de meu avô à sesmaria de meu país de Ipueiras a Stocolmo e de Palmares de Pernambuco à ilha grega essas terras são minhas sobre elas hei lavrado a escritura de meu canto e vou lavrando a escritura de meu canto e lavrando o tempo e o cedro de uma noite e de uma cama. Gerardo Mello Mourão In illo tempore - 1549 I n illo tempore - 1549 floresciam os machos no pais dos Mourões e o Padre Manuel da Nóbrega escrevia ao Rei de Portugal: "mandassem órfãs ou mesmo mulheres erradas, que todas achariam maridos, por ser a terra larga e grossa" nem se pecava além do equinócio: Deus é grande, mas o mato é maior e nas macegas altas e nos cômoros nas capoeiras nos valos nas catingas nos espinheiros no agreste nas ipueiras no sertão de sol da terra larga e grossa o jesuíta ultra equinotialem non peccatur a natureza entregava ao vento terral com a mesma pureza o gemido das fêmeas possuídas e o clamor das seriemas e das cericoias no taboleiro e eu já te esperava in illo tempore e te ensaiava nas órfãs e nas mulheres erradas do Padre Manuel. Para a alvura de teu corpo inventei as águas limpas não te podes banhar em teus Danúbios teus Arnos e teus Renos e teus Senas onde boiam catraias e cadáveres: ao talho deste facão para a sede de teus lábios a linfa intata é servida no mangará das bromélias; e no ouro das macambiras a água de prata pura. Gerardo Mello Mourão Era uma vez Manuel Mourão Era uma vez Manuel Mourão e a forja do equinócio forjara os seus braços de ferro Manuel de Ferros era chamado e uma noite ao luar do alpendre sobre a rede fresca foi o uivo da fula suçuarana: desafiado o chumbo miúdo veio em cima da fumaça: sobre a mandíbula quadrada dos Mourões os olhos negros dos Mourões e a mandíbula fulva e os olhos fulvos da suçuarana e a insolência de Manuel de Ferros: e o convite ao bote e o bólide rabeia as fauces e as presas e os caninos e músculos e garras e a garganta se chofra na cilada da forquilha e à Parnaíba iluminada à lua as juguleiras jorram e um instante do ar, da lâmina embebida, dos tendões de ferro de Manuel de Ferros e de seu sorriso e do sorriso dos Mourões de dentes largos e mandíbula quadrada é o baque da fera. E as feras e as coisas e as pessoas tanto me atendem à cítara como à ponta do punhal e do novelo de fogo da linha do Equador são as cordas desta citara e o fio do labirinto: no hubo príncipe en Sevilla que comparársele pueda ni espada como su espada ni corazón tan de veras como un rio de leónes ergue a cabeça morena donde su risa era un nardo: morreu na praça em Sevilla teu último noivo - Ignácio: que gran torero en la plaza! que gran serrano en la sierra! que blando con las espigas! que duro con las espuelas! que tierno con el rocio! que deslumbrante en la féria! que bom no rifle e na faca que macho em qualquer função que Mourão entre os Mourões! Gerardo Mello Mourão Era uma vez Era uma vez Maria Alves Feitosa, da raça de minha avó, e era mulher de Francisco Feitosa e o marido amava as violas doces e as aguardentes ásperas e Maria, quando rezava suas novenas na igreja - conta Leonardo - tinha por costume mandar os grupos de escravas, que eram as cantoras, entoarem cânticos da igreja até a casa de sua residência e uma tarde no momento em que partiam da igreja e as negras começavam o cântico veio Francisco embriagado e esbofeteou o rosto de Dona Maria Feitosa e as negras como sapo quando se bate n'água calaram-se e pararam: e a senhora ordenou-lhes marchassem e cantassem: não fora nada, sendo por seu marido, não era agravo e o vigor dos machos é sempre doce ao coração das fêmeas na raça dos Mourões e entre alcova e templo ao tom das ladainhas e ao canto das escravas aprendemos o touro e as raparigas aprendem o arrebatado amor e Mariana mulher de Eufrásio, senhor do Cococi mandou surrar e tonsurar a rapariga e o Capitão-Mor puxou da bota uma faca aparelhada de prata e lavada de sangue e sempre a morte se nutriu do amor e o vigário do Cococi excomungou o Coronel: surrara, debaixo do altar-mor onde se escondera, O vilão que ousara versos a Joana, sua irmã, da raça dos Mourões e só para alcova de Mourões eleita e o Bispo de Olinda retirou-lhe a excomunhão: matasse feras em vez de matar homens e os Feitosa entravam a galope na cidade com uma onça sangrenta na garupa e um deles matou noventa e seis onças sem armadilhas, sem armas de fogo, sem mundéu, sem gangorra e sem curral apenas com sua faca de Pajeú e os três cachorros Elefante, Corujo e Mosquete: na boca da última delas deixou o couro da cabeça e o escravo fiel deixou a mão, a faca encravada e a implacável morte tanto me atendem à cítara como à ponta do punhal e Leonor ficou viúva e um dia a casa de Leonor amanheceu fechada e Leonor havia desaparecido e Leonor era - conta Leonardo - uma viúva nova e muito formosa depois se soube: fora raptada pelo Major Eufrásio Feitosa e por ele situada numa casa em um alto e ainda hoje ali se chama o Alto de S'a Leonor e os montes e os rios e as devezas e as várzeas guardam, da Serra da Joaninha ao Riacho do Sangue, o nome com que os machos nomearam amor e nomearam morte no país dos Mourões tanto me atendem à citara como à ponta do punhal, tanto a meu punho se deitam os vencidos na macega como a meu canto as mulheres na ribanceira do rio: explica, Maria Helena, como esta doçura é forte e o vigor desta bravura: chama a princesa e estremeçam seus seios na minha mão: não sou Teseu nem Orfeu, os dois são Mello Mourão. Nünca houve nesta raça homem não raparigueiro e nela não se conhece uma casada infiel: no couro dos Mourões sobeja o macho a ti domava a citara a outras o músculo. ... deixa-me pastar a erva em tua mão. E tu, que não morres de mim, vives de mim a ti e só a ti ofereci a melodia a um tempo de citara e de músculo e só tu saberias dizer o contraponto do canto que inventei aos teus ouvidos e à doçura de sua força arrebatada no meu lombo e no êxtase ela acenderá no crepúsculo a estrela da manhã: sob o ventre pentélicon pentagrama de ouro! Gerardo Mello Mourão Era uma vez um país Era uma vez um país onde o fruto alastra o chão vastos campos onde os touros nédios urram sobranceiros entre os bandos de carneiros pelas soltas dos Mourões: "Não te aproximes daqui: descalça as alpercatas, porque o logar onde te encontras é uma terra sagrada" eles fundaram a terra sagrada e sobre ela num círculo do chão foi abatida a grande cajazeira com seus frutos de ouro e o capitão mandou matar os gaviões e à glória da cantaria da pedra de ângulo das paredes de pedra foram colhidos os tamarindos e derrubadas as jacas e abatidas as jaqueiras e imolados os animais perigosos e queimados à bala os forasteiros. Bebam à minha saúde - ordenou o Capitão quando assentou a cumieira da casa - e entre os copos de aguardente parecia um deus embriagado e cosmogônico a criar seu mundo no país dos Mourões in illo tempore. Venho desse país e desse tempo e em seu chão e em seu dia o Capitão - o sabedor da guerra - furldou meus olhos e meus pés de sabedor do amor e sabedor da morte. Aquela que ainda não pariu - comece a parir; aquele que ainda não matou - comece a matar: e o país dos Mourões surgiu no fim das águas surgiu do sangue de nascer e do sangue de morrer in illo tempore no tempo de parir e de matar Gerardo Mello Mourão Eram três mil violas a bordo Eram três mil violas a bordo quando chegaram: três mil violas e ainda poucas para chorar saudades de Portugal e poucas para o canto que me espuma no sangue porque mi corazón de trovar non se quita herdei todas as violas são minhas as violas são minhas as guitarras, os violões a harmônica de Gesú Mello, a rabeca de Josa e a flauta e o berimbau que Pedro Simão tocava nos dentes em Ipueiras são minhas as violas: no formal de partilha me tocaram três mil violas da maruja e me tocaram as saudades e as penas de amor e o desafio e a gemedeira do bojo delas e a louvação dos valentes; e três mil violas não bastam para o canto dos machos à janela das fêmeas no pais dos Mourões: !que poucas para a endeixa de amor que ao teu ouvido mi corazón de trovar non se quita! Gerardo Mello Mourão Era uma vez em Rovigo, Itália Era uma vez em Rovigo, Itália, Maria Zanani: entrou em luta corporal com o marido - conta a United Press International - foi arremessada contra a parede de sua velha casa a parede esboroou-se e jorraram três milhões em moedas de ouro tre millioni di lire sobre o casal subitamente reconduzido à lua de mel num carro em que as rodas eram liras e as liras eram de ouro, tocando marchas nupciais e canções napolitanas: nas casas de meu país as paredes guardam os ossos e o sangue dos Mourões minha tetravó vendeu suas jóias de ouro e os machos puderam comprar mais bacamartes e a terra dos canaviais continuou grande e nossa e nas casas de engenho as moendas cantavam dia e noite e nos terreiros ao galamarte cantador os meninos morenos giravam no ar e no ar torneavam o torso e dóricos à beleza e ao perigo dos galamartes cantadores ao perigo das guiadas e dos rifles e à mestria das bestas certeiras medravam os machos in illo tempore e ao seu bote o teu corpo roubado às ruínas etruscas há de tombar no chão ardente do país dos Mourões e ao seu baque irão brotar os do culto de Hécate Ctônia "e igual que antaño en torno al sobreviviente los pastores se ciernen en rueda y oran en común y se aprietan por las manos". Gerardo Mello Mourão Não precisa rezar pelo Padre Inácio: Não precisa rezar pelo Padre Inácio: é um mártir de Deus e está no céu minha bisavó calejou os dedos nas contas do rosário pela alma do irmão padre: emboscado pelos inimigos foi amarrado ao tronco de um joazeiro no caminho da Paraíba castrado à faca de ponta e um cabra com a ponta de um punhal tirou-lhe do couro da cabeça a rodela da coroa de padre "engula agora esta hóstia": sobre a terra ardente fervia o sangue do único fálus que poupara as fêmeas na raça dos Mourões e a única boca da raça que de sangue só bebera o do Cristo na Missa comungava o pedaço de sua carne sangrenta e desde aquele tempo os Mourões imolados ao próprio chão e ao próprio ser se imolam e sobre a terra plantada de sagrados testículos nutridos de seu corpo e de seu sangue existem para a vida e para a morte. Gerardo Mello Mourão Coronel, estou vendo neste momento Coronel, estou vendo neste momento os cabras sangrarem o Padre Joaquim Mourão, daqui lá umas duzentas léguas, no Maranhão" e a vidente negra levou a mão ao velho seio onde mamaram os filhos dos Mourões e caiu com os olhos fulgurantes; o Coronel mandou encher de paçoca os alforjes de couro e encher de água da serra a borracha de sola no arção da sela o terçado de cabo de ouro na carona de vaqueta bordada sob os coxonilhos cinqüenta contos de réis o rifle na lua da sela a matolagem e os capangas fiéis quinze dias depois tirava o chapéu de couro e dobrava o joelho diante da sepultura do Padre Mourão: de duzentas léguas o sangue esguichara sobre os olhos da vidente que lhe dera o seio e os cabras no caminho de volta retiravam sob o suadouro das cangalhas a manta de carne de sol e enquanto mastigavam os nacos sapecados na cachaça inflamada nos pratos de balança das bodegas da estrada ruminavam a morte; e as veredas se enchiam de cruzes e ao sacrifício dos padres inocentes a bravura dos Mourões se celebrava in illo tempore e ungidos de Deus vamos morrendo e flagelos de Deus vamos matando. O mulato Tobias Barreto escrevia cartas em alemão ao filósofo alemão Emanuel Kant e escreveu também a Monsenhor Gadelha Mourão, deputado do Império e doutor de Roma: "os padres deste país nem latim sabem mais, pois, como Vossa Reverendíssima, aprendem é a mandar matar" os assassinos do Padre Joaquim, de fato, estavam mortos cum Christo erant e o Monsenhor tirou uma edição de seu jornal político em São Luís do Maranhão, toda em latim e remeteu ao prodigioso mulato e veio a carta pedindo perdão: "nunca li, Monsenhor, latim tão puro" e uma nova edição explicava: o latim era péssimo e cheio de eiva e fora escrito apenas para colher o elogio do sr. Tobias Barreto e provar que ele, sim, não sabia latim: Tobias fuit cum Christo: causa mortis - raiva apoplética contra Monsenhor Mourão - testemunha Cynobelino. Sabedora da morte, soberana da vida a raça dos Mourões preparava o chão e duro e puro o espaço do cristal se construía na clavina dos fortes e no sarcasmo dos sábios in illo tempore. Gerardo Mello Mourão Alexandre cavalga Alexandre cavalga e às vezes é a bússola amorosa dos anjos e ao aroma dos jasmineiros o aroma da nuca de Carmen, do botão dos seios de Margarida e de Francisca e às vezes é a bússola do ódio e dia e noite e noite e dia através noites e dias Alexandre cavalga: e os cavalos cansados param mortos e o coração cavalga a fúria e seu rastro se chama vingança. Vicente Lopes de Negreiros a raça de André Vidal de Negreiros matara de tocaia a Manuel, irmão de Alexandre Mourão e à sombra de uma palmeira da Serra dos Cocos tinha dezesseis anos o corpo ensangüentado do adolescente moreno era belo e terrível e seus olhos vidrados pediam vingança ao irmão. Vicente de Negreiros, chamado Vicente da Caminhadeira furou o mundo e Alexandre Mourão no rastro dele andou duas mil léguas e o Maranhão e o Piauí e o Ceará e o Rio Grande e Pernambueo e a Paraíba celebraraxn o tropel de seu cavalo o furor de sua vendetta e o trom de seu bacamarte de boca de sino e os sinos dobraram por duzentos mortos e os soldados de Xenofonte - Anábasis - não podiam dormir por causa da tristeza e da saudade "ouvindo o tiro, nós que estávamos na luta, corremos e achamos nosso irmão morto e não pudemos mais dormir ali o deixamos e fizemos todas as diligências e não foi possível achar mais o assassino nesta mesma noite segui em procura e depois de sete dias e sete noites de minuciosa diligência informaram estaria sob a proteção do Tenente Coronel João da Costa Alecrim e do tio Vigário Manuel Pacheco Pimentel, em Vila Nova risquei o cavalo na porta do Vigário e de sua alpendrada trinta e oito dias de viagem num cavalo bralhador até Pedras de Fogo - extremas da Paraíba e Pernambuco de lá noventa dias a cavalo ao Piauí e em noventa noites o sertão espreitado palmo a palmo conheceu o ódio sábio e inútil de meus olhos: terral, aracati, nordeste, graviúna, todos os ventos do país dos Mourões a crina de meu cavalo conheceu. O Coronel Diogo Salles comprara um sítio para situar-se no Maranhão aonde se mudara por certos desgostos: Coronel Diogo, filho de meu parente Capitão Xavier, a quem assisti em seus desgostos, é possível esteja o inimigo em sua Fazenda do Serrote? - Nem no Serrote do Piauí nem no Serrote do Ceará e se acaso meu pai o acolheu não o há de matar na rede de hóspede mas vai pô-lo a caminho quando saiba quem é Vicente da Caminhadeira. - Não, meu parente, não se apeou à minha porta. E na Fazenda Santa Cruz, a caminho de Quixeramobim, dois de seus cabras se entregaram à morte de joelhos aos pés de minha madrinha Francisca e ela mandou espreitar a casa e as fazendas do Capitão-Mor Lessa e em cinco dias e cinco noites de espreita - nada; passei a Crateús e por suspeita voltei ao Serrote do Capitão Salles passei a noite ao pé da casa espreitando os movimentos dela e entrei no alpendre com o primeiro sol fui honrado pelo Capitão, comi sua coalhada, o requeijão e a tapioca descansei em rede cheirando a capim santo segurei-me com o velho ele não proteger Vicente Lopes que enquanto eu vivesse, meu serviço era procurá-lo onde quer que soubesse dele. Talvez o bandido esteja na casa do sogro em Poço d'Agua: foram vinte e nove dias até Poço d'Agua, Piauí, com os cavalos, os vaqueiros e a matutageiú de meu irmão Eufrosino: tomei o velho de improviso e nada achei apertei-o pelo genro, descobriu que há seis dias dali tinha partido a chamado do Alecrim que saía tal dia de muda para Pedras de Fogo, Paraíba, voltei, segui ao Alecrim antes de chegar a Vila Nova soube que estava no Serrote do velho Salles ali mesmo fui procurá-los Vicente da Caminhadeira estava fora da casa invadida por minha fúria o Coronel Alecrim escapou num paiol de algodão, onde perdeu o nariz que era suposto: nada fiz e fico contando com mais dois inimigos fortes. Voltei para Pitombeiras, fazenda de meu irmão Eufrosino, sete léguas, ia despachar um positivo a Pedras de Fogo chega uma carta de mulher, inimiga de Vicente Lopes: - "quer notícias certas, me apareça - " apareço apresentou-se um homem vinha de Nossa Senhora do Ó e dava certeza de estar Vicente Lopes na Vila de Igarassu, Pernambuco voltei, preparei-me e segui para Igarassu pois enquanto eu vivesse, meu serviço era procurá-lo onde quer que soubesse dele E depois de duzentas e tantas léguas de viagem cheguei a Nossa Senhora do Ó tomei a casa de meu parente, Capitão André Cursino Cavalcanti e aconselhou-me: devia seguir para o Engenho Monjope, de nosso parente, Capitão-Mor João Cavalcanti de Albuquerque o senhor mais rico e forte daquelas terras contei-lhe meu destino não quis mais que eu saísse: seus homens é que vão a Igarassu para a missão e um dos meus para reconhecer: Vicente Lopes estava tocando viola num forrobodó - "é aquele": os homens de meu parente dão duas voltas no salão e o tocador de viola cai com o peito varado e a bala ainda traspassou o coração de uma rapariga da festa: na sala grande do Engenho Monjope o Capitão-Mor abriu a garrafa de vinho do Porto bebemos em honra de meu defunto irmão e a Sinhá acendeu no oratório uma vela à sua alma desagravada. "Capitão, antes de voltar, quero ir eu mesmo a Igarassu enfiar o dedo e o cano de minha garrucha no buraco da bala de Vicente Lopes de Negreiros" chamou de novo os homens que juraram: "vá em paz, meu parente, o morto é morto e se ressuscitar em qualquer parte, de Pedras de Fogo para cá, terras de Pernambuco, deixará de ser vivo: vá em paz, os meus homens não mentem" E depois de onze meses considerei descansar meu irmão na sepultura e minha fadiga em minha casa: meu pai deu provimento. Naquele tempo preparava Eufrosino uma cavalaria para Vila dos Brejos e Antônio Mourão urna outra para ir a Caxias, Maranhão: lá podia comprar terras de uma herdeira de meu avô anexas às de meu pai e eu podia escolher um sítio e situar-me entre os irmãos. Vicente Lopes havia passado a viola e dançava na sala o outro tocador morreu por ele e enquanto eu vivesse, meu serviço era procurá-lo, onde quer que soubesse dele, Soube na Boa Esperança e não estava soube em Uruburetama meus homens andaram vinte e oito léguas desde Vila Nova e meu pai recebeu uma carta: "Menezes e Vicente da Caminhadeira tiveram notícia de que Antônio e Alexandre Mourão atravessaram o rio Parnaíba com trinta e um cabras armados, rumo a Poço d'Agua" mandei quatorze homens à Capela dos Humildes um tiro empregou a bala na carne de meu ombro a luta a ferro frio durou das três às seis da tarde e o sangue dos irmãos e dos cabras de Vicente Lopes empapara o curral e ele fugira e enquanto eu vivesse, meu serviço era procurá-lo, onde quer soubesse dele nem o cadáver de seu irmão entre os garrotes assombrados e as varejeiras lambendo sangue valia o corpo airoso de Manuel Segui para Capela, Residência, Pequizeiro e Boa Esperança esquadrinhava sozinho as grotas da serra e um morador me advertiu a medo: - "meu Senhor, não siga por este caminho, que os logares estão semeados de Mourões" e a semente do amor de meu irmão, de minha raça e a semente do ódio germinavam e em meu peito buliam. E buliam ao chouto do cavalo as balas no embornal. Na terra semeada de Mourões nunca antes chorou um macho em minha raça duas lágrimas tive sobre a areia onde o corpo de Manuel fora plantado e nos grotões da serra e no ventre das fêmeas eram semeados os Mourões naquele tempo. E enquanto eu vivesse, meu serviço era semear a morte no caminho de Vicente da Caminhadeira à porta de sua fazenda empinei, afinal, os meus cavalos: chegamos de rojo e de punhal na mão pisei-lhe no peal morreram dois homens e a mulher do coito e pus o resto, seis homens e duas mulheres, debaixo de ordem. Corrigi a cabeça e o pé-da-serra seguimos para Uruburetama voltamos por Meruoca subimos a Ibiapaba descemos por Vila Nova fomos ao Barriga voltamos pelo Irapá sangrei com minha mão e minha parnaíba um cabra dos que o acompanhavam no dia em que matou Manuel e enquanto eu vivesse, meu serviço era procurá-lo, onde quer que soubesse dele no caminho de Crateús derrubei cinco com minha clavina francesa e fugiram vinte de seus acostados e entrei na Vila do Príncipe imperial com o botim de seus cavalos e eu tinha dois bacamartes a tiracolo e um deles se chamava Luar da Serra e o outro Galo de Campina e o Governador Alencar e o Presidente do Piauí, um poltrão que me devia a cadeira, depararam guerra à raça dos Mourões. Comecei a levantar os povos contra os tiranos: Piranhas, Oeiras, Canindé, os Inhamuns, Pernambuco e Piauí governei o Ipu e fui bater os Bentevís no Maranhão e enquanto me ocupava com a guerra dos maranhotos meus engenhos "Bacamarte" e "Por Enquanto" eram pilhados e a tropa imperial retomava o Ipu na minha ausência e prendia meus irmãos para matar tornei num raio da Parnaíba e em trinta e seis combates atravessei a Ibiapaba e à bala e a ferro-frio reassumi o lpu: devastei quartel, cadeia e a bala feriu o peito de José de Barros, meu irmão e doeu no coração de Eufrosino: segui sozinho para a casa do Delegado nem a outros daria esta tarefa rodeei-lhe a casa e derrubei-lhe as portas e eu mesmo fui matá-lo com minhas mãos e dei a festa por acabada, E de todas as janelas as serranas me sorriam chapéu de couro virado floreado o peitoral todas as armas de prata: desci as ruas sozinho e as raparigas achavam que eu era o deus da cidade em meu argel bralhador. Juntaram-se os exércitos e minha cabeça foi apreçada em dez mil cruzados e na Aroeira e no Ingá e nas outras dezesseis fazendas de meu irmão Joaquim Mourão do Piauí ao Ceará tocavam violas e azeitavam clavinas em meu louvor e eu era louvado e blasfemado recebia cartuchos e homens e organizava esquadras e à margem do Parnaíba a emboscada nos colheu e todos se entregaram e eu resisti sozinho nas mãos do inimigo não cai vivo um macho da raça dos Mourões não me lembrei dos peixes e das cobras ferozes a rês bargada atravessava a nado o Parnaíba imenso por onde passa o boi, passa o vaqueiro fui ter ao outro lado do rio nu, com um patacão no dente e o punhal na mão. Voltei: enquanto eu vivesse, meu serviço era procurá-lo onde quer que soubesse dele nas fazendas de Eufrosino e nas minhas, no Gurguéia, no Cortume e na Canabrava dos Mourões e as ladeiras da Serra Grande - a Serra dos Mourões serranos e a Serra da Joaninha dos Inhamuns ao Piauí e a Pajeú de Flores, Pernambuco, os caminhos estavam tomados de piquetes e cabras do cangaço E o meu cavalo relinchou e esfregou-se nas ancas da égua reboleira e a lua-cheia se derramava no terreiro e a lua fazia lama na estrada e com o juizo atolado no luaçal suspendi todos os meus sentidos por saudade dela a cem léguas dali e entendi partir para uma noite e repetir a noite que há tempos lhe ensinara à beira dum açude e andei duzentas léguas não me aplacavam as fêmeas da beira do caminho e só ela. Tubiba, Pé-da-Serra, Passagem-Franca e Sobral o Barão de Icó, meu bom amigo, mandou pedir: "preciso de seu braço para erguer a política da província, apresente-se à Justiça do Ipu e será absolvido e garantido" recolhi-me com meus cavalos e meus homens à cadeia do Ipu e apenas para dela sair pelas estradas livre assobiando em meu argel baralhador ao encontro da amada no mesmo dia se convocara o júri e eu já passeava na prisão do Ipu com minha espada na mão pronto para sair e fui traído e Eufrosino com os cabras dos Mourões arrebentou os muros e entraram a cavalo na cadeia e seguimos a galope pelo meio das ruas e nos recolhemos ao Coité para juntar tropa e derrubar o Governo e Eufrosino de chibata e espora até no sono atropava cabras e em meus olhos lia o desejo dela: "não vá - disse o irmão prudente - e em dois dias, o tempo que quiseres, mandarei deitá-la em tua casa", A bússola amorosa me guiava só me satisfazia vê-la e para vê-la havia que voltar ali onde sem falta era o perigo e à noite, a ocultas deixo minhas armas nem do punhal me lembrou e era bom esquecer o perigo e lembrar o amor o maldito fraco que sempre tive por mulher moça mandei-a vir, à lua-cheia, ao meu Engenho Corrente de longe ela sentada na areia recostada a testa na mão não seria mais bela a lua-cheia apresso os passos no desejo de abraçá-la me aproximo dela ponho-lhe as mãos por cima do ombro e dei-lhe o último beijo os soldados emergem das moitas e a traidora recebeu dez mil cruzados e Eufrosino e seus homens acostados em nossa Fazenda Curralinho chegaram tarde na prisão da Fortaleza a escolta do Imperador depositou meu coração maguado e na prisão me deixaram guardar a espada e o sangue ardente e as fêmeas vinham dormir no cárcere comigo." E aqui termina a crônica do bravo: silenciou seu bacamarte e Pedro e o Coronel e meu avô Galdino conheceram o calabouço e a liberdade e a vida e a morte e forte e velho Alexandre morreu quando semeava Mourões no ventre de uma fêmea nos Inhamuns, Ceará, naquela parte do país dos Mourões onde dorme meu pai, onde começa o país dos Calabaças, Muquém, Vertentes, terras de minha madrinha Donana Mourão ali se apartaram touros e novilhos de meu cabedal e ali florescem Antonino e Doninha Mourão e outros Mourões da linha tronco até à flor. E à esquerda e à direita derrubamos tantos e os que morrem plantando filhos, Alexandre, ressuscitam se o amor servir de guia, terás êxito disse a Teseu o oráculo de Delfos e à esquerda e à direita derrubamos tantos frustrada foi a morte de Vicente Lopes de Negreiros e o rosto moreno de Manuel à bússola amorosa dos anjos se repete no rosto de Gonçalo e Antônio José e também eu, amor, da raça de Alexandre dos que não deixam a vida à mão dos inimigos vou deixá-la na ilha de teu ventre para sempre. E para sempre estarão os logares semeados de Mourões E assim como era no princípio agora e sempre pelos séculos dos séculos o touro sobre ti e à nossa volta e de nossa semente o mundo. Gerardo Mello Mourão Alexandre cavalga Alexandre cavalga e às vezes é a bússola amorosa dos anjos e ao aroma dos jasmineiros o aroma da nuca de Carmen, do botão dos seios de Margarida e de Francisca e às vezes é a bússola do ódio e dia e noite e noite e dia através noites e dias Alexandre cavalga: e os cavalos cansados param mortos e o coração cavalga a fúria e seu rastro se chama vingança. Vicente Lopes de Negreiros a raça de André Vidal de Negreiros matara de tocaia a Manuel, irmão de Alexandre Mourão e à sombra de uma palmeira da Serra dos Cocos tinha dezesseis anos o corpo ensangüentado do adolescente moreno era belo e terrível e seus olhos vidrados pediam vingança ao irmão. Vicente de Negreiros, chamado Vicente da Caminhadeira furou o mundo e Alexandre Mourão no rastro dele andou duas mil léguas e o Maranhão e o Piauí e o Ceará e o Rio Grande e Pernambueo e a Paraíba celebraraxn o tropel de seu cavalo o furor de sua vendetta e o trom de seu bacamarte de boca de sino e os sinos dobraram por duzentos mortos e os soldados de Xenofonte - Anábasis - não podiam dormir por causa da tristeza e da saudade "ouvindo o tiro, nós que estávamos na luta, corremos e achamos nosso irmão morto e não pudemos mais dormir ali o deixamos e fizemos todas as diligências e não foi possível achar mais o assassino nesta mesma noite segui em procura e depois de sete dias e sete noites de minuciosa diligência informaram estaria sob a proteção do Tenente Coronel João da Costa Alecrim e do tio Vigário Manuel Pacheco Pimentel, em Vila Nova risquei o cavalo na porta do Vigário e de sua alpendrada trinta e oito dias de viagem num cavalo bralhador até Pedras de Fogo - extremas da Paraíba e Pernambuco de lá noventa dias a cavalo ao Piauí e em noventa noites o sertão espreitado palmo a palmo conheceu o ódio sábio e inútil de meus olhos: terral, aracati, nordeste, graviúna, todos os ventos do país dos Mourões a crina de meu cavalo conheceu. O Coronel Diogo Salles comprara um sítio para situar-se no Maranhão aonde se mudara por certos desgostos: Coronel Diogo, filho de meu parente Capitão Xavier, a quem assisti em seus desgostos, é possível esteja o inimigo em sua Fazenda do Serrote? - Nem no Serrote do Piauí nem no Serrote do Ceará e se acaso meu pai o acolheu não o há de matar na rede de hóspede mas vai pô-lo a caminho quando saiba quem é Vicente da Caminhadeira. - Não, meu parente, não se apeou à minha porta. E na Fazenda Santa Cruz, a caminho de Quixeramobim, dois de seus cabras se entregaram à morte de joelhos aos pés de minha madrinha Francisca e ela mandou espreitar a casa e as fazendas do Capitão-Mor Lessa e em cinco dias e cinco noites de espreita - nada; passei a Crateús e por suspeita voltei ao Serrote do Capitão Salles passei a noite ao pé da casa espreitando os movimentos dela e entrei no alpendre com o primeiro sol fui honrado pelo Capitão, comi sua coalhada, o requeijão e a tapioca descansei em rede cheirando a capim santo segurei-me com o velho ele não proteger Vicente Lopes que enquanto eu vivesse, meu serviço era procurá-lo onde quer que soubesse dele. Talvez o bandido esteja na casa do sogro em Poço d'Agua: foram vinte e nove dias até Poço d'Agua, Piauí, com os cavalos, os vaqueiros e a matutageiú de meu irmão Eufrosino: tomei o velho de improviso e nada achei apertei-o pelo genro, descobriu que há seis dias dali tinha partido a chamado do Alecrim que saía tal dia de muda para Pedras de Fogo, Paraíba, voltei, segui ao Alecrim antes de chegar a Vila Nova soube que estava no Serrote do velho Salles ali mesmo fui procurá-los Vicente da Caminhadeira estava fora da casa invadida por minha fúria o Coronel Alecrim escapou num paiol de algodão, onde perdeu o nariz que era suposto: nada fiz e fico contando com mais dois inimigos fortes. Voltei para Pitombeiras, fazenda de meu irmão Eufrosino, sete léguas, ia despachar um positivo a Pedras de Fogo chega uma carta de mulher, inimiga de Vicente Lopes: - "quer notícias certas, me apareça - " apareço apresentou-se um homem vinha de Nossa Senhora do Ó e dava certeza de estar Vicente Lopes na Vila de Igarassu, Pernambuco voltei, preparei-me e segui para Igarassu pois enquanto eu vivesse, meu serviço era procurá-lo onde quer que soubesse dele E depois de duzentas e tantas léguas de viagem cheguei a Nossa Senhora do Ó tomei a casa de meu parente, Capitão André Cursino Cavalcanti e aconselhou-me: devia seguir para o Engenho Monjope, de nosso parente, Capitão-Mor João Cavalcanti de Albuquerque o senhor mais rico e forte daquelas terras contei-lhe meu destino não quis mais que eu saísse: seus homens é que vão a Igarassu para a missão e um dos meus para reconhecer: Vicente Lopes estava tocando viola num forrobodó - "é aquele": os homens de meu parente dão duas voltas no salão e o tocador de viola cai com o peito varado e a bala ainda traspassou o coração de uma rapariga da festa: na sala grande do Engenho Monjope o Capitão-Mor abriu a garrafa de vinho do Porto bebemos em honra de meu defunto irmão e a Sinhá acendeu no oratório uma vela à sua alma desagravada. "Capitão, antes de voltar, quero ir eu mesmo a Igarassu enfiar o dedo e o cano de minha garrucha no buraco da bala de Vicente Lopes de Negreiros" chamou de novo os homens que juraram: "vá em paz, meu parente, o morto é morto e se ressuscitar em qualquer parte, de Pedras de Fogo para cá, terras de Pernambuco, deixará de ser vivo: vá em paz, os meus homens não mentem" E depois de onze meses considerei descansar meu irmão na sepultura e minha fadiga em minha casa: meu pai deu provimento. Naquele tempo preparava Eufrosino uma cavalaria para Vila dos Brejos e Antônio Mourão urna outra para ir a Caxias, Maranhão: lá podia comprar terras de uma herdeira de meu avô anexas às de meu pai e eu podia escolher um sítio e situar-me entre os irmãos. Vicente Lopes havia passado a viola e dançava na sala o outro tocador morreu por ele e enquanto eu vivesse, meu serviço era procurá-lo, onde quer que soubesse dele, Soube na Boa Esperança e não estava soube em Uruburetama meus homens andaram vinte e oito léguas desde Vila Nova e meu pai recebeu uma carta: "Menezes e Vicente da Caminhadeira tiveram notícia de que Antônio e Alexandre Mourão atravessaram o rio Parnaíba com trinta e um cabras armados, rumo a Poço d'Agua" mandei quatorze homens à Capela dos Humildes um tiro empregou a bala na carne de meu ombro a luta a ferro frio durou das três às seis da tarde e o sangue dos irmãos e dos cabras de Vicente Lopes empapara o curral e ele fugira e enquanto eu vivesse, meu serviço era procurá-lo, onde quer soubesse dele nem o cadáver de seu irmão entre os garrotes assombrados e as varejeiras lambendo sangue valia o corpo airoso de Manuel Segui para Capela, Residência, Pequizeiro e Boa Esperança esquadrinhava sozinho as grotas da serra e um morador me advertiu a medo: - "meu Senhor, não siga por este caminho, que os logares estão semeados de Mourões" e a semente do amor de meu irmão, de minha raça e a semente do ódio germinavam e em meu peito buliam. E buliam ao chouto do cavalo as balas no embornal. Na terra semeada de Mourões nunca antes chorou um macho em minha raça duas lágrimas tive sobre a areia onde o corpo de Manuel fora plantado e nos grotões da serra e no ventre das fêmeas eram semeados os Mourões naquele tempo. E enquanto eu vivesse, meu serviço era semear a morte no caminho de Vicente da Caminhadeira à porta de sua fazenda empinei, afinal, os meus cavalos: chegamos de rojo e de punhal na mão pisei-lhe no peal morreram dois homens e a mulher do coito e pus o resto, seis homens e duas mulheres, debaixo de ordem. Corrigi a cabeça e o pé-da-serra seguimos para Uruburetama voltamos por Meruoca subimos a Ibiapaba descemos por Vila Nova fomos ao Barriga voltamos pelo Irapá sangrei com minha mão e minha parnaíba um cabra dos que o acompanhavam no dia em que matou Manuel e enquanto eu vivesse, meu serviço era procurá-lo, onde quer que soubesse dele no caminho de Crateús derrubei cinco com minha clavina francesa e fugiram vinte de seus acostados e entrei na Vila do Príncipe imperial com o botim de seus cavalos e eu tinha dois bacamartes a tiracolo e um deles se chamava Luar da Serra e o outro Galo de Campina e o Governador Alencar e o Presidente do Piauí, um poltrão que me devia a cadeira, depararam guerra à raça dos Mourões. Comecei a levantar os povos contra os tiranos: Piranhas, Oeiras, Canindé, os Inhamuns, Pernambuco e Piauí governei o Ipu e fui bater os Bentevís no Maranhão e enquanto me ocupava com a guerra dos maranhotos meus engenhos "Bacamarte" e "Por Enquanto" eram pilhados e a tropa imperial retomava o Ipu na minha ausência e prendia meus irmãos para matar tornei num raio da Parnaíba e em trinta e seis combates atravessei a Ibiapaba e à bala e a ferro-frio reassumi o lpu: devastei quartel, cadeia e a bala feriu o peito de José de Barros, meu irmão e doeu no coração de Eufrosino: segui sozinho para a casa do Delegado nem a outros daria esta tarefa rodeei-lhe a casa e derrubei-lhe as portas e eu mesmo fui matá-lo com minhas mãos e dei a festa por acabada, E de todas as janelas as serranas me sorriam chapéu de couro virado floreado o peitoral todas as armas de prata: desci as ruas sozinho e as raparigas achavam que eu era o deus da cidade em meu argel bralhador. Juntaram-se os exércitos e minha cabeça foi apreçada em dez mil cruzados e na Aroeira e no Ingá e nas outras dezesseis fazendas de meu irmão Joaquim Mourão do Piauí ao Ceará tocavam violas e azeitavam clavinas em meu louvor e eu era louvado e blasfemado recebia cartuchos e homens e organizava esquadras e à margem do Parnaíba a emboscada nos colheu e todos se entregaram e eu resisti sozinho nas mãos do inimigo não cai vivo um macho da raça dos Mourões não me lembrei dos peixes e das cobras ferozes a rês bargada atravessava a nado o Parnaíba imenso por onde passa o boi, passa o vaqueiro fui ter ao outro lado do rio nu, com um patacão no dente e o punhal na mão. Voltei: enquanto eu vivesse, meu serviço era procurá-lo onde quer que soubesse dele nas fazendas de Eufrosino e nas minhas, no Gurguéia, no Cortume e na Canabrava dos Mourões e as ladeiras da Serra Grande - a Serra dos Mourões serranos e a Serra da Joaninha dos Inhamuns ao Piauí e a Pajeú de Flores, Pernambuco, os caminhos estavam tomados de piquetes e cabras do cangaço E o meu cavalo relinchou e esfregou-se nas ancas da égua reboleira e a lua-cheia se derramava no terreiro e a lua fazia lama na estrada e com o juizo atolado no luaçal suspendi todos os meus sentidos por saudade dela a cem léguas dali e entendi partir para uma noite e repetir a noite que há tempos lhe ensinara à beira dum açude e andei duzentas léguas não me aplacavam as fêmeas da beira do caminho e só ela. Tubiba, Pé-da-Serra, Passagem-Franca e Sobral o Barão de Icó, meu bom amigo, mandou pedir: "preciso de seu braço para erguer a política da província, apresente-se à Justiça do Ipu e será absolvido e garantido" recolhi-me com meus cavalos e meus homens à cadeia do Ipu e apenas para dela sair pelas estradas livre assobiando em meu argel baralhador ao encontro da amada no mesmo dia se convocara o júri e eu já passeava na prisão do Ipu com minha espada na mão pronto para sair e fui traído e Eufrosino com os cabras dos Mourões arrebentou os muros e entraram a cavalo na cadeia e seguimos a galope pelo meio das ruas e nos recolhemos ao Coité para juntar tropa e derrubar o Governo e Eufrosino de chibata e espora até no sono atropava cabras e em meus olhos lia o desejo dela: "não vá - disse o irmão prudente - e em dois dias, o tempo que quiseres, mandarei deitá-la em tua casa", A bússola amorosa me guiava só me satisfazia vê-la e para vê-la havia que voltar ali onde sem falta era o perigo e à noite, a ocultas deixo minhas armas nem do punhal me lembrou e era bom esquecer o perigo e lembrar o amor o maldito fraco que sempre tive por mulher moça mandei-a vir, à lua-cheia, ao meu Engenho Corrente de longe ela sentada na areia recostada a testa na mão não seria mais bela a lua-cheia apresso os passos no desejo de abraçá-la me aproximo dela ponho-lhe as mãos por cima do ombro e dei-lhe o último beijo os soldados emergem das moitas e a traidora recebeu dez mil cruzados e Eufrosino e seus homens acostados em nossa Fazenda Curralinho chegaram tarde na prisão da Fortaleza a escolta do Imperador depositou meu coração maguado e na prisão me deixaram guardar a espada e o sangue ardente e as fêmeas vinham dormir no cárcere comigo." E aqui termina a crônica do bravo: silenciou seu bacamarte e Pedro e o Coronel e meu avô Galdino conheceram o calabouço e a liberdade e a vida e a morte e forte e velho Alexandre morreu quando semeava Mourões no ventre de uma fêmea nos Inhamuns, Ceará, naquela parte do país dos Mourões onde dorme meu pai, onde começa o país dos Calabaças, Muquém, Vertentes, terras de minha madrinha Donana Mourão ali se apartaram touros e novilhos de meu cabedal e ali florescem Antonino e Doninha Mourão e outros Mourões da linha tronco até à flor. E à esquerda e à direita derrubamos tantos e os que morrem plantando filhos, Alexandre, ressuscitam se o amor servir de guia, terás êxito disse a Teseu o oráculo de Delfos e à esquerda e à direita derrubamos tantos frustrada foi a morte de Vicente Lopes de Negreiros e o rosto moreno de Manuel à bússola amorosa dos anjos se repete no rosto de Gonçalo e Antônio José e também eu, amor, da raça de Alexandre dos que não deixam a vida à mão dos inimigos vou deixá-la na ilha de teu ventre para sempre. E para sempre estarão os logares semeados de Mourões E assim como era no princípio agora e sempre pelos séculos dos séculos o touro sobre ti e à nossa volta e de nossa semente o mundo. Gerardo Mello Mourão Tu me pediste notícias da Grécia: Tu me pediste notícias da Grécia: de Lisboa por Goa e Madragoa e Itamaracá me fui partindo e, pois, já tenho algumas notícias da Grécia e escrevo entre a mulher da bela cintura dos olhos verdes e o mar: por mar chegadas, por mar envio as notícias da Grécia; redijo em alto mar entre a madrugada jônia e a madrugada de Maragogí - sudeste do país dos Mourões. E eras uma vez: da cintura de Apolo o tornozelo dáctilo vinhas e ao vinho o pé arisco - de corda em corda a pisar na cítara e em teu andar notícias recentes da Grécia: muitos corpos foram assados e o cheiro da cútis das vítimas de fina raça subiu das brasas e a fumaça odorífera e a labareda e as libações embriagavam os belos mancebos vindimados; e era uma vez Febo Apolo, o deus do arco de prata e lira de ouro e ao teu andar, ao pé arteiro, a melodia corda a corda das notícias da Grécia: aguardo informes: - aplacara a hecatombe o deus irado ou, vagabundo passeia Apolo pelos bosques de aljava a tiracolo? Escrevo no meio do mar entre a Grécia e a Itália talvez Ilíria; respirei quanto pude a violeta divina vem o vento dos montes e à essência das rosas maceradas amadurecem-me as narinas sábias: tal a rosa-dos-ventos dia e noite ao faro dos navegantes. E era uma vez Apolo e era uma vez uma palmeira e os escravos de Dona Úrsula Mourão acharam a imagem de São Gonçalo e foi trazida para casa e louvada em cânticos e ladainhas e na manhã seguinte a divina creatura era de novo achada ao pé da mesma palmeira e foi trazida para casa e louvada em cânticos e ladainhas e no terceiro dia - fugira durante a noite - voltou à sua palmeira e Dona Úrsula Mourão, mais os homens e as outras mulheres e as crianças foram cantando e se assombrando até a palmeira sagrada e em duas medidas de sua sombra riscaram um retângulo e ergueram uma capela e onde era seu tronco é hoje o altar de São Gonçalo dos Mourões e estas são noticias da Grécia: respirei fundo a violeta divina de Tênedos a Delfos e guardei a palmeira nos olhos e o templo na serra; e era uma vez na ilha flutuante uma palmeira uma palmeira em Delos e ali soprou Apoio a flauta e desde então se fez estável a ilha imóvel Delos por pisá-la um Deus: e era macho e belo e tangia também uma cítara de ouro e do arco de prata a flecha disputava ao relâmpago alvo e risco no céu; e sobre a pele da serpente na trípode sagrada uma virgem fundou o lábio imaculado de conceber o oráculo: o divino pênis aquecido na boca a sacra Pítia da garganta emprenhada devolvia o sorvo cálido a palavra profética: - 'E AEYOEPÍA e é na boca das virgens e no ventre das ninfas e semente fecunda e à sua volta - e à sua cítara as fêmeas aprendiam a língua e a voz dos deuses e os rapazes aprendiam o poder dos deuses e os adolescentes mortos tornavam à vida e a vida era fundada à sua volta e à sua cítara; e era fundada a morte à volta de seu arco de prata - e os outros deuses o expulsaram do Olimpo - estas são noticias da Grécia: de erguer-se o canto, toda voz se apaga e as ilhas cessam de flutuar e os deuses invejavam os carneiros e os pastores tangidos pelos montes da Tessália à lira de ouro. E ao seu acorde em pétala e aroma a bem-amada abria o coração do heliotrópio e o rosto do adolescente - amor alheio à vida e à morte - nas folhas do jacinto doloria e à mera melodia iam surgindo o loureiro, a romã, o girassol e o mirto e o zimbro e o lotus e o galo e o gavião e o cisne e a cigarra e o grifo e era a palmeira e à sombra dela a invenção do santo e as ladainhas de Dona Úrsula Mourão; estas são, amor, as notícias da Grécia e eu recebi no mar: ao sul a palmeira de Delos e ao norte as palmeiras - Camaragibe e Ibiapaba, País dos Mourões - lá onde a vida aguça a seta nas aljavas de prata e a morte se canta à lua-cheia na viola na cítara de Apolo adolescente. Tenho notícias da Grécia, algumas: noticias para a tua cintura pequena e os calcanhares o chão dos deuses exilados e lembranças de um deus: no exílio, de seu canto se sustentava e ao canto - sustento dos deuses e perigo dos deuses - floresciam os homens e o rei Midas foi punido e em sua própria frauta soprou Mársyas sua própria morte; e ao canto - ó sustento dos deuses, ó perigo dos homens! - por auroras e noites perigosas tenho notícias da Grécia - algumas - da corte de Admeto na Tessália da cor das águas ao redor das Cícladas das virilhas cheirosas de Kirina, Hotel Adrianos, do vôo do gavião no ar da tarde do poeta caldeu na noite de Poséidon dessa relva curvada à brisa do Parnaso Danai tragountai Danai e Lyda e uma canção e uma taberna e o vinho e a inocência e o espanto de Hiacinto e o zéfiro da morte em meus cabelos. Ao terror da delícia os olhos brilham pisa a planta dos pés a palmilha de pedra rastro incandescente de um deus: quem sou eu que te trago as noticias da Grécia - algumas -? o doce filho da raça dos Mourões - país de para lá da linha do Equador onde o pecado não é e os homens são machos e as mulheres fêmeas - onde à sombra das palmeiras e em seus troncos aparecem os deuses e seus santos. Vem, formosa mulher, camélia pálida, que banharam de luz as alvoradas na concha de tuas mãos a água verde flauta diáfana de água à pétala do lábio estremecia e desmanchada ao canto - ao canto a água sugeria de novo o gomo verde a flauta diáfana de água ao milagre dos dedos e do sopro: bem que me deste, tu mesma, as notícias da Grécia e eras jônica e coríntia, às vezes dórica em teus quadris eólios tua concha à relva eólia à pétala do lábio estremecia e era a melodia de tuas flautas escondidas: começara no golfo de teus olhos a viagem ao verde mar por onde a lua esverdeara a lua de mel dos cabelos de Helena à espuma do desvairado amor: e estas são notícias da Grécia e um deus tangia cítaras e ovelhas e os homens jurados à beleza domavam o cavalo, a nau, a lança, a espada e a terra orvalhada de sangue dos guerreiros - um deus anunciava a vida e a morte por amor do amor e anunciava a vida e a morte e os machos do país dos Mourões. pois o Major Galdino, meu avô, cortava a taquara da serra com seu punhal de dois gumes e ao fim da tarde e ao nascer da manhã no alto do pé de tamarindo pendurava a gaiola de alçapão armado e dentro dela ou galo-de-campina de cabeça de púrpura ou juriti arrulhadora: e da copa das cajaranas de ouro o outro galo-de-campina - a outra juriti - vinha aprender a banda de laranja a talhada de melão o arroz a água do pequeno alguidar de barro e o canto solitário entre as varetas de bambu - e logo eram duas gargantas a cantar e era aos ouvidos do risonho Major um canto novo - e tu, pássara chamadora, ao furo de meu punhal na taquara a flauta pura ao céu azul irás sorvendo soprada em sopro novo a velha canção que cantavam as pássaras de amor no Tamboril em sopro novo a velha moda que cantavam os machos à janela das fêmeas no país dos Mourões. há uma raça dos homens e uma raça dos deuses e a raça dos que tocam pelos bosques dos homens a música dos deuses: estas são as notícias da Grécia as notícias que tenho da Grécia e levo para a Grécia e sou o primeiro a levar para a Grécia carregando no céu da boca o gosto de teu nome e no ritmo do andar o peso de teu corpo de tua cintura pequena Gerardo Mello Mourão Naquele tempo começaram a acontecer coisas já muitas outras coisas haviam acontecido entre a Serra de São Gonçalo dos Mourões e a Mantiqueira no país das Gerais onde os profetas erguem da pedra a mão de pedra e as pálpebras de pedra sob o céu do deus barroco: conviva deste deus, de seus profetas nossos olhos cruzavam-se na pedra do patamar - cruzavam as palavras e os sabres dos anjos, dos demônios e do filho da raça dos Mourões e ao seu olfato o calendário abria os primeiros pelos de Araci na axila aberta e o tempo de decompor da clave de seus nomes o canto-chão dos claustros dulcis memoria super mel et omnia tota pulchra a mão de Carmen afagada uma noite em Crateús e a presente litania das ausências Francisca, Neyde, Dalila, qui tollis peccata mundi e Nenen Pegas de nuca raspada qui tollis peccata mundi e baste o nome delas - Jacqueline inventada de boina branca e de saia amarela non, Monsieur, je suis de Lille e o lírio no pênis de seu caule qui tollis peccata mundi hoje é festa de Santo Afonso, Afonso Maria de Líguori e o Padre Joaquim van Dongen mais o Padre Xavier Meurtens mais o Padre Antônio Smithuis e o Padre Paulino van Donker CSSR Congregationis Sanctissimi Redemptoris distribuíam a abundância da redenção e entre o caminho do Gólgota e as noticias do Gólgota a aflição dos olhos e o espanto dos ouvidos interpelava o Redentor como cruzar caminhos de Pero Lopes de Souza e caminhos da Grécia e receber as notícias da Grécia anunciadas na flauta de taquara aos sete anos na ribeira do banho às coxas de Teresa, filha de Damiana: e três coisas me são dificultosas de entender e uma quarta eu a ignoro inteiramente - gemia Salomão - testemunha Octavio - o caminho da águia no ar, o caminho da cobra sobre a pedra, o caminho da nau no meio do mar e o caminho do homem na sua mocidade - e os olhos de sabedor do azul e do mar e da pedra dirigiam a águia, a cascavel e os navios teléporos no céu no chão na estrela d'alva e no Boldrié de Orion; a espada pendurada sobre os oceanos desde alturas matinais de Congonhas do Campo onde à naveta de prata ao turíbulo de ouro ao cristal das galhetas onde ao sino de bronze onde ao linho rendado e à túnica de pedra de Isaías temperava-se a voz e os olhos eram achados e perdidos. Mas onde a amorosa Ariana a tirar do coração o fio e da mão pura ao puro coração riscar no musgo o caminho da alegria aos rapazes e raparigas de Atenas? Haud procul a templo Dianae in Via Appia os soldados em exercício pela Via Appia e em exercício por dáctilos exatos de repente Marco Túlio e a mão de Múcio Scévola ardendo como um facho e na esquina da cesura em seu hexâmetro os olhos lacrimosos do poeta forsan et haec olim meminisse juvabit e era aprendida a via de Enéas ao coração de Dido, às praias de Lavínia Laviniamque e a lição de Geometria e o caminho mais curto e o teorema de hipotenusas e catetos e os teólogos esse non potest esse non esse la via era smarrita e todas as vias na Via Sacra se apagavam stabat Mater Dolorosa juxta crucem lacrymosa dum pendebat filius - e o filho dos Mourões pendia seu pêndulo inumerável sobre a cabeça de pedra de Habacuc e Joel e as fauces do leão de Daniel, da baleia de Jonas, da tenaz de carvão aceso na boca de Isaias: e do alto da cruz e da nuca raspada de Nenen Pegas e dos olhos de Carmen suplicados à lua o filho dos Mourões pendebat na sua mocidade onde pendia do cabide de cedro o fraque desolado de seu pai. E às vezes, naquele tempo, a sombra das bananeiras debaixo dos laranjais caíam das folhas verdes duas laranjas maduras e os pintassilgos feridos: e do canto dos pintassilgos e da plumagem de sangue das cambaxirras mortas de seu canto de morte nas copas ensombradas do pomar pendia o filho dos Mourões naquele tempo. Onde a voz a língua intata? Wees gegroet, Maria, virgo virginum praeclara himi jam non sis amara Onde a boca que era minha, onde a sílaba de lírio a que por maios e noites respondia de seu rosto a rosa rosa? Em sua pétala preso à leve pressão de um beijo pendia o poeta em flor e era o caminho do anjo e era o caminho do bravo e o filho dos Mourões Mourão era a serviço de sua Dama Wees gegroet, Maria - e no peito do pé imaculado uma rosa se abria e ao rastro de seu aroma puderas caminhar. De espada e cítara sobre o rastro da sandália de ouro Bernardo de Claraval e os outros cavaleiros tota pulchra es Maria Platonis in cunis dormientis vinham as abelhas à boca de Platão e à boca do filho dos Mourões no tempo de teu nome in illo tempore Wees gegroet, Maria, voll van genade. E às vezes era a hora de escandir Ovídio, Horácio coronemus nos rosis e murchavam as rosas de Propércio nas bochechas de Cynthia - Cynthia prima fuit Cynthia finis erit Tibullo à sombra dos pinheiros resinosos e o metro de ouro líquido suplicava ao azul da serra mineira mares de Odisseu à voz melodiosa do Padre Luís Weerdesteyn e este é o Padre Gaspar Haanappel e sobre sua soberba fronte bátava estronda Marco Túlio a retórica romana discreteia a severa concisão de Caio Tácito e os demônios passeiam entre clérigos operosos e anjos indolentes: do outro lado do mundo, entre charutos fumegantes, aldeia de Wittem, Rosendaal, Holanda, os teólogos discutem - e o Padre Gregório Wutz traz na flecha certeira o logaritmo, o risco da parábola e o verso de Homero - e do escudo de Aquiles pendebat e de repente entre copos de cerveja holandesa e silêncios e algazarras de estudantes sob tetos venerandos num rumor a palavra e a sombra de Platão transitam pela sala ao gesto lento, à voz sonora: Caetano morreu cedo. E ali, Angelo, Américo e Walter e Geraldino pastando a flor e a erva no tempo da loucura - "vejo pássaros e pássaros e voando com eles o Padre Michelotto" e Agostinho no vôo terrível escolheu a morte do alto do penhasco de onde pende o filho dos Mourões Todas essas co